Crise do STF embalou 7 de setembro e vira
trunfo para Flávio Bolsonaro tentar recuperar força eleitoral
Em 2021, o então presidente Jair Bolsonaro
(PL) atacou diretamente o Supremo Tribunal Federal (STF) em um carro de som na
Avenida Paulista, em São Paulo.
Na ocasião, ele afirmou que não cumpriria
mais decisões de Alexandre de Moraes. "Ou esse ministro se enquadra ou ele
pede para sair", disse o ex-presidente, incitando apoiadores contra a
Corte.
Cinco anos depois, o ministro volta à pauta
das manifestações da direita. Nas convocações para o ato na Paulista nesta
segunda-feira (7/9), o mote é "Fora, Lula. Fora, Moraes".
As mensagens extraídas do celular de Daniel
Vorcaro, do Banco Master, e atribuídas a Moraes colocaram o STF em uma crise
sem precedentes. Reveladas a menos de uma semana do 7 de Setembro, no dia 1º de
setembro, elas também abriram uma oportunidade para a campanha de Flávio
Bolsonaro (PL).
O candidato do PL e Luiz Inácio Lula da Silva
(PT) estão praticamente empatados nas pesquisas de intenção de voto para o
segundo turno, com o herdeiro de Bolsonaro reconquistando o fôlego nas últimas
semanas, mostra o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.
A um mês do primeiro turno da eleição
presidencial, ambos os candidatos apareciam empatados nas simulações de segundo
turno, com 44% das intenções de voto cada, segundo as pesquisas divulgadas até
3 de setembro.
Assim que as mensagens de Vorcaro vieram à
tona, depois que o ministro André Mendonça retirou sigilo de um relatório da
Polícia Federal (PF), Flávio declarou que Moraes não tinha mais "condições
de permanecer no cargo".
O senador chamou as revelações de "muito
graves" e opinou que o ministro deveria renunciar ao cargo.
Já a bancada do PL anunciou um novo pedido de
impeachment de Moraes no Senado e cobrou investigação do ministro, de Andrei
Rodrigues, chefe da PF, e de Paulo Gonet, procurador-geral da República, também
implicados no episódio.
Duas horas antes do início da manifestação,
no lançamento de seu canal no YouTube com transmissão 24 horas, chamado de TV
Celular, Flávio convocou seus eleitores a irem à Paulista dizendo que os atos
são a "arrancada para a vitória".
"É um ato simbólico", disse.
"Se as pesquisas que sempre erraram contra a gente já estão dando empate,
você já sabe que a chance é grande, cada vez maior, de a gente vencer já no
primeiro turno."
Na transmissão, o candidato do PL também
reforçou o tom de crítica ao STF. "Minha campanha não deixa de ser uma
candidatura de protesto contra tudo o que está aí. Estão vendo como a mais alta
Corte do país, em especial um ministro do Supremo, toma as suas decisões?"
Nesta segunda, nomes como os candidatos ao
Senado Guilherme Derrite (PL-SP) e Michelle Bolsonaro (PL-DF), o governador de
São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), e o deputado federal Nikolas
Ferreira (PL-MG), que busca reeleição, são esperados no palanque na capital
paulista.
O pastor Silas Malafaia, organizador de
outros atos bolsonaristas no mesmo local, diz estar otimista. No WhatsApp, ele
tem dado munições para sua base quase diariamente, com vídeos argumentando
contra o Supremo e Moraes.
À BBC News Brasil, ele afirmou nunca dar uma
expectativa de número de uma manifestação, mas acredita que o ato deste 7 de
setembro será grande, "dada a revolta do povo com essa questão de
Alexandre de Moraes". Ele promete fazer no palanque seu discurso mais duro
contra o ministro.
"É um absurdo um cara jogar uma cortina
de fumaça em cima do André [Mendonça] pra escapar. Não vai ser brincadeira lá
não, vamos botar pra quebrar lá em cima de Alexandre de Moraes e do
Gonet."
Mas essa expectativa não é compartilhada
pelas cúpulas do Congresso Nacional. Segundo apuração do jornal Valor
Econômico, a aposta dos presidentes da Câmara e do Senado é de que o
bolsonarismo não será capaz de encher a Avenida Paulista — possivelmente fria e
chuvosa, em um feriado prolongado.
<><> O que Flávio ganha
eleitoralmente com a crise?
Na última quarta-feira (2/9), o deputado
Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, decidiu enfatizar a amizade de Lula
e Moraes, em conversa com jornalistas.
"Agora não adianta vir querer se
descolar do Moraes, como estão pensando fazer", disse. "Por que Lula
ainda não afastou o Andrei para que ele possa ser investigado? A confiança do
presidente Lula no Andrei, no Alexandre de Moraes, no Gonet é altamente
comprometedora."
