Flávio Dino desfaz ‘trapalhada’ de Mendonça e
reintegra Diretor-Geral e Delegado aos cargos da PF
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal
Federal (STF), determinou nesta quarta-feira (9/9) a reintegração de Andrei
Augusto Passos Rodrigues e Leandro Almada da Costa aos cargos que ocupavam na
Polícia Federal — respectivamente, Diretor-Geral e Delegado, e Delegado e
Diretor de Inteligência Policial.
Os dois haviam sido afastados na terça-feira
por decisão liminar do ministro André Mendonça, referendada em seguida por
maioria formada na Segunda Turma do STF. Rodrigues recorreu a Dino, que
reverteu a decisão com base em sete argumentos principais (leia mais abaixo).
Dino também proibiu, em caráter preventivo,
que sejam impostas novas medidas cautelares pessoais contra Andrei Rodrigues e
Leandro Almada com base em atos praticados no exercício regular de suas
funções, e determinou que a Diretoria de Inteligência Policial da PF volte a
funcionar normalmente.
Segundo o ministro, a decisão está submetida
à autoridade do Plenário do STF.
1. O partido Novo não tinha legitimidade para
pedir o afastamento
Em sua decisão, Dino afirma que Mendonça
afastou Andrei Rodrigues e Leandro Almada a partir de um requerimento
apresentado pelo partido Novo. Segundo Dino, o Código de Processo Penal não
inclui partidos políticos entre os sujeitos autorizados a requerer medidas
cautelares em processos penais.
Dino cita o artigo 282, parágrafo 2º, do
Código Processual Penal, segundo o qual as "medidas cautelares serão
decretadas pelo juiz a requerimento das partes" ou por iniciativa da
autoridade policial ou do Ministério Público — nunca de uma agremiação
partidária.
2. O caso seria de competência do Plenário,
não de Mendonça ou da Segunda Turma
Dino também questionou quem tinha poder para
julgar o caso. Ele lembrou que o presidente do STF, Edson Fachin, já havia
aberto um procedimento próprio reconhecendo que a competência para examinar
essa controvérsia era do Plenário, e não de um colegiado menor.
Se isso é verdade, argumentou o ministro, a
decisão individual de Mendonça — ainda que submetida à Segunda Turma para
referendo — passou por cima de uma instância que já tinha sido chamada a
decidir.
3. Um ministro não pode julgar um caso em que
também é parte interessada
Dino argumentou que a decisão de Mendonça
teria se sobreposto a um procedimento no qual o próprio ministro figura como
parte, já que os relatórios de inteligência que fundamentaram o afastamento
também tratavam de suposto monitoramento dirigido a ele.
O relator chegou a questionar, no texto, se
"uma parte pode ser juiz de si mesma" — e concluiu que, nesse caso,
caberia a Mendonça se dirigir ao presidente do STF ou ao Plenário, não decidir
sozinho.
4. O episódio da reunião com Daniel Vorcaro
Na decisão, Dino chamou atenção para outro
fato que, segundo ele, reforça a necessidade de cautela: a notícia de que
Mendonça teria se reunido com o empresário Daniel Vorcaro — investigado em
processos sob a própria relatoria do ministro — nas dependências de uma empresa
privada, com intermediação de pessoas ligadas a investigações em curso no
Judiciário.
O ministro afirmou que não está fazendo
nenhum julgamento sobre o que aconteceu nesse encontro, mas o citou como parte
de um contexto que, em sua avaliação, pede mais moderação da magistratura —
especialmente em plena campanha eleitoral.
5. O risco para investigações em curso,
incluindo as da própria relatoria de Dino
Para o ministro, suspender as atividades de
inteligência da Polícia Federal, como determinou Mendonça, pode travar centenas
de investigações em andamento - inclusive algumas que estão sob sua própria
relatoria.
Dino lembrou que casos de grande repercussão,
como o assassinato da vereadora Marielle Franco, só foram esclarecidos
justamente graças ao trabalho de inteligência da PF, o que reforçaria o risco
de uma paralisação ampla da área.
