quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Nenhum ministro está acima do Supremo

Nenhum homem está acima da instituição. Essa máxima, elementar numa democracia, tornou-se a questão central para o Supremo Tribunal Federal (STF). A crise provocada pelo caso Banco Master ultrapassou os limites de uma investigação criminal e expôs divergências entre ministros, Polícia Federal (PF) e Procuradoria-Geral da República (PGR) num grau de tensão que ameaça contaminar a credibilidade da própria Corte. O Supremo precisa, com urgência, reencontrar o caminho da estabilidade.

Não se trata de proteger seus integrantes nem de blindá-los, mas de preservar uma instituição que ocupa posição central no sistema democrático brasileiro. O STF não pode se transformar numa arena em que disputas pessoais, suspeitas de conflitos de interesse e decisões dos próprios envolvidos deixem em segundo plano a Justiça e o interesse público. A regra deve valer para todos: fatos precisam ser investigados, responsabilidades individualizadas e direitos preservados. Não existem atalhos legítimos no Estado de Direito.

As investigações sobre o Master são especialmente delicadas porque alcançaram extensa rede de relações empresariais, jurídicas e políticas. Quando integrantes da mais alta Corte entram em confronto por decisões ligadas a uma investigação dessa dimensão, o problema imediatamente se torna institucional. Divergências jurídicas são naturais num tribunal colegiado. O que não é normal é a impressão de que decisões judiciais, investigações e medidas policiais possam ser movimentos numa disputa entre magistrados.

Existe o risco de transformar o Supremo simultaneamente em personagem, investigador, vítima e juiz de fatos que eventualmente alcancem seus integrantes ou pessoas próximas a eles. A resposta para esse problema não pode ser corporativa. Se existem suspeitas, devem ser investigadas segundo a lei. Se forem falsas, os atingidos têm direito à reparação. Se houver irregularidades, ninguém deve receber tratamento privilegiado em razão do cargo que ocupa.

O mesmo rigor vale para Daniel Vorcaro e eventuais colaboradores. Delação premiada não é sentença nem prova suficiente para condenação. As declarações precisam ser confirmadas por provas independentes. Da mesma forma, PF e Ministério Público precisam atuar com autonomia, sem submissão aos interesses dos investigados ou às disputas políticas e institucionais.

 A crise também expõe um problema anterior ao Master: a excessiva personalização do Supremo. O STF passou muitas vezes a ser identificado pelos nomes dos ministros, e não pela força de sua jurisprudência. Essa inversão precisa acabar. O Supremo não pertence aos seus 11 integrantes. Cada ministro exerce temporariamente uma parcela do poder conferido pela Constituição à instituição. Ministros passam, a Corte permanece.

Defender o Supremo, portanto, não significa defender automaticamente qualquer ministro. Pode significar investigar seus integrantes, reconhecer impedimentos, corrigir decisões e impor limites. A transparência fortalece o tribunal, enquanto o corporativismo o enfraquece.

Nada será mais destrutivo para sua legitimidade do que consolidar a percepção de que existem dois padrões de Justiça: um para os cidadãos e outro para as cúpulas do Estado. O caso Master tornou-se um teste para o STF. O Congresso não pode usar a crise para intimidar ministros, mas a Corte também não pode responder às críticas legítimas refugiando-se numa fortaleza corporativa. A saída está na colegialidade, na transparência, no respeito às competências constitucionais e ao devido processo legal.

É preciso despersonalizar o conflito. Nenhum ministro é maior do que o Supremo, assim como o Supremo não está acima da Constituição. Sua autoridade será preservada se demonstrar que a regra fundamental da República vale para todos: ninguém está acima da lei.

•        Moraes versus Mendonça: uma crise sem precedentes

O Supremo Tribunal Federal (STF) enfrenta, nesta semana, uma de suas maiores crises. O estopim da nova tensão ocorreu nesta terça-feira, com a retirada do sigilo de um relatório elaborado pela Polícia Federal (PF), a pedido do ministro André Mendonça, que reúne mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro. Entre os dados analisados está uma troca de mensagens com um contato salvo no aparelho sob o nome de Alexandre de Moraes, vice-presidente do STF.

