O operador interno do golpe: Mendonça produz
a crise que Washington precisava
André Mendonça atravessou uma fronteira que
muda a natureza da crise no Supremo. Ao acusar a inteligência da Polícia
Federal de monitorá-lo sistematicamente, falar em “arapongagem institucional”,
associar Alexandre de Moraes ao conhecimento dessas informações e recorrer à
imagem totalitária de 1984, o ministro deixou de disputar apenas a condução de
uma investigação. Produziu uma representação muito mais corrosiva do Estado
brasileiro: a de um aparelho público que teria passado a vigiar
clandestinamente autoridades do próprio país. Ao afastar a direção da Polícia
Federal, colocou Supremo, PF e Executivo numa mesma zona de ruptura. A crise
deixou de ser apenas um choque entre ministros e passou a atingir a
legitimidade recíproca das instituições.
É justamente aí que está o fato político
novo. Durante mais de um ano, Alexandre de Moraes foi construído nos Estados
Unidos como o rosto de um suposto regime de censura. Decisões contra
plataformas digitais, investigados e operadores da extrema direita foram
arrancadas do conflito político brasileiro e traduzidas como ameaça à liberdade
de expressão, às empresas norte-americanas e, depois, aos próprios interesses
dos Estados Unidos. A narrativa produziu consequências materiais: atravessou o
Congresso e o Executivo norte-americanos, alimentou sanções, medidas comerciais
e pressão diplomática. Washington já demonstrou que consegue converter uma
interpretação política sobre o Judiciário brasileiro em instrumento de coerção.
Mendonça acrescenta agora algo que essa
narrativa ainda não possuía. Censura é controle da palavra. Vigilância é poder
sobre o indivíduo. A acusação de que um ministro do Supremo teria sido
monitorado por estruturas de inteligência exige uma arquitetura muito maior do
que a figura isolada de um juiz autoritário. Ela convoca polícia, coleta de
informações, circulação de dados, cadeia de comando e conhecimento
institucional. Moraes pode deixar de ser apresentado apenas como o magistrado
que silencia adversários e passar a ser associado à imagem de um sistema que
observa, investiga e neutraliza. Mendonça não falou em “deep state brasileiro”,
mas colocou em circulação uma linguagem que pode ser traduzida nessa direção
com facilidade.
Isso não significa que suas acusações estejam
definitivamente provadas. Elas precisam ser investigadas, confrontadas e
submetidas ao devido processo. Essa distinção é indispensável porque a força
política do episódio nasce justamente da diferença entre o tempo da prova e o
tempo do poder. Uma investigação precisa estabelecer fatos e responsabilidades.
Uma operação política precisa apenas produzir uma interpretação suficientemente
plausível para circular antes que o processo seja concluído. Washington já possui
a infraestrutura política, jurídica e econômica capaz de receber essa matéria e
dar consequência a ela. A arma não nasceu com a crise. O que surgiu agora foi
uma munição nova.
Para compreender por que Mendonça ocupa
posição tão sensível nesse processo, é preciso olhar menos para sua biografia
formal e mais para os circuitos pelos quais circulou. A ANAJURE apoiou
publicamente sua indicação ao Supremo e mantém relação institucional com a
Alliance Defending Freedom, organização jurídica conservadora norte-americana
ligada ao Blackstone Legal Fellowship. A Academia ANAJURE reuniu Mendonça e
dirigentes desse circuito. Em outra frente, ele participou de programas
oficiais de formação anticorrupção em Washington, esteve em ambientes de
cooperação com Departamento de Justiça, FBI e SEC e, quando ministro da
Justiça, manteve interlocução com a embaixada dos Estados Unidos em temas de
segurança pública e crimes cibernéticos. Durante a Lava Jato, também esteve no
centro da controvérsia sobre o acesso da defesa de Lula a registros de
cooperação entre autoridades brasileiras e o FBI.
Há ainda sua circulação por redes
internacionais pró-Israel. Em 2024, Mendonça integrou viagem a Israel
organizada e financiada por entidades privadas ligadas à defesa pública do
Estado israelense, criticou depois a posição diplomática brasileira sobre Gaza
e participou de ambientes institucionais que aproximam conservadorismo
religioso, política e defesa de Israel. Nenhum desses vínculos prova
subordinação, comando estrangeiro ou direção de suas decisões. Prova, porém,
circulação, afinidade e inserção em redes transnacionais que conectam direito,
religião, segurança e política. É nesse nível, e somente nele, que essas
relações importam para compreender sua posição atual.
