Por que o presidente do STF não consegue
debelar crise às vésperas de eleição
O
presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin,
está sob pressão para conduzir uma saída para a grave
crise que a Corte atravessa, em meio ao fogo cruzado entre dois
ministros: Alexandre de
Moraes e André
Mendonça.
Fachin
tem optado por se movimentar com cautela, mas tem sido atropelado por decisões
dos dois colegas. Para professores de direito ouvidos pela BBC News Brasil, os
dois ministros adotaram, nos últimos dias, medidas ilegais, seja Moraes ao
sugerir abertura de investigação contra Mendonça dentro do
controverso Inquérito das Fake News, seja Mendonça ao
afastar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, dentro
do inquérito do
Banco Master, a partir de um pedido do partido Novo.
Na
terça-feira, Fachin deu 72 horas para o ministro André Mendonça se manifestar
sobre o pedido da Advocacia-Geral da União (AGU) para suspender o afastamento
de Rodrigues.
A AGU
tinha solicitado ao presidente da Corte uma liminar suspendendo a decisão de
Mendonça, sustentando que a discussão sobre a legalidade da atuação da Polícia
Federal nos fatos que levaram à crise do STF já está sob relatoria de Fachin,
na Petição 16.704, instrumento usado por ele para abrir o prazo para as
manifestações das partes envolvidas.
Dessa
forma, argumenta a AGU, não caberia a Mendonça tomar a decisão de afastar
Andrei Rodrigues.
Até o
momento, Fachin não convocou uma sessão plenária para deliberar sobre a crise,
mesmo após 13 ministros
aposentados cobrarem por isso em uma carta pública, na noite de
segunda-feira (7/9). Horas antes, o presidente da Ordem dos Advogados do
Brasil, Beto Simonetti, também havia pedido "respostas rápidas e
claras" ao STF em um vídeo.
Na
mesma linha, entidades empresariais lançaram o "Manifesto à Nação
Brasileira", em que dizem que "a resposta que a nação aguarda não
admite prazo. Cada dia é um dia a mais de descrédito".
Lideradas
pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), mais de 2,6 mil
entidades patronais assinaram o documento cobrando que "o plenário do
Supremo examine em sessão pública os fatos, decida com absoluta urgência, sem
subterfúgios e sem corporativismo".
Por
enquanto, Fachin apenas abriu prazo para que a Procuradoria-Geral da República
(PGR), a Polícia Federal, Moraes e Mendonça se manifestem sobre as trocas de
acusações.
Segundo
o STF, há um primeiro prazo até 14 de setembro, para que os quatro se
posicionem sobre a primeira decisão de Mendonça, do dia 1º de setembro. Na
ocasião, o ministro sugeriu a abertura de uma investigação contra Moraes por
conversas suspeitas com o banqueiro Daniel Vorcaro, enquanto a PGR disse que a
decisão de Mendonça era nula porque o ministro teria investigado seu colega sem
autorização prévia do plenário.
Além
desse prazo, houve outro despacho de Fachin para que a PGR se manifeste também
até 14 de setembro sobre as acusações de abusos levantadas por Moraes contra
Mendonça, em decisão dentro do inquérito das Fake News proferida na
quinta-feira (3/9). Depois, Mendonça ainda terá até 21 de setembro para
responder à manifestação da PGR.
"Eu
avalio positivamente a postura do ministro Fachin, que tentou, na sua atuação
até o momento, forçar o respeito ao procedimento e abaixar a temperatura do
conflito político no Tribunal", disse à reportagem a constitucionalista
Ana Laura Barbosa, professora de direito da FGV-SP e do Insper.
"O
problema é que, na contramão dos esforços empreendidos pelo ministro Fachin,
está a atuação de outros ministros que, de um lado e de outro, instalaram uma
verdadeira guerra interna, pautada por diversas heterodoxias procedimentais, em
prejuízo da institucionalidade e do Supremo Tribunal Federal como
instituição", acrescentou.
Outros
têm sido críticos à condução da crise. "É um presidente que é um homem
correto, mas está mudo. Por quê? Por que ele não tem espaço dentro do Supremo?
Por que ele não tem aliados?", questionou o jurista Joaquim Falcão, em
entrevista à BBC News Brasil na sexta-feira (4/9), sobre a postura de Fachin.
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Os próximos passos de Fachin?
Os
professores ouvidos pela BBC News Brasil consideram que Fachin tem ferramentas
limitadas para atuar na crise.
