Augusto Cury omitiu negócios nos EUA da
Justiça Eleitoral
Candidato que subiu para a terceira posição
nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, o escritor
Augusto Cury (Avante) deixou uma série de negócios na Flórida de fora da
declaração de bens que apresentou à Justiça Eleitoral brasileira.
Cury é o presidenciável que declarou o maior
patrimônio, R$ 242,3 milhões, mas ao menos três empresas nos Estados Unidos —
além de duas no Brasil — ficaram de fora da relação, composta principalmente
por dívidas a receber de empresas familiares e participações societárias.
Por meio de sua equipe, o candidato disse que
seu patrimônio foi “construído de forma lícita” e que eventuais inconsistências
na declaração apresentada serão corrigidas.
O escritor tem cinco registros na Divisão de
Corporações da Secretaria de Estado da Flórida, equivalente à Junta Comercial
do estado. Duas das empresas constam em sua declaração ao TSE. As outras três,
que recolheram as taxas necessárias para permanecerem abertas em 2026, ficaram
de fora.
As duas empresas informadas à Justiça são a
Intelligence School, constituída em 2014, e a Love Story Josefina — renomeada
Love Story Investments em 2021 –, de 2017. A Cury Academia Comportamental, a
Contemplare Investments e a Free Mind Publish, abertas entre 2021 e 2024, são
as que estão de fora.
Os registros da Flórida identificam as
pessoas autorizadas a agir por cada empresa, mas não informam o percentual de
participação de cada uma nem o capital investido. Nas três empresas omitidas,
Cury aparece como membro autorizado. Em uma delas, é o único.
A Intelligence School comprou e vendeu ao
menos quatro imóveis em Orlando, em transações que somam US$ 13,5 milhões no
período de 2014 a 2024, segundo escrituras registradas no cartório do condado
de Orange.
No Brasil, Contemplare é o nome de uma
empresa de Cury que também não aparece em sua declaração.
Com objeto social de locação de imóveis
próprios, aluguel e arrendamento de terras próprias para exploração agrícola e
administração de imóveis próprios, a companhia foi registrada em Dumont (SP),
em 2022, e transferida para Ribeirão Preto em julho deste ano.
Também ficou fora da declaração a Academia de
Pensar e Brincar, da qual o escritor é sócio-administrador ao lado da mulher e
de duas filhas, registrada no ramo de atividades de recreação com um capital
social de R$ 12 mil.
Entre os maiores bens, o candidato declarou
possuir R$ 25,8 milhões em BDRs —certificados emitidos no Brasil por
instituições depositárias, com lastro em ações de empresas estrangeiras e
negociados na B3.
De dezembro de 2020 ao primeiro semestre de
2023, a Arco Educação, empresa que já atuava no ramo de plataformas
educacionais, pagou R$ 589,1 milhões à família de Cury pela compra da Escola da
Inteligência, empresa fundada pelo escritor e uma de suas filhas, segundo
balanços da companhia.
A empresa fornecia material e capacitação de
professores para aulas extracurriculares para desenvolver atividades emocionais
nos estudantes. Uma pessoa próxima ao escritor descreveu a transação como seu
principal negócio até aqui.
Cury informou ainda ao TSE possuir R$ 31,5
milhões como “sócio participante” da Fictor Invest. O mesmo valor aparece em
nome dele na relação inicial de credores de uma recuperação judicial do grupo
Fictor, repassado por sua equipe à Folha.
No documento, o crédito é classificado como
quirografário (sem garantias) e descrito como decorrente da rescisão de
contratos de sociedade em conta de participação. Sua mulher, Suleima Cabrera
Farhate Cury, também consta da lista, por R$ 1,3 milhão.
Os créditos sujeitos ao processo somam R$
4,26 bilhões, dos quais R$ 4,19 bilhões na classe em que Cury está inscrito.
A Fictor pediu recuperação judicial neste ano
e esteve envolvida em tentativa de comprar o Banco Master em 2025 antes da
liquidação decretada pelo Banco Central.
Em sua lista de patrimônio, o maior bem do
escritor é um mútuo (empréstimo a receber) da Filadélfia Nature, empresa da
qual detém 99,97% e que tem a mulher e as três filhas como sócias minoritárias.
São R$ 121 milhões, segundo a declaração. As informações de registro não
apontam data nem condições de pagamento.
A Filadélfia mantém seis filiais instaladas
em fazendas de São Paulo, Minas Gerais e Piauí, segundo documentos registrados
na junta comercial. As atividades declaradas incluem cultivo de soja, milho,
cana e eucalipto e criação de gado.