Operador, aqui, não é sinônimo de agente. Um
agente pressupõe vínculo, comando ou orientação demonstrável. Um operador
histórico pode agir por convicção própria e ainda desempenhar uma função
objetiva numa correlação de forças maior. O que define essa função não é uma
suposta ordem secreta recebida de Washington, mas o efeito material do ato.
Mendonça está no centro de uma das instituições mais poderosas do Estado
brasileiro e produz decisões capazes de atravessar imediatamente fronteiras
jurídicas, informacionais e diplomáticas. Ele não precisa pedir sanções nem
formular a narrativa norte-americana. Basta produzir, no exercício do cargo,
elementos que outros atores sabem transportar e converter.
Esse circuito já está aberto. A extrema
direita brasileira aprendeu a internacionalizar conflitos domésticos traduzindo
decisões judiciais, investigações e disputas eleitorais para o vocabulário
político dos Estados Unidos. Eduardo Bolsonaro tornou-se um dos principais
intermediários dessa ponte ao atuar em Washington, defender sanções contra
Moraes e apresentar a crise brasileira como evidência de autoritarismo. O
episódio atual oferece algo qualitativamente distinto: não apenas a denúncia de
adversários do Supremo, mas documentos, decisões e acusações produzidos por um
ministro da própria Corte. A contestação ganha, assim, autoridade institucional
antes de atravessar a fronteira.
A divisão de trabalho é objetiva. Mendonça
produz o fato institucional. A extrema direita formula o enquadramento.
Intermediários transportam a narrativa. O ecossistema trumpista amplifica. O
Estado norte-americano possui instrumentos para transformar percepção em custo
econômico, diplomático ou financeiro. Nenhuma dessas etapas exige uma sala de
comando comum. Convergência não é conspiração. Na política de poder, atores
diferentes podem agir por interesses próprios e produzir resultados
complementares. É precisamente aí que Mendonça se torna operador interno da
ruptura: sua atuação aumenta o valor estratégico de uma crise que Washington já
vinha explorando.
O mecanismo ganha profundidade quando a
possibilidade de punição externa começa a entrar no cálculo doméstico. Se
ministros, autoridades e instituições sabem que uma decisão tomada em Brasília
pode produzir sanção em Washington, o poder externo já interfere no ambiente
interno antes de qualquer nova medida ser anunciada. Soberania deixa então de
ser apenas uma questão jurídica. O Estado permanece formalmente livre para
decidir, mas suas escolhas passam a carregar o risco de uma retaliação definida
por outra potência. O condicionamento antecede a coerção.
Para um país do Sul Global, essa assimetria é
decisiva. Potências centrais não precisam fabricar todas as crises da
periferia. Basta reconhecer quais contradições internas podem ser convertidas
em vantagem externa. Quanto mais fragmentado o centro decisório brasileiro,
menor o custo de pressioná-lo. Um ministro confronta a Polícia Federal, a PF
contesta a interpretação do ministro, o Executivo reage para preservar sua
autoridade e o Supremo precisa arbitrar um conflito que já corrói sua própria
legitimidade. O Estado começa a ser colocado contra si mesmo exatamente quando
uma potência externa dispõe de meios para selecionar interlocutores, punir
adversários e transferir o conflito para arenas em que a assimetria de poder
lhe é favorável.
É aí que o golpe do século XXI se afasta da
imagem clássica. Não precisa haver tanques diante do Congresso nem generais
anunciando uma nova ordem. A ruptura pode preservar formalmente as instituições
enquanto esvazia sua capacidade real de decidir. O tribunal continua aberto, o
governo continua eleito, a polícia continua funcionando e a Constituição
permanece em vigor. Mas autoridades passam a calcular o risco de sanções
pessoais, atores domésticos procuram em Washington a força que não conseguem
produzir internamente e decisões soberanas são submetidas à expectativa
permanente de retaliação estrangeira.
