Guerra no Supremo expõe crise moral e
institucional
Há uma guerra no Supremo Tribunal Federal
(STF). E não se trata mais de uma divergência doutrinária entre ministros ou de
interpretações distintas da Constituição. O que veio à tona com as
investigações sobre o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, atingiu o
coração da mais alta Corte do país. São fatos, indícios e acusações de tal
gravidade que precisam ser tratados sem precipitação, mas também sem
corporativismo.
O presidente do STF, Edson Fachin, deu cinco
dias úteis para que Alexandre de Moraes, André Mendonça, o procurador-geral da
República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues,
prestem esclarecimentos.
No centro desse terremoto está a relação
entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Documentos revelados pela
investigação mostram que Moraes analisou a minuta do contrato celebrado entre o
Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de
Moraes.
O contrato previa honorários da ordem de R$
131 milhões em três anos. Os metadados do documento indicariam a participação
de Moraes em sua edição.
O escritório sustenta que o ministro foi
consultado apenas para verificar a existência de eventuais impedimentos legais
e afirma que os serviços contratados foram efetivamente prestados.
Mas não é apenas o valor extraordinário do
contrato que causa perplexidade. Segundo as informações reveladas pela
investigação, o escritório de Viviane Barci de Moraes recebeu cerca de R$ 80
milhões do Banco Master durante a relação contratual.
Estamos falando de dezenas de milhões de
reais pagos pelo banco de Daniel Vorcaro ao escritório da esposa de um ministro
do Supremo que mantinha contatos pessoais com o banqueiro.
É uma soma que, por sua magnitude e pelas
circunstâncias em que aparece, exige explicações cabais. Um contrato de R$ 131
milhões já é, por si só, extraordinário; o pagamento efetivo de cerca de R$ 80
milhões torna ainda mais urgente esclarecer exatamente quais serviços foram
prestados, em que condições e se houve qualquer conflito de interesses.
A perplexidade aumenta diante das mensagens
encontradas no celular de Vorcaro. Segundo o material atribuído ao banqueiro,
havia contatos e uma relação de intimidade com Moraes enquanto o Master
enfrentava dificuldades e estava sob investigação. Na véspera de ser preso no
aeroporto, quando tentava embarcar para Dubai, Vorcaro demonstrava preocupação
com as medidas que poderiam ser tomadas contra ele e seu banco e procurava
saber se haveria alguma possibilidade de impedir ou adiar o que estava por
acontecer.
É uma proximidade que, no mínimo, exige
explicações convincentes. Quando um banqueiro investigado mantém acesso pessoal
a um ministro do Supremo enquanto o escritório da esposa desse ministro recebe
dezenas de milhões de reais de seu banco, surge inevitavelmente uma questão
ética. A Justiça não pode apenas ser imparcial. Precisa também parecer
imparcial aos olhos da sociedade.
A gravidade das revelações levou O Estado de
S. Paulo a assumir posição excepcionalmente dura. Em manchete e editorial, o
jornal defendeu que Moraes deve sair do Supremo, diante das evidências que
considera comprometedoras sobre sua relação com Vorcaro. É significativo que um
dos principais jornais do país chegue ao ponto de defender publicamente a saída
de um ministro da Suprema Corte.
Sem tremer nem vacilar, Alexandre de Moraes é
o “Filho do Século” do Estado brasileiro
Não precisamos simplesmente reproduzir a
sentença editorial do Estadão. Mas não podemos ignorar o significado político e
institucional dessa manifestação. O conjunto das evidências conhecidas revela,
no mínimo, uma proximidade imprópria entre um ministro da mais alta Corte e um
banqueiro que buscava proteção diante das investigações.
Se essa relação configura crime — corrupção
ativa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro ou qualquer outro ilícito —,
somente uma investigação regular poderá estabelecer. Não cabe a nós antecipar
uma condenação. Mas a questão ética já está colocada diante da sociedade.
E a crise não para em Alexandre de Moraes.
André Mendonça, relator das investigações sobre o Master, também passou a ser
questionado pela maneira como conduziu a apuração. Moraes encaminhou pedido
para que sua atuação fosse investigada.
Mendonça, por sua vez, tornou público o
relatório e defende que os novos elementos sejam examinados pelo plenário do
STF, em sessão pública e transparente. A Procuradoria-Geral da República
questiona procedimentos adotados na investigação e pede o arquivamento de parte
das apurações.
Também surgiram questionamentos envolvendo
instituição educacional ligada a André Mendonça e sua esposa e contratos
milionários com recursos públicos. São fatos que igualmente precisam ser
esclarecidos, sem prejulgamento. Quando suspeitas alcançam diferentes
integrantes das instituições encarregadas justamente de fiscalizar, investigar
e julgar, a resposta não pode ser o silêncio.
Estamos diante de uma situação
extraordinária: ministros da Suprema Corte questionando procedimentos e
condutas uns dos outros, enquanto o procurador-geral da República e a Polícia
Federal também aparecem no centro da controvérsia. A crise ultrapassou as
pessoas envolvidas. É a própria credibilidade das instituições que está em
jogo.
