O
RETORNO DA EXTREMA DIREITA NA ALEMANHA: A Bauhaus - entre a memória, o
revisionismo e a AfD
Em 6 de
setembro, a Saxônia-Anhalt foi às urnas para eleger um novo Landtag (parlamento
estadual, equivalente às Assembléias Legislativas estaduais no modelo
federativo brasileiro). As pesquisas de opinião publicadas nos dias que
antecederam a votação apontavam o partido Alternative für Deutschland
(Alternativa para a Alemanha, AfD) na casa dos 40% das intenções de voto, mais
do que o dobro da força da União Democrata-Cristã (CDU), até então a legenda
dominante na região. Entre as bandeiras da campanha da AfD no Land que
abriga Dessau, cidade que sediou a escola Bauhaus entre 1925 e 1932, está uma
investida explícita contra o legado dessa escola de arquitetura, design e
artes.
O
episódio, aparentemente circunscrito a uma disputa regional alemã, sintetiza um
fenômeno mais amplo: o retorno de discursos que, quase um século depois,
reproduzem o vocabulário e a lógica com que o nazismo perseguiu a Bauhaus e,
pouco depois, promoveu o extermínio de milhões de pessoas.
A AfD
venceu as eleições estaduais na Saxônia-Anhalt com a conquista de 43,8% dos
votos, patamar que, contudo, não lhe garante o governo da região, uma vez que
para indicar o governante deveria ter eleito 42 parlamentares, de um total de
83 cadeiras, quando elegeu 39 representantes; ainda assim uma marca muito
superior aos números dos partidos adversários.
Portanto,
a assunção do governo dependerá da composição com outros partidos políticos. A
maioria das legendas se recusam a compor qualquer coalizão com a AfD para o
governo, no que é denominado, na Alemanha, como cordão sanitário,
ou seja, um consenso político-partidário que impede a colaboração com partidos
de extrema-direita, especialmente em consideração à experiência histórica do
nacional-socialismo.
Entretanto,
a nanica legenda populista de esquerda Aliança por Justiça Social e
Racionalidade Econômica (BSW) que elegeu cinco deputados, por meio
de sua fundadora, Sahra Wagenknecht, já afirmou que poderá, por meio de
abstenção nas votações, permitir a formação de um gabinete comandado pela AfD,
que chegaria à marca de 42 parlamentares na base de apoio, número necessário
para garantir maioria.
Se não
houver consenso para formação de um gabinete, novas eleições poderão ser
convocadas e provavelmente uma coalizão seria estabelecida para viabilizar o
governo pela AfD, principalmente se considerarmos que, pelos patamares de votos
que o partido vem obtendo na região, seria muito difícil um governo sem sua
participação, o que geraria muita instabilidade política.
No
plano nacional a AfD vem ocupando a posição de opção preferida por cerca de 28%
do eleitorado, seguida pelas demais legendas, com fracionamento da preferência
do eleitorado, entre elas.
O
crescimento político de uma agremiação partidária considerada como “organização
extremista de direita” pelas autoridades de inteligência, na região,
especialmente diante de sua vitória nas eleições estaduais de 2026 para o Landtag a
partir de uma campanha radical e agressiva que propõe expulsão de imigrantes;
segregação de crianças filhas de refugiados e crianças PCDs nas escolas
fundamentais; minimização do Holocausto e revisão do conceito de memória
coletiva e dos próprios memoriais existentes na Alemanha, dentre outras, traduz
a propagação de velhas ideias, sob novas roupagens e com novos atores.
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As artes e a arquitetura são também alvos da AfD
Uma das
propostas da vencedora AfD para a região da Saxônia-Anhalt é a vedação a toda e
qualquer verba destinada a projetos considerados, segundo seu entendimento,
como não alemães ou antialemães. Um dos principais alvos desse revisionismo
cultural é a escola Bauhaus, com sede histórica na cidade de Dessau, na
Saxônia-Anhalt, de onde foi expulsa pelo nazismo em 1933 e onde hoje permanece
após seu retorno, desde a derrota daquele regime.
