Salário, gasto público e valor
O capitalismo certamente não inventou o
dinheiro, mas é nele que o dinheiro se torna a base de todo o edifício social.
Os vais e vens de qualquer governo, à esquerda ou à direita, são atravessados
pela dinâmica da moeda, da política monetária, da taxa de juros, da taxação e
do imposto, da dívida e do gasto públicos.
O presente texto, baseado em ideias
desenvolvidas longamente em minha tese de doutorado e no livro dela derivado,
tem como objetivo chamar a atenção para uma dinâmica classista imanente ao
dinheiro que, no debate público, tende a não se aprofundar para além da camada
ideológica, não indo à “câmara escura” da produção do valor.
<><> Do salário ao salário social
Como indicam Gilles Deleuze & Félix
Guattari, o axioma fundamental, indispensável, ao capitalismo, é o encontro, a
conjunção, entre força de trabalho e dinheiro. O trabalhador “livre” vende sua
força de trabalho no mercado para alguém que o paga. Há uma troca entre o
trabalhador e o capital: tempo de trabalho realizado por dinheiro. O nome disso
é salário, e o trabalhador é um assalariado.
Devemos a Karl Marx a famosa descoberta do
“mais-valia”: para encurtar a história, o salário pago ao trabalhador não
corresponde ao valor que é por ele produzido. Parte do que o trabalhador produz
vai para o patrão, na forma empírica do lucro. Desse modo, parte do tempo de
trabalho em que o trabalhador despende sua força de trabalho é por ele
recebida, e outra parte não é paga e se torna o mais-valor acumulado pelo
patrão capitalista. Esse é o salário tradicional. Podemos chamá-lo de salário
simples (e não há diferença, aqui, se ele é o de um trabalhador industrial,
agrícola ou dos serviços).
Alguns autores marxistas vinculados à
tradição do operaísmo italiano, nos anos 1960 e 1970 – mas eles não são os
únicos a apontar fenômeno análogo –, perceberam que com o desenvolvimento do
capitalismo e com o progressivo abarcamento da sociedade sob a lógica do
capital, a categoria de salário simples já não dizia tudo sobre a dinâmica da
exploração.
O Estado, para esses autores, na era fordista
e keynesiana, foi abarcado como elemento do processo de produção total da
sociedade capitalista. A produção é cada vez maior e mais integrada, mais
socializada: toda a sociedade, em sua vida, sua cultura, sua reprodução, passa
a ser abarcada pela lógica do capital –algo também percebido pelos autores da
Escola de Frankfurt.
Karl Marx já havia proposto uma distinção
conceitual para falar de dois momentos da subsunção da sociedade ao capital:
primeiramente – pensemos no início do século XIX, há a subsunção formal. Nela,
o capitalista encontra e explora formas de relação e produção, de cultura, de
modo de vida, de tecnologia, que funcionam de modo relativamente externo à
dinâmica do capital, separado dele. Progressivamente, entretanto, o capital
passa à subsunção real: nela, sempre avançando nesse processo por natureza não
totalizante, cada vez mais a sociedade, a vida mesmo, humana e não humana, em
suas relações sociais, vitais e afetivas mais imediatas, passa a ser posta e
explorada pela lógica do capital, começa a ser produtiva no processo de
produção do valor.
Com essa dinâmica da subsunção real, cujo
desfecho são as sociedades de controle teorizadas por Gilles Deleuze e a
biopolítica (neoliberal) teorizada por Michel Foucault, o Estado é, ele mesmo,
tornado elemento do processo de produção total, se tornando inerente ao modo de
produção capitalista. É aí que o dinheiro, elemento basilar da axiomática
capitalista, e a relação salarial de qual ele é parte, passa a um nível maior
de abstração.
É aí que Antonio Negri, talvez o mais
importante dos operaístas, já nos anos 1970, propõe a categoria de salário
social: o salário social abarca o que o trabalhador recebe para além de sua
dimensão imediata de venda da força de trabalho, de emprego. O salário social
engloba coisas como acesso a serviços públicos (hospital, escola, transporte
etc.), além de “benefícios”, “seguros”, “auxílios”, “bolsas” monetárias
concedidas pelo Estado.
