Os alertas vermelhos na campanha de Lula e as
armas que ele quer usar
A primeira metade da campanha eleitoral quase
acabou e, até o momento, o saldo parece ser negativo para o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT).
No primeiro dia da campanha, quando Lula
realizou um ato em São Bernardo do Campo (SP) tentando resgatar a sua história
de líder metalúrgico no ABC, a estratégia era conquistar apoio, avançar com
pautas positivas para o governo e, assim, navegar com uma certa distância de
seu principal rival para chegar ao segundo turno com fôlego.
Naquele dia, 16 de agosto, Lula estava
numericamente a frente de seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ), segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, no cenário para
segundo turno.
Ele aparecia com 45% e Flávio com 43%. Agora,
os dois aparecem empatados numericamente com 44%.
A campanha de Lula via nesta semana a
possibilidade de um alívio após dias de pressão pela divulgação de trechos de
investigações sobre o filho mais velho do presidente, Fábio Luiz Lula da Silva,
o Lulinha.
A aposta era de que a semana pudesse entregar
algum alívio no noticiário com a aprovação de pautas positivas para o governo
como o fim da taxa das blusinhas e a aprovação do projeto do fim da escala 6x1.
Mas a crise instalada no Supremo Tribunal
Federal (STF), que tem como pano de fundo o escândalo do Banco Master,
atrapalhou, para dizer o mínimo, os planos para que a campanha do petista
decolasse.
<><> Crise no Supremo
A avaliação de uma fonte próxima à campanha
consultada pela BBC News Brasil é que a crise na qual o Supremo mergulhou pode
respingar em Lula, devido ao sentimento antisistema que pode ficar ainda mais
latente agora.
Às vésperas da eleição, o efeito "contra
tudo isso que está aí" pode contaminar a candidatura do petista, afirmou a
fonte, que pediu para não ter o nome divulgado.
Além disso, o ministro Alexandre de Moraes,
do STF, é visto pela opinião pública como alguém próximo a Lula. Seu suposto
envolvimento e proximidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, segundo apontaram as
investigações da Polícia Federal tornadas públicas nesta semana, podem causar
impacto na imagem de Lula.
Na visão do interlocutor, desgastar Moraes
pode respingar no presidente pelo simples fato de o ministro ser visto como
alguém alinhado ao petista.
De olho nos possíveis desdobramentos, Lula
foi às redes sociais, na quinta-feira (3/9), dizer que "diante da
gravidade do momento, o povo brasileiro espera que o presidente da Suprema
Corte e a Procuradoria-Geral da República liderem um processo que garanta a
integridade e a confiança nas investigações."
Sem mencionar nomes, disse que "nossa
democracia não pode ficar refém de vazamentos seletivos."
"Fica claro que nossos sistemas político
e judiciário precisam de reformas profundas. É fundamental que se investigue
todo mundo, sem blindagem de ninguém, doa a quem doer", disse Lula.
O estopim da crise foi a retirada de sigilo
de um relatório da Polícia Federal (PF) que aponta que o banqueiro Daniel
Vorcaro, preso desde março, trocava mensagens com um contato atribuído a
Alexandre de Moraes. A decisão por tornar público o inquérito foi do relator do
caso, o ministro André Mendonça.
A BBC News Brasil mostrou que o número de
telefone atribuído pela PF a Alexandre de Moraes também está associado a contas
digitais identificadas com o nome do ministro.
Nas conversas, o banqueiro pede conselhos a
Moraes e até a intervenção do ministro a seu favor junto ao diretor da PF,
Andrei Neto, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Os diálogos também mostram que o banqueiro
cobrava atenção especial aos pagamentos do contrato de R$ 131 milhões firmado
entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane
Barci de Moraes, mulher do ministro.
O escritório nega irregularidades no
contrato. Moraes ainda não se manifestou sobre o caso, mas reagiu na Corte:
enviou um despacho no âmbito do Inquérito das Fake News acusando Mendonça de,
"em tese", ter cometido improbidade administrativa, crimes de
responsabilidade e de abuso de autoridade, com quebra da "imparcialidade
judicial" e "favorecimento a determinados grupos políticos".
Segundo Moraes, que usou relatórios da
inteligência da PF para as acusações, Mendonça teria cometido tais crimes ao
atuar como relator dos casos do escândalo do INSS (Operações Sem Desconto) e do
Banco Master (Operação Compliance Zero).
O despacho e os documentos citados foram
enviados ao presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, pedindo que ele tome
"as providências que entender necessárias".