"O
que o Fachin pode fazer? O ministro Fachin pode convocar o plenário [para
deliberar sobre a crise]. Não tem muito mais o que ele possa fazer",
ressalta o constitucionalista Claudio Pereira de Souza Neto, professor da UFRJ.
Na sua
visão, Fachin agiu corretamente ao retirar do inquérito das Fake News a decisão
de Moraes contra Mendonça, já que um ministro não pode tomar decisões contra
outro no seu mesmo nível hierárquico, cabendo ao presidente relatar o caso.
Nesse
sentido, Neto considera errada a decisão de Mendonça de afastar o diretor da PF
na terça-feira (8/9) e levar o caso para referendo na Segunda Turma do STF,
quando a questão sobre a legalidade da atuação da PF e de Moraes já estava na
alçada de Fachin.
"Cabe
ao presidente do tribunal chamar para si o assunto e conduzir. Tem um conflito
entre os membros da Corte, cada um pedindo investigação em relação ao outro?
Então, cabe ao presidente do Tribunal chamar para si a condução da matéria e
submeter ao plenário", reforça.
Para o
criminalista Maurício Dieter, professor da faculdade de Direito da USP, uma
saída para a crise seria o próprio Fachin assumir toda a relatoria do caso
Master. Outros juristas, porém, dizem que não há previsão legal para que isso
seja feito.
"A
melhor opção que temos é que um ministro digno e técnico como Fachin, e que,
felizmente, é o atual presidente, se torne relator do caso", defende
Dieter.
Para
Ana Laura Barbosa, do Insper, adotar saídas "heterodoxas", ou seja,
fora dos ritos legais, seria um caminho "com consequências futuras que não
podem ser calculadas e que podem levar a resultados ainda piores do que os
atuais"
Ela
lembra que o afastamento do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master
em fevereiro, após reunião secreta do plenário do STF, foi algo "sem
precedentes". Ainda assim, as investigações foram distribuídas para
Mendonça por sorteio.
"Não
existe um procedimento para [Fachin] determinar de ofício a troca do relator. A
situação seria diferente caso alguém apresentasse uma alegação de suspensão de
André Mendonça. Caso sua suspensão fosse reconhecida [em decisão colegiada],
isso significaria que ele teria que deixar a relatoria, o processo seria
distribuído por sorteio, e ele também não poderia votar no caso".
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O que aconteceu até aqui?
O
terremoto no STF teve início na terça-feira (1/9), quando o ministro André
Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que detalha
supostas interações entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de
Moraes, a partir da análise do celular apreendido na prisão de Vorcaro, em
novembro de 2025.
As
conversas incluem um suposto pedido do banqueiro, em 30 de outubro de 2025,
para que Moraes interferisse a seu favor na atuação da PGR e da PF. As
investigações também confirmaram que o escritório de Viviane Barci de Moraes,
esposa do ministro, mantinha um contrato de R$ 131 milhões com o Master, e que
esse documento chegou a ser editado por Moraes.
Depois
disso, Moraes usou relatórios da inteligência da Polícia Federal para acusar
André Mendonça de, "em tese", ter cometido improbidade
administrativa, crimes de responsabilidade e de abuso de autoridade, com quebra
da "imparcialidade judicial" e "favorecimento a determinados
grupos políticos" ao atuar como relator dos casos do escândalo do INSS
("Operações Sem Desconto") e do Banco Master ("Operação
Compliance Zero").
Em seu
despacho da noite de quinta-feira (3/9), feito no âmbito do Inquérito das Fake
News, Moraes remeteu os documentos citados ao presidente da Corte, Edson
Fachin, pedindo que ele tome "as providências que entender
necessárias".
Moraes
também retirou o sigilo dos relatórios da inteligência da PF que detalham
supostas condutas irregulares de Mendonça, que teria agido contra o próprio
Moraes e outros colegas de tribunal.
Na
mesma noite, Fachin abriu prazo para que os dois ministros, a PGR e a PF se
manifestem sobre a troca de acusações.
Depois
disso, na terça-feira passada (8/9), Mendonça determinou o afastamento do
diretor-geral da PF do cargo e submeteu sua decisão à Segunda Turma da Corte,
recebendo votos favoráveis de Luiz Fux e Nunes Marques. O julgamento foi
suspenso por pedido de vista do ministro Gilmar Mendes. Por enquanto, segue
válida a decisão que afastou Andrei Rodrigues.
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Afastamento de diretor da PF cria 'terreno pantanoso' para instituições, diz
especialista
O
professor de Direito do Mackenzie e advogado Renan Melo avalia como
"grave" e "incoerente" a decisão de Mendonça de afastar
Andrei Rodrigues e Leandro Almada.