Fundada
por Walter Gropius na bela cidade de Weimar, em 1919, a Bauhaus nasceu da
tentativa de reconciliar arte, indústria e artesanato numa Alemanha devastada
pela Primeira Guerra Mundial. A escola recusava a separação entre belas-artes e
ofício, propondo que estudantes e mestres trabalhassem lado a lado em ateliês,
e desenvolveu uma linguagem estética fundada em formas geométricas simples, na
redução do ornamento e na exploração de materiais industriais como o vidro, o
aço e o concreto. Por seus quadros passaram nomes como Ludwig Mies van der
Rohe, Marcel Breuer, Paul Klee e Wassily Kandinsky, o que consolidou a Bauhaus
como um dos movimentos mais influentes da cultura moderna.
Desde o
início, porém, a trajetória da escola foi marcada por tensão política. Já em
1924, a vitória da direita nas eleições da Turíngia (coalizão de partidos de
centro-direita e direita denominada Thüringer Ordnungsbund ou Liga de Ordem da
Turíngia) levou à retirada do financiamento público e à mudança da Bauhaus para
Dessau, em 1925. Ali a escola viveu seu período de maior produção e
reconhecimento internacional, sob a direção sucessiva de Gropius, Hannes Meyer
e, por fim, Mies van der Rohe.
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Avanço eleitoral do nazismo transformou a Bauhaus em alvo direto
Em
1932, após ter conquistado a maioria no parlamento regional de Anhalt, o
partido nazista cortou o financiamento da escola e forçou sua mudança para
Berlim, onde funcionou como instituição privada, instalada numa antiga fábrica
de telefones. A perseguição não cessou: para o regime, a Bauhaus representava o
“bolchevismo”, a “decadência” e a “arte degenerada”, numa retórica que
associava o cosmopolitismo do movimento a uma suposta ameaça à identidade
nacional alemã.
Em
abril de 1933, poucos meses após a ascensão de Hitler ao poder, a Gestapo
ocupou o prédio berlinense da escola em busca de provas de atividade comunista;
diante da impossibilidade de continuar funcionando sob vigilância e pressão
constantes, o corpo docente optou por dissolver formalmente a instituição em
julho daquele ano.
O
fechamento da Bauhaus não encerrou sua influência – ao contrário, precipitou
sua difusão mundial. A maioria de seus professores e ex-alunos emigrou,
sobretudo para os Estados Unidos, onde figuras como Gropius e Mies van der Rohe
passaram a lecionar em Harvard e no Illinois Institute of Technology, e para o
Reino Unido e outros países europeus. Em 1937 foi fundada em Chicago a New
Bauhaus, herdeira direta do currículo desenvolvido em Weimar e
Dessau.
A
pesquisa histórica mais recente tem também recuperado uma face menos discutida
dessa história: nem todos os integrantes da escola foram exilados ou
perseguidos, pois parte permaneceu na Alemanha, aderiu ao regime ou foi
silenciada, o que revela a complexidade e a heterogeneidade política de um
movimento frequentemente idealizado de forma unívoca (Otto, 2024).
A
diáspora dos bauhausler(as) espalhou os princípios da escola
por praticamente todos os continentes, moldando o chamado Movimento Moderno em
arquitetura e o design industrial da segunda metade do século XX.
No
Brasil, a recepção da Bauhaus se deu de forma indireta e por vezes ofuscada
pela influência mais visível de Le Corbusier, mas nem por isso menos real.
Estudos sobre a modernidade arquitetônica brasileira apontam que a atuação de
arquitetos e educadores de língua alemã, ligados à estética bauhausiana,
contribuiu para consolidar princípios de funcionalidade e depuração formal já
na primeira fase do modernismo nacional, ainda que essa contribuição tenha
permanecido menos visível do que a matriz corbusiana adotada por Lúcio Costa e
Oscar Niemeyer na construção de Brasília (Bauhaus Imaginista, 2019).
Brasília,
inaugurada em 1960 como materialização de um projeto de modernização nacional,
dialoga com o ideário bauhausiano na medida em que também concebeu a cidade
como um organismo planejado, no qual a forma arquitetônica deveria expressar e
organizar a vida social – uma ambição que a própria Bauhaus havia formulado
quatro décadas antes.
Ainda
assim, os estudiosos do tema notam que o modernismo brasileiro seguiu caminho
próprio: ganhou curvas, sensualidade e leveza, distinto das linhas retas e
geométricas mais próximas ao estilo germânico. Mas isso não apaga o parentesco
entre os dois: no fundo, ambos nasceram da mesma vontade de repensar o mundo
por meio da arquitetura e do design.