Em meio ao fogo cruzado, Fachin precisou se
posicionar. Na sexta-feira (4/9), o ministro fez um pronunciamento ao lado de
Lula, durante uma cerimônia no Palácio do Planalto relacionada a fundos de
financiamento do sistema de Justiça.
No discurso, Fachin afirmou que a crise atual
no tribunal reforça a necessidade de encerrar o Inquérito das Fake News. Criado
em 2019, o inquérito é de relatoria de Moraes e é renovado desde então, sob
críticas de especialistas.
O inquérito se tornou uma das principais
frentes de investigação do STF contra ataques às instituições e a disseminação
de desinformação, atingindo políticos e ativistas ligados ao bolsonarismo.
"Os acontecimentos recentes demonstram o
acerto e a urgência de três metas da nossa gestão: a adoção de um Código de
Ética, o fim do Inquérito das Fake News, e a modernização do sistema de
Justiça."
Fachin também disse que "nenhuma
autoridade está acima da Constituição, nenhuma autoridade está acima da
lei". E prometeu resposta rigorosa para a crise, mas sem precipitação.
A crise, segundo fonte consultada pela BBC,
também leva para longe uma munição valiosa para a campanha de Lula: o caso Dark
Horse, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). As investigações sobre
Vorcaro mostraram que o banqueiro deu dinheiro, a pedido de Flávio, para,
supostamente, financiar o longa.
O senador nega ter praticado qualquer
irregularidade e disse que a relação com o dono do Banco Master era meramente
comercial. Segundo o parlamentar, ele estaria apenas cobrando parcelas
atrasadas de um pagamento prometido pelo banqueiro ao filme.
Para o interlocutor petista, os holofotes
sobre os ministros do Supremo afastam o debate sobre uma suposta relação de
Flávio com o banqueiro.
Além disso, segundo ele, a situação coloca
Lula em uma posição politicamente difícil. Embora, internamente, Moraes não
seja tratado como um aliado, há um entendimento de que Lula deverá calcular com
cuidado o quanto se distancia de um ministro até então bastante poderoso no
STF.
A ideia é que esse distanciamento sirva para
"blindar" Lula por um lado, mas não cause ruídos na relação do
presidente com o ministro.
<><> Dependência do Congresso
A crise instalada no Supremo "sequestrou
o debate público", avalia o interlocutor, e pode ainda atrapalhar o avanço
ou o impacto de projetos que o Planalto previa aprovar no Congresso na reta
final de campanha, como o fm da escala 6x1.
Desde o início do ano, o governo vem tentando
atrair novos eleitores lançando mão de políticas para estimular a economia. Na
cesta de Lula, entraram em vigor a redução do imposto de renda para a classe
média, a linha de crédito para entregadores e a nova versão do Desenrola para a
negociação de dívidas.
Além disso, programas sociais, como o Gás do
Povo e Luz do Povo, foram turbinados.
Nada disso, no entanto, deu fôlego para
levantar significativamente a avaliação positiva do presidente. Do início do
ano para cá, a aprovação de seu governo passou de 45% no início de fevereiro
para os atuais 47%, segundo o Datafolha. Metade (50%) dos entrevistados
desaprova a gestão do petista.
Segundo o agregador de pesquisas da BBC News
Brasil, essa letargia também se reflete nas intenções de voto. Embora tenham
mudado um pouco ao longo do caminho, os números de janeiro são praticamente os
mesmos de agora, tanto no primeiro quanto no segundo turno.
Em janeiro, Lula tinha 39% das intenções de
voto no primeiro turno e 46% no segundo. Hoje tem 38% e 45%, respectivamente.
Para Luciana Santana, cientista política e
professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), os números refletem a
cristalização do eleitorado. "Não é nem polarização, é cristalização,
porque um terço dos eleitores votam em Lula de qualquer jeito e rejeitam
qualquer coisa vinda do bolsonarismo, e um terço vota em Flávio e rejeita
qualquer coisa da esquerda", afirma.
"Lula não tem conseguido nenhum projeto,
programa ou proposta até agora que mude esse cenário", afirma . "Pode
ser que, com a aprovação do fim da escala 6x1, isso mude um pouco o
curso."
Nesta semana, a PEC que acaba com a jornada
6x1 foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, depois
de passar meses travada na Casa. O projeto andou depois que Lula conseguiu se
reaproximar do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), após um
período de estremecimento.
Alcolumbre destravou também a MP da taxa das
blusinhas e a política nacional para minerais críticos e estratégicos, ambos
aprovados na quinta-feira.