Na ocasião, Moraes e Mendonça teriam protagonizado uma discussão acalorada nos bastidores da Corte. Segundo pessoas que presenciaram a cena, Moraes teria se irritado ao tomar conhecimento das investigações decorrentes da Operação Compliance Zero e questionado Mendonça sobre a legalidade da apuração, sob o argumento de que ministros do STF só poderiam ser investigados mediante autorização dos próprios integrantes do Tribunal, o que não ocorreu.

Mendonça avalia pedir a abertura de investigação contra Moraes. Antes, porém, deverá conversar com o presidente do STF, ministro Edson Fachin, para discutir o caso e avaliar quais medidas podem ser adotadas.

O relatório expõe conversas que, segundo a PF, indicam uma relação de proximidade entre Vorcaro e Moraes. Os investigadores apontam que o banqueiro pode ter recebido previamente informações relacionadas às investigações sobre o Banco Master. Nas mensagens, Vorcaro demonstra preocupação com possíveis medidas contra ele e contra a instituição financeira e pede a intercessão de pessoas identificadas como "Andrei" e "Paulo", que, para a PF, seriam referências ao diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Diante da repercussão, Fachin declarou ontem que a Corte anunciará, nos próximos dias, medidas sobre os novos elementos envolvendo Moraes. Em manifestação divulgada pela Presidência do Supremo, afirmou que o cargo não representa proteção contra questionamentos.

"A elevada autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades, que devem ser observados com absoluto respeito à Constituição, às leis e ao Supremo Tribunal Federal", afirmou.

Para a advogada criminalista Camila Motta Luiz de Souza, do escritório Motta Luiz Advocacia, a credibilidade do Supremo está profundamente abalada. "Uma Suprema Corte não se sustenta apenas pela autoridade formal de suas decisões, mas também pela confiança pública de que seus integrantes atuam com independência, imparcialidade e dentro de limites éticos muito claros", afirma.

A advogada considera, porém, importante que fatos dessa natureza sejam levados ao conhecimento público. Segundo ela, uma crise institucional não se resolve escondendo o problema, mas permitindo que sociedade e instituições conheçam os fatos e reajam pelos mecanismos democráticos e republicanos.

Camila também defende regras éticas rigorosas e maior autocontenção dos ministros, especialmente diante de conflitos de interesse, relações econômicas, transparência e situações relacionadas à atuação profissional de familiares.

A advogada Daniela Poli Vlavianos, sócia do escritório Poli, Porto & Andreghetto Advogados, ressalta que é preciso separar críticas legítimas de ataques destinados a desacreditar o Tribunal. Para ela, preservar a instituição não significa blindar seus integrantes de investigações. "Ao contrário, quanto maior o cargo, maior deve ser o compromisso com a transparência", afirma.

De acordo com Daniela, a resposta institucional deve envolver apuração rigorosa, com respeito ao devido processo legal, contraditório, ampla defesa, presunção de inocência e juiz natural. "A credibilidade da Corte somente será preservada se houver respostas institucionais objetivas, transparentes e juridicamente fundamentadas."

<><> Como julgar um ministro

O advogado especialista em direito constitucional Walter Vieira Ceneviva, parecerista e professor convidado da Escola Superior de Advocacia da OAB, explica que ministros do STF não estão fora do alcance da lei, mas seguem procedimentos diferentes dos aplicáveis a cidadãos comuns. A análise deve considerar a Constituição Federal, a Lei Orgânica da Magistratura, o Regimento Interno do STF, os Códigos Penal e de Processo Penal e a legislação sobre processos de competência originária da Corte.

Em caso de suspeita de crime comum, a investigação deve observar a competência do STF, com atuação da PF e do Ministério Público Federal e supervisão judicial. Se houver indícios suficientes, cabe ao Ministério Público avaliar a apresentação de denúncia, e ao STF decidir sobre seu recebimento, sempre respeitando o devido processo legal.

Já os eventuais crimes de responsabilidade seguem outra via: a responsabilização político-jurídica ocorre perante o Senado Federal, conforme os artigos 52, inciso II, e 102, inciso I, alínea "b", da Constituição, além da legislação específica.

Daniela ressalta que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) não exerce sobre ministros do STF a mesma responsabilização disciplinar aplicada aos demais magistrados. "Circunstância que torna ainda mais relevante o funcionamento efetivo dos controles constitucionais existentes", afirma.

