quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 

Gustavo Tapioca: Derrotar, eleger, libertar, anistiar, entregar

Derrotar Lula. Eleger Flávio. Libertar Jair Bolsonaro. Anistiar os militares e os demais condenados pela tentativa de golpe de Estado. Entregar as riquezas estratégicas do país aos Estados Unidos de Donald Trump e Marco Rubio.

Na Avenida Paulista, o quinto verbo ganhou uma imagem. Um boneco gigante de Trump erguia Lula vestido de presidiário sob a inscrição, em inglês, “Trump, liberte o Brasil”. No Dia da Independência, apoiadores de Flávio pediam a um presidente estrangeiro que interviesse no país.

O projeto bolsotrumpista não termina na reconquista do Palácio do Planalto nem na salvação judicial do clã Bolsonaro. Inclui uma contrapartida aos aliados que, dos Estados Unidos, interferem na eleição brasileira: entregar a Trump e Rubio acesso privilegiado às riquezas e às decisões estratégicas do Brasil. Cinco verbos. Uma única operação política.

<><> O Brasil como solução dos Estados Unidos

Em 28 de março, diante da plateia da CPAC, no Texas, Flávio Bolsonaro apresentou o Brasil como um inventário de ativos. Falou das reservas de água doce, das terras agrícolas e dos recursos energéticos “capazes de abastecer continentes”. Em seguida, chegou ao ponto principal:

“O Brasil é a solução para os Estados Unidos romperem a dependência da China em relação aos minerais críticos, especialmente às terras raras”.

Flávio não apresentou os minerais como base para uma política de industrialização brasileira. Não falou prioritariamente em processá-los no país, dominar tecnologias ou gerar empregos qualificados. Apresentou-os como solução para um problema dos Estados Unidos e os vinculou diretamente à inteligência artificial e aos equipamentos de defesa norte-americanos.

A oferta não poderia ser mais oportuna. Os Estados Unidos dependem da China para o fornecimento e, principalmente, o processamento de minerais indispensáveis à produção de semicondutores, baterias, radares, mísseis, satélites e sistemas de inteligência artificial.

Na sexta-feira, 4 de setembro, a Reuters revelou que fornecedores chineses haviam voltado a suspender parte dos embarques de terras raras para empresas norte-americanas.

A China controla um ponto de estrangulamento da indústria dos Estados Unidos. O Brasil possui parte da alternativa procurada por Washington. E Flávio já se apresentou como o candidato a presidente disposto a entregá-la.

<><> Desmoralizar para anistiar

Para executar esse programa, é preciso retomar o poder. E, para libertar Jair Bolsonaro e anistiar os militares, o bolsonarismo precisa retirar autoridade das condenações impostas pelo Supremo.

A ofensiva começa pela reputação de Alexandre de Moraes. Flávio o apresenta como uma “laranja podre”, mas utiliza as suspeitas do Banco Master para deslegitimar precisamente os julgamentos de Jair Bolsonaro, dos militares e dos demais golpistas. Diz proteger o STF enquanto corrói a autoridade de suas decisões.

Celso Rocha de Barros resumiu na Folha de S.Paulo o poder destrutivo do escândalo: Moraes é acusado de ter entrado no esquema de personagens que condenou pela tentativa de golpe. Se o julgador for apresentado como integrante da rede que deveria combater, os condenados poderão ser transformados em vítimas e a anistia, em reparação.

Moraes forneceu munição a essa ofensiva. As acusações são graves. Sua conduta precisa ser investigada, sem proteção corporativa. Mas as suspeitas e acusações a ele não apagam as provas que ele examinou nos julgamentos, não inocentam os condenados, nem autorizam uma potência estrangeira a interferir no Supremo e na eleição.

O roteiro é transparente: desmoralizar Moraes para atingir o STF; enfraquecer o STF para deslegitimar as condenações; deslegitimar as condenações para legitimar a anistia.

A tentativa de golpe desaparece. Desaparecem as ações para impedir a posse de Lula, abolir violentamente o Estado Democrático de Direito e executar o plano Punhal Verde e Amarelo, que previa assassinar Lula, Geraldo Alckmin e Moraes. No lugar dos condenados surgem “perseguidos políticos”. Três anos após o 8 de janeiro, o STF contabilizava 835 condenados e 179 presos — a dimensão concreta da anistia pretendida. Esse é o quarto verbo: anistiar.

Na manhã desta terça-feira, 8 de setembro, Mendonça ampliou a guerra: afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada, e mandou a Corregedoria investigar os dois e a produção dos relatórios usados por Moraes contra ele. A disputa entre ministros transformou-se numa disputa pelo comando das investigações. A crise atravessou as portas do Supremo e atingiu a cúpula da Polícia Federal.

<><> O clã procura dirigir suas chamas

No Senado, parlamentares que antes rejeitavam o impeachment de Moraes já o consideram possível. Segundo aliados de Alcolumbre, ele aguardará o resultado da eleição e a composição da nova Casa. O afastamento de Moraes tornou-se a moeda capaz de comprar o apoio bolsonarista à reeleição de Alcolumbre para a presidência do Senado.

