quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Augusto Cury omitiu negócios nos EUA da Justiça Eleitoral

Candidato que subiu para a terceira posição nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, o escritor Augusto Cury (Avante) deixou uma série de negócios na Flórida de fora da declaração de bens que apresentou à Justiça Eleitoral brasileira.

Cury é o presidenciável que declarou o maior patrimônio, R$ 242,3 milhões, mas ao menos três empresas nos Estados Unidos — além de duas no Brasil — ficaram de fora da relação, composta principalmente por dívidas a receber de empresas familiares e participações societárias.

Por meio de sua equipe, o candidato disse que seu patrimônio foi “construído de forma lícita” e que eventuais inconsistências na declaração apresentada serão corrigidas.

O escritor tem cinco registros na Divisão de Corporações da Secretaria de Estado da Flórida, equivalente à Junta Comercial do estado. Duas das empresas constam em sua declaração ao TSE. As outras três, que recolheram as taxas necessárias para permanecerem abertas em 2026, ficaram de fora.

As duas empresas informadas à Justiça são a Intelligence School, constituída em 2014, e a Love Story Josefina — renomeada Love Story Investments em 2021 –, de 2017. A Cury Academia Comportamental, a Contemplare Investments e a Free Mind Publish, abertas entre 2021 e 2024, são as que estão de fora.

Os registros da Flórida identificam as pessoas autorizadas a agir por cada empresa, mas não informam o percentual de participação de cada uma nem o capital investido. Nas três empresas omitidas, Cury aparece como membro autorizado. Em uma delas, é o único.

A Intelligence School comprou e vendeu ao menos quatro imóveis em Orlando, em transações que somam US$ 13,5 milhões no período de 2014 a 2024, segundo escrituras registradas no cartório do condado de Orange.

No Brasil, Contemplare é o nome de uma empresa de Cury que também não aparece em sua declaração.

Com objeto social de locação de imóveis próprios, aluguel e arrendamento de terras próprias para exploração agrícola e administração de imóveis próprios, a companhia foi registrada em Dumont (SP), em 2022, e transferida para Ribeirão Preto em julho deste ano.

Também ficou fora da declaração a Academia de Pensar e Brincar, da qual o escritor é sócio-administrador ao lado da mulher e de duas filhas, registrada no ramo de atividades de recreação com um capital social de R$ 12 mil.

Entre os maiores bens, o candidato declarou possuir R$ 25,8 milhões em BDRs —certificados emitidos no Brasil por instituições depositárias, com lastro em ações de empresas estrangeiras e negociados na B3.

De dezembro de 2020 ao primeiro semestre de 2023, a Arco Educação, empresa que já atuava no ramo de plataformas educacionais, pagou R$ 589,1 milhões à família de Cury pela compra da Escola da Inteligência, empresa fundada pelo escritor e uma de suas filhas, segundo balanços da companhia.

A empresa fornecia material e capacitação de professores para aulas extracurriculares para desenvolver atividades emocionais nos estudantes. Uma pessoa próxima ao escritor descreveu a transação como seu principal negócio até aqui.

Cury informou ainda ao TSE possuir R$ 31,5 milhões como “sócio participante” da Fictor Invest. O mesmo valor aparece em nome dele na relação inicial de credores de uma recuperação judicial do grupo Fictor, repassado por sua equipe à Folha.

No documento, o crédito é classificado como quirografário (sem garantias) e descrito como decorrente da rescisão de contratos de sociedade em conta de participação. Sua mulher, Suleima Cabrera Farhate Cury, também consta da lista, por R$ 1,3 milhão.

Os créditos sujeitos ao processo somam R$ 4,26 bilhões, dos quais R$ 4,19 bilhões na classe em que Cury está inscrito.

A Fictor pediu recuperação judicial neste ano e esteve envolvida em tentativa de comprar o Banco Master em 2025 antes da liquidação decretada pelo Banco Central.

Em sua lista de patrimônio, o maior bem do escritor é um mútuo (empréstimo a receber) da Filadélfia Nature, empresa da qual detém 99,97% e que tem a mulher e as três filhas como sócias minoritárias. São R$ 121 milhões, segundo a declaração. As informações de registro não apontam data nem condições de pagamento.

A Filadélfia mantém seis filiais instaladas em fazendas de São Paulo, Minas Gerais e Piauí, segundo documentos registrados na junta comercial. As atividades declaradas incluem cultivo de soja, milho, cana e eucalipto e criação de gado.