Na avaliação da advogada, Mendonça agiu corretamente ao não ignorar fatos potencialmente graves e encaminhá-los às instâncias competentes. Um ministro que tome conhecimento de possíveis irregularidades, diz ela, não deve arquivá-las informalmente nem tratá-las como questão corporativa.

A conduta, porém, deve respeitar o rito processual. O encaminhamento ao presidente da Corte, ao plenário ou à Procuradoria-Geral da República precisa observar regras de competência, prevenção, distribuição, impedimento e sigilo. "A gravidade do conteúdo não autoriza a criação de procedimentos casuísticos nem o afastamento do juiz natural. A própria necessidade de investigar exige máximo rigor jurídico, porque uma apuração conduzida de forma irregular pode ser posteriormente anulada", afirma.

•        Alcolumbre cita caso Vorcaro e pressiona debate no Senado

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), mencionou nesta quarta-feira (2) as mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e ao ministro do STF Alexandre de Moraes. Ao comentar a repercussão, ele disse que recebeu muitas agressões nos últimos dias e afirmou que, agora, a culpa recai apenas sobre o magistrado.

"Recebi muitas agressões nos últimos dias e faço apenas um comentário, todo mundo esqueceu que pediram 130 milhões para fazer um filme, mas só o Moraes é o culpado...", disse Alcolumbre.

Alcolumbre também lembrou que tem em sua mesa 55 pedidos de impeachment contra Moraes. Apesar da pressão política, nenhum deles recebeu encaminhamento até o momento, mesmo após a divulgação de novos elementos ligados à investigação da Polícia Federal.

<><> Mensagens e contrato milionário

Os pedidos mais recentes foram protocolados depois que o Supremo quebrou o sigilo de apurações da Polícia Federal e vieram a público conversas entre Moraes e o ex-banqueiro. Em uma das mensagens, Vorcaro afirma que o contrato com o escritório de Viviane Barci, esposa do ministro, era o mais importante que ele tinha.

Segundo a PF, em 8 de fevereiro de 2024 Vorcaro pediu ao cunhado, Fabiano Zettel, que enviasse o “contrato barci moraes assinado” e perguntou quando seria feito o primeiro pagamento. No mesmo dia, Angelo Silva encaminhou um comprovante de transferência de R$ 3.422.268,14 do Banco Master para o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia, em conta no Itaú. O contrato totalizava R$ 131 milhões.

Conforme mostrou a CNN, Alexandre de Moraes chegou a editar o documento antes da assinatura. Outras mensagens também indicam que Vorcaro teria perguntado ao ministro se precisava deixar o país dois dias antes de sua prisão, quando foi detido ao tentar embarcar em um avião particular para Dubai.

<><> Flávio Bolsonaro e o filme Dark Horse

O caso também envolve Flávio Bolsonaro. Diálogos divulgados pelo site Intercept Brasil mostram conversas entre o senador e Vorcaro sobre o filme Dark Horse, que retrata a trajetória política de Jair Bolsonaro. Uma dessas conversas ocorreu em 16 de novembro de 2025, um dia antes da primeira prisão de Vorcaro no âmbito da Operação Compliance Zero e dois dias antes da liquidação do Banco Master.

Em outro áudio, datado de 8 de setembro do ano passado, Flávio teria mencionado preocupação com atraso nos pagamentos da produção. Em nota, quando os diálogos vieram a público, o senador afirmou que se tratava de um “filho procurando patrocínio”.

Segundo as informações divulgadas, Vorcaro teria desembolsado cerca de R$ 61 milhões para financiar o filme após pedido do então pré-candidato à Presidência. A intermediação teria sido feita pelo publicitário Thiago Miranda.

<><> Documentos não entregues

Quando o caso ganhou repercussão, Flávio Bolsonaro prometeu apresentar dados sobre a produção do filme. No entanto, voltou atrás e não entregou contrato, planilhas nem outros documentos que detalhariam a aplicação dos recursos. A ausência dessas informações mantém abertas as dúvidas sobre o destino do dinheiro e o grau de envolvimento dos personagens citados nas investigações.

 

Fonte: Correio Braziliense/JB

 

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