Dois pedidos de impeachment de Alexandre de
Moraes já foram protocolados no Senado, um deles com apoio de dezenas de
parlamentares da oposição. Candidatos à Presidência também passaram a falar em
impeachment ou renúncia. A crise, portanto, inevitavelmente entrou na disputa
política e eleitoral. Isso torna ainda mais necessária uma apuração
institucional capaz de separar os fatos da exploração partidária do episódio.
Não cabe ao presidente Lula salvar ministro
algum. O Executivo não pode transformar uma crise do Judiciário numa questão de
proteção política. Lula ainda não assumiu publicamente uma posição sobre o
mérito das acusações, embora tenha se reunido com Fachin em meio à crise.
Não há razão para proteger quem quer que
seja. Se existem indícios contra integrantes do Supremo, eles devem ser
investigados exatamente como seriam investigados se envolvessem qualquer outra
autoridade da República.
Fachin estabeleceu corretamente o princípio
que deve orientar a solução dessa crise: “a elevada autoridade do cargo não
confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades”. É
exatamente isso. Defender o Supremo não significa defender individualmente seus
ministros.
A instituição é muito maior do que qualquer
um de seus onze integrantes. O STF teve papel fundamental na defesa da ordem
constitucional diante das ameaças golpistas dos últimos anos. Mas esse papel
não concede aos ministros imunidade ética. Ao contrário: quanto maior o poder,
maior deve ser a responsabilidade.
Se os fatos demonstrarem que não houve
irregularidades, isso precisa ficar estabelecido publicamente. Se demonstrarem
a existência de ilícitos, deve haver responsabilização, seja quem for o
envolvido. Não pode existir uma Justiça para os cidadãos comuns e outra para
aqueles que ocupam os postos mais elevados da República.
Esta crise torna ainda mais urgente uma
iniciativa que o próprio Fachin vem defendendo: a criação de um Código de Ética
para o Supremo Tribunal Federal. É inconcebível que uma instituição com tamanho
poder sobre a vida política, econômica e institucional do país não possua
regras suficientemente claras sobre conflitos de interesses, relações de
ministros e seus familiares com grandes grupos econômicos, presentes, viagens,
encontros privados, atividades externas, impedimentos e suspeições.
Um Código de Ética não diminui a
independência dos ministros. Ao contrário, protege essa independência.
Estabelece limites conhecidos por todos e impede que relações pessoais,
familiares ou econômicas lancem dúvidas sobre decisões judiciais.
O Supremo não pode continuar funcionando como
se nada estivesse acontecendo. A crise existe e é profunda. Fachin tem agora a
responsabilidade histórica de conduzir sua apuração com absoluta transparência,
inclusive levando ao plenário aquilo que precisar ser decidido pelo conjunto da
Corte.
A sociedade brasileira precisa saber
exatamente o que aconteceu. Porque preservar o Supremo não é esconder suas
feridas, mas enfrentá-las. Não pode haver intocáveis na República. Nem
banqueiros. Nem procuradores. Nem ministros do Supremo.
• Fachin
diz que meta é acabar com Inquérito das Fake News e manda tirar acusações
contra Mendonça da investigação
O presidente do Supremo Tribunal Federal
(STF), ministro Edson Fachin, determinou que a Procuradoria-Geral da República
(PGR) se manifeste em até cinco dias úteis sobre o pedido de investigação feito
pelo ministro Alexandre de Moraes contra o ministro André Mendonça, ambos do
Supremo.
Na determinação, expedida nesta sexta-feira
(4/9), Fachin também retirou a análise do caso do Inquérito das Fake News, cuja
relatoria é de Moraes.
O presidente do Supremo também concedeu prazo
de cinco dias para que Mendonça, caso queira, se manifeste.
Horas depois, Fachin falou ao lado do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao participar de uma cerimônia no Palácio
do Planalto relacionada a fundos de financiamento do sistema de Justiça.
No discurso, o presidente da Corte disse que
a crise atual no tribunal reforça a necessidade de encerrar o Inquérito das
Fake News, criado em 2019 e renovado desde então, sob críticas de especialistas
"Os acontecimentos recentes demonstram o
acerto e a urgência de três metas da nossa gestão: a adoção de um Código de
Ética, o fim do Inquérito das Fake News, e a modernização do sistema de
Justiça".
Fachin também disse que "nenhuma
autoridade está acima da Constituição, nenhuma autoridade está acima da
lei". E prometeu resposta rigorosa para a crise, mas sem precipitação.
"A gravidade dos fatos não autoriza
atalhos. Ao contrário, quanto maior o desafio, maior deve ser o compromisso com
a legalidade, com o devido processo e as garantias constitucionais. Não haverá
precipitação, mas tampouco omissão. A resposta institucional será firme,
proporcional e rigorosa".
As medidas e falas do presidente da Corte
nesta sexta são mais um capítulo da crise sem precedentes instaurada no STF,
com uma "guerra" aberta entre os ministros Mendonça e Moraes.
Na quinta-feira, Moraes havia expedido um
despacho no âmbito do Inquérito das Fake News acusando Mendonça de, "em
tese", ter cometido improbidade administrativa, crimes de responsabilidade
e de abuso de autoridade, com quebra da "imparcialidade judicial" e
"favorecimento a determinados grupos políticos".