Três dessas fazendas — Tamboril e Sobradinho, Pernambuco e Serra Branca, todas em Prata (MG) — foram transferidas por Cury à empresa em ato registrado em janeiro deste ano, pelo valor de R$ 3 milhões.

O candidato declarou 19 itens rurais ao TSE, que somam R$ 6,7 milhões, mas nenhum traz município, área ou número de matrícula —o que é comum entre candidatos— e seis deles repetem nomes: duas Fazenda Serra Branca, duas Fazenda Pernambuco e duas Fazenda Sobradinho.

Cinco desses itens carregam os nomes das três fazendas transferidas à Filadélfia. Como a declaração não informa matrícula, não é possível determinar se são os mesmos imóveis ou glebas distintas. Uma consulta ao Operador Nacional do Registro pelo CPF do escritor localiza 50 matrículas em Prata, com matrículas numéricas em sequências, típicas de desmembramento de área.

Um integrante da equipe de Cury afirmou que o grupo do candidato fará uma análise da declaração de bens e considerou que, no caso das propriedades rurais, existia a possibilidade de que fazendas com o mesmo nome sejam constituídas por lotes registrados separadamente, parte deles em nome do escritor e parte em nome de suas empresas.

A informação não veio de forma explícita na nota enviada pela equipe: “O candidato declarou à Justiça Eleitoral bens no valor de R$ 242,2 milhões. São investimentos em múltiplas empresas e em diversos setores, formando patrimônio construído de forma lícita, mediante consulta a notáveis economistas e gestores”, diz o texto.

“Caso seja identificada inconsistência pontual no lançamento das informações patrimoniais, serão adotadas as providências cabíveis para correção, na forma da lei”, conclui a nota, sem mais detalhes.

•        Cury encontrou uma onda. Agora precisa provar que existe chão

Augusto Cury deixou de ser uma curiosidade eleitoral. Em poucas semanas, saltou de cerca de 2% para 10% na Quaest, 8% no Datafolha e 7,8% na AtlasIntel. Três institutos, metodologias diferentes e a mesma direção: existe uma onda Cury.

A dúvida agora é outra. Existe chão?

A pergunta é importante porque a política brasileira tem certa compulsão por transformar qualquer crescimento de uma candidatura alternativa em certidão de óbito da polarização. Cury mal chegou aos dois dígitos e já reapareceu o velho papo sobre terceira via, eleitor cansado dos extremos e uma suposta maioria silenciosa finalmente encontrando alguém para chamar de seu.

Esse eleitor cansado existe. O exagero está no tamanho que costumam atribuir a ele.

Se houvesse um gigantesco contingente de brasileiros esperando apenas o candidato certo para abandonar os dois principais campos políticos, seria difícil explicar as últimas três eleições presidenciais. Em 2014, Dilma Rousseff e Aécio Neves foram ao segundo turno. Em 2018, Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Em 2022, Lula e Bolsonaro concentraram juntos mais de 91% dos votos válidos já no primeiro turno.

Talvez a realidade seja menos emocionante: há um eleitorado cansado dos polos, pouco identificado politicamente e disposto a experimentar alternativas. Ele só nunca demonstrou ser grande o bastante para reorganizar sozinho uma eleição presidencial.

Cury encontrou esse eleitor. E encontrou muito bem.

Na Quaest, chega a 24% entre os chamados independentes, contra 21% de Lula e apenas 9% de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A diferença para Lula está dentro da margem específica desse segmento, mas isso pouco altera o significado político do número. O candidato que nacionalmente tem 10% virou uma das principais escolhas justamente entre aqueles que não se identificam com os campos dominantes.

Entre os polos, porém, as muralhas continuam de pé.

Flávio tem 91% entre bolsonaristas. Lula, 93% entre lulistas. Cury marca 1% nos dois grupos. Mesmo na direita não bolsonarista, Flávio concentra 72%, enquanto Cury tem apenas 6%.

Cury não está quebrando a polarização. Está crescendo no espaço entre ela.

E os detalhes das pesquisas permitem desenhar melhor quem ocupa esse espaço.

A idade é provavelmente o dado mais impressionante. Na Atlas, Cury chega a 19,8% entre brasileiros de 25 a 34 anos. Tem 12,1% entre os de 16 a 24 e vai perdendo força conforme o eleitor envelhece, até praticamente desaparecer entre os maiores de 60 anos, com 0,3%.

