Kit Antiautoritário: Como varrer a
ultradireita
Contar as histórias das pessoas, não ideias
abstratas. Comunicar por meio de emoções. Redefinir a polarização em torno de
valores, não de identidades. Não falar de política: melhor misturá-la com
outros conteúdos (cultura, estilos de vida, entretenimento, saúde). Construir
uma rede de influenciadores digitais. Não se limitar a desmentir a
desinformação. Esses são alguns dos antídotos incluídos no Kit Antiautoritário,
uma verdadeira caixa de ferramentas para derrotar os novos líderes
autoritários.
A caixa de ferramentas, recém-lançada pela
organização Democracy Hub (D-Hub), denuncia que políticos como Javier Milei,
Donald Trump, Jair Bolsonaro, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi ou o
húngaro Viktor Orbán não improvisam. “Eles mudam sua forma para se adaptar ao
lugar”, seguindo “os mesmos padrões e estratégias”. “Diante desse novo
fenômeno, vimos que havia muito diagnóstico (acadêmico, jornalístico). O que
faltava eram os antídotos. Nós colocamos o foco nisso, há lugares onde se
conseguiu freá-los”, afirma ao El Diario o argentino Agustín Frizzera,
coordenador do projeto. O projeto foi cozinhado ao longo de dois anos, a partir
de 130 entrevistas em 30 países e do estudo de 159 exemplos concretos. O kit
está repleto de casos de sucesso contra os novos autoritarismos. Na França,
atores democráticos trabalharam com influencers para mobilizar jovens
eleitores. Na Índia e no Brasil, usaram-se grupos de WhatsApp para organizar
voluntários e transformar apoio em ação.
O kit antiautoritário reúne 10 grandes
estratégias (reunidas em 10 manuais), 59 jogadas e 141 conselhos para
fortalecer a ação democrática. Entre elas, destacam-se jogadas narrativas, de
comunicação digital, de construção de movimentos sociais, de coordenação da
oposição e de mobilização eleitoral. Para evitar linguagens excessivamente
formais, o projeto apostou em formatos multimídia: manuais baixáveis em pdf,
podcasts e vídeos. Além disso, conta com uma wiki para leitura online em sete
idiomas (inglês, espanhol, francês, alemão, húngaro, português e chinês
mandarim simplificado).
<><> O manual autoritário
O Manual Autoritário — volume 1 da coleção,
capa preta — explora como líderes autoritários ganham popularidade, vencem
eleições e corroem instituições. A primeira jogada, Um novo estilo disruptivo,
revisa como esses líderes tentam “se distanciar da imagem dos políticos
tradicionais, desde o vocabulário até a vestimenta, modos e práticas”. Em uma
campanha ininterrupta, tudo gira em torno da personalidade de um grande líder
que compartilha sua intimidade para parecer mais humano (Modi fazendo ioga,
Donald Trump pedindo comida num McDonald’s, Eduardo Bolsonaro, filho do
ex-presidente brasileiro, compartilhando o parto de sua filha).
A frase “flood the zone with shit” (inunde a
zona com merda), pronunciada pelo ideólogo da extrema direita global Steven
Bannon, é uma de suas principais estratégias. Eles saturam a mídia com conteúdo
interminável — falso, exagerado ou descontextualizado — para criar confusão e
desviar a atenção. “Como nossos cérebros tendem a associar repetição com
veracidade”, alerta o manual, “eles usam seus canais para inundar o ecossistema
com histórias — verdadeiras ou falsas — para controlar a conversa”.
Cada jogada do manual conclui com conselhos
para combatê-la. Diante do Inunde a zona com desinformação, por exemplo,
recomenda-se não reagir sempre. “Já não estamos na era do fact checking
(verificação de fake news): quando desmentimos, chegamos tarde. O segredo é
antecipar-se e desmascarar a narrativa antes que ela se imponha”, afirma ao El
Diario a italiana Federica Vinci, da D-Hub.
<><> Comunicar com emoção
A jogada Ideias fortes, apelo emocional
disseca como os novos autoritarismos combinam ideias com emoções. O coquetel
emocional — uma mistura de medo, esperança, fúria e até empatia — reforça sua
mensagem. Enquanto as forças progressistas usam uma “comunicação excessivamente
técnica e pouco emocional que não conecta com a experiência cotidiana das
pessoas”, pondera Federica Vici, “a extrema direita consegue impor narrativas
simples e repetitivas”. Esse apelo emocional provoca uma resposta visceral e
fervorosa entre seus seguidores, algo que contrasta com a apatia dos
democratas. O manual detalha a campanha do presidente argentino Javier Milei,
repleta de alegria e entusiasmo. Milei desfilava num conversível, desdobrando
rituais, slogans, símbolos e objetos que serviam como metáforas. Com uma
motosserra e uma nota de dólar, sintetizava todos os problemas em um inimigo, o
banco central, a quem acusava de roubar todos os argentinos por meio da
inflação.