De um lado, a oposição petista e de esquerda
tenta mostrar que quem está mais envolvido com o caso do Master é a direita e
correligionários do Flávio Bolsonaro, diz Lucas Gelape, professor do
Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG).
"Por outro lado, o candidato do PL tenta
colocar que é uma questão não só do STF e do PT de Jacques Wagner, mas que
também é uma coisa difusa no sistema político", continua.
Na sua avaliação, a crise da última semana
pode ter impacto para Lula, mesmo que seu nome propriamente dito não esteja
implicado no episódio.
"Mas aparece o nome de Andrei Rodrigues,
chefe da Polícia Federal no governo Lula; de Paulo Gonet, um PGR indicado pelo
governo Lula. Então pode ser que ele tenha um eventual dano colateral",
argumenta.
No seu principal ato de campanha até agora,
na Vila Euclides, Lula tentou retomar a imagem de que ele não é um candidato da
institucionalidade, mas que veio do sindicalismo.
"Lula tenta se colocar como alguém que
não é da elite brasileira, mas, depois de três mandatos na Presidência e de
todo um histórico na política institucional, é inevitável que o eleitor o
associe à institucionalidade política no Brasil quando essa mesma
institucionalidade é colocada em xeque."
Enquanto a crise pode atingir o petista,
Flávio tenta se desvencilhar dela, puxando a histórica pauta contra o Supremo
para o centro de sua campanha. "Se isso dará certo ou não, eu acho que é
uma das perguntas-chave dessa eleição", diz o professor da UFMG.
Para a cientista política Carolina Botelho,
pesquisadora do Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade
Mackenzie, ainda que cheio, o ato não deve provocar impacto fora da bolha
bolsonarista.
"Se a gente pensar bem, desde 2018, o
bolsonarismo trabalha para manter essa bolha, para criar essa coesão o tempo
todo. E eles têm sido muito bem-sucedidos nisso", diz.
"Mas a expectativa de trazer outras
pessoas, eu acho que é muito difícil. Quem não está nessa bolha de crença
bolsonarista dificilmente desassocia Flávio, a família e outras lideranças
bolsonaristas desses episódios envolvendo o Banco Master", analisa.
Luciana Santana, professora da Universidade
Federal de Alagoas (Ufal), enxerga um dilema, inclusive. "Quanto mais
radicalizado for o ato, provavelmente maior será sua capacidade de mobilizar o
núcleo bolsonarista; mas menor poderá ser sua capacidade de persuadir eleitores
moderados ou independentes", afirma.
Para ela, Flávio enfrenta um "problema
estratégico": a estratégia pode ainda afastar eleitores moderados.
"Ele precisa mobilizar a base sem
reproduzir integralmente o discurso de confronto institucional do pai. Por
isso, acredito que devemos observar no ato uma divisão de trabalho discursiva.
Lideranças como Silas Malafaia, Eduardo Bolsonaro e outros atores mais
identificados com a ala mobilizadora podem realizar os ataques mais
duros", avalia.
"Flávio tende a tentar ocupar uma
posição um pouco mais institucional: criticar Moraes, defender investigação,
eventualmente defender impeachment, mas simultaneamente afirmar respeito ao STF
enquanto instituição."
Há ainda um risco, afirma: a crise não é
totalmente favorável ao bolsonarismo.
A própria campanha eleitoral de Flávio saiu
arranhada depois do episódio do filme Dark Horse. Em maio, foi revelado que
Flávio pediu R$ 134 milhões a Vorcaro para financiar a produção em homenagem a
seu pai.
Na semana seguinte ao episódio, o candidato
do PL chegou a cair 4 pontos nas simulações de segundo turno, mostra o
agregador da BBC News Brasil. Mas o candidato tem ganhado novo fôlego nas
pesquisas novamente.
Por isso, diz a professora, quanto mais o
caso for explorado, maior a possibilidade de a discussão deixar de ser
exclusivamente "Moraes versus bolsonarismo" e passar a envolver uma
rede mais ampla de relações políticas.
Na semana passada, o candidato Augusto Cury
(Avante) ganhou força entre uma parcela dos eleitores que demonstra
descontentamento com a polarização.
Cury deu um salto nas pesquisas. Considerando
a média dos levantamentos publicados até o dia 3 de setembro por diversos
institutos, Cury ocupa o terceiro lugar da disputa, com 7% de intenção de voto
no primeiro turno.
Flávio, diz a professora, precisaria
conseguir combinar a identidade bolsonarista com um discurso menos ameaçador
para os eleitores independentes.
"Se prevalecer uma retórica
exclusivamente dirigida contra Moraes, o STF e o sistema político, é mais
provável que tenhamos uma poderosa demonstração de coesão da base do que uma
ampliação efetiva da coalizão eleitoral", finaliza.
<><> Berço para a direita
Há pelo menos uma década, desde os atos
pró-impeachment de Dilma Rousseff em 2016, a Avenida Paulista se consolidou
como um espaço de demonstração de força da direita brasileira.