Para
Melo, se os elementos que motivaram a decisão não indicarem uma atuação mais
grave da PF além da produção de um relatório interno sobre o ministro, o
afastamento liminar dos chefes da corporação é desproporcional.
Segundo
ele, a Polícia Federal não é subordinada ao STF, mas atua em coordenação com o
Judiciário, e o afastamento de integrantes de sua direção é uma atribuição que,
em princípio, cabe ao Executivo.
O
professor também questiona o precedente criado pela decisão. Na avaliação dele,
uma medida desse tipo, tomada individualmente por um ministro e em caráter
liminar, pode abrir caminho para que integrantes do Judiciário passem a afastar
membros de outros Poderes sem que exista uma decisão definitiva sobre eventuais
irregularidades.
"Precisaria
ter um entendimento grave de um desvio de cumprimento da função pública para
justificar essa decisão, principalmente em caráter liminar", afirmou ele à
repórter Mariana Shcreiber, de Brasília.
Melo
também alerta para o risco de a PF ser vista como um órgão politizado,
utilizado para produzir relatórios contra determinados atores e, em seguida,
sofrer interferência de acordo com quem esteja sob investigação.
"É
preciso entender que esse órgão é de Estado, e não de governo, e não pode ficar
à mercê do mandatário ou do Judiciário de momento. Isso traz a gente para um
terreno bastante pantanoso."
<><> Mendonça não poderia afastar
diretor da PF, dizem juristas
Para a constitucionalista Ana Laura Barbosa,
professora de direito da FGV-SP e do Insper, André Mendonça não poderia ter
afastado o diretor da PF, Andrei Rodrigues, com uma decisão liminar, após
pedido do partido Novo.
À BBC News Brasil, ela diz que isso independe
da discussão sobre “o conteúdo e os vícios no relatório” de inteligência da PF,
mencionado pela decisão de Alexandre de Moraes para pedir a investigação de
Mendonça na última quinta-feira (3/9). Na sua visão, o Novo não tinha
legitimidade para pedir o afastamento.
“A decisão de Mendonça é viciada porque não
tem relação direta com o objeto daquele inquérito do Banco Master, e foi
proferida após um pedido incidental realizado por um partido político que não
tem qualquer legitimidade para realizar o pedido nos autos daquela petição”,
afirma Barbosa, em entrevista à repórter Mariana Schreiber.
A avaliação é compartilhada pelo
constitucionalista Claudio Pereira de Souza Neto, professor da UFRJ.
“A medida foi tomada fora do inquérito [do
Banco Master], como resposta à decisão proferida pelo ministro Alexandre de
Moraes. O Novo não tem legitimidade para formular esse requerimento [de
afastamento]. Se a matéria diz respeito à investigação criminal, o Ministério
Público é que teria legitimidade para formulá-lo”, disse Neto.
<><> O que aconteceu até aqui e o
que acontece agora?
A semana começou com uma decisão do ministro
André Mendonça, do STF, de afastar o diretor geral da Polícia Federal, Andrei
Rodrigues, e o diretor de Inteligência da PF, Leandro Almada da Costa.
Entenda tudo o que aconteceu, ponto a ponto,
até agora:
- Mendonça
pediu o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei
Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial da PF, Leandro Almada da
Costa.
- Mendonça
também pediu uma sessão virtual extraordinária na Segunda Turma do Supremo
para deliberar sobre seu pedido.
- A
sessão durou poucos minutos: o ministro Gilmar Mendes pediu mais
tempo para analisar o processo, suspendendo o julgamento.
- No
entanto, dois ministros adiantaram seus votos: Luiz Fux e Kassio
Nunes Marques votaram com o relator, André Mendonça, e formando maioria
pelo afastamento de Andrei Rodrigues.
- A
decisão, em caráter liminar, já está valendo.
- Ministro
de Lula diz que medida de Mendonça é 'descabida' e tem 'cheiro eleitoral'.
- O
governo pode recorrer da decisão via Advocacia Geral da União (AGU).
- Edson
Fachin se reuniu com Jorge Messias, da AGU, e o ministro da Justiça,
Wellington César Lima e Silva.
- Diretores
da PF manifestaram apoio a Andrei Rodrigues e Leandro Almada e
colocaram os próprios cargos à disposição do delegado William Murad, que
assumiu a diretoria geral da PF interinamente no lugar de Rodrigues.
- Lula
fez pronunciamento no fim da tarde, em cerimônia de demarcação de Unidades
de Conservação, e não falou sobre a crise no Supremo.
Fonte: BBC News Brasil

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