O salário social, portanto, será definido
pela questão dos gastos-investimentos monetários e econômicos do Estado. O
salário social é uma dimensão suplementar, mas absolutamente fundamental, da
relação salarial tradicional. Em verdade, mais do que uma separação entre
salário simples e salário social, há, globalmente falando, um único salário, o
salário total, englobando salário simples e salário social.
Quando a produção é socializada em um nível
tão grande que é seguro dizer que virtualmente toda a sociedade, a vida e o
Estado se tornam elementos e momentos do processo de produção de valor, o
salário deixa de ser apenas o que o patrão lhe paga diretamente. Por isso, o
salário social não é uma metáfora ou uma figura de linguagem, mas o é em
sentido técnico marxiano: a produção total de valor da sociedade capitalista
reserva parte desse valor para a classe trabalhadora (salário) e parte para seu
mais-valor explorado.
Quando o Estado, enquanto agente econômico
integrado ao circuito monetário e ao processo produtivo (na figura do emissor
de moeda, de coletor de impostos e de mantenedor de serviços públicos e
estatais), decide colocar mais dinheiro em um lugar e tirar de outro, essa ação
tem resultado direto na taxa de mais-valor, na divisão do que vai para cada
classe.
Se o Estado mantém saúde pública, é um
serviço agregado ao salário do trabalhador. Se não há serviço público como
parte do salário social, o trabalhador é obrigado a buscar o serviço privado e
passar parte de seu salário (simples) ao capitalista provedor do serviço. Meu
salário, enquanto composto também por sua dimensão social, é objetivamente
menor em uma sociedade em que os serviços são mais privatizados, e
objetivamente maior se há os serviços.
<><> Luta monetária – os sentidos
do gasto público
O senso comum, a ideologia, diz que o Estado
não deve (nunca) gastar mais do que ganha, sob pena de endividamento. Diz
também que a dívida não pode crescer em demasia pois o Estado pode “quebrar”.
Diz, por fim, que a injeção de moeda na economia é sempre e necessariamente
causa automática de inflação.
Para o senso comum, o Estado é “como uma dona
de casa” que deve apertar o cinto e segurar os gastos; o dinheiro é como uma
mercadoria qualquer, pedaços de papel ou números digitais que funcionam da
mesma forma em que funcionava o ouro. Todos sabem que se há mais ouro em
oferta, o ouro fica barato, perde valor. Ou seja: inflação.
A teoria econômica mainstream, de viés
quantitativista e neoliberal, não é mais do que o verniz técnico-científico
dessa ideologia. Há, entretanto, toda uma tradição de pensamento econômico,
político, que tem uma leitura da natureza do dinheiro (público) moderno que
pensa por fora desse dogma (e se trata de dogma, no sentido religioso, visto
que se mantém sem comprovação científica e não se abala com evidências em
contrário).
Essa tradição, chamada de cartalista, passa
por John Maynard Keynes e chega à Moderna Teoria Monetária[ (MMT), cujo mais
famoso representante no Brasil é o formulador do Plano Real André Lara Resende
(insuspeito de ser um “comunista” ou mesmo um “esquerdista”). Como demonstro em
minha tese, essa ideia também passa por Gilles Deleuze & Félix Guattari.
Para os autores franceses, lendo-os
conjuntamente à teoria cartalista que desemboca na MMT, o dinheiro moderno é
uma criação que vem “do nada”, ex nihilo, pelo banco, privado ou público. É
emissão monetária, criação monetária. Os impostos servem mais para fazer com
que todos os agentes econômicos, pessoas ou empresas, de um dado espaço social,
queiram e necessitem da mesma moeda para cumprir com suas responsabilidades
tributárias. Se em um espaço social dado todos precisam da mesma moeda para
pagar impostos, cria-se um mercado unificado por uma dada moeda.
Os impostos não servem para financiar os
gastos do Estado, visto que, como não há, desde o fim do padrão-ouro em 1971,
vinculação do dinheiro com qualquer mercadoria física ou qualquer metal, o
dinheiro é apenas fiduciário: ele tira seu valor e sua eficácia da confiança
depositada nele (daí o discurso neoliberal sobre a “confiança” do mercado). Um
Estado não pode “quebrar”, pois a moeda que ele precisa é a mesma que ele tem o
poder de criar, de emitir. A criação do dinheiro pelo Estado, portanto, se dá num
“jato monetário”, que coloca dinheiro na economia, gastando com serviços
públicos ou colocando diretamente “no bolso” (na conta) do trabalhador.