Defender a soberania brasileira, por isso,
não significa blindar Alexandre de Moraes, a Polícia Federal ou qualquer
autoridade. Se houve abuso, espionagem ilegal, favorecimento ou crime, que tudo
seja investigado, provado e punido no Brasil. Uma democracia que protege seus
próprios agentes contra a lei oferece munição a quem pretende deslegitimá-la. O
que não pode ser normalizado é outra coisa: transformar uma fragilidade interna
em autorização para que Washington adquira o poder de definir quem, dentro do Estado
brasileiro, merece governar, julgar, investigar ou permanecer no cargo.
A história dos golpes na periferia raramente
começa no instante em que a ordem constitucional cai. Antes existe uma batalha
pela autoridade de definir o legítimo. Quando essa autoridade começa a migrar
para fora do território nacional, a ruptura já está em curso, mesmo que nenhuma
instituição tenha sido fechada. Mendonça não precisa ser agente de Washington
para funcionar como operador interno de uma correlação de forças que favorece
Washington. Basta que a fissura produzida dentro do Estado seja convertida,
fora dele, em capacidade de coerção sobre o Brasil.
O problema, portanto, não é apenas o que
André Mendonça pretende fazer com Alexandre de Moraes.
É o que Washington poderá fazer com o Brasil
a partir da crise que Mendonça acaba de produzir.
• Mais
uma vez, o golpe vem pelas mãos de um juiz. Por Florestan Fernandes Jr
Não estou falando de uma metáfora ou de uma
hipótese distante. Estamos em 2026, a menos de trinta dias do primeiro turno da
eleição presidencial, e uma decisão monocrática de André Mendonça acaba de
afastar Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, das investigações
sobre o Banco Master. Na mesma decisão, Mendonça afastou também o delegado
Leandro Almada, diretor de Inteligência da PF.
Mais do que isso: a decisão foi tomada em
resposta a petições apresentadas pelo Novo nos dias 2 e 3 de setembro, nas
quais o partido pediu a prisão preventiva de Andrei Rodrigues. Mendonça não
acolheu esse pedido, mas determinou o afastamento do diretor-geral e do
responsável pela inteligência da Polícia Federal.
É uma decisão de enorme alcance. E a primeira
pergunta que ela provoca não é apenas se André Mendonça tinha competência para
determinar os afastamentos, mas que consequências políticas uma decisão como
essa produz quando é tomada justamente no momento em que o país se prepara para
escolher seu próximo presidente?
Decisões judiciais não acontecem no vácuo.
Produzem efeitos concretos na vida política. E, neste caso, o afastamento do
comando da Polícia Federal ocorre justamente quando as investigações do Banco
Master envolvem personagens com fortes conexões políticas e podem atingir
interesses de diferentes grupos.
É preciso, portanto, olhar para essa decisão
para além da disputa jurídica entre autoridades.
Há dúvidas sérias sobre a própria forma e o
contexto em que ela foi tomada. É legítimo questionar se um partido político
tem legitimidade para provocar uma medida dessa natureza. Também é preciso
perguntar: é aceitável, por decisão monocrática, afastar autoridades sem que
tenham sido previamente ouvidas? Se existem evidências de erros ou
irregularidades em procedimentos específicos, o natural seria investigar esses
atos e, se necessário, responsabilizar quem os praticou. Outra coisa, muito
diferente, é afastar o diretor-geral da Polícia Federal do cargo.
Há ainda uma questão institucional que não
pode ser ignorada. A Polícia Federal está vinculada administrativamente ao
Ministério da Justiça. Antes de uma intervenção judicial dessa magnitude, seria
razoável que o próprio ministério tivesse a oportunidade de examinar os fatos,
adotar as medidas administrativas eventualmente cabíveis e apresentar seus
esclarecimentos.
O risco, quando isso não acontece, é que
procedimentos administrativos e judiciais deixem de cumprir seus pressupostos
legais e objetivos públicos e passem a ser utilizados como instrumentos de uma
disputa entre autoridades. E isso é especialmente perigoso quando as acusações
ainda precisam ser submetidas ao devido processo legal, ao contraditório e à
comprovação dos fatos.
Reitero uma razão ainda maior para que essa
decisão seja analisada com lupa: o calendário eleitoral.
O Brasil já passou por isso.
