Gustavo Tapioca: Derrotar, eleger, libertar,
anistiar, entregar
Derrotar Lula. Eleger Flávio. Libertar Jair
Bolsonaro. Anistiar os militares e os demais condenados pela tentativa de golpe
de Estado. Entregar as riquezas estratégicas do país aos Estados Unidos de
Donald Trump e Marco Rubio.
Na Avenida Paulista, o quinto verbo ganhou
uma imagem. Um boneco gigante de Trump erguia Lula vestido de presidiário sob a
inscrição, em inglês, “Trump, liberte o Brasil”. No Dia da Independência,
apoiadores de Flávio pediam a um presidente estrangeiro que interviesse no
país.
O projeto bolsotrumpista não termina na
reconquista do Palácio do Planalto nem na salvação judicial do clã Bolsonaro.
Inclui uma contrapartida aos aliados que, dos Estados Unidos, interferem na
eleição brasileira: entregar a Trump e Rubio acesso privilegiado às riquezas e
às decisões estratégicas do Brasil. Cinco verbos. Uma única operação política.
<><> O Brasil como solução dos
Estados Unidos
Em 28 de março, diante da plateia da CPAC, no
Texas, Flávio Bolsonaro apresentou o Brasil como um inventário de ativos. Falou
das reservas de água doce, das terras agrícolas e dos recursos energéticos
“capazes de abastecer continentes”. Em seguida, chegou ao ponto principal:
“O Brasil é a solução para os Estados Unidos
romperem a dependência da China em relação aos minerais críticos, especialmente
às terras raras”.
Flávio não apresentou os minerais como base
para uma política de industrialização brasileira. Não falou prioritariamente em
processá-los no país, dominar tecnologias ou gerar empregos qualificados.
Apresentou-os como solução para um problema dos Estados Unidos e os vinculou
diretamente à inteligência artificial e aos equipamentos de defesa
norte-americanos.
A oferta não poderia ser mais oportuna. Os
Estados Unidos dependem da China para o fornecimento e, principalmente, o
processamento de minerais indispensáveis à produção de semicondutores,
baterias, radares, mísseis, satélites e sistemas de inteligência artificial.
Na sexta-feira, 4 de setembro, a Reuters
revelou que fornecedores chineses haviam voltado a suspender parte dos
embarques de terras raras para empresas norte-americanas.
A China controla um ponto de estrangulamento
da indústria dos Estados Unidos. O Brasil possui parte da alternativa procurada
por Washington. E Flávio já se apresentou como o candidato a presidente
disposto a entregá-la.
<><> Desmoralizar para anistiar
Para executar esse programa, é preciso
retomar o poder. E, para libertar Jair Bolsonaro e anistiar os militares, o
bolsonarismo precisa retirar autoridade das condenações impostas pelo Supremo.
A ofensiva começa pela reputação de Alexandre
de Moraes. Flávio o apresenta como uma “laranja podre”, mas utiliza as
suspeitas do Banco Master para deslegitimar precisamente os julgamentos de Jair
Bolsonaro, dos militares e dos demais golpistas. Diz proteger o STF enquanto
corrói a autoridade de suas decisões.
Celso Rocha de Barros resumiu na Folha de
S.Paulo o poder destrutivo do escândalo: Moraes é acusado de ter entrado no
esquema de personagens que condenou pela tentativa de golpe. Se o julgador for
apresentado como integrante da rede que deveria combater, os condenados poderão
ser transformados em vítimas e a anistia, em reparação.
Moraes forneceu munição a essa ofensiva. As
acusações são graves. Sua conduta precisa ser investigada, sem proteção
corporativa. Mas as suspeitas e acusações a ele não apagam as provas que ele
examinou nos julgamentos, não inocentam os condenados, nem autorizam uma
potência estrangeira a interferir no Supremo e na eleição.
O roteiro é transparente: desmoralizar Moraes
para atingir o STF; enfraquecer o STF para deslegitimar as condenações;
deslegitimar as condenações para legitimar a anistia.
A tentativa de golpe desaparece. Desaparecem
as ações para impedir a posse de Lula, abolir violentamente o Estado
Democrático de Direito e executar o plano Punhal Verde e Amarelo, que previa
assassinar Lula, Geraldo Alckmin e Moraes. No lugar dos condenados surgem
“perseguidos políticos”. Três anos após o 8 de janeiro, o STF contabilizava 835
condenados e 179 presos — a dimensão concreta da anistia pretendida. Esse é o
quarto verbo: anistiar.
Na manhã desta terça-feira, 8 de setembro,
Mendonça ampliou a guerra: afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei
Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada, e mandou a Corregedoria
investigar os dois e a produção dos relatórios usados por Moraes contra ele. A
disputa entre ministros transformou-se numa disputa pelo comando das
investigações. A crise atravessou as portas do Supremo e atingiu a cúpula da
Polícia Federal.
<><> O clã procura dirigir suas
chamas
No Senado, parlamentares que antes rejeitavam
o impeachment de Moraes já o consideram possível. Segundo aliados de
Alcolumbre, ele aguardará o resultado da eleição e a composição da nova Casa. O
afastamento de Moraes tornou-se a moeda capaz de comprar o apoio bolsonarista à
reeleição de Alcolumbre para a presidência do Senado.
