terça-feira, 8 de setembro de 2026

As Big Techs estão transformando a distopia de IA em realidade

á vinte e cinco anos, estreava a obra A.I. – Inteligência artificial. O filme foi um projeto de Stanley Kubrick, gestado por longo tempo e finalmente concretizado após sua morte por seu amigo Steven Spielberg. Como muitas das obras de Kubrick, foi recebido com frieza pela crítica e pelo público. Contudo, o tempo revelou que a visão de A.I. sobre uma sociedade dependente de emoções automatizadas e comercializadas era ao mesmo tempo profética e profundamente perturbadora.

O filme conta a história de David, o primeiro robô-criança programado para amar. Presenteado a uma família rica que lamenta a perda de seu filho em coma, David é abandonado por sua “mãe”, Monica, após a recuperação do filho verdadeiro. A partir daí, ele embarca em uma odisseia por um mundo distópico em busca de uma maneira de se tornar um “menino de verdade”, como Pinóquio, e conquistar o amor da mãe que o rejeitou.

Ao longo da jornada de David, aprendemos mais sobre essa sociedade dominada pela IA. O colapso ecológico gerou uma enorme desigualdade e uma dependência da inteligência artificial para o trabalho, à medida que o controle populacional reduziu a força de trabalho humana. Os androides formam uma subclasse, desempenhando muitas das funções mais vitais e íntimas da humanidade. Conhecemos Gigolo Joe, um prostituto mecânico que se gaba para uma cliente: “Depois de ter um amante robô, você nunca mais vai querer um homem de verdade”. Seus serviços são utilizados por mulheres traumatizadas por abusos, que buscam uma alternativa segura aos relacionamentos humanos.

O filme apresenta sua própria versão de um LLM (Modelo de Linguagem em Grande Escala) chamado Dr. Know, que se autodenomina “fast food para o pensamento”, uma descrição melhor do ChatGPT do que qualquer outra que tenha sido feita até hoje. Quando David alcança seu criador, o cientista fica encantado com sua devoção. David, modelado a partir de seu próprio filho falecido, demonstrou um desejo genuíno. Com a prova de que o experimento foi bem-sucedido, este novo brinquedo, já produzido em massa, está pronto para o mercado.

Na sociedade apresentada em A.I., as funções mais primordiais da humanidade foram terceirizadas e transformadas em mercadoria. Conhecimento e intimidade agora são tarefas executadas por máquinas, aperfeiçoando processos nos quais os seres humanos frequentemente falham. David representa a próxima evolução, oferecendo amor incondicional e atemporal a pais que temem a mortalidade de seus filhos, e a experiência da paternidade para aqueles que não têm filhos.

Hoje, vemos empresas de IA buscando transformar essa distopia em seu produto. O CEO da OpenAI, Sam Altman, diz que quer “um futuro onde a inteligência seja um serviço público, como eletricidade ou água, e as pessoas a comprem de nós por meio de um medidor”. A IA já é usada por muitos em busca do “amor” oferecido por David. Um terço dos britânicos usa IA para apoio emocional, enquanto os “robôs de luto”, sistemas de IA que analisam as mensagens dos falecidos para imitar seu estilo linguístico, estão se tornando cada vez mais populares.

O que está por trás desse fenômeno? Diante do crescente isolamento social, causado em parte pelas mudanças tecnológicas, essas máquinas oferecem uma imitação superficial das conexões humanas, sem as complexidades da vida. Os relacionamentos humanos são complexos. Frequentemente terminam em amargura e fracasso, e são, em última instância, rompidos pelo tempo e pela mortalidade. A IA, por outro lado, jamais poderá rejeitá-lo, jamais morrerá e jamais questionará seriamente suas decisões. Ela oferece uma simulação reconfortante de amor, enriquecendo uma classe oligárquica, assim como David faz com seus clientes. É, nas palavras do criador de David, “sempre amorosa, nunca doente, nunca mutável”.

O final do filme é a conclusão trágica dessa sociedade automatizada. Descoberto milênios depois por androides futuristas, David, a última máquina criada pela espécie humana extinta há muito tempo, recebe um último dia de amor com sua mãe ressuscitada. Muitos críticos ridicularizaram isso como sentimentalismo spielbergiano, oferecendo um final implausivelmente feliz. Mas esse epílogo, concebido por Kubrick em vez de Spielberg, é muito mais complexo. David ressuscita uma versão de Monica, mas ela não é a pessoa real.

Em vez de ser atormentada pela culpa e confusão que vimos durante a vida de Monica, ela é despojada de todas as nuances e falhas. Ela oferece a David uma versão simplista do amor que ele foi programado para lhe dar. Ela não sabe onde está nem como chegou a ser quem é. Graças à atuação brilhante e comovente de Haley Joel Osment, o filme nos faz torcer por David, e inicialmente encontramos catarse na realização de seu sonho. Mas por trás da estética de conto de fadas, esconde-se uma conclusão sombria. Os últimos vestígios da humanidade perecem, simulando uma versão suavizada e vazia da emoção real.

Assim como a história de ansiedade sexual e conspiração da elite em De olhos bem fechados na era Epstein, a parábola de A.I. – Inteligência artificial sobre conforto artificial e emoções ilusórias tornou-se ainda mais relevante desde seu lançamento. Não se trata de uma fusão desigual de dois cineastas distintos, mas sim de um filme que utiliza o niilismo e o sentimentalismo de ambos de maneira brilhante. Enquanto os oligarcas da IA buscam comercializar a experiência humana para amenizar a solidão e o isolamento de uma população cada vez maior, devemos todos ficar atentos à próxima geração de robôs acompanhantes.

 

Fonte: Por Doug Wilson - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

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