6. O apoio de outros ministros às mesmas
dúvidas
Dino não é o único a levantar essas questões.
Ao pedir vista do processo ainda na Segunda Turma, o decano do STF (ministro
que ocupa a cadeira há mais tempo), Gilmar Mendes, já havia sinalizado as
mesmas preocupações: a possível ilegitimidade do partido para fazer o pedido e
a competência do Plenário para julgar o caso.
Mendes citou ainda um precedente da própria
Corte que considerou inconstitucionais decisões judiciais capazes de
desequilibrar disputas eleitorais.
Dino também mencionou uma carta pública
assinada por ministros aposentados e ex-presidentes do STF no início de
setembro, defendendo que as controvérsias sobre os relatórios da Polícia
Federal fossem tratadas pelo Plenário, com respeito rigoroso ao devido processo
legal.
7. Rodrigues só cumpriu ordens judiciais
Por fim, Dino observou que, em um primeiro
exame, Rodrigues apenas cumpriu determinações do ministro Alexandre de Moraes -
o que tornaria ainda mais desproporcional aplicar contra ele uma medida
cautelar pessoal.
O mesmo raciocínio, segundo o relator, vale
para Leandro Almada, afastado da Diretoria de Inteligência Policial.
• 'Metástase'
da crise entre ministros do STF ameaça instituições brasileiras, dizem
especialistas
Desde que veio à tona, há pouco mais de uma
semana, o embate entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre
de Moraes e André Mendonça — que teve início após a revelação de diálogos entre
o banqueiro Daniel Vorcaro e um contato atribuído a Moraes — já era tratado
como uma crise sem precedentes na Corte.
Mas a escalada do conflito nos últimos dias,
alimentada por sucessivas divulgações de mensagens e relatórios, já ultrapassa
as fronteiras do Supremo e "contamina" outras instituições da
República, na avaliação de especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.
"É uma coisa nunca vista. São
mencionados [nos relatórios] outros ministros do Supremo, o senador Davi
Alcolumbre, o diretor-geral da Polícia Federal, o PGR. Então é uma crise que se
esparrama em diferentes instituições e em diferentes níveis", afirma Aury
Lopes Jr., doutor em direito processual penal.
"Eu percebo a contaminação, a
metástase."
No episódio mais recente, na terça-feira
(8/9), Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia
Federal (PF), Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada,
sob a alegação de que ele próprio vinha sendo alvo de "monitoramento
sistemático e ilegal" pela PF havia mais de 30 dias.
A Segunda Turma do STF formou maioria para
manter o afastamento, mas o julgamento foi suspenso após pedido de vista de
Gilmar Mendes.
A decisão provocou uma reação dentro da
própria PF. Onze diretores da corporação colocaram seus cargos à disposição em
apoio a Rodrigues e Almada. O episódio também arrastou a crise para Palácio do
Planalto, que contestou a decisão de Mendonça por meio da Advocacia-Geral da
União (AGU), pedindo a suspensão do afastamento.
Nesta quarta-feira (9/9), o ministro Flavio
Dino determinou a reintegração de Andrei Rodrigues e Leandro Almada à PF, em
mais uma reviravolta na Corte.
"A crise é no STF, mas ela puxa o
Executivo, puxa o Legislativo e joga uma pressão enorme sobre o Alcolumbre
[presidente do Senado] para abrir um pedido de impeachment contra o Alexandre
de Mores. E ele próprio é uma peça frágil nesse escândalo do Banco
Master", analisa o professor de Direito da FGV Rio Marco Antonio Teixeira.
Segundo reportagem da revista Veja, Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP) teria sido citado em uma das propostas de delação
premiada apresentadas pela defesa de Vorcaro e posteriormente rejeitadas pela
PF. O banqueiro teria afirmado que o presidente do Senado recebeu dinheiro, o
que Alcolumbre nega.
