O Brasil não quebrou nem vai quebrar: quem
ganha com o alarmismo fiscal?
No final de agosto, o Banco Central anunciou
que a dívida pública do Brasil chegou a R$ 10,9 trilhões – o que equivale a
82,5% de tudo o que o país produz, o famoso Produto Interno Bruto, o PIB. Como
de costume, a mídia hegemônica disparou manchetes em tom de pânico, chamando o
governo de “gastador irresponsável”.
Mas o que os alarmistas ignoram – ou escondem
– é que o Brasil não corre o menor risco de quebrar, pois se endivida na moeda
que emite. Mais do que isso: o que realmente faz a dívida subir não são os
investimentos em saúde, educação ou no Bolsa Família, mas a astronômica taxa de
juros paga aos credores do mercado financeiro.
Ainda assim, Flávio Bolsonaro, candidato à
Presidência da República pelo PL, já
havia dito que um governo que chega a uma dívida de 81% do PIB é “gastador e
irresponsável”. E então, ele prometeu um “tesouraço” nos gastos públicos.
Só que, ao que tudo indica, Flávio Bolsonaro
não leu a nota completa do Banco Central, o BC, ou pelo menos não quis contar
tudo o que ela diz. O mesmo documento informou que o déficit primário de doze
meses é de 0,67% do PIB e que os juros
pagos no mesmo período somaram R$ 1,15 trilhão, ou 8,67% do PIB. A conta de
juros é 13 vezes maior que o resultado negativo das contas públicas, que
chamamos de resultado primário.
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Explicando de uma forma fácil: o resultado
primário é a diferença entre o que o governo arrecada menos o que ele gasta, e
é chamado de déficit quando é negativo. E esse déficit contribuiu muito menos
para o crescimento da dívida pública do que a taxa de juros, vinculada à taxa
Selic, que é definida com autonomia pelo Comitê de Política Monetária, o Copom,
um órgão do Banco Central.
Os números da dívida pública de um país são
grandes, e fica fácil manipular esses valores para despertar reações. É assim
que surgem alguns mitos muito difundidos sobre a dívida pública, como os que
vou listar.
1. O Brasil pode quebrar
Não pode. Não do jeito que a palavra sugere.
A analogia com o orçamento doméstico, tão querida do noticiário, falha num
ponto decisivo: o fato de que nenhuma família emite a moeda em que se endivida.
O Tesouro brasileiro, sim.
O Brasil quebrou na década de 1980, mas isso
quando o país devia em dólares, moeda que não emitimos. Durante o primeiro
mandato do Presidente Lula, de 2003 a 2006, liquidamos nossa dívida externa com
o Fundo Monetário Internacional, o FMI, e nos tornamos credores da instituição,
ou seja, passamos a contribuir para empréstimos a países em dificuldade.
Os números do Relatório Mensal da Dívida de
julho de 2026 mostram o seguinte: da Dívida Pública Federal de R$ 9,28
trilhões, apenas 3,65% tem qualquer indexação cambial. A dívida externa federal
é de US$ 67 bilhões, contra US$ 370 bilhões de reservas internacionais. O
Tesouro tem cinco vezes mais ativos em moeda forte do que passivos em moeda
forte.
O Brasil não quebrou e nem vai quebrar. A
nossa dívida pública é em moeda nacional, o governo brasileiro não deve em
dólar. Aliás, nenhum país quebra com dívidas na sua própria moeda.
2. A dívida brasileira é “altíssima”
A noção de “alta” e de “baixa” não existe no
abstrato. Se eu disser que acumulo uma dívida de R$ 10 mil, ninguém pode dizer
se isso é muito ou pouco, afinal, é preciso haver uma comparação com a minha
capacidade de pagamento.
Nesse sentido, de forma muito ardilosa, os
jornais da mídia hegemônica ficam alardeando o número cheio, e assustando os brasileiros com o fato de a dívida pública estar em quase RS 11
trilhões.