Quase
um século depois de seu fechamento, a Bauhaus voltou a ser alvo de hostilidade
política organizada. Reportagem publicada pelo jornal italiano Il
Foglio às vésperas da eleição de 2026 documenta que, nas eleições
municipais de junho de 2024, a AfD obteve 25% dos votos em Dessau, e que, na
sequência, o vice-presidente regional do partido apresentou no parlamento
estadual uma moção classificando a arquitetura bauhausiana como Irrweg
der Moderne (desvio da modernidade), acusando-a de ter
“destruído a tradição” e de ter sido “próxima do comunismo” (Valentino, 2026).
A moção foi rejeitada, mas inaugurou um debate que se estendeu por toda a
campanha eleitoral subsequente.
O
programa da AfD para a Saxônia-Anhalt propõe uma “política cultural
patriótica”, condicionando o financiamento público a artistas e instituições à
assinatura de declarações de que não “desprezam a Alemanha e sua
cultura”.
A
Bauhaus é descrita pelo partido como uma arquitetura “cosmopolita e sem
pátria”, incapaz de expressar enraizamento nacional. Pesquisadores e a própria
presidência da Fundação Bauhaus Dessau chamam a atenção para a coincidência
entre essa retórica e expressões literalmente utilizadas pelo nazismo, a
exemplo de “pensar alemão” (Deutsch denken), remissão direta a um
discurso de Hitler de 1938 e da própria fórmula Irrweg der Moderne,
cunhada pelo nazista ideólogo racial Paul Schultze-Naumburg nos anos 1920 (Valentino,
2026).
Diante
do risco de desfinanciamento e de ingerência política sobre a programação
cultural, cerca de trinta instituições culturais do Estado firmaram, em abril
de 2026, declaração conjunta alertando para a ameaça que um eventual governo da
AfD representaria à liberdade artística.
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O caso da Saxônia-Anhalt não é isolado
A
ciência política contemporânea tem descrito, desde a primeira década deste
século, uma nova onda de radicalismo de direita que combina populismo,
nativismo e autoritarismo, e que já alcançou o poder ou posições de relevância
eleitoral em países como Estados Unidos, Hungria, Itália, Argentina e Brasil
(Mayer, 2023).
Segundo
essa literatura, tal onda se distingue das anteriores (a do imediato pós-guerra
e a dos anos 1950 a 1980) por sua capacidade de se apresentar como alternativa
legítima dentro do jogo democrático, ainda que sustente pautas antipluralistas
e um discurso de confronto entre um “povo verdadeiro” e elites supostamente
corruptas ou estrangeirizadas (Souza, 2024).
Estudos
sobre o tema também sublinham a dimensão simbólica e cultural dessas agendas:
mais do que uma disputa por políticas públicas, trata-se de uma disputa pela
narrativa nacional, pelo controle das instituições de memória e pela definição
do que conta como “cultura legítima” (Olivieri; Castro, 2025). É nesse quadro
teórico que a ofensiva da AfD contra a Bauhaus ganha inteligibilidade: atacar
um símbolo do cosmopolitismo modernista é, simultaneamente, afirmar um projeto
identitário excludente e testar, em escala regional, políticas que o partido
cogita replicar em outros Estados alemães inclusive, segundo especialistas, a
extinção de disciplinas universitárias sobre gênero, pós-colonialismo e a
própria memória do Holocausto (Valentino, 2026).
A
expressão “nunca mais”, cunhada nos processos de transição democrática
latino-americanos e amplamente empregada também no contexto do pós-Holocausto,
sintetiza um princípio hoje consolidado no campo dos direitos humanos: o de que
a elaboração pública do passado violento por meio de verdade, justiça,
reparação e memória é condição para impedir sua repetição. A literatura sobre
justiça transicional destaca que a construção de uma memória coletiva crítica,
apoiada em arquivos, museus, datas cívicas e produção acadêmica, cumpre função
preventiva: ela mantém viva a consciência social sobre os mecanismos que
tornaram a barbárie possível, dificultando sua repetição sob nova roupagem
(Pereira Filho, 2011; Repressão e Memória Política, s.d.).