No entanto, o fim da escala 6x1, considerado
a maior vitrine para a campanha petista, ainda precisa passar em dois turnos no
plenário do Senado. A expectativa era que a primeira votação ocorresse já na
quinta, após apovada na Comissão, em caráter de urgência, mas isso não
aconteceu.
<><> Eleitor de São Paulo
A campanha do presidente também deve
intensificar as agendas de rua em São Paulo, no interior e na capital. É sabido
que o petista precisa ter melhor aceitação no Sudeste, região onde, juntamente
com o Sul, ele encontra maior rejeição, segundo as pesquisas.
Rio de Janeiro e Minas Gerais também estão no
alvo da agenda petista, segundo a reportagem apurou. Juntos, esses três estados
respondem por mais de 40% do eleitorado.
Segundo pesquisa Datafolha divulgada na
semana passada, Flávio Bolsonaro tem ligeira vantagem sobre Lula tanto no
primeiro quanto no segundo turno entre os paulistas. Por isso, a campanha terá
"foco total" em São Paulo, segundo a reportagem apurou.
A agenda da campanha confirma essa
informação: neste sábado (5/9), o PT realiza ato em São José do Rio Preto (SP),
com Lula, o vice-presidente, Geraldo Alckmin, e o candidato ao governo de São
Paulo, Fernando Haddad.
<><> Efeito Lulinha
Nas últimas semanas, trechos dos três
inquéritos que investigam Fábio Luís Lula da Silva, um dos filhos do
presidente, foram publicados pela imprensa. Dentre eles, mensagens trocadas
entre ele e a lobista Roberta Luchsinger.
Lulinha é alvo de três inquéritos abertos em
menos de uma semana, todos entre 30 de julho e 4 de agosto. As investigações
apuram um suposto tráfico de influência em favor de empresas interessadas em
obter contratos com o governo federal.
A PF quer saber, por exemplo, se Lulinha se
associou à lobista e usou o fato de ser filho do presidente para ajudar,
indevidamente, empresas privadas a obterem contratos públicos.
Em entrevista à TV Globo na semana passada,
Lula classificou as acusações como "ilações".
"Ali não tem nenhuma acusação. São
ilações, ilações, ilações tiradas de telefonemas. Eu conheço isso muito bem
porque já vivi isso", afirmou o presidente, referindo-se à Operação Lava
Jato, que o levou à prisão.
Lula tem dito que não vai impedir as
investigações da PF contra Lulinha.
"Se o Fábio cometeu qualquer ilícito,
qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro. Eu não
vou afastar o delegado da Polícia Federal. Eu não vou fazer qualquer movimento
para que meu filho seja beneficiado", afirmou.
As investigações também vêm sendo mencionadas
constantemente pelos principais adversários de Lula à reeleição, como Flávio
Bolsonaro.
Mas na avaliação de Luciana Santana, o
eleitor "cristalizado" não se abala nem mesmo com repercussões
negativas dos candidatos. E isso vale tanto para Lula, quanto para Flávio.
Passado quase um mês desde que os inquéritos
vazaram, o agregador de pesquisas da BBC News Brasil mostra uma ligeira queda
de Lula e um pequeno aumento de Flávio nas intenções de voto, tanto no primeiro
quanto no segundo turno.
Não é possível cravar, no entanto, os fatores
exatos que levaram a essas oscilações.
"O caso do Lulinha, eu não sei se está
mexendo com o eleitorado. Eu acho que não", diz Santos. Não é um tema
novo. Desde 2006 ele é utilizado em campanhas. Tira algum voto, mas acho que
não é expressivo."
Ao mesmo tempo, segundo a especialista, o
caso Dark Horse também parou de ter o efeito que teve num primeiro momento.
"Lula vai ter que trazer algo novo para a propaganda de rádio e TV,
conectado às expectativas das pessoas. Não dá só para requentar programas, a
marca, a música… algo que justifique um 4º mandato", afirma ela.
E, embora a campanha já esteja quase na
metade, Luciana Santos acredita que será a partir da semana que vem que as
peças vão se mover com mais clareza no xadrez eleitoral.
"Eu acho que a campanha em que a gente
vai conseguir ver alguma mudança vai ser a partir de 7 de setembro. O
termômetro começa no dia 7 de setembro, que é quando as situações locais já
estão acomodadas, as primeiras pesquisas já saíram e as pessoas passam a
iniciar efetivamente o conhecimento e notam que estão numa eleição. Olhando as
pesquisas espontâneas hoje, uma parcela muito grande do eleitorado ainda está
alheia."
Fonte: BBC News Brasil

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