Acontece que os prazos de vencimento dos
títulos dessa dívida são variados, assim como ela foi adquirida ao longo de
muitas décadas. Dessa forma, nem seria apropriado tratar do tamanho da dívida
com relação ao PIB. Afinal, o montante da dívida é um estoque, e o PIB é uma
variável de fluxo, medindo o tamanho da economia apenas durante 12 meses.
Ainda assim, se insistirem que a métrica
dívida x PIB é a mais apropriada, também vale a pena mencionar que sempre se
utilizou o indicador de “Dívida Líquida” para medir a dívida de um país.
Curiosamente, o noticiário tem usado o
indicador de “Dívida Bruta”, para chegar ao montante de 82,5% do PIB. A dívida
bruta contabiliza os passivos do governo, mas sem descontar ativos, como as
reservas.
Mas se mesmo assim aceitarmos os termos do
debate, ou seja, que a dívida é “altíssima” e que já passa dos 80% do PIB, ou,
na metodologia do FMI, chegando a 96,5%, ainda assim esse dado pode ser
problematizado. Isso porque as maiores economias do mundo acumulam dívidas
sobre o PIB muito mais expressivas:
– Japão: 206,5%
– Itália: 138,4%
– Estados Unidos: 125,8%
– França: 118,4%
– Reino Unido: 103,6%
A média das economias avançadas é de 108,2%.
A do mundo, 95,3%. Os dados são de abril de 2026 e foram divulgados pelo
próprio FMI.
Se o nível da dívida explicasse o risco, o
rating seguiria essa mesma ordem, mas não segue. A nota de risco dada pela
agência Moody’s ao Japão (A1) é muito melhor do que a dada para o Brasil (Ba1),
mesmo que o Japão tenha um nível de dívida muito maior do que o Brasil.
O que separa esses países não é a aritmética
fiscal, é a posição de cada moeda na hierarquia monetária internacional.
3. A dívida sobe porque o governo “gasta
demais”
Este é o mito mais fácil de derrubar, porque
a série histórica brasileira já faz o trabalho sozinha.
Nos dois primeiros governos Lula, a despesa
primária federal subiu de 15,9% para 18,2% do PIB. E a dívida líquida caiu de
59,9% do PIB em 2002 para 38% em 2010. A dívida líquida despencou de 59,9% para
38,0%. Sei que é contra intuitivo, mas gastou-se muito mais, e a dívida
encolheu treze pontos.
Depois veio a Emenda Constitucional 95, o
teto de gastos, que congelou a despesa federal em termos reais a partir de
2017. O resultado foi uma dívida bruta que subiu de 69,8% do PIB,
no fim de 2016, para 74,4% em 2019. A austeridade foi constitucionalizada, e ao
contrário da sua “promessa”, o que ocorreu foi que a dívida cresceu quase cinco
pontos.
Hoje, a aritmética é ainda mais explícita.
Nos doze meses até julho de 2026 o Brasil registrou um déficit primário (ou
seja, a diferença negativa entre o que ele gastou e arrecadou) de R$ 89,3
bilhões e um gasto com juros de R$ 1,15 trilhão. Ou seja, 93% do déficit
nominal é serviço da dívida e uma parte ínfima é creditada aos gastos a mais do
governo.
Com 51,1% da Dívida Pública Federal indexada
à taxa Selic, a transmissão é quase imediata. Pelo cálculo do próprio Banco
Central em 2024, um ponto percentual a mais de juro, mantido por doze meses,
acrescentava cerca de R$ 50 bilhões ao estoque de dívida sem que se gaste um
centavo a mais com saúde, educação ou Bolsa Família.
4. Quando mais reduzir os gastos, mais a
dívida cai
Por que gastar mais reduziu a dívida e gastar
menos aumentou? Porque a relação dívida/PIB é uma fração, e o debate público só
olha o número de cima, esquecendo o denominador.
A variação da razão dívida/PIB depende do
resultado primário (diferença entre o que o governo gastou e arrecadou) e do
chamado efeito “bola de neve”, que é o diferencial entre a taxa de juros
(Selic) e o crescimento do PIB nominal, multiplicado pelo estoque da dívida.
