quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O que esperam os 6 milhões de afegãos deportados de volta ao país governado pelo Talebã

Idosos fazem caretas involuntárias enquanto se esforçam para caminhar apoiados em muletas. Crianças de olhos arregalados observam ao redor, abraçadas a galinhas trazidas das casas que foram obrigadas a deixar para trás.

"É bom estar no meu próprio país", diz Nazia, de 35 anos, poucos minutos depois de cruzar a fronteira do Paquistão, onde nasceu, com o Afeganistão.

A passagem de Torkham, conhecida como "Ponto Zero", marca o fim de uma vida difícil no Paquistão e o começo de outra no Afeganistão.

"Mas nunca estive no Afeganistão, e muita gente aqui não tem nem pão suficiente para comer", lamenta Nazia enquanto segue, acompanhada de dois dos filhos, em direção aos balcões de registro decorados com bandeiras brancas e pretas do Talebã.

Quase toda a sua família, oito irmãs e seus filhos, foi deportada neste ano do Paquistão ou do Irã para o Afeganistão.

Eles fazem parte do maior deslocamento de pessoas entre fronteiras atualmente registrado no mundo.

Há décadas, milhões de afegãos cruzam as fronteiras em direção ao Paquistão e ao Irã em busca de refúgio ou trabalho. O número de pessoas que deixam o Afeganistão continuou a crescer desde que o Talebã retomou o poder, em agosto de 2021.

Agora, a maioria está sendo obrigada a voltar, depois que os dois países vizinhos endureceram as medidas contra imigrantes sem documentação. Nazia e familiares dela não tinham documentos, mas a ONU e organizações de direitos humanos afirmam que as operações atingem também afegãos com registro oficial. O próprio Paquistão já afirmou publicamente que nem mesmo os afegãos que possuem cartões de registro estão isentos.

E não há sinais de que as expulsões estejam perto do fim.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), o número de pessoas obrigadas a retornar neste ano do Paquistão e do Irã já chegou a mais de 1 milhão.

"Em pouco menos de três anos, vimos 6 milhões de pessoas, uma população equivalente à de um país pequeno, retornarem ao Afeganistão", afirma Charlie Goodlake, porta-voz do Acnur no país.

"Na história recente, nunca vimos um movimento de retorno dessa dimensão", ressalta Goodlake, sob o calor intenso no acampamento próximo à fronteira.

A paisagem é desoladora, tomada por abrigos de lona e plástico, muitos deles já rasgados e deteriorados. As estruturas foram montadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) e por outras organizações humanitárias para acolher por algumas noites pessoas que chegam sem ter para onde ir.

Muitos dos que retornam não pisavam no Afeganistão havia décadas. Outros, como Nazia, nunca tinham estado no país.

"Saí há 45 anos, durante a invasão soviética do Afeganistão, e a maioria dos meus irmãos nasceu no Paquistão", conta Sarwar, que havia chegado alguns dias antes com sete irmãos e suas famílias. O grupo de 40 pessoas trouxe seus pertences amontoados em um caminhão paquistanês.

"Passamos muito tempo lá, então é claro que fiquei arrasado quando nos obrigaram a deixar nossa casa", afirma Sarwar.

"Mas, apesar de toda essa dor, também estou feliz porque finalmente me livrei do assédio da polícia do Paquistão."

Todas as famílias ouvidas pela reportagem disseram ter sofrido preconceito e assédio por parte das autoridades paquistanesas.

O governo do Paquistão não respondeu às perguntas da BBC, mas um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores afirmou em uma entrevista a diversos jornalistas em Islamabad, no domingo, que "o governo do Paquistão toma as medidas necessárias para evitar qualquer episódio de assédio ou maus-tratos contra cidadãos afegãos no país. Se esses episódios ocorreram, foram casos isolados e são tratados de acordo com a lei".

Tanto o Paquistão quanto o Irã afirmam que os afegãos já deveriam ter voltado para seu país. Os governos acusam alguns deles de representar uma ameaça à segurança e outros, de gerar custos para os países que os acolhem.