Três dessas fazendas — Tamboril e Sobradinho,
Pernambuco e Serra Branca, todas em Prata (MG) — foram transferidas por Cury à
empresa em ato registrado em janeiro deste ano, pelo valor de R$ 3 milhões.
O candidato declarou 19 itens rurais ao TSE,
que somam R$ 6,7 milhões, mas nenhum traz município, área ou número de
matrícula —o que é comum entre candidatos— e seis deles repetem nomes: duas
Fazenda Serra Branca, duas Fazenda Pernambuco e duas Fazenda Sobradinho.
Cinco desses itens carregam os nomes das três
fazendas transferidas à Filadélfia. Como a declaração não informa matrícula,
não é possível determinar se são os mesmos imóveis ou glebas distintas. Uma
consulta ao Operador Nacional do Registro pelo CPF do escritor localiza 50
matrículas em Prata, com matrículas numéricas em sequências, típicas de
desmembramento de área.
Um integrante da equipe de Cury afirmou que o
grupo do candidato fará uma análise da declaração de bens e considerou que, no
caso das propriedades rurais, existia a possibilidade de que fazendas com o
mesmo nome sejam constituídas por lotes registrados separadamente, parte deles
em nome do escritor e parte em nome de suas empresas.
A informação não veio de forma explícita na
nota enviada pela equipe: “O candidato declarou à Justiça Eleitoral bens no
valor de R$ 242,2 milhões. São investimentos em múltiplas empresas e em
diversos setores, formando patrimônio construído de forma lícita, mediante
consulta a notáveis economistas e gestores”, diz o texto.
“Caso seja identificada inconsistência
pontual no lançamento das informações patrimoniais, serão adotadas as
providências cabíveis para correção, na forma da lei”, conclui a nota, sem mais
detalhes.
• Cury
encontrou uma onda. Agora precisa provar que existe chão
Augusto Cury deixou de ser uma curiosidade
eleitoral. Em poucas semanas, saltou de cerca de 2% para 10% na Quaest, 8% no
Datafolha e 7,8% na AtlasIntel. Três institutos, metodologias diferentes e a
mesma direção: existe uma onda Cury.
A dúvida agora é outra. Existe chão?
A pergunta é importante porque a política
brasileira tem certa compulsão por transformar qualquer crescimento de uma
candidatura alternativa em certidão de óbito da polarização. Cury mal chegou
aos dois dígitos e já reapareceu o velho papo sobre terceira via, eleitor
cansado dos extremos e uma suposta maioria silenciosa finalmente encontrando
alguém para chamar de seu.
Esse eleitor cansado existe. O exagero está
no tamanho que costumam atribuir a ele.
Se houvesse um gigantesco contingente de
brasileiros esperando apenas o candidato certo para abandonar os dois
principais campos políticos, seria difícil explicar as últimas três eleições
presidenciais. Em 2014, Dilma Rousseff e Aécio Neves foram ao segundo turno. Em
2018, Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Em 2022, Lula e Bolsonaro concentraram
juntos mais de 91% dos votos válidos já no primeiro turno.
Talvez a realidade seja menos emocionante: há
um eleitorado cansado dos polos, pouco identificado politicamente e disposto a
experimentar alternativas. Ele só nunca demonstrou ser grande o bastante para
reorganizar sozinho uma eleição presidencial.
Cury encontrou esse eleitor. E encontrou
muito bem.
Na Quaest, chega a 24% entre os chamados
independentes, contra 21% de Lula e apenas 9% de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A
diferença para Lula está dentro da margem específica desse segmento, mas isso
pouco altera o significado político do número. O candidato que nacionalmente
tem 10% virou uma das principais escolhas justamente entre aqueles que não se
identificam com os campos dominantes.
Entre os polos, porém, as muralhas continuam
de pé.
Flávio tem 91% entre bolsonaristas. Lula, 93%
entre lulistas. Cury marca 1% nos dois grupos. Mesmo na direita não
bolsonarista, Flávio concentra 72%, enquanto Cury tem apenas 6%.
Cury não está quebrando a polarização. Está
crescendo no espaço entre ela.
E os detalhes das pesquisas permitem desenhar
melhor quem ocupa esse espaço.
A idade é provavelmente o dado mais
impressionante. Na Atlas, Cury chega a 19,8% entre brasileiros de 25 a 34 anos.