O senador também aparece em um relatório de
inteligência da PF usado por Moraes para contra-atacar Mendonça após a
divulgação das mensagens com Vorcaro.
O documento classifica Alcolumbre como um
"provável alvo estratégico" de Mendonça e levanta suspeitas sobre uma
suposta atuação política do ministro.
Aury Lopes Jr. destaca o caráter político do
conflito entre Mendonça e Moraes.
"Essa briga, além de ser uma briga
pessoal, tem se transformado num palco político. E a minha preocupação é que
isso acabe se tornando uma discussão exclusivamente política de quem tem mais
força", aponta Lopes.
As interações entre Moraes e Vorcaro vieram a
público depois que André Mendonça, relator do caso do Banco Master no STF,
retirou o sigilo de parte de um relatório da PF e pediu que o presidente da
Corte, Edson Fachin, levasse o caso ao plenário.
As conversas indicam que o banqueiro recorria
ao ministro para tratar de assuntos de seu interesse e da negociação de
contratos. Em uma delas, Vorcaro pediu que Moraes intercedesse junto ao
diretor-geral da PF e ao procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet, nas
investigações sobre o Banco Master.
Dois dias depois da revelação das mensagens,
Moraes reagiu divulgando relatórios apócrifos da PF que apontavam supostas
condutas irregulares de Mendonça na condução de casos na Corte.
Moraes determinou que o material fosse
incorporado ao Inquérito das Fake News, que está sob sua relatoria.
Além de citar Alcolumbre, o documento
recomenda "monitoramento e coleta dirigida" sobre Mendonça e sua
relação com o advogado-geral da União, Jorge Messias.
A sucessão de acontecimentos levou 13
ministros aposentados do STF a enviar uma carta a Edson Fachin. Eles
classificaram o momento como a "mais aguda crise" da história da
Corte e pediram uma apuração "rigorosa dos fatos", temendo que a
crise comprometa a "estabilidade das instituições".
A Transparência Internacional Brasil também
divulgou uma nota afirmando que o cenário representa risco de "colapso
institucional" e defendeu medidas para conter a escalada.
Para Teixeira, o envolvimento de agentes
públicos de diferentes instituições e níveis mostra o alcance da crise, que já
provoca um processo de "degradação moral" que ameaça as instituições
brasileiras.
"O processo de degradação está em curso.
É uma degradação sobretudo moral, que está resvalando para uma degradação
institucional. As instituições são feitas por esses homens, por essas pessoas.
Então, o descrédito individual de cada um está atingindo as instituições",
afirma.
"E esse descrédito se acentua agora, de
maneira muito violenta, à véspera do processo eleitoral, o que é grave e
perigoso."
"O Supremo precisa dar uma resposta
rápida para a sociedade para tentar diminuir a temperatura, porque, senão, não
apenas vai estar exposto, mas vai estar interferindo diretamente na disputa
eleitoral", acrescenta.
<><> STF no centro da disputa
eleitoral
A menos de um mês das eleições, as pesquisas
de intenção de voto mostram uma disputa acirrada pela Presidência da República.
De acordo com o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, Flávio Bolsonaro
(PL) aparece com 45% e Lula (PT), com 44% nas simulações de segundo turno.
Para especialistas, o desgaste enfrentado
pelas instituições em meio a um processo eleitoral altamente polarizado traz o
STF para dentro da disputa, principalmente pelo papel que a Corte passou a
ocupar no debate político nos últimos anos.
"O STF tem sido um ator que tem tido uma
proeminência na agenda política muito forte. Em 2018, o STF afastou o Lula da
disputa, em 2022, trouxe o Lula de volta. Em 2026, o STF tirou o Bolsonaro da
disputa", destaca Teixeira.
Na avaliação de Lopes, esse cenário se agrava
à medida que divulgações envolvendo ministros da Corte e autoridades dos Três
Poderes são feitas, levantando questionamentos sobre os interesses políticos
por trás dos vazamentos.