As expulsões do Paquistão e as denúncias de abusos se intensificaram depois de uma forte escalada nos confrontos entre Paquistão e Afeganistão em outubro do ano passado. Em fevereiro, a ONG internacional Human Rights Watch denunciou "operações de porta em porta, buscas em residências durante a madrugada e prisões sem mandado".

No Irã, que afirmou no ano passado abrigar mais de 4 milhões de afegãos sem documentação, as deportações em massa ganharam força depois da guerra de 12 dias travada pelo país contra Israel e os Estados Unidos, em junho de 2025.

O Centro de Direitos Humanos no Irã, com sede em Nova York, nos EUA, acusou as autoridades de aproveitar o clima do pós-guerra para "lançar suspeitas sobre os imigrantes afegãos, acusando-os de espionagem e tratando-os como possíveis espiões de Israel".

<><> Situação precária

O Acnur continua a defender o princípio humanitário de que qualquer retorno deve ser "voluntário, seguro e digno".

Mas em Torkham, Zarina, cunhada de Sarwar, lamenta a situação precária em que se encontra: "nós não temos recursos para abrir um negócio ou ganhar a vida, nós não temos sequer uma barraca para morar".

Dentro da tenda improvisada para receber os recém-chegados, que oferece pouco alívio diante do calor de 41°C, Zarina está sentada junto a um grupo de mulheres e crianças apreensivas.

Elas temem o futuro das mulheres e meninas em um país onde o Talebã as excluiu de grande parte da vida pública, inclusive do ensino médio e das universidades?

Zarina, de 40 anos, faz um gesto amplo com o braço: "Olhe para elas, são todas meninas. É claro que estou preocupada."

Algumas das pessoas que retornam não estão apenas preocupadas. Estão aterrorizadas.

"Não saio desta casa", diz, nervoso, um ex-segurança afegão que primeiro foi deportado do Irã e, depois, do Paquistão. A reportagem o encontrou longe da fronteira, em uma casa onde ele espera estar protegido.

"Todos vivemos com medo, inclusive minha mulher e meus filhos, que também têm medo de sair."

Ele não confia na anistia anunciada pelo governo do Talebã poucos dias depois de voltar ao poder. Na ocasião, o grupo afirmou que ex-integrantes do governo, membros das forças de segurança e funcionários públicos não sofreriam represálias e poderiam voltar ao trabalho.

"Não confio nessa anistia porque muitos dos meus colegas foram mortos." Segundo ele, seu caso havia sido registrado na ONU, mas ele acabou deportado antes que pudesse ser transferido para um país mais seguro.

As dificuldades financeiras agravam ainda mais a situação. Os fortes cortes na ajuda internacional têm impacto especialmente grave no Afeganistão, onde o Talebã continua sujeito a sanções relacionadas ao terrorismo e aos direitos humanos.

O Paquistão confirmou no domingo que 16 mil afegãos em situação de vulnerabilidade receberam, por razões humanitárias, uma isenção temporária da deportação — decisão que foi bem recebida pela ONU.

Mas fontes estimam que até 250 mil afegãos no Paquistão ainda correm risco de sofrer danos graves. Entre eles estão mulheres e meninas que, caso retornem, não teriam acesso à educação.

Na sede do Ministério das Relações Exteriores, em Cabul, o ministro das Relações Exteriores do Talebã, Amir Khan Muttaqi, tenta demonstrar confiança.

"Não há dúvida de que precisamos de alguma ajuda", admite Muttaqi. "O retorno dessas pessoas exerce pressão sobre o país, mas, no longo prazo, será benéfico tanto para elas quanto para o Afeganistão."

Nos primeiros anos depois de o Talebã retomar o poder, em 2021, alguns ministros do grupo minimizaram os problemas humanitários, afirmando que Deus proveria.