Tem 12,1% entre os de 16 a 24 e vai perdendo força conforme o eleitor
envelhece, até praticamente desaparecer entre os maiores de 60 anos, com 0,3%.
Quaest e Datafolha enxergam praticamente a
mesma coisa. Na Quaest, Cury tem 14% entre 16 e 34 anos e apenas 4% entre quem
passou dos 60. No Datafolha, chega a 14% entre 25 e 34 anos e 10% entre 16 e
24.
Não parece acidente estatístico. É um perfil
eleitoral.
O Datafolha acrescenta outra característica:
Cury alcança 14% entre brasileiros com ensino superior. Ele está encontrando
força sobretudo entre jovens, escolarizados, conectados e menos amarrados às
identidades políticas tradicionais.
Isso ajuda a explicar a velocidade da
arrancada.
Em duas semanas, segundo a Quaest, a parcela
dos brasileiros que não conhecia Cury caiu de 74% para 54%. Ao mesmo tempo,
aqueles que o conheciam e admitiam votar nele passaram de 10% para 21%.
Mais exposição virou conhecimento.
Conhecimento virou intenção de voto.
Só que a mesma pesquisa traz a primeira luz
amarela. Enquanto o percentual que conhece Cury e poderia votar nele aumentou,
também cresceu, de 16% para 25%, a parcela que passou a conhecê-lo e diz que
não votaria nele.
É assim que campanhas funcionam.
Enquanto você é desconhecido, praticamente
todo novo eleitor é uma possibilidade. Quando vira candidato relevante, começa
a ser examinado, confrontado e atacado. Cada brasileiro que passa a conhecê-lo
pode virar eleitor ou rejeitá-lo.
Cury ainda tem 54% do país para atravessar
essa porta.
Há outro sinal de fragilidade. Na Quaest
estimulada, quando os nomes são apresentados ao entrevistado, ele tem 10%. Na
espontânea, quando a pessoa precisa dizer sozinha em quem pretende votar, Cury
cai para 4%.
Não significa que seus 10% sejam fictícios.
Significa que uma parte considerável desse eleitorado ainda precisa ser
lembrada de que Augusto Cury é uma opção presidencial.
E praticamente metade de seus próprios
eleitores admite trocar de candidato: 48% dizem que ainda podem mudar de voto.
A onda é real. O voto ainda é mole.
Quem acha que isso basta para antecipar uma
revolução eleitoral deveria visitar o cemitério dos fenômenos de campanha.
Em 2002, Ciro Gomes chegou a 28% das
intenções de voto, apenas cinco pontos atrás de Lula. Terminou com 12% e fora
do segundo turno. Heloísa Helena chegou a 12% em 2006 e recebeu 6,85% nas
urnas.
Marina Silva oferece talvez o caso mais
pedagógico. Em 2014, chegou a 34%, empatou com Dilma Rousseff e apareceu
vencendo a petista numa simulação de segundo turno. Terminou com 21,3% e
assistiu Aécio Neves disputar a Presidência.
Cury hoje tem entre 7,8% e 10%.
Isso não é pouco. Só existe uma distância
monumental entre ser o fenômeno da semana e ameaçar uma vaga no segundo turno.
A própria distribuição regional, porém,
impede que se trate Cury como simples bolha de internet. Na Quaest, ele marca
12% no Nordeste, 10% no Sudeste, 9% no Sul e 7% no Norte e Centro-Oeste. Não é
um fenômeno restrito a São Paulo ou a meia dúzia de bolhas digitais.
Por isso, descartá-lo seria tão precipitado
quanto coroá-lo.
O próximo teste não será apenas crescer mais
dois pontos. Será mostrar persistência. Cury precisa manter seus novos
eleitores quando deixar de ser novidade, aumentar seu voto espontâneo,
consolidar aqueles 48% que admitem mudar e ampliar sua presença para além dos
jovens e escolarizados.
Se começar a penetrar de maneira consistente
entre eleitores mais pobres e mais velhos e caminhar para 15% ou 20%, aí a
eleição começa a contar outra história.
Até agora, Cury provou que existe um
eleitorado disponível para uma alternativa. Não provou que esse eleitorado é
enorme, nem que consegue formar um novo
campo político.
Afinal, na Atlas, Lula tem 43,4% e Flávio,
33,7%. Juntos, concentram 77,1%. Cury tem 7,8%.
É uma onda importante.
Para chegar ao segundo turno, porém, ele vai
precisar descobrir se existe terra firme quando ela passar.
Fonte: ICL Notícias

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