Enquanto o Supremo discute procedimentos, o clã Bolsonaro procura comandar politicamente o resultado. Flávio visitou na prisão Filipe Martins, condenado a 21 anos por participação na trama golpista, e utilizou o caso Master para atacar o ministro responsável por sua condenação. Diante da cadeia, tentou transformar um condenado pelo golpe em vítima de um julgador desacreditado.

Depois, cobrou de Cármen Lúcia voto pela investigação de Moraes, advertiu que a ministra deveria preocupar-se com sua “biografia” e afirmou que o julgamento seria um com as manifestações de 7 de setembro cheias e outro com elas vazias. No ato, tornou explícita a ambição de remodelar a Corte: “Vou indicar cinco ministros para o STF porque Alexandre de Moraes vai cair”.

Flávio pressiona uma ministra, declara que o tamanho das manifestações deve influenciar uma decisão judicial e anuncia que, se eleito, alterará a composição do Supremo. O clã já não apenas aproveita o incêndio. Procura dirigir as chamas.

<><> “Como nos anos 60” 

Segundo apuração do Brasil 247, bolsonaristas fizeram chegar a integrantes do governo Trump informações sobre as mensagens entre Vorcaro e Moraes. O objetivo seria convencer Washington a voltar a aplicar a Lei Magnitsky contra o ministro.

Ainda não foram identificados todos os operadores. Não há confirmação de novas sanções nem prova de que Mendonça participe da articulação nos Estados Unidos. O efeito de sua decisão, entretanto, é visível: forneceu munição à campanha de Flávio e aos operadores que procuram trazer Trump e Rubio novamente para dentro da crise brasileira.

Investigar Moraes enfraquece a Corte; não o investigar poderá transmitir a impressão de proteção corporativa. O escândalo pode beneficiar Flávio e fortalecer a campanha pelo impeachment de ministros.

Lourival Sant’Anna identificou no Estado de S. Paulo um possível padrão norte-americano para a América Latina: coerção, sustentação de governos aliados e apropriação de riquezas. Ao relacionar esse modelo à estratégia de Washington para minerais críticos, advertiu para o risco de interferência caso um aliado de Trump seja derrotado por quem ameace contratos lucrativos. “Como nos anos 60”, escreveu.

O alerta une o primeiro verbo ao quinto: interferir para derrotar Lula; eleger Flávio para assegurar acesso às riquezas brasileiras.

<><> “O Brasil não será colônia de ninguém”

Na noite de 6 de setembro, Lula utilizou seu pronunciamento pelo Dia da Independência para responder à questão material que atravessa a eleição.

“Não podemos baixar a cabeça diante de potências estrangeiras que querem que voltemos a ser colônia. Não somos colônia e não seremos colônia de ninguém”, afirmou.

Sem citar Trump ou os Estados Unidos, defendeu o direito do Brasil de escolher de quem compra e para quem vende. Nenhum governante estrangeiro, declarou, pode determinar as relações comerciais do país.

Lula mencionou precisamente as riquezas apresentadas por Flávio no Texas: terras raras, petróleo, água doce e biodiversidade. Mas atribuiu a elas destino oposto: produzir tecnologia, transição energética, empregos qualificados e desenvolvimento para os brasileiros.

Os dois candidatos falam das mesmas riquezas. Flávio apresenta o Brasil como solução para os Estados Unidos. Lula afirma que as riquezas brasileiras devem ser a solução para o próprio Brasil.

A alternativa não é substituir Washington por Pequim. Empresas de qualquer país poderão participar da exploração dos minerais, desde que sejam processados e industrializados no Brasil, gerando empregos e tecnologia.

Essa é a escolha encerrada pelo quinto verbo: entregar.

Flávio oferece alinhamento político, submissão diplomática, recursos estratégicos e acesso antecipado às decisões do Estado. Lula responde que o Brasil não será colônia de ninguém.

Derrotar Lula para eleger Flávio. Eleger Flávio para libertar Jair. Desmoralizar Moraes e o STF para anistiar os golpistas. Controlar o governo para entregar as riquezas brasileiras aos Estados Unidos.

Cinco verbos. Um único projeto: derrotar, eleger, libertar, anistiar, entregar.

        Jeferson Miola: André Mendonça é peça-chave da extrema direita no tabuleiro eleitoral

O ministro do STF André Mendonça se jogou de cabeça na eleição. Ele é peça-chave da extrema direita no tabuleiro eleitoral – tanto para a Presidência como para o Senado.

Mendonça deslocou a disputa sobre propostas de governo, defesa da soberania e democracia, e comparação do passado e presente dos candidatos para o debate sobre corrupção. Ele colocou o STF no centro do escrutínio e arrastou o governo para um ringue árido.