Já vimos como o salário social é parte
integrante da relação de exploração de mais-valia em uma sociedade de produção
socializada subsumida realmente pelo capital. O deleuziano argentino Julian
Ferreyra propõe o conceito de “luta monetária” para falar de uma luta política
pelos sentidos do gasto desse “jato de emissão de moeda”: na direção dos
“ricos” ou dos “pobres”, dos capitalistas ou do proletariado, da maioria ou das
minorias. Como a esquerda fala, de um modo mais tradicional, há um ‘“fundo
público” que o Estado decide investir (mais) na direção da classe dominante ou
(mais) na direção da classe dominada.
Inclusive, em termos de estrita técnica
contábil, quando o Estado aplica isenções fiscais à empresas, é exatamente como
se fosse um gasto; contabilmente falando, deixar de ganhar um imposto é o mesmo
que um gasto. O neoliberalismo, portanto, se caracteriza antes pela utilização
do fundo público, do jato monetário, na direção dos capitalistas, nas formas de
investimentos, de perdão de dívidas, de isenções, de imposto regressivo etc.,
do que pela pura e simples aniquilação do gasto público.
A luta monetária, portanto, na medida em que
é a luta pelos sentidos, pela direção, pela quantidade e qualidade do dinheiro
público gasto-investido, é um momento da luta de classes global, um nível mais
abstrato da luta de classes, que passa antes pela política monetária e fiscal
do que pela negociação do salário simples com o patrão.
Para finalizar, um ponto conjuntural: o
governo Lula 3 esteve envolto enormemente em polêmicas monetárias, começando
pelo nível elevado da taxa de juros, que, graças à independência do Banco
Central, era acusada e justificada como consequência da presidência do Banco
Central ser exercida por Roberto Campos, um indicado do governo Bolsonaro. Já
na segunda metade do Governo Lula 3, em uma relativa mudança para uma atitude e
uma retórica mais aberta ao confronto, vimos a empreitada de pautar justiça
tributária e a taxação progressiva.
Nesse sentido, ao menos em um primeiro olhar,
poderíamos dizer que o governo foi marcado por pautar a luta monetária na
direção do aumento do salário social. Entretanto, é de se perguntar se essa
movimentação do governo pode, realmente, se converter em aumento substantivo do
salário social e, portanto, em alteração na balança da luta de classes global.
A ambiguidade da estratégia de justiça fiscal
se dá pois, ao menos em parte, a maior taxação “dos ricos” é incapaz de se
converter em investimento público quando há interesse declarado em cumprir
metas fiscais de superávit, tudo isso envolto na estrutura jurídico-política do
Novo Arcabouço Fiscal, de Fernando Haddad, paródia de esquerda do Teto de
Gastos de Michel Temer (chamado pela esquerda de “PEC da morte” quando de sua
promulgação).
Como dissemos, “tecnicamente”, o Estado
moderno não quebra pois emite a própria moeda, ele cria, ao gastar, os meios
com os quais realiza os próprios pagamentos. Por isso, desde Friedrich Hayek e
os ordoliberais alemães, é estratégia neoliberal a constitucionalização de
limites de gastos públicos, de tetos de gastos.
O arcabouço fiscal de Fernando Haddad, e de
Lula 3, ainda que mais flexível que a PEC da morte de Michel Temer, é um
dispositivo jurídico-legislativo, e político, de limitar a potência do gasto
público e a sua capacidade de aumentar o salário social É, desse modo, um
bloqueio das capacidades expansivas da luta monetária dos “de baixo”. O
arcabouço fiscal é uma constitucionalização, fruto da razão neoliberal de que
falam Dardot e Laval, da austeridade econômica.
Apesar da desorganização conjuntural da
extrema direita no âmbito eleitoral, hoje, o arcabouço fiscal se constitui como
elemento estruturante da luta de classes e dos rumos da política brasileira.
Historicamente falando, a austeridade econômica sempre fortaleceu a direita e
as derivas fascistas, que nos batem à porta – que, na verdade, nunca saíram do
pátio.
Fonte: Por Émerson Pirola, em A Terra é
Redonda
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