Em 2018, também foi pelas mãos de um juiz que
uma decisão judicial interferiu decisivamente na eleição presidencial. Sérgio
Moro, então responsável pela Lava Jato, condenou Lula e impediu que o candidato
que liderava as pesquisas disputasse a eleição. Pouco depois, aceitou o convite
de Jair Bolsonaro e tornou-se ministro da Justiça e Segurança Pública de seu
governo.
Não estou dizendo que 2026 seja uma repetição
de 2018. Mas seria irresponsável esquecer o que aconteceu.
Agora, novamente, um integrante do Judiciário
toma decisões que podem produzir consequências diretas sobre uma eleição
presidencial. E o personagem no centro dessa história é André Mendonça,
indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro.
É por isso que sua atuação nos casos do INSS
e do Banco Master precisa ser examinada não apenas pelo que está escrito nos
autos, mas também pelos efeitos políticos de suas decisões.
De um lado, investigações envolvendo pessoas
próximas ao governo Lula sofrem vazamentos consecutivos, ganham enorme
repercussão e são transformadas em munição política. De outro, quando as
apurações se aproximam de Flávio Bolsonaro e de suas relações com Daniel
Vorcaro, o tratamento é muito mais cuidadoso.
É essa assimetria que precisa ser explicada.
No caso do INSS, Mendonça permitiu que a
investigação sobre um suposto tráfico de influência envolvendo Fábio Luís Lula
da Silva, filho do presidente, ganhasse enorme repercussão política, embora,
até aqui, não tenham sido apresentadas publicamente provas capazes de sustentar
as acusações mais graves. E existe uma ironia que não pode ser ignorada: o
esquema de fraude contra aposentados, que está no centro da investigação, teve
origem durante o governo Bolsonaro e passou a ser investigado pela Polícia Federal
no atual governo.
Já quando o assunto envolve Flávio Bolsonaro,
o tratamento parece ser outro.
O senador mantém uma relação próxima e
conhecida com Daniel Vorcaro, a quem chegou a chamar de “irmãozão”. Existe
ainda a história do contrato milionário de patrocínio do Banco Master ao filme
Dark Horse, no valor de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da
época. Há meses Flávio Bolsonaro promete apresentar o documento que comprovaria
os termos do negócio. Até agora, porém, o contrato não apareceu.
É nesse contexto que o afastamento de Andrei
Rodrigues e Leandro Almada ganha uma dimensão que não pode ser ignorada. A
Polícia Federal é uma das instituições centrais para esclarecer as relações de
Daniel Vorcaro com empresários, políticos e autoridades. Mexer justamente na
estrutura que conduz essas investigações, em pleno ano eleitoral, não é um fato
politicamente neutro.
Flávio Bolsonaro vem crescendo nas pesquisas.
O Banco Master está no centro de uma investigação que envolve bilhões de reais
e personagens poderosos. E decisões judiciais tomadas por um ministro indicado
por Jair Bolsonaro atingem a estrutura da Polícia Federal responsável por
investigar o caso. É impossível olhar para tudo isso e simplesmente dizer que
se trata apenas de uma questão jurídica.
Em 2018, Sérgio Moro também dizia estar
apenas cumprindo seu dever. A consequência foi a retirada de Lula da eleição e
a abertura do caminho para a vitória de Jair Bolsonaro. Depois, Moro deixou a
magistratura e tornou-se ministro do presidente beneficiado por aquela decisão.
O que André Mendonça está fazendo em 2026
precisa ser questionado com rigor pelo STF. Está mais do que claro que essa
decisão de André Mendonça terá impactos na eleição. Nossa democracia não pode
depender apenas da boa-fé de quem exerce o poder de decidir. É necessário criar
mecanismos capazes de evitar a instrumentalização da Justiça.
Quando esses limites começam a ser
relativizados em ano eleitoral, o sinal de alerta precisa ser ligado.
A história brasileira já nos ensinou que, às
vezes, a interferência mais decisiva em uma eleição não acontece nas urnas.
Acontece antes, pelas mãos de quem tem o poder de impedir que determinados
candidatos cheguem até elas.
Tudo o que está acontecendo neste momento se
assemelha ao cenário de 2018. Podemos estar diante de uma nova “facada” que,
naquela época, garantiu a vitória de Jair Bolsonaro e afundou o Brasil em um
cenário de terra arrasada.
Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil
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