Enquanto o Supremo discute procedimentos, o
clã Bolsonaro procura comandar politicamente o resultado. Flávio visitou na
prisão Filipe Martins, condenado a 21 anos por participação na trama golpista,
e utilizou o caso Master para atacar o ministro responsável por sua condenação.
Diante da cadeia, tentou transformar um condenado pelo golpe em vítima de um
julgador desacreditado.
Depois, cobrou de Cármen Lúcia voto pela
investigação de Moraes, advertiu que a ministra deveria preocupar-se com sua
“biografia” e afirmou que o julgamento seria um com as manifestações de 7 de
setembro cheias e outro com elas vazias. No ato, tornou explícita a ambição de
remodelar a Corte: “Vou indicar cinco ministros para o STF porque Alexandre de
Moraes vai cair”.
Flávio pressiona uma ministra, declara que o
tamanho das manifestações deve influenciar uma decisão judicial e anuncia que,
se eleito, alterará a composição do Supremo. O clã já não apenas aproveita o
incêndio. Procura dirigir as chamas.
<><> “Como nos anos 60”
Segundo apuração do Brasil 247, bolsonaristas
fizeram chegar a integrantes do governo Trump informações sobre as mensagens
entre Vorcaro e Moraes. O objetivo seria convencer Washington a voltar a
aplicar a Lei Magnitsky contra o ministro.
Ainda não foram identificados todos os
operadores. Não há confirmação de novas sanções nem prova de que Mendonça
participe da articulação nos Estados Unidos. O efeito de sua decisão,
entretanto, é visível: forneceu munição à campanha de Flávio e aos operadores
que procuram trazer Trump e Rubio novamente para dentro da crise brasileira.
Investigar Moraes enfraquece a Corte; não o
investigar poderá transmitir a impressão de proteção corporativa. O escândalo
pode beneficiar Flávio e fortalecer a campanha pelo impeachment de ministros.
Lourival Sant’Anna identificou no Estado de
S. Paulo um possível padrão norte-americano para a América Latina: coerção,
sustentação de governos aliados e apropriação de riquezas. Ao relacionar esse
modelo à estratégia de Washington para minerais críticos, advertiu para o risco
de interferência caso um aliado de Trump seja derrotado por quem ameace
contratos lucrativos. “Como nos anos 60”, escreveu.
O alerta une o primeiro verbo ao quinto:
interferir para derrotar Lula; eleger Flávio para assegurar acesso às riquezas
brasileiras.
<><> “O Brasil não será colônia
de ninguém”
Na noite de 6 de setembro, Lula utilizou seu
pronunciamento pelo Dia da Independência para responder à questão material que
atravessa a eleição.
“Não podemos baixar a cabeça diante de
potências estrangeiras que querem que voltemos a ser colônia. Não somos colônia
e não seremos colônia de ninguém”, afirmou.
Sem citar Trump ou os Estados Unidos,
defendeu o direito do Brasil de escolher de quem compra e para quem vende.
Nenhum governante estrangeiro, declarou, pode determinar as relações comerciais
do país.
Lula mencionou precisamente as riquezas
apresentadas por Flávio no Texas: terras raras, petróleo, água doce e
biodiversidade. Mas atribuiu a elas destino oposto: produzir tecnologia,
transição energética, empregos qualificados e desenvolvimento para os brasileiros.
Os dois candidatos falam das mesmas riquezas.
Flávio apresenta o Brasil como solução para os Estados Unidos. Lula afirma que
as riquezas brasileiras devem ser a solução para o próprio Brasil.
A alternativa não é substituir Washington por
Pequim. Empresas de qualquer país poderão participar da exploração dos
minerais, desde que sejam processados e industrializados no Brasil, gerando
empregos e tecnologia.
Essa é a escolha encerrada pelo quinto verbo:
entregar.
Flávio oferece alinhamento político,
submissão diplomática, recursos estratégicos e acesso antecipado às decisões do
Estado. Lula responde que o Brasil não será colônia de ninguém.
Derrotar Lula para eleger Flávio. Eleger
Flávio para libertar Jair. Desmoralizar Moraes e o STF para anistiar os
golpistas. Controlar o governo para entregar as riquezas brasileiras aos
Estados Unidos.
Cinco verbos. Um único projeto: derrotar,
eleger, libertar, anistiar, entregar.
• Jeferson
Miola: André Mendonça é peça-chave da extrema direita no tabuleiro eleitoral
O ministro do STF André Mendonça se jogou de
cabeça na eleição. Ele é peça-chave da extrema direita no tabuleiro eleitoral –
tanto para a Presidência como para o Senado.
Mendonça deslocou a disputa sobre propostas
de governo, defesa da soberania e democracia, e comparação do passado e
presente dos candidatos para o debate sobre corrupção. Ele colocou o STF no
centro do escrutínio e arrastou o governo para um ringue árido.
Os movimentos audazes contra o ministro
Alexandre de Moraes [1º/9] e o Diretor-Geral da PF Andrei Rodrigues [8/9], num
jogo de tudo ou nada, chamam atenção. Não foi uma cartada de perdedor ou de
blefador.