O manual 4, intitulado Narrativa, adverte que
fatos e argumentos racionais não bastam por si só. “As mensagens ressoam quando
dialogam às emoções reais das experiências cotidianas”. Um dos conselhos
narrativos consiste em não contar, mas mostrar. “Ideias ninguém escuta, se
antes não forem tornadas visíveis. Símbolos, metáforas, imagens concretas. A
política que se vê, se entende e se compartilha”, argumenta Agustín Frizzera.
Além disso, convém fazê-lo com humor. “O humor quebra o medo, desarma a épica autoritária
e expõe o ridículo do poder”, completa Frizzera. Por outro lado, a pesquisa
revelou que a extrema direita usa em toda parte apenas doze temas para
alimentar suas teorias da conspiração: corrupção, aborto, comunismo,
perseguição religiosa, ideologia de gênero, drogas, impunidade, doutrinação nas
escolas, regulação da mídia, invasão da propriedade e invasão da privacidade.
Federica Vici alerta que o erro é responder com complexidade demais: “As forças
democráticas devem simplificar, unificar a mensagem e voltar a falar do que
realmente importa — custo de vida, aluguéis, inflação — com propostas claras”.
<><> Influencer chefe
O kit descreve em detalhe como a extrema
direita construiu um sofisticado ecossistema de comunicação digital. Os líderes
se comportam como “influencers chefes”. Por exemplo, Nayib Bukele, presidente
de El Salvador, replica diariamente mensagens de seus seguidores na rede social
X, ajudando-os a monetizar seus perfis. O volume 2, Comunicação digital, é
dedicado a como criar um novo ecossistema de comunicação descentralizado. Uma
de suas principais jogadas é construir uma rede de influencers. O brasileiro
Pedro Telles, diretor de programas da D-Hub, confessa ao El Diario que parte do
sucesso do bolsonarismo residiu em seu ecossistema de comunicação: “Você abre o
WhatsApp e no grupo da família aparece uma mensagem do seu tio que chegou de um
grupo extremista. Aí, você liga o rádio ou um podcast indo para o trabalho e
escuta alguém falando algo parecido. Depois, almoçando com a galera do
trabalho, alguém te conta a mesma coisa porque ouviu de um influencer…”.
A grande estratégia do manual: Colocar
brócolis no arroz”. O “arroz” é o conteúdo que naturalmente atrai a atenção. O
“brócolis” é a mensagem política que queremos transmitir. “Inserir conteúdo
político em formatos que as pessoas já consomem e apreciam. Não forçar a
conversa: misturá-la com cultura, entretenimento e vida cotidiana”, pondera
Agustín Frizzera.
<><> Construir movimento,
conseguir votos
O volume 3 é dedicado à promoção do voto.
Pedro Telles destaca o papel que a sociedade civil organizada teve na derrota
de Jair Bolsonaro em 2022: “O maior exemplo foi o Pacto pela Democracia, que
une mais de duzentas organizações. Foi a própria sociedade civil quem convocou
as pessoas a irem votar, especialmente os jovens”. O volume é baseado em
exemplos de sucessos como You can vote (Estados Unidos), Meu primeiro voto
(Brasil) ou French civil society campaigners (França), entre outros.
O volume 5 é dedicado à Coordenação da
oposição, porque “derrotar o autoritarismo exige estrutura, colaboração e
propósito compartilhado”. O melhor caso de sucesso da coordenação da oposição,
segundo Pedro Telles, foi o de Lula da Silva na campanha de 2022. “O principal
símbolo disso foi o convite de Lula a Geraldo Alckmin (político conservador)
para ser vice-presidente e construir uma frente ampla, tanto nos partidos
políticos quanto na sociedade civil”, pondera Telles.
O volume 6 é focado na Construção de
movimentos, já que em contextos polarizados, os partidos frequentemente
aprofundam a divisão. Os movimentos devem, segundo o kit, “redefinir a
polarização em torno de valores, não de identidades partidárias”. Instituições
& Espaço Cívico, Apoio internacional e Liderança também já foram lançados.
O Manual Democrático, cujo podcast já está disponível, foi lançado julho. Com
capa branca, reune as jogadas mais eficazes de todo o kit para contra-atacar.
“Jogadas”, usando palavras da D-Hub, “que chegam às pessoas não apenas pela
razão, mas pela emoção; não apenas por discursos, mas por histórias; não apenas
nas eleições, mas na vida cotidiana”. Todas as jogadas do kit antiautoritário,
conclui Frizzera, apontam para o mesmo: “sair do modo reativo, reconectar com
como as pessoas vivem e consomem política hoje, não para ‘ter razão’, mas para
construir poder de verdade”.
Fonte: Por Bernardo Gutierrez, em Outras
Palavras

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