O
ataque revisionista à Bauhaus deve ser lido justamente sob essa chave. Quando
um partido político, em 2026, classifica uma escola de arquitetura perseguida
pelo nazismo como “arte antialemã” e cogita restringir o próprio ensino
universitário sobre o Holocausto, não se trata de mera controvérsia estética,
mas de uma disputa sobre o direito à memória sobre quem tem autoridade para
narrar o passado e sob quais termos.
A
pesquisa acadêmica sobre negacionismo histórico observa que a falsificação ou a
relativização da memória das vítimas do nazismo tende a preceder, e não apenas
acompanhar, o avanço de agendas autoritárias contemporâneas (Ruiz, 2009), até
porque o antissemitismo encontra-se na origem do racismo manifestado em seus
primeiros momentos históricos e que hoje volta a assombrar o mundo.
Não sem
razão, o sociólogo francês durkheimiano Maurice Hallbwachs criou e propôs a
necessidade de conscientização das sociedades sobre a memória coletiva à luz de
seus respectivos contextos históricos. Para Hallbwachs, mais do que um processo
biológico e individual, a memória é uma construção coletiva, visão que ganha
importância e é oportuna diante do risco real de um partido extremista que
ameaça a escola Bauhaus em Dessau, que venceu as eleições na Saxônia-Anhalt e
que ocupa as primeiras posições na preferência dos eleitores no plano
federal.
A
perseguição à Bauhaus integrou um processo mais amplo de exclusão jurídica e,
depois, física, que teve nas Leis de Nuremberg de 1935 um de seus marcos
legais: a privação da cidadania alemã aos judeus, a proibição de casamentos
mistos e a subsequente extensão dessas restrições a outros grupos, como as
pessoas negras (as leis racistas de Nuremberg foram estendidas às pessoas
negras e ciganas – Roma e Sinti – por um decreto complementar de 26 de novembro
de 1935),1 que classificou esses grupos, junto aos judeus, como “inimigos
do Estado baseado na raça”.
Assim,
Direito e legislação oficializaram o caminho, ao longo da década seguinte, para
o extermínio sistemático de cerca de 6 milhões de judeus e de milhões de outras
vítimas pertencentes às minorias consideradas indesejáveis sob a pseudociência
nazista (pessoas negras, mestiças, ciganos, pessoas com deficiência,
dissidentes políticos, homossexuais).
Ao fim
da Segunda Guerra Mundial, o Tribunal Militar Internacional de Nuremberg,
instituído pelas potências vencedoras em 1945, julgou os principais dirigentes
do regime nazista por crimes contra a paz, crimes de guerra e, pela primeira
vez na história do direito internacional, por crimes contra a
humanidade.
A
doutrina especializada em direito penal internacional reconhece nesse
julgamento o marco fundador da responsabilização penal individual por violações
maciças de direitos humanos, consagrando princípios hoje centrais ao direito
internacional como a irrelevância do cargo oficial do agente, a
inadmissibilidade da obediência hierárquica como excludente de culpa e a
imprescritibilidade de determinados crimes que viriam a fundamentar, décadas
depois, a criação dos tribunais penais internacionais para a ex-Iugoslávia,
para Ruanda e, por fim, do Tribunal Penal Internacional (Simão, 2025;
Alves et al.).
Relembrar
a tragédia do Holocausto, especialmente em tempos de ignorância sobre este
período sombrio da história recente marcado pela ruptura
civilizacional2 “é fundamental para que nenhuma tragédia semelhante volte
a ocorrer” em um momento de crescimento do antissemitismo em escala global
(Pereira, 2026). Referida advertência dialoga diretamente com o contexto ora
analisado: o mesmo vocabulário que qualificou a Bauhaus como “degenerada” nos
anos 1930 é hoje veiculado sob novas fórmulas, com adaptações lexicais, por
forças políticas que também questionam a pertinência de manter viva, nas
universidades e nas instituições culturais, a memória dos extermínios, da Shoah,
como publicamente anunciam sem qualquer constrangimento.
A
revisão da memória coletiva e da verdade histórica relacionadas ao Holocausto e
aos crimes do regime nazista são também objetivos da AfD: “menos Hitler e mais
Bismarck”, afirmam os extremistas.
Em
agosto de 2026 a AfD propôs ao Parlamento Federal (Bundestag) moção com
o objetivo de substituir o atual conceito federal de sítios memoriais por um
novo “conceito federal para memoriais, monumentos e locais de memória de
importância nacional”. Segundo um comunicado do Parlamento
alemão,
a AfD critica o fato de a atual cultura da memória se concentrar quase
exclusivamente nos aspectos negativos da história alemã.
Referida
moção foi prontamente rechaçada pela Fundação Bávara de Memoriais (com sede em
Munique) e que administra os Memoriais dos Campos de Concentração de Dachau e
de Flossenbürg, por meio de seu diretor Karl Freller, que enfatizou a
importância de não se permitir a minimização dos capítulos sombrios da
história, especialmente diante dos atuais acontecimentos políticos no país e da
ascensão de forças que questionam valores democráticos fundamentais; assim
como, a relevância em se confrontar a experiência do passado recente relativa à
ditadura, à exclusão e à perseguição de minorias e oposições políticas.
A
rejeição da culpa e exigência de ruptura com o passado nazista representa uma
das fórmulas reiteradamente propostas por grupos extremistas e racistas,
antissemitas e revisionistas.
Em
relevante mapa sobre o antissemitismo recentemente lançada no Brasil, referida
estratégia é analisada: “[…] A rejeição da culpa e as demandas por um “corte
limpo” com o passado nazista (Schlussstrichforderungen) constituem dois
lugares-comuns complementares de elaboração defensiva diante do legado do
nacional-socialismo no espaço público europeu, especialmente na Alemanha e na
Áustria. Enquanto a rejeição da culpa busca absolvição individual ou coletiva
por meio da negação, relativização ou externalização das responsabilidades
históricas, as demandas por ruptura definitiva procuram encerrar o próprio
processo de memória, responsabilização e confronto com o passado, convertendo a
Holocausto em um capítulo supostamente concluído da história. Em ambos os casos,
trata-se de estratégias que banalizam a magnitude do Holocausto, enfraquecem a
centralidade de suas vítimas e operam como formas características de
antissemitismo pós-Holocausto.
A
vitória da AfD em 6 de setembro projeta a possibilidade, pela primeira vez
desde o fim da Segunda Guerra Mundial, de um governo em Anhalt por um partido
político que é classificado pelo órgão regional de proteção à Constituição como
extremista de direita comprovado e que se aproxima tanto do poder num Estado
alemão: a apenas três cadeiras da maioria absoluta de 42 mandatos. A formação
de governo depende agora de arranjos parlamentares inéditos, já que as demais
legendas mantêm publicamente a recusa de coligação com a AfD, como dito
anteriormente.
O
desfecho eleitoral reforça, mais do que desmente, o argumento central deste
artigo. A vitória da AfD veio acompanhada da reafirmação de sua plataforma
cultural para a região, inclusive da hostilidade ao legado da Bauhaus e soma-se
à ofensiva do partido, também em curso desde agosto de 2026, para reformular,
no plano federal, o conceito de memoriais e lugares de memória.
Que uma
legenda sob monitoramento por extremismo de direita tenha alcançado, justamente
no Estado que primeiro acolheu e depois expulsou a Bauhaus, seu melhor
resultado histórico é, portanto, menos uma anomalia regional do que a
confirmação empírica da tese aqui sustentada: o revisionismo cultural e a
disputa pela memória caminham lado a lado com o avanço eleitoral de forças que
retomam, hoje, o vocabulário com que o nazismo perseguiu, ontem, essa mesma
escola.
A
trajetória da Bauhaus – fundada como utopia de reconciliação entre arte e vida,
perseguida como símbolo de degenerescência, dissolvida pelo nazismo e,
paradoxalmente, universalizada pela diáspora de seus integrantes – funciona
como uma espécie de sismógrafo da relação entre poder político e liberdade
cultural.
Sua
reedição como alvo de campanha eleitoral na Saxônia-Anhalt não é coincidência
histórica, mas sintoma de um fenômeno mais amplo de avanço do populismo
extremista que, em diferentes países, tem convertido o passado em campo de
batalha político.
Sob tal
contexto, o compromisso com a memória histórica, sobre os crimes do nazismo, do
Holocausto e dos princípios consagrados em Nuremberg, oitenta anos após os
históricos julgamentos, não constitui mero exercício acadêmico ou comemorativo,
mas condição de vigilância democrática.
Como
escreveu Primo Levi, “quem nega Auschwitz está pronto para repeti-lo”.
Fonte: Por Flávio de Leão Bastos Pereira, no
Le Monde
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