Ondas de calor do El Niño podem agravar
sintomas de doenças neurológicas, dizem especialistas
As ondas de calor intensificadas pelo El Niño
— fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento das águas do oceano
Pacífico — podem piorar os sintomas da esclerose múltipla, as alterações
relacionadas à doença de Parkinson e a cognição em pessoas com demência.
O forte calor também favorece o AVC (acidente
vascular cerebral), as crises epilépticas e os episódios de confusão mental.
Segundo a Noaa (Administração Nacional
Oceânica e Atmosférica) dos Estados Unidos, o evento climático está em patamar
forte e deverá evoluir para muito forte (super El Niño) a partir deste mês.
Segundo Maurício Hoshino, neurologista do
Hospital Santa Catarina – Paulista, para pessoas com Parkinson, as altas
temperaturas levam a um cenário de maior risco. O calor extremo funciona como
uma sobrecarga cardiovascular. Em dias muito quentes, a pressão tende a cair e
os batimentos cardíacos aceleram.
Como o Parkinson já prejudica o controle fino
que o corpo faz da pressão arterial, o organismo não consegue se adaptar.
Esse controle é a capacidade do sistema
nervoso central de fazer microajustes automáticos e imediatos na força com que
o sangue corre pelas artérias. Podem ocorrer quedas bruscas de pressão,
tonturas, desmaios e piora acentuada no desequilíbrio e na mobilidade.
Na esclerose múltipla, o indivíduo tem
cicatrizes de lesões neurológicas inflamatórias de repetição causadas pela
própria doença. Embora o organismo consiga se recuperar, o tecido lesionado
permanece vulnerável.
Diante do forte calor, a cicatriz no sistema
nervoso sofre uma espécie de sobrecarga temporária, e os sintomas que já haviam
sido superados e reabilitados voltam a se manifestar na mesma região do corpo.
“Por exemplo, uma perna que havia melhorado
bastante começa a se arrastar de novo, ou um formigamento que volta. Fica a
preocupação: será que a doença está voltando? Não. A temperatura facilita que
você tenha sintomas dos quais já havia melhorado e recuperado, e você passa a
senti-los novamente. Não sabemos a causa para isso, mas acontece e é muito
comum”, explica Hoshino.
O calor extremo impacta, ainda, a saúde de
pacientes com Alzheimer e outras demências. As temperaturas altas podem causar
desidratação, o que agrava os quadros de confusão mental e acelera o declínio
cognitivo temporário. O problema é que muitos idosos com essas patologias têm
dificuldade para comunicar mal-estar ou pedir água. Assim, ficam mais expostos
aos efeitos térmicos.
O especialista em doenças autoimunes do
sistema nervoso Roger Santana de Araújo, neurologista da Clínica EVCiti, em São
Paulo, avalia que o cenário reflete no sistema de saúde, porque gera aumento
expressivo nas internações durante os meses mais quentes do ano.
“É bem relatado em alguns estudos que o calor
aumenta muito as internações, principalmente de quem tem Alzheimer. Eles ficam
mais confusos, desidratam com mais facilidade”, diz Araújo.
“Pacientes com demência já têm a reserva
encefálica baixa. Qualquer mudança de rotina e qualquer coisa que aconteça pode
piorar o comportamento, a memória, o andar, o como conversar. O calor também
está dentro dessa situação. É uma agressão ambiental, que muda a rotina e
secundariamente a cabeça fica pior”, explica Araújo.
O tempo quente causa a privação do sono, que
é um fator de risco para crises de epilepsia em pessoas propensas ou que já têm
a condição. “Principalmente porque é uma privação de sono crônica. Muitas
vezes, é a semana inteira que não se dorme bem por não ter uma temperatura mais
adequada no quarto ou até pelo barulho do ventilador”, comenta Hoshino.
O neurologista do Hospital Santa Catarina
argumenta que o sono inadequado, somado a um ambiente desconfortável, também
atua como um gatilho para quem sofre de enxaqueca.
O cérebro do paciente enxaquecoso é
hiper-responsivo a estímulos externos. Por essa razão, a exposição a ambientes
intensos — marcados por excesso de luz ou barulho — facilita o desencadeamento
das crises.
Quem é saudável também sofre com as
consequências das altas temperaturas, segundo o neurologista Roger Santana de
Araújo. O indivíduo fica mais lento e desatento e, portanto, mais propenso a
cometer erros.
O cansaço do corpo e da mente é outro efeito
nocivo dos dias muito quentes.
O forte calor é um gatilho para a síncope
vasovagal principal causa de desmaios que ocorrem devido a uma súbita diminuição da pressão arterial e
da frequência cardíaca, que a estimulação do nervo
vago desencadeia (décimo nervo craniano).
<><> O que fazer?
– Evite se expor ao sol, principalmente nos
períodos de maior temperatura
– Use roupas leves e adequadas à estação
– Hidrate-se
– Não espere a sede surgir
– Evite atividades físicas nos horários de
maior calor
– Mantenha os ambientes ventilados ou
climatizados
– Acompanhe a qualidade do ar em dias de
queimadas
Tontura, fraqueza, dor de cabeça, náuseas,
cãibras, palpitações, falta de ar e queda da pressão são sinais de que o
organismo pode estar em desequilíbrio com o calor.
Confusão mental aguda, sonolência excessiva,
convulsões, desmaio, dor de cabeça intensa e persistente, alteração da fala,
perda de força, dor no peito ou falta de ar importante exigem avaliação médica
imediata.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane,
associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção
da saúde.
Fonte: ICL Notícias

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