Quaest e Datafolha enxergam praticamente a mesma coisa. Na Quaest, Cury tem 14% entre 16 e 34 anos e apenas 4% entre quem passou dos 60. No Datafolha, chega a 14% entre 25 e 34 anos e 10% entre 16 e 24.

Não parece acidente estatístico. É um perfil eleitoral.

O Datafolha acrescenta outra característica: Cury alcança 14% entre brasileiros com ensino superior. Ele está encontrando força sobretudo entre jovens, escolarizados, conectados e menos amarrados às identidades políticas tradicionais.

Isso ajuda a explicar a velocidade da arrancada.

Em duas semanas, segundo a Quaest, a parcela dos brasileiros que não conhecia Cury caiu de 74% para 54%. Ao mesmo tempo, aqueles que o conheciam e admitiam votar nele passaram de 10% para 21%.

Mais exposição virou conhecimento. Conhecimento virou intenção de voto.

Só que a mesma pesquisa traz a primeira luz amarela. Enquanto o percentual que conhece Cury e poderia votar nele aumentou, também cresceu, de 16% para 25%, a parcela que passou a conhecê-lo e diz que não votaria nele.

É assim que campanhas funcionam.

Enquanto você é desconhecido, praticamente todo novo eleitor é uma possibilidade. Quando vira candidato relevante, começa a ser examinado, confrontado e atacado. Cada brasileiro que passa a conhecê-lo pode virar eleitor ou rejeitá-lo.

Cury ainda tem 54% do país para atravessar essa porta.

Há outro sinal de fragilidade. Na Quaest estimulada, quando os nomes são apresentados ao entrevistado, ele tem 10%. Na espontânea, quando a pessoa precisa dizer sozinha em quem pretende votar, Cury cai para 4%.

Não significa que seus 10% sejam fictícios. Significa que uma parte considerável desse eleitorado ainda precisa ser lembrada de que Augusto Cury é uma opção presidencial.

E praticamente metade de seus próprios eleitores admite trocar de candidato: 48% dizem que ainda podem mudar de voto.

A onda é real. O voto ainda é mole.

Quem acha que isso basta para antecipar uma revolução eleitoral deveria visitar o cemitério dos fenômenos de campanha.

Em 2002, Ciro Gomes chegou a 28% das intenções de voto, apenas cinco pontos atrás de Lula. Terminou com 12% e fora do segundo turno. Heloísa Helena chegou a 12% em 2006 e recebeu 6,85% nas urnas.

Marina Silva oferece talvez o caso mais pedagógico. Em 2014, chegou a 34%, empatou com Dilma Rousseff e apareceu vencendo a petista numa simulação de segundo turno. Terminou com 21,3% e assistiu Aécio Neves disputar a Presidência.

Cury hoje tem entre 7,8% e 10%.

Isso não é pouco. Só existe uma distância monumental entre ser o fenômeno da semana e ameaçar uma vaga no segundo turno.

A própria distribuição regional, porém, impede que se trate Cury como simples bolha de internet. Na Quaest, ele marca 12% no Nordeste, 10% no Sudeste, 9% no Sul e 7% no Norte e Centro-Oeste. Não é um fenômeno restrito a São Paulo ou a meia dúzia de bolhas digitais.

Por isso, descartá-lo seria tão precipitado quanto coroá-lo.

O próximo teste não será apenas crescer mais dois pontos. Será mostrar persistência. Cury precisa manter seus novos eleitores quando deixar de ser novidade, aumentar seu voto espontâneo, consolidar aqueles 48% que admitem mudar e ampliar sua presença para além dos jovens e escolarizados.

Se começar a penetrar de maneira consistente entre eleitores mais pobres e mais velhos e caminhar para 15% ou 20%, aí a eleição começa a contar outra história.

Até agora, Cury provou que existe um eleitorado disponível para uma alternativa. Não provou que esse eleitorado é enorme, nem que consegue  formar um novo campo político.

Afinal, na Atlas, Lula tem 43,4% e Flávio, 33,7%. Juntos, concentram 77,1%. Cury tem 7,8%.

É uma onda importante.

Para chegar ao segundo turno, porém, ele vai precisar descobrir se existe terra firme quando ela passar.

 

Fonte: ICL Notícias

 

Nenhum comentário: