Carlos Fidelis: O golpe em curso no Brasil. É
possível evitar o desastre? Exagero ou realismo?
Falar em golpe em curso, abismo e desastre
pode parecer exagerado. Seria, talvez, se estivéssemos diante de uma eleição
comum, disputada entre forças que divergem profundamente sobre os rumos do
país, mas reconhecem as mesmas regras democráticas e aceitam seus resultados.
Não é essa a situação do Brasil.
A democracia já foi recentemente colocada à
prova. Forças que não aceitaram a derrota eleitoral de 2022 estiveram
associadas à tentativa de ruptura institucional que culminou no 8 de janeiro de
2023.
O país viu as sedes dos Poderes da República
invadidas e depredadas e conheceu planos e articulações destinados a impedir a
normalidade institucional, incluindo projetos de assassinato do presidente, do
vice-presidente e de um ministro do Supremo.
No meu modo de ver, essa ameaça não se
esgotou. A torrente de acontecimentos que se sucederam desde então está longe
de me parecer casual. A questão é saber se as forças que produziram aquele
ambiente mudaram ou aprimoraram sua estratégia.
Alertar para a possibilidade de um golpe em
curso não significa afirmar que esteja ocorrendo uma repetição do que vimos
entre 2022 e 2023, muito menos que o resultado esteja decidido.
Significa reconhecer um processo de erosão
democrática que pode assumir novas formas: deslegitimar instituições,
desacreditar decisões judiciais, mobilizar pressões externas, manipular a
percepção da realidade e explorar ressentimentos para que soluções autoritárias
voltem a parecer aceitáveis.
Algumas dessas ações, observadas
isoladamente, podem parecer grosseiras ou rudimentares; vistas em conjunto,
revelam maior intensidade e sofisticação. Golpes não começam necessariamente
com tanques nas ruas. Podem avançar pela corrosão das condições que tornam
possível a própria democracia.
Essa ameaça não pode ser compreendida olhando
apenas para suas lideranças. Sua força depende também da capacidade de
conquistar adesão social, que não se explica por uma única razão nem pode ser
reduzida ao fanatismo. Medos, preconceitos, ressentimentos, valores religiosos,
desinformação, sentimento de abandono e desejo de ordem combinam-se de formas
diferentes.
Entre segmentos das classes médias, aparecem
a defesa de posições sociais percebidas como ameaçadas e a preservação de
privilégios; entre trabalhadores e parcelas pobres, também a revolta contra uma
ordem que muitas vezes os exclui, a frustração com as instituições e promessas
de reconhecimento, ascensão e segurança.
Uma das forças do discurso autoritário está
justamente em reunir, sob a aparência de uma mesma revolta, grupos socialmente
desiguais e interesses contraditórios. Alguns esperam conservar posições e
privilégios; outros, conquistar aquilo que nunca tiveram. Para alguns, a
ruptura oferece ainda uma espécie de caos catártico: ver desmoronar
instituições e grupos transformados em responsáveis por suas frustrações.
Compreender essa adesão não significa justificá-la. Significa reconhecer sua
força e seu perigo.
A extrema direita permanece ativa, dispõe de
recursos, ocupa as ruas e as redes e mantém uma ofensiva contra o STF. Criticar
decisões judiciais é legítimo. Atacar sistematicamente a legitimidade da
instituição, desacreditar suas decisões e apresentar o cumprimento da lei como
perseguição política é outra coisa.
O STF pode e deve ser criticado quando erra.
Mas vamos jogar fora a criança com a água do banho?
Depois do que o país viveu, enfraquecer uma
instituição central à defesa da ordem constitucional em nome de decisões que
consideramos equivocadas seria mais do que uma contradição. Considerar essa
ofensiva uma ameaça à democracia é exagero — ou seria ingenuidade fingir que
nada está acontecendo?
O cenário internacional agrava a situação.
Trump recuperou a velha concepção da América Latina como quintal dos Estados
Unidos, enquanto forças políticas brasileiras recorreram ao poder de uma
potência estrangeira para pressionar instituições e autoridades nacionais e
interferir na disputa política interna.
Democracia e soberania tornam-se partes da
mesma questão: quem deve decidir o futuro do Brasil — seus cidadãos e suas
instituições ou interesses estrangeiros mobilizados na disputa pelo poder?
Há outra frente extraordinariamente poderosa:
a eleição acontece todos os dias na tela do celular.
Dinheiro, influenciadores, estruturas
profissionais, disparos em massa, redes coordenadas, automação e sistemas de
recomendação podem ampliar conteúdos numa escala impossível para o cidadão
comum. Uma mentira repetida milhares de vezes não se torna verdadeira, mas pode
tornar-se familiar; algo artificialmente amplificado pode parecer
espontaneamente popular. A disputa não é apenas pelo voto. É também pela
percepção da realidade.
O Brasil não precisa comparar apenas
discursos. Possui experiências concretas. Sob Bolsonaro, vimos crescer a fome,
persistir o desemprego elevado, enquanto a disseminação de armas foi
incentivada. A ciência foi atacada, a proteção ambiental sofreu retrocessos e
atravessamos uma pandemia marcada por decisões e omissões que custaram vidas. A
intolerância foi estimulada, a agressividade transformou-se em método político
e o país perdeu prestígio internacional.
Conhecemos uma liderança grosseira, mentirosa
e incapaz de empatia, empenhada na promoção política da própria família e
protagonista de episódios por vezes patéticos, não fosse a gravidade de suas
consequências. A valentia exibida em público desapareceu diante de um juiz:
confrontado com a possibilidade de prisão, Bolsonaro desqualificou admiradores
e aliados e procurou afastar de si relações antes politicamente convenientes.
Fatos também permitem julgamentos.
Com Lula, vários indicadores mudaram de
direção: o país voltou a crescer, o desemprego caiu, o Brasil deixou o Mapa da
Fome, o desmatamento recuou e políticas sociais foram recompostas. Programas
sociais e de saúde foram recuperados ou ampliados, milhões puderam renegociar
dívidas e o Brasil recuperou presença internacional.
Isso não coloca o governo Lula acima de
críticas. Persistem desigualdades históricas, violência, problemas na saúde e
na educação e práticas políticas que precisam ser enfrentadas. Defender a
democracia não significa suspender a crítica ao governo. Significa preservar as
condições que tornam possível criticá-lo, derrotá-lo nas urnas e disputar
democraticamente outro projeto de país.
A experiência do Rio de Janeiro deveria
servir de advertência. Durante décadas, milícias, facções criminosas, corrupção
policial e controle territorial armado cresceram até penetrar atividades
econômicas, serviços e estruturas públicas. Governos de diferentes origens
atravessaram esse processo. Seria simplista atribuí-lo a uma única corrente,
mas igualmente irresponsável ignorar as relações entre poder político, agentes
públicos, interesses econômicos e organizações criminosas.
Quando dinheiro, política e crime se
entrelaçam, o problema deixa de ser apenas policial. Torna-se uma questão de
ameaça à democracia.
O presente impede tratar esse diagnóstico
como passado. Cláudio Castro, aliado do bolsonarismo, deixou o governo, foi
declarado inelegível e passou a ser investigado em relação à viabilização de
cerca de R$ 3,69 bilhões em aplicações da Rioprevidência em ativos e fundos
ligados ao Banco Master.
Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia
Legislativa e integrante do campo de alianças bolsonarista, acabou preso e
tornou-se réu sob acusação de obstruir investigação contra o Comando Vermelho,
inclusive mediante vazamento de informações para TH Joias.
Chiquinho e Domingos Brazão, acusados no caso
dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, também tiveram relações
políticas com esse campo. São casos distintos, mas suscitam uma pergunta: como
o crime organizado penetrou tão profundamente a política e as instituições de
um dos principais estados brasileiros, e por que tantos personagens
posteriormente alcançados por acusações, prisões ou investigações graves
circularam pelo campo político de Jair e Flávio Bolsonaro?
A trajetória de Flávio também acrescenta
fatos relevantes. Como deputado estadual, propôs a Medalha Tiradentes a Adriano
da Nóbrega, que recebeu a honraria quando estava preso; seu gabinete empregou a
mãe e a então mulher de Adriano, posteriormente apontado pelo Ministério
Público como integrante de milícia.
Mais recentemente, veio a público uma
fotografia de 2022 em que Flávio aparece ao lado de Luiz Phillipi Machado de
Moraes Mourão, o “Sicário”, em um encontro aparentemente informal, ambos em
trajes de banho. Sicário foi apontado pela Polícia Federal como integrante da
estrutura de intimidação ligada a Daniel Vorcaro. Sua assessoria afirmou
inicialmente que Flávio não o conhecia; depois, ele sustentou que a imagem
teria sido manipulada por inteligência artificial.
Junte-se a isso um fato que não pode ser
tratado como simples contradição ou mudança de versão: Flávio mentiu sobre sua
relação com Vorcaro no financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. Quando
vieram a público as primeiras revelações, classificou como mentira a informação
de que havia pedido dinheiro ao banqueiro. Horas depois, diante de áudios,
mensagens e documentos, admitiu que havia procurado Vorcaro para obter recursos
para o filme. Não estamos diante de divergência de interpretação: uma negativa
foi desmentida pelos fatos.
Há ainda uma dimensão simbólica dessa forma
de fazer política. Em vídeo divulgado nas redes, Flávio apareceu chorando e
enxugando as lágrimas na bandeira nacional. Para mim, é difícil ver ali outra
coisa que não o uso demagógico de um símbolo nacional associado à construção
pública de uma condição de vítima. A bandeira pertence ao país, não a uma
família, partido ou candidatura.