"Quem está vazando e por que está
vazando? E por que está vazando na medida em que vaza, nos momentos em que
vaza? Isso precisa ser questionado porque corrói essa credibilidade que a gente
tem nas instituições. Estamos vendo vazamentos seletivos, com interesses
ideológicos."
O conflito também tem transformado o STF em
pauta eleitoral.
Candidatos à Presidência e parlamentares de
oposição intensificaram as críticas a Alexandre de Moraes e incorporaram seu
impeachment nos discursos. Durante a manifestação de 7 de setembro, Flávio
Bolsonaro e aliados usaram o palanque para focar na crise envolvendo o STF.
Para Renan Melo, professor de Direito da
Universidade Presbiteriana Mackenzie, embora o episódio possa ser usado como
munição para alavancar algumas candidaturas, seu efeito sobre o resultado da
eleição tende a ser limitado.
"A gente tem um juiz que foi o relator
do processo de condenação do ex-presidente Bolsonaro, que é vinculado à
candidatura do filho. Então isso vai ser usado, já está sendo, na
verdade."
"Talvez aquele pequeno núcleo de pessoas
ainda indecisas ou que migram entre os candidatos possa ser afetado. Mas não o
núcleo duro do eleitorado de cada candidato, que já está consolidado",
pontua.
<><> 'Impeachment de ministro não
resolve crise'
Apesar do alastramento da crise, os
especialistas ouvidos pela BBC não consideram que o país esteja diante de uma
ruptura institucional iminente.
Melo lembra que as instituições brasileiras
já atravessaram crises profundas e demonstraram capacidade de resistência, como
no 8 de janeiro e na pandemia.
"Eu ainda aposto que as instituições vão
conseguir, de alguma forma, superar esse momento por meio dos próprios
mecanismos institucionais."
Para ele, porém, o problema não pode ser
reduzido às pessoas atualmente envolvidas, mas precisa ser tratado como algo
sistêmico. A eventual saída de ministros, parlamentares ou outras autoridades
não eliminaria as fragilidades que permitem a repetição desse tipo de situação.
"Não adianta promover a saída, o
afastamento de um deputado, de um senador, impeachment de um ministro, se a
gente não mudar a lógica dessas instituições e do funcionamento delas."
O professor cita, entre os problemas
estruturais, as fragilidades na regulamentação do sistema financeiro, a falta
de institucionalização do lobby e relações inadequadas entre integrantes dos
Poderes e agentes econômicos, que em alguns casos não configuram ilegalidade,
mas podem gerar conflitos de interesse e comprometer a confiança nas
instituições.
Já Aury Lopes Jr. vê a crise como uma
oportunidade — e uma necessidade — de rever o funcionamento do Supremo. Ele
defende que o episódio seja seguido por uma discussão sobre os limites de
atuação dos ministros, o código de ética da Corte e a própria lei de
impeachment.
"Eu espero que, primeiro, não se
normalize o anormal funcionamento das coisas. Isso tudo não é normal. E que o
Supremo saia dessa crise, até porque é uma instituição muito importante em uma
democracia", afirma.
A crise atual tem gerado uma discussão mais
ampla sobre as próprias regras que organizam a relação entre os Poderes.
Na sexta-feira (4/9), o próprio presidente
Lula defendeu "reformas profundas" no Judiciário e no sistema
político, além de investigações sem privilégios ou blindagens.
Sem mencionar diretamente os ministros
envolvidos no embate, Lula afirmou que é preciso fortalecer a confiança da
população nas instituições.
Marco Antonio Teixeira demonstra dúvidas
sobre a real viabilidade dessas reformas.
"A grande pergunta que se fica é: será
que vamos ter um debate qualificado para uma responsabilidade tão grande? Ou a
gente vai ter aquela fumaça de sempre, que é a reforma política, que aparece
sempre como algo importante, inevitável para o país e acaba não se avançando
muito, do ponto de vista dos resultados?", questiona Teixeira.
Fonte: BBC News Brasil
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