E ele não agiu como um camicase, mas como
integrante de uma articulação política mais abrangente, de caráter
internacional, com participação dos EUA e apoio interno, que alimenta mais que
perspectiva, mas confiança na vitória eleitoral.
O script seguido por ele é metódico, bem
orquestrado e inclusive atiça o fundamentalismo religioso.
Começa em 1º de setembro, faltando pouco mais
de um mês para a eleição, quando Mendonça atropelou o Plenário do STF e violou
ilegalmente o sigilo de investigações sobre Alexandre de Moraes num “vazamento
oficial” para alimentar a narrativa da extrema direita contra o judiciário e
gerar dividendos eleitorais para Flávio Bolsonaro.
Na 6ª feira, 4/9, ele agradeceu em vídeo a
solidariedade de irmãos em oração. “Estejam certos que suas preces a Deus têm
sido fundamentais para me sustentar e sustentar a minha família. Que Deus os
abençoe e que Deus abençoe o nosso País”, disse.
No domingo, 6/7, Michelle Bolsonaro
declarou-o como “ungido do Senhor” e pediu “força e coragem” a ele.
Mendonça foi ungido nos atos entreguistas dos
bolsonaristas no 7 de setembro; e, no dia seguinte, 8/7, num ato de invasão de
competência do Presidente da República, pediu afastamento de Andrei Rodrigues
do comando da PF, num gesto em que se insinua como autor de uma ação
moralizante diante da inação conivente do Lula. Nikolas Ferreira disse: “é só o
começo” do jogo sujo.
Se Flávio Bolsonaro vencer a eleição,
Mendonça terá quatro novos colegas de perfil igual ou pior que o dele
indicados. Ele então assumiria a condição de líder de uma maioria Schmittiana,
de juízes legitimadores do Estado de Exceção no STF num país então mergulhado
no precipício fascista. Teria tanto ou mais poder que o próprio Flávio.
Os movimentos de Mendonça sedimentaram a
narrativa da extrema direita contra o judiciário e criaram uma cortina de
fumaça que eclipsa totalmente Daniel Vorcaro e esconde a relação de Flávio
Bolsonaro com o banqueiro mafioso, que repassou a ele quase R$ 70 milhões, pelo
que se sabe, por enquanto.
A ofensiva do ministro bolsonarista opera no
imaginário social a falsa ideia de cruzada pela moralidade e combate à
corrupção – combustível para a mídia hegemônica, sobretudo para a Rede Globo.
No afã de impedir a reeleição do presidente Lula, a Globo incensa esse viés,
como deixou claro nas entrevistas do Jornal Nacional.
Essa narrativa cínica cria uma cilada para o
governo.
Mesmo defendendo a apuração dos fatos
suspeitos e comprometedores do ministro Alexandre de Moraes, o governo fica com
as margens estreitadas para confrontar Mendonça diretamente, pois daria
combustível à narrativa bolsonarista, operada a partir da lógica rudimentar de
que STF mais governo e mídia integram “o sistema corrupto” que fraudou a
eleição de 2022 e perseguiu Bolsonaro para impedir que a direita continuasse
governando o Brasil e então eles, o “sistema corrupto”, continuassem roubando o
país.
Enquanto o governo defende o STF como fator
crucial para proteger nossa débil e ameaçada democracia [o que não significa,
em absoluto, endossar ou defender desvios de ministros], os movimentos de André
Mendonça visam o exato oposto: enfraquecer para destruir o judiciário, seguindo
o manual da extrema direita internacional para instalar autocracias ou
ditaduras com verniz de normalidade institucional.
Desde que assumiu a relatoria do caso Master
em lugar de Dias Toffoli, Mendonça adotou medidas abusivas e ilegais. Ele
alienou o Diretor-Geral da PF das investigações, concentrou os dados brutos no
seu gabinete, interferiu nas equipes e no funcionamento das investigações, e
impediu que investigadores se reportassem aos superiores hierárquicos.
Apesar dos pedidos da PF, tais ilegalidades
do ministro relator não foram combatidas pelo Advogado-Geral da União e pelo
ministro da Justiça – aliás, de tão sumido e ausente dessa grave conjuntura,
sequer se sabe seu nome.
A Inteligência da PF demonstrou, a partir da
compilação de decisões e ordens ilegais de Mendonça, que ele atropelou o
Plenário para atingir Moraes e dinamitar o STF, concentrou os dados de Daniel
Vorcaro no seu gabinete para vazar e esconder autores de vazamentos criminosos,
e usurpou competências da PF para enviesar as investigações para safar Flávio
Bolsonaro e bolsonaristas.
André Mendonça perdeu totalmente a condição
de continuar na relatoria dos casos Master e INSS, pois conduz seu trabalho de
modo enviesado para prejudicar o governo e beneficiar o campo bolsonarista.
Com os desvios cometidos no seu agir
político-estratégico, seu destino está atrelado ao destino de Alexandre Moraes,
ainda que por motivos distintos.
Fonte: Fórum/Viomundo
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