Os movimentos audazes contra o ministro Alexandre de Moraes [1º/9] e o Diretor-Geral da PF Andrei Rodrigues [8/9], num jogo de tudo ou nada, chamam atenção. Não foi uma cartada de perdedor ou de blefador.

E ele não agiu como um camicase, mas como integrante de uma articulação política mais abrangente, de caráter internacional, com participação dos EUA e apoio interno, que alimenta mais que perspectiva, mas confiança na vitória eleitoral.

O script seguido por ele é metódico, bem orquestrado e inclusive atiça o fundamentalismo religioso.

Começa em 1º de setembro, faltando pouco mais de um mês para a eleição, quando Mendonça atropelou o Plenário do STF e violou ilegalmente o sigilo de investigações sobre Alexandre de Moraes num “vazamento oficial” para alimentar a narrativa da extrema direita contra o judiciário e gerar dividendos eleitorais para Flávio Bolsonaro.

Na 6ª feira, 4/9, ele agradeceu em vídeo a solidariedade de irmãos em oração. “Estejam certos que suas preces a Deus têm sido fundamentais para me sustentar e sustentar a minha família. Que Deus os abençoe e que Deus abençoe o nosso País”, disse.

No domingo, 6/7, Michelle Bolsonaro declarou-o como “ungido do Senhor” e pediu “força e coragem” a ele.

Mendonça foi ungido nos atos entreguistas dos bolsonaristas no 7 de setembro; e, no dia seguinte, 8/7, num ato de invasão de competência do Presidente da República, pediu afastamento de Andrei Rodrigues do comando da PF, num gesto em que se insinua como autor de uma ação moralizante diante da inação conivente do Lula. Nikolas Ferreira disse: “é só o começo” do jogo sujo.

Se Flávio Bolsonaro vencer a eleição, Mendonça terá quatro novos colegas de perfil igual ou pior que o dele indicados. Ele então assumiria a condição de líder de uma maioria Schmittiana, de juízes legitimadores do Estado de Exceção no STF num país então mergulhado no precipício fascista. Teria tanto ou mais poder que o próprio Flávio.

Os movimentos de Mendonça sedimentaram a narrativa da extrema direita contra o judiciário e criaram uma cortina de fumaça que eclipsa totalmente Daniel Vorcaro e esconde a relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro mafioso, que repassou a ele quase R$ 70 milhões, pelo que se sabe, por enquanto.

A ofensiva do ministro bolsonarista opera no imaginário social a falsa ideia de cruzada pela moralidade e combate à corrupção – combustível para a mídia hegemônica, sobretudo para a Rede Globo. No afã de impedir a reeleição do presidente Lula, a Globo incensa esse viés, como deixou claro nas entrevistas do Jornal Nacional.

Essa narrativa cínica cria uma cilada para o governo.

Mesmo defendendo a apuração dos fatos suspeitos e comprometedores do ministro Alexandre de Moraes, o governo fica com as margens estreitadas para confrontar Mendonça diretamente, pois daria combustível à narrativa bolsonarista, operada a partir da lógica rudimentar de que STF mais governo e mídia integram “o sistema corrupto” que fraudou a eleição de 2022 e perseguiu Bolsonaro para impedir que a direita continuasse governando o Brasil e então eles, o “sistema corrupto”, continuassem roubando o país.

Enquanto o governo defende o STF como fator crucial para proteger nossa débil e ameaçada democracia [o que não significa, em absoluto, endossar ou defender desvios de ministros], os movimentos de André Mendonça visam o exato oposto: enfraquecer para destruir o judiciário, seguindo o manual da extrema direita internacional para instalar autocracias ou ditaduras com verniz de normalidade institucional.

Desde que assumiu a relatoria do caso Master em lugar de Dias Toffoli, Mendonça adotou medidas abusivas e ilegais. Ele alienou o Diretor-Geral da PF das investigações, concentrou os dados brutos no seu gabinete, interferiu nas equipes e no funcionamento das investigações, e impediu que investigadores se reportassem aos superiores hierárquicos.

Apesar dos pedidos da PF, tais ilegalidades do ministro relator não foram combatidas pelo Advogado-Geral da União e pelo ministro da Justiça – aliás, de tão sumido e ausente dessa grave conjuntura, sequer se sabe seu nome.

A Inteligência da PF demonstrou, a partir da compilação de decisões e ordens ilegais de Mendonça, que ele atropelou o Plenário para atingir Moraes e dinamitar o STF, concentrou os dados de Daniel Vorcaro no seu gabinete para vazar e esconder autores de vazamentos criminosos, e usurpou competências da PF para enviesar as investigações para safar Flávio Bolsonaro e bolsonaristas.

André Mendonça perdeu totalmente a condição de continuar na relatoria dos casos Master e INSS, pois conduz seu trabalho de modo enviesado para prejudicar o governo e beneficiar o campo bolsonarista.

Com os desvios cometidos no seu agir político-estratégico, seu destino está atrelado ao destino de Alexandre Moraes, ainda que por motivos distintos.

 

Fonte: Fórum/Viomundo

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