Quando os juros crescem mais rápido que a
economia, a dívida cresce sozinha, mesmo sem gasto novo, e quanto maior o
estoque de dívida e os juros, mais rápido ela cresce. Quando a economia cresce
mais rápido que os juros, a dívida encolhe, independente dos gastos e
investimentos públicos.
‘Um governo que “retalha” os gastos sociais e
o investimento para “salvar a dívida” derruba o denominador, ou seja, o tamanho
do PIB, e frequentemente piora a dívida’.
Foi exatamente o que aconteceu entre 2003 e
2010, com o PIB crescendo 4,1% ao ano. Nesse período, houve aumento dos gastos
públicos e diminuição do tamanho da dívida. E é o que não acontece agora, com a
Selic a 14% e o PIB projetado em 1,9%.
Um governo que “retalha” os gastos sociais e
o investimento para “salvar a dívida” derruba o denominador, ou seja, o tamanho
do PIB, e frequentemente piora a dívida.
5. Qual é o limite?
A literatura econômica não tem esse número.
Não há um percentual a partir do qual o país quebra, e a história de por que
muito economista afirma existir é, no mínimo, constrangedora.
Em 2010, Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff –
economistas que atuaram no FMI – publicaram que países com dívida acima de 90%
do PIB cresciam, em média, −0,1% ao ano, ou seja, crescimento negativo. Só que,
em 2013, Thomas Herndon, então doutorando na Universidade de Massachusetts em
Amherst, pediu a planilha original e encontrou três problemas.
‘Não há um percentual a partir do qual o país
quebra, e a história de por que muito economista afirma existir é, no mínimo,
constrangedora’.
Uma fórmula de média que somava as linhas 30
a 44 em vez de 30 a 49, o que deixou cinco países inteiros de fora. A exclusão
silenciosa e uma mera “causalidade” que deixaram de fora os anos de alto
crescimento com dívida alta da Austrália, do Canadá e da Nova Zelândia no
pós-guerra. E uma ponderação que dava a um único ano ruim da Nova Zelândia o
mesmo peso de 19 anos do Reino Unido.
Este último é, para mim, o mais decisivo dos três problemas, mas foi o que
menos apareceu na cobertura, ofuscado por um “erro de Excel”.
‘O limite de endividamento público é
específico de cada país e nunca um número universal’.
Corrigidos os erros, o crescimento médio
acima de países com 90% de dívida não é −0,1% mas sim, de 2,2%.
Um trabalho publicado do próprio FMI, de
Pescatori, Sandri e Simon, concluiu em 2014 que não há “nenhuma evidência de um
limiar de dívida específico acima do qual as perspectivas de crescimento de
médio prazo sejam dramaticamente comprometidas” e que a trajetória da dívida
pode ser tão importante quanto o nível. Ou seja, o limite de endividamento
público é específico de cada país e nunca um número universal.
‘A pergunta certa, portanto, não deveria ser
“quanto é demais”, mas “a serviço de quem”‘.
Não existe, portanto, o patamar mágico a
partir do qual o Brasil vira Grécia, até porque a Grécia virou Grécia por dever
em euros, moeda que não emite. A pergunta certa, portanto, não deveria ser
“quanto é demais”, mas “a serviço de quem“. Quem insiste na primeira está,
quase sempre, evitando a segunda, ou pelo menos evitando dar nome aos
beneficiados, os credores da dívida pública brasileira.
• Não
há país que resista…Por Nuno Vasconcellos
Sem a mínima intenção de ignorar a troca de
acusações que, nos últimos dias, contaminou o debate institucional, esta coluna
tem procurado olhar em outra direção. Não se trata de negar a gravidade da
situação para a qual as autoridades empurraram o país — mas, sim, de chamar a
atenção para a necessidade de antecipar uma discussão obrigatória, que terá de
acontecer caso se pretenda pôr um ponto final na crise atual.
Qualquer que seja a solução para o forrobodó
que, neste momento, envolve os três poderes da República, a sociedade precisa
agir. E essa ação deve levar a um novo padrão de relacionamento com as
instituições. A sociedade precisa assumir o papel reservado a ela pela
Constituição e criar mecanismos capazes de conter os excessos das autoridades.