A ONU estima agora que 21,9 milhões de pessoas, quase metade da população do Afeganistão, precisarão de ajuda neste ano para sobreviver. Na semana passada, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) afirmou que 1 milhão de crianças enfrentavam um quadro de desnutrição que "ameaça as suas vidas".

"Nenhum país do mundo conseguiria enfrentar sozinho uma crise desse tipo", avalia Goodlake, do Acnur, que também reconhece os esforços do governo do Talebã para atender as pessoas que retornam ao país.

Mas ele acrescenta: "Também sabemos que muitas das restrições e determinações impostas por eles, principalmente contra mulheres e meninas, dificultam a obtenção de apoio internacional."

Muttaqi, do Talebã, repete a posição do governo de que questões como a educação das meninas são "assuntos internos" que devem ser resolvidos pelos próprios afegãos.

As severas restrições impostas à vida de meninas e mulheres são um dos principais obstáculos nas relações internacionais do Talebã e têm trazido consequências ao grupo. Cinco anos depois de sua volta ao poder, apenas um país, a Rússia, reconheceu formalmente o governo.

Questionado sobre isso, Muttaqi destaca o aprofundamento das relações diplomáticas e econômicas com países vizinhos, como China e Índia, além dos países da Ásia Central.

Sobre o relativo isolamento de Cabul em relação aos países ocidentais, ele pergunta: "Aqueles que não mantiveram relações conosco nos últimos cinco anos, o que conseguiram?"

Ele mesmo responde: "Nada".

A reportagem ouviu essa mesma palavra — "nada" — de todas as famílias que encontrou no Ponto Zero, mas em um sentido muito diferente.

Todas iniciavam um retorno difícil ao país de origem, obrigadas a recomeçar a vida praticamente do zero.

¨      Talibã sobrevive a cinco anos de isolamento no Afeganistão

Nos cinco anos desde o retorno do Talibã ao poder, que se completam neste sábado (15/08), o aniversário da queda de Cabul, o Afeganistão assistiu ao arrefecimento dos conflitos armados e à estabilização do contexto de segurança. Mas as restrições impostas a mulheres e meninas, somadas às preocupações ligadas ao terrorismo, comprometem as perspectivas de longo prazo no país, na avaliação da Organização das Nações Unidas (ONU)

Pouco mais da metade das mulheres afegãs (52%) agora sai de casa apenas uma ou duas vezes por mês, apontaram dados divulgados nesta semana pela ONU Mulheres. Elas vivem no único país a proibir meninas de frequentar o ensino médio e mulheres de irem às universidades. Em contraste, 96% dos homens disseram deixar suas residências diariamente. 

"Meia década após a tomada do poder pelo Talibã, em agosto de 2021, o Afeganistão desmontou sistematicamente os direitos de metade de sua população, tornando-se um caso isolado no mundo, sem paralelo na era moderna," afirmou, em comunicado, a agência dedicada à promoção da igualdade de gênero. 

Segundo a Missão de Assistência da ONU no Afeganistão (Unama), as restrições geram custos sociais e econômicos, sendo um dos principais obstáculos para a ampliação das relações internacionais do governo afegão e a atração de investimentos. Isso apesar de a redução dos conflitos ter aberto oportunidades de recuperação econômica e de costura de alianças regionais. 

"A paz e a prosperidade sustentáveis exigem mais do que a ausência de conflito", afirmou em comunicado de sexta-feira Georgette Gagnon, representante especial adjunta da ONU para o Afeganistão e chefe interina da Unama. As limitações ao espaço cívico e à liberdade de expressão também reduzem a capacidade do país de se beneficiar da cooperação internacional, de acordo com a Unama. 

O Afeganistão continua politicamente fechado, sem eleições nem Parlamento eleito, outro ponto sensível para a comunidade internacional. As principais decisões se concentram em torno do líder supremo talibã, Hibatullah Akhundzada. Não há oposição com capacidades para disputar o poder, enquanto os meios de comunicação trabalham sob fortes restrições. 

<><> Exclusão das mulheres 

Desde que voltou ao poder em agosto de 2021, o Talibã impediu cerca de 2,4 milhões de afegãs de frequentar o ensino médio, reportou nesta semana a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). 

