As Big Techs estão transformando a distopia
de IA em realidade
á vinte e cinco anos, estreava a obra A.I. –
Inteligência artificial. O filme foi um projeto de Stanley Kubrick, gestado por
longo tempo e finalmente concretizado após sua morte por seu amigo Steven
Spielberg. Como muitas das obras de Kubrick, foi recebido com frieza pela
crítica e pelo público. Contudo, o tempo revelou que a visão de A.I. sobre uma
sociedade dependente de emoções automatizadas e comercializadas era ao mesmo
tempo profética e profundamente perturbadora.
O filme conta a história de David, o primeiro
robô-criança programado para amar. Presenteado a uma família rica que lamenta a
perda de seu filho em coma, David é abandonado por sua “mãe”, Monica, após a
recuperação do filho verdadeiro. A partir daí, ele embarca em uma odisseia por
um mundo distópico em busca de uma maneira de se tornar um “menino de verdade”,
como Pinóquio, e conquistar o amor da mãe que o rejeitou.
Ao longo da jornada de David, aprendemos mais
sobre essa sociedade dominada pela IA. O colapso ecológico gerou uma enorme
desigualdade e uma dependência da inteligência artificial para o trabalho, à
medida que o controle populacional reduziu a força de trabalho humana. Os
androides formam uma subclasse, desempenhando muitas das funções mais vitais e
íntimas da humanidade. Conhecemos Gigolo Joe, um prostituto mecânico que se
gaba para uma cliente: “Depois de ter um amante robô, você nunca mais vai
querer um homem de verdade”. Seus serviços são utilizados por mulheres
traumatizadas por abusos, que buscam uma alternativa segura aos relacionamentos
humanos.
O filme apresenta sua própria versão de um
LLM (Modelo de Linguagem em Grande Escala) chamado Dr. Know, que se
autodenomina “fast food para o pensamento”, uma descrição melhor do ChatGPT do
que qualquer outra que tenha sido feita até hoje. Quando David alcança seu
criador, o cientista fica encantado com sua devoção. David, modelado a partir
de seu próprio filho falecido, demonstrou um desejo genuíno. Com a prova de que
o experimento foi bem-sucedido, este novo brinquedo, já produzido em massa,
está pronto para o mercado.
Na sociedade apresentada em A.I., as funções
mais primordiais da humanidade foram terceirizadas e transformadas em
mercadoria. Conhecimento e intimidade agora são tarefas executadas por
máquinas, aperfeiçoando processos nos quais os seres humanos frequentemente
falham. David representa a próxima evolução, oferecendo amor incondicional e
atemporal a pais que temem a mortalidade de seus filhos, e a experiência da
paternidade para aqueles que não têm filhos.
Hoje, vemos empresas de IA buscando
transformar essa distopia em seu produto. O CEO da OpenAI, Sam Altman, diz que
quer “um futuro onde a inteligência seja um serviço público, como eletricidade
ou água, e as pessoas a comprem de nós por meio de um medidor”. A IA já é usada
por muitos em busca do “amor” oferecido por David. Um terço dos britânicos usa
IA para apoio emocional, enquanto os “robôs de luto”, sistemas de IA que
analisam as mensagens dos falecidos para imitar seu estilo linguístico, estão
se tornando cada vez mais populares.
O que está por trás desse fenômeno? Diante do
crescente isolamento social, causado em parte pelas mudanças tecnológicas,
essas máquinas oferecem uma imitação superficial das conexões humanas, sem as
complexidades da vida. Os relacionamentos humanos são complexos. Frequentemente
terminam em amargura e fracasso, e são, em última instância, rompidos pelo
tempo e pela mortalidade. A IA, por outro lado, jamais poderá rejeitá-lo,
jamais morrerá e jamais questionará seriamente suas decisões. Ela oferece uma
simulação reconfortante de amor, enriquecendo uma classe oligárquica, assim
como David faz com seus clientes. É, nas palavras do criador de David, “sempre
amorosa, nunca doente, nunca mutável”.
O final do filme é a conclusão trágica dessa
sociedade automatizada. Descoberto milênios depois por androides futuristas,
David, a última máquina criada pela espécie humana extinta há muito tempo,
recebe um último dia de amor com sua mãe ressuscitada. Muitos críticos
ridicularizaram isso como sentimentalismo spielbergiano, oferecendo um final
implausivelmente feliz. Mas esse epílogo, concebido por Kubrick em vez de
Spielberg, é muito mais complexo. David ressuscita uma versão de Monica, mas
ela não é a pessoa real.
Em vez de ser atormentada pela culpa e
confusão que vimos durante a vida de Monica, ela é despojada de todas as
nuances e falhas. Ela oferece a David uma versão simplista do amor que ele foi
programado para lhe dar. Ela não sabe onde está nem como chegou a ser quem é.
Graças à atuação brilhante e comovente de Haley Joel Osment, o filme nos faz
torcer por David, e inicialmente encontramos catarse na realização de seu
sonho. Mas por trás da estética de conto de fadas, esconde-se uma conclusão
sombria. Os últimos vestígios da humanidade perecem, simulando uma versão
suavizada e vazia da emoção real.
Assim como a história de ansiedade sexual e
conspiração da elite em De olhos bem fechados na era Epstein, a parábola de
A.I. – Inteligência artificial sobre conforto artificial e emoções ilusórias
tornou-se ainda mais relevante desde seu lançamento. Não se trata de uma fusão
desigual de dois cineastas distintos, mas sim de um filme que utiliza o
niilismo e o sentimentalismo de ambos de maneira brilhante. Enquanto os
oligarcas da IA buscam comercializar a experiência humana para amenizar a
solidão e o isolamento de uma população cada vez maior, devemos todos ficar
atentos à próxima geração de robôs acompanhantes.
Fonte: Por Doug Wilson - Tradução Pedro
Silva, em Jacobin Brasil

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