Simples assim.
Será preciso, desta vez, não se contentar com
as medidas improvisadas que têm sido apresentadas como solução para as crises.
É mandatório, por mais que pareça difícil, ir até o fundo na construção de um
novo modelo institucional — com regras e limites de atuação definidos,
divulgados e obedecidos por todos os servidores públicos, do primeiro ao último
escalão.
PRÁTICAS ANTIRREPUBLICANAS — A confusão que
chegou ao ponto em que chegou tem origem, em primeiro lugar, na luta pelo
controle do Estado. E, em segundo, na falta de critérios claros e transparentes
para o trato com o dinheiro público. Isso mesmo! A inexistência de mecanismos
eficazes de controle do acesso ao dinheiro público facilita a gatunagem que
está por trás de todas as crises. Ou o Brasil muda a maneira de lidar com o
dinheiro público ou terá dado o passo que falta para cair no abismo que tem à
sua frente.
Nas últimas semanas, esta coluna tem evitado
discutir a crise institucional e se ocupado do debate de temas como o déficit
público e a dívida federal. Este é o ponto. Independentemente de quem vença as
próximas eleições, o tema terá que ser trazido para o centro das preocupações
do Estado brasileiro a partir de 2027. Se a sociedade não tiver clareza sobre o
destino dos impostos, seu dinheiro continuará a alimentar as tenebrosas
transações que estão por trás de todos os escândalos. No entanto, pouca gente
liga para isso.
A lei que orientará os gastos públicos em
2027 foi apresentada na semana passada sem que o governo se desse ao trabalho
de debater as prioridades dos gastos. E há muito a ser debatido. Quer um
exemplo? Vamos lá! Um dos temas mais sensíveis no orçamento atual é o Bolsa
Família. No entanto, as decisões em torno do programa são tomadas sem que a
sociedade seja chamada a opinar sobre seu funcionamento.
EFEITOS COLATERAIS — O projeto de orçamento
prevê gastos de R$ 157 bilhões com o Bolsa Família. O valor é inferior ao que
constava da proposta de 2026, que previa quase R$ 159 bilhões para essa
finalidade e, também da de 2025, que estimava gastos de R$ 167 bilhões com o
programa. Se o programa é tão importante como diz o governo, onde foram parar
os R$ 10 bilhões a mais que eram destinados ao programa dois anos atrás?
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O Bolsa Família precisa ser discutido a fundo
e ter sua finalidade e seus limites definidos pela sociedade. O programa tem
origem nas políticas distributivas incipientes implantadas ainda no governo
Fernando Henrique Cardoso. Foi consolidado e ganhou o nome de Bolsa Família no
primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Mantido sob Dilma Rousseff e
Michel Temer, foi turbinado e rebatizado por Jair Bolsonaro. Ali, o “Auxílio
Brasil” foi essencial na mitigação dos efeitos da pandemia de Covid-19.
Tratado como obra do atual governo a partir
de 2023, o Bolsa Família passa por um momento delicado. De um lado, ninguém
discute sua necessidade nem seus efeitos sociais positivos. Do outro, são cada
vez mais evidentes alguns efeitos colaterais indesejáveis sobre o mercado de
trabalho brasileiro.
A preocupação em torno do Bolsa Família nem é
de natureza fiscal. Ela envolve uma consequência social que não foi prevista
quando o programa foi criado. Ao longo de 2026, ganhou força a queixa de
empresas, que relatam dificuldades para preencher vagas formais de trabalho e
apontam um problema que tem se tornado recorrente. Muita gente tem recusado
postos no mercado formal de trabalho com carteira assinada para não perder os
benefícios do programa.
O programa precisa ser discutido a fundo, sob
pena de criar uma situação que tende a se agravar. Discutir o alcance, os
limites e as regras de permanência no Bolsa Família é essencial para a melhoria
da qualidade do ambiente social. Mas isso só será possível e eficaz se houver a
possibilidade de tratar do assunto num ambiente que não esteja contaminado pela
crise institucional que toma conta do país.
Fonte: Por Juliane Furno, em The Intercept/O
Dia

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