E o 7 de Setembro, por sua vez, também se
tornou um palco relevante de mobilização política para este espectro político.
Historicamente, a data sempre foi marcada por
desfiles militares e celebrações cívicas. Movimentos populares da esquerda
também organizam anualmente, desde 1995, o Grito dos Excluídos — mas sem grande
atenção da imprensa.
Lucas Gelape diz que o Dia da Independência é
especialmente importante para o bolsonarismo porque uma das linhas deste campo
político é justamente o nacionalismo.
"É uma data muito simbólica, talvez de
maior ativação da base bolsonarista", afirma o analista.
"Durante o governo de Jair Bolsonaro,
era no dia 7 de Setembro que ele concentrava força. Ele dedicava esforços a
isso. Foram nessas manifestações que muitas vezes ele radicalizou o discurso
contra o Supremo Tribunal Federal."
A multidão de verde e amarelo, bandeiras
nacionais e lideranças reunidas em torno de um mesmo adversário produz
"uma imagem política muito poderosa" para o campo bolsonarista,
completa Luciana Santana.
"O bolsonarismo conseguiu associar parte
importante de sua identidade política a símbolos que pertencem originalmente ao
repertório nacional, como bandeira, hino, cores nacionais, patriotismo,
independência. Por isso, a data permite construir uma narrativa segundo a qual
aquele campo não estaria apenas defendendo um candidato ou partido, mas o
próprio país", afirma.
Já Carolina Botelho adiciona que as
manifestações se tornaram uma "caixa de ressonância" do bolsonarismo.
"Elas reforçam valores, integram mais o
grupo, criam mais coesão e mantêm não só viva essa mobilização desses
perfis", diz a pesquisadora.
"Mas também repercute o que, naquele
momento, o bolsonarismo gostaria de vocalizar e de passar para as pessoas,
mantendo fortes os laços e garantindo que o grupo se mantenha unido em torno da
família [Bolsonaro] e dos políticos que atuam junto com ele."
Foi em 2021, porém, que o Dia da
Independência ganhou centralidade para a direita bolsonarista.
Naquele ano, apoiadores do então presidente
tomaram as ruas com centenas de milhares de pessoas, em um ano pré-eleitoral. O
ato culminou com o ataque de Bolsonaro a Alexandre de Moraes.
Também naquela ocasião, a Corte foi
surpreendida pela invasão da Esplanada dos Ministérios na noite anterior, por
caminhões e manifestantes a pé, o que gerou fortes temores de que a sede do
Tribunal poderia ser depredada ou invadida.
"Para mim, é momento de maior
radicalização institucional do Bolsonaro. Interpelar um ministro do Supremo,
dessa forma, é algo raro, basicamente em qualquer democracia. E, transportando
isso para hoje, temos Alexandre de Moraes no centro do debate mais uma
vez."
Nas eleições de 2022, com o bicentenário da
Independência e em meio à campanha eleitoral, o evento funcionou como palanque
para candidaturas bolsonaristas na Avenida Paulista.
Em Brasília e no Rio, Bolsonaro participou
diretamente das comemorações. Depois, o TSE entendeu que ocorreu abuso de poder
político e econômico e declarou Bolsonaro e seu candidato a vice, Walter Braga
Netto, inelegíveis por oito anos em razão do episódio. Segundo o tribunal,
houve uma "fusão" entre o evento cívico oficial e o ato eleitoral.
"O bolsonarismo aprendeu o enorme
potencial eleitoral da data, mas também os riscos jurídicos de confundir
celebração estatal e campanha eleitoral", diz Luciana Santana.
Lucas Gelape afirma que explorar a nova crise
do STF neste 7 de setembro tem ao menos dois objetivos: dar ânimo à base
bolsonarista e fazer uma imagem foto de um ato de campanha mais cheio.
Considerado esvaziado, o primeiro ato de
campanha do Flávio Bolsonaro em Copacabana, em 16/08, reuniu 8,9 mil pessoas,
segundo um monitoramento da Universidade de São Paulo (USP).
reuniu 8,9 mil pessoas, segundo levantamento
"Foi pouco mobilizado em relação a
outros. E, no momento em que precisa demonstrar força, Flávio encontrou uma
chama para jogar na base dele", afirma Gelape.
O analista lembra que a importância de um
comício não é converter novos eleitores. "Não é que vai ter uma pessoa
andando na rua que vai ouvir um discurso e falar: 'Pô, vou votar nesse cara'.
Não é por isso que o comício é importante, mas porque você sinaliza para o
eleitorado que você é forte e tem chance de ganhar a eleição", explica.
Ele prevê que Flávio deve explorar ao máximo
esta crise política. "Digamos que ele ganhou o vento nas velas de seus
barcos para deixar esse ato do 7 de setembro mais forte."
Fonte: BBC News Brasil

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