As autoridades emitiram mais de 100 decretos voltados contra mulheres e meninas desde que assumiram o poder, institucionalizando a discriminação e aprofundando o que a ONU Mulheres classifica como a mais grave crise de direitos das mulheres no mundo. 

Medidas adotadas neste ano aboliram a igualdade jurídica entre homens e mulheres perante a lei, reforçaram a autoridade masculina dentro do casamento e dificultaram o acesso das mulheres ao divórcio. O Talibã sustenta que respeita os direitos das mulheres de acordo com sua interpretação da lei islâmica e da cultura afegã. 

As mulheres também seguem amplamente excluídas da economia. Apenas 7% delas estão empregadas, em comparação com 84% dos homens, ainda segundo a ONU Mulheres. 

<><> Crise humanitária e endividamento 

Além disso, o Afeganistão vive uma crise humanitária. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) calculou que 47% dos menores de idade apresentavam quadro de desnutrição no primeiro trimestre deste ano. 

A situação é agravada pela falta de financiamento dos programas internacionais de ajuda, pelas colheitas insuficientes em decorrência das secas e pelo retorno de quase 5,9 milhões de pessoas ao país desde setembro de 2023. 

Ao mesmo tempo, o Talibã conseguiu evitar o colapso que muitos previam como consequência do seu isolamento. A economia cresceu 4,8% em 2025, segundo o Banco Mundial — o que, entretanto, não foi suficiente para absorver o aumento da população, levando a uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) per capita. 

Assim, o Afeganistão produz mais do que há alguns anos, enquanto seus habitantes dispõem, em média, de menos recursos. A contradição se reflete nos lares, onde mais de 80% das famílias estão endividadas e a ampla maioria não consegue atender às necessidades básicas. 

<><> Ambiguidade diplomática 

Homens que, há cinco anos, figuravam em listas de sanções e recompensas internacionais hoje ocupam gabinetes do governo. Antigos comandantes da insurgência talibã recebem delegações estrangeiras, assinam concessões de mineração e negociam acordos de repatriação com autoridades europeias. 

A Unama pede à comunidade internacional que mantenha uma relação "pragmática e baseada em princípios" com as autoridades talibãs, argumentando que o diálogo continua sendo necessário para a estabilidade doméstica e uma eventual reintegração do Afeganistão a nível global. 

O regime construiu relações de trabalho com diversos países, incluindo membros da União Europeia (UE) e Reino Unido, para tratar, entre outros, da contenção às ameaças jihadistas. A melhora da segurança interna convive com o terrorismo, uma fonte de tensão com os países vizinhos.  

Mas só a Rússia reconhece oficialmente o governo talibã. Muitos países ocidentais condicionam qualquer passo nessa direção à implementação de reformas internas, especialmente na área dos direitos humanos. 

Neste ano, autoridades do Tajiquistão, Turcomenistão, Quirguistão, Uzbequistão e Cazaquistão se reuniram em Cabul. Os países da Ásia Central, sem acesso ao mar, buscam rotas comerciais através do Afeganistão para alcançar portos marítimos. 

A China, por sua vez, mantém contatos diplomáticos e econômicos regulares com o governo talibã. Já a Índia, que evacuou sua embaixada em agosto de 2021, primeiro restabeleceu a presença técnica, antes de voltar a elevar sua representação ao status de embaixada em 2025. 

O Talibã, assim, reduz seu isolamento a cada novo movimento de aproximação diplomática. Ao mesmo tempo, possibilita a seus interlocutores evitar assumir o custo político de uma normalização plena. 

O primeiro "Emirado talibã" durou cinco anos, entre 1996 e 2001, e terminou com a invasão americana do Afeganistão. O segundo, iniciado quando o Talibã tomou Cabul numa ofensiva relâmpago contra o governo apoiado pelos Estados Unidos, está prestes a superar essa marca.  

 

Fonte: BBC News/DW Brasil

 

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