Temos também outra postura recorrente do
bolsonarismo, reproduzida pelo candidato diante de perguntas incômodas: em vez
de responder ao que lhe é perguntado, desloca a questão para Lula, mesmo quando
diz respeito a seus próprios atos, relações ou responsabilidades. Levada ao
limite, a fórmula produziria diálogos quase cômicos, não fosse a gravidade do
que está em jogo: “Senador, Vorcaro financiou o filme sobre seu pai?” “Quem tem
que responder é o Lula.” A ironia expõe o mecanismo: muda-se o personagem, transfere-se
o foco e evita-se a resposta.
É por isso que esta não pode ser tratada como
uma eleição qualquer. Assistimos a performances circenses, encenações,
vitimização e expedientes destinados a deslocar a atenção do que efetivamente
precisa ser discutido. Estamos também diante do risco de normalizar e legitimar
métodos profundamente nocivos à democracia.
Parte da grande mídia contribui para isso
quando transforma diferenças substantivas em falsa equivalência, colocando no
mesmo plano adversários que não apresentam as mesmas propostas, não adotam os
mesmos métodos e, sobretudo, não mantêm a mesma relação com a democracia, as
instituições e a verdade.
A mentira pode ser industrializada como
método político? Dinheiro e tecnologia podem fabricar uma percepção artificial
da realidade? A política pode ser transformada em espetáculo para evitar o
confronto com os fatos e as explicações devidas?
Mas a questão é ainda mais profunda. Não
estamos escolhendo apenas entre políticas econômicas, prioridades sociais ou
concepções sobre o Estado. Estamos decidindo também sobre as próprias condições
em que essas escolhas continuarão sendo possíveis: aceitam-se os resultados
eleitorais?
Respeitam-se as instituições quando suas
decisões contrariam interesses políticos? Admite-se a alternância no poder? A
soberania pode ser sacrificada para derrotar adversários internos? A lei vale
para todos?
Democracia não é apenas depositar um voto na
urna. É poder votar novamente; discordar, criticar, organizar-se, investigar
quem governa e substituí-lo. Há eleitores de direita comprometidos com a
democracia, assim como o governo Lula está longe de constituir um modelo sem
defeitos. A diferença elementar é outra: numa democracia, podemos derrotar quem
governa mal. Se destruirmos a democracia, certamente perderemos até mesmo esse
direito.
O mais grave, no entanto, não se esgota aí.
São as consequências concretas que uma escolha dessa natureza pode produzir:
famílias lançadas na pobreza e na miséria, gerações condenadas a pagar por
decisões tomadas hoje, crescimento da violência e da corrupção, degradação
ambiental e institucional e submissão dos interesses nacionais aos de outro
país.
São essas as ameaças que, no meu modo de ver,
pairam sobre o Brasil. Uma ameaça concreta e pesada, embora muitos possam
ignorá-la, minimizá-la ou acreditar que não chegará até eles.
É possível evitar o desastre? Sim. Estar à
beira do abismo não significa que temos que pular. Mas seria perigoso imaginar
que basta esperar pela eleição e votar. Democracias não sobrevivem por
automatismo. Dependem de instituições, leis e tribunais, mas também de cidadãos
dispostos a defendê-las.
Tenho muitos amigos cansados e desiludidos
diante da dimensão e da complexidade das forças econômicas, políticas e
tecnológicas mobilizadas pelo neoliberalismo e pela extrema direita.
Compreendo esse cansaço. Conheço também os
avessos à participação política; os que se declaram isentos, nem de esquerda
nem de direita; e aqueles que observam as forças em disputa de uma posição
supostamente equidistante e analítica, como se essa distância lhes assegurasse
maior lucidez para julgá-las.
A crítica é indispensável. A independência de
pensamento também. Ninguém precisa aderir integralmente a um partido, governo
ou campo político para defender a democracia. Mas, quando a própria democracia
está em disputa, não escolher também interfere no resultado.
A neutralidade não suspende o conflito e a
isenção não nos coloca fora da história. Podemos continuar criticando Lula, a
esquerda, os partidos e as instituições. Nada disso exige indiferença diante de
forças que já demonstraram disposição para afrontar eleições, instituições
democráticas e a soberania nacional.
Ser indiferente ou fechar os olhos não serve
ao país. A alternativa do imobilismo é o desastre.
Ainda podemos discutir, informar, investigar,
desmentir, organizar e participar; ocupar as ruas, as praças e as redes;
defender a verdade contra a mentira, a soberania contra a submissão, a política
contra o crime e a civilização contra a barbárie.
O último passo ainda não foi dado. O Brasil
ainda pode se salvar desse pesadelo. Há forças poderosas em disputa e milhões
de pessoas que farão suas próprias escolhas. Isso não diminui nossa
responsabilidade.
Por isso, aos cansados, aos desiludidos, aos
que preferem permanecer à distância, aos que duvidam e aos que têm medo, vale
lembrar: o golpe é a barbárie. Conviver minimamente bem com ela é impossível.
Vencer é possível. Já vencemos antes. Podemos vencer outra vez.
Fonte: Viomundo
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