Segundo Moraes, que usou relatórios da
inteligência da Polícia Federal (PF) para as acusações, Mendonça teria cometido
tais crimes ao atuar como relator dos casos do escândalo do INSS
("Operações Sem Desconto") e do Banco Master ("Operação
Compliance Zero").
O despacho e os documentos citados foram
enviados a Fachin, pedindo que ele tome "as providências que entender
necessárias".
<><> Pedido de esclarecimento
sobre Moraes-Vorcaro
O movimento de Moraes veio dois dias depois
de Mendonça decidir retirar o sigilo do relatório da PF sobre mensagens
trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro, preso no escândalo do Banco Master,
e um contato salvo em seu celular com o nome de Alexandre de Moraes.
As investigações da PF reveladas apontaram
uma suposta relação muito próxima entre o banqueiro e Moraes, além de encontros
entre eles.
Fachin já havia solicitado, na quinta-feira
(3/9), esclarecimentos a Moraes e Mendonça, além do Procurador-Geral da
República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei
Rodrigues, sobre esse material.
No relatório também aparecem mensagens que
mostram uma suposta proximidade do banqueiro com Paulo Gonet.
A BBC News Brasil mostrou que o número de
telefone atribuído pela PF a Alexandre de Moraes também está associado a contas
digitais identificadas com o nome do ministro.
Os diálogos mostram que o banqueiro cobrava
atenção especial aos pagamentos do contrato de R$ 131 milhões firmado entre o
Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de
Moraes, mulher do ministro.
Até o momento, não houve nenhuma manifestação
oficial ou extraoficial de Alexandre de Moraes sobre o assunto.
O escritório de Viviane Barci nega qualquer
irregularidade no contrato e diz que Moraes "jamais julgou qualquer causa
envolvendo o Banco Master".
Após a revelação do conteúdo do inquérito,
Paulo Gonet pediu que o ministro André Mendonça declarasse nula a decisão que
levou a PF a produzir o relatório.
Na manifestação, expedida ainda na
terça-feira, Gonet afirmou que a investigação determinada por Mendonça
extrapolou os limites da atuação de um magistrado na chamada fase
pré-processual.
O procurador-geral da República também
sustentou que o próprio STF deveria ser responsável por decidir sobre uma
eventual investigação de um de seus ministros.
Para Gonet, Mendonça determinou a
investigação sabendo que, entre as pessoas mencionadas, havia autoridades com
foro por prerrogativa de função, entre elas, Moraes, haja vista que o nome do
ministro já havia aparecido em informes policiais e Mendonça já sabia quais
dados seriam analisados pela PF.
<><> Os próximos passos de Fachin
na crise
Agora, Fachin tem em mãos acusações cruzadas
dos dois ministros para decidir qual caminho seguir. A expectativa é que ele
leve o caso para o plenário do STF, ou seja, para a análise de todos os
ministros da Corte. Não há data desta sessão, mas deve acontecer apenas após
encerrado os prazos que ele deu para os esclarecimentos dos envolvidos.
Na avaliação de Thiago Bottino, professor da
FGV Direito Rio, Fachin tem atuado de forma adequada diante das circunstâncias.
"Fachin está numa situação que nenhum outro presidente do STF precisou
enfrentar", analisa.
O professor afirma que a estranheza causada
pela postura mais moderadora do presidente do tribunal revela uma mudança de
perspectiva sobre o papel dos ministros da Corte.
"A gente está tão acostumado que a gente
normalizou tanto essa figura do juiz 'todo poderoso', sem restrições, que
quando a gente vê o Fachin agindo quase como um árbitro ao invés de um player
principal, a gente acha estranho", completa.
"Mas o papel do juiz é ser árbitro, não
ter lado em causa nenhuma. Acho que o mais importante é tentar ressignificar o
papel do juiz no Estado Democrático Direito", afirma.
<><> O que é o Inquérito das Fake
News
O inquérito das Fake News foi aberto em 2019,
à revelia do Ministério Público, por determinação do então presidente do STF,
Dias Toffoli, que escolheu Moraes como relator.
A justificativa foi apurar ataques contra
ministros da Corte e ataques à democracia, usando como fundamento uma
interpretação alargada do regimento interno do STF, que possibilita a abertura
da inquéritos de ofício, ou seja, por decisão do próprio tribunal, quando o
crime ocorre dentro do Tribunal.
As críticas à abertura da investigação se
aprofundaram ao longo dos anos quando o inquérito das Fake News passou abarcar
diferentes investigações, desde fraudes em cartões de vacinação de autoridades
do governo Jair Bolsonaro aos ataques do 8 de janeiro.
O professor Bottino diz que há muito tempo o
Inquérito das Fake News já teria extrapolado seus limites."Se esse
inquérito existe até hoje, não é responsabilidade só do Alexandre Moraes. É do
plenário que ratificou a possibilidade de ter um inquérito existindo mesmo
contra a vontade do Ministério Público", critica.
Fonte: Por Paulo Cannabrava Filho, em
Diálogos do Sul Global/BBC News Brasil

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