Permanências versus transformações
Há interpretação da história do Brasil
ideologicamente coerente com um marxismo dogmático, mas deliberadamente
seletiva e fortemente assimétrica da formação brasileira. À primeira vista,
nega literalmente todo o desenvolvimento econômico, social e político do país.
Reconhece poucos avanços e tende sistematicamente a reinterpretá-los como
insuficientes, subordinados, contraditórios ou funcionalmente associados à
reprodução do subdesenvolvimento.
Parece não ter ocorrido desenvolvimento. O
problema está sobretudo no critério pelo qual os analistas definem o
considerado como desenvolvimento bem-sucedido.
Na verdade, a tese já está definida antes da
reconstrução histórica. Esta só seleciona os fatos para confirmá-la, não os
capazes de falseá-la, como sugere o método científico.
Desde logo, anuncia uma narrativa bastante
fechada: herança colonial – industrialização dependente –
neoliberalismo/financeirização – economia regressiva – “barbárie social”. O
resultado histórico é descrito como “desfecho trágico”, incapaz de romper a dependência
externa e a segregação social.
Portanto, não parecem perguntar de maneira
aberta: como o Brasil se transformou, desde a sociedade escravista do século
XIX até a sociedade urbana, industrial, democrática e de massas do século XXI,
e quais problemas essa transformação resolveu, criou ou deixou sem solução?
A pergunta é outra: por qual razão o
desenvolvimento capitalista brasileiro, integrado à globalização e à
financeirização contemporâneas, ainda não conseguiu superar estruturas
originárias da colônia? A priori, a resposta parece ser: porque não superou o
capitalismo.
É uma escolha ideológica legítima, mas produz
um viés de seleção em sua metodologia. O foco recai sobre permanências, e muito
menos sobre transformações.
Muitas vezes eles próprios fornecem
evidências contrárias a uma interpretação exclusivamente regressiva. Ao tratar
do século XIX, afirmam não pretender subestimar as transformações promovidas
pela economia cafeeira e enumeram: diferenciação do mercado interno,
desenvolvimento urbano (bancário como efeito dessa urbanização a partir dos
anos 1960s) e ferroviário, transição para o trabalho livre e surgimento da
indústria leve. Isso é enorme do ponto de vista histórico.
Depois, no período do governo de Ernesto
Geisel, registram a implantação da indústria pesada, o papel decisivo do
Estado, os investimentos em infraestrutura e bens intermediários e mencionam
inclusive a “endogeneização do capital industrial”.
Para 1930-1980, informam ter ocorrido um
crescimento médio do PIB de cerca de 6% ao ano, chegando a 7,4% entre 1947 e
1980 (o maior crescimento na economia mundial na época), com produtividade do
trabalho crescendo 4,1% ao ano entre 1950 e 1980. O Brasil chegou a representar
aproximadamente 4% do PIB mundial em 1980.
No período militar, apesar de toda a crítica
política justificável à ditadura, reconhecem crescimento médio de 11,2% no
chamado “milagre econômico”. Admitem: a industrialização “avançava em estágios
decisivos de encadeamento produtivo”.
Sobre o II PND, registram a implantação de
bens de capital e intermediários e citam explicitamente Embraer, máquinas e
equipamentos e industrialização agromineral. Finalmente, concluem reconhecendo
o desenvolvimentismo ter formado uma indústria pesada, urbanizado “mais da
metade da população” (88%) e colocado o Brasil entre as economias de maior
crescimento do PIB.
Logo, os fatos positivos, referentes ao
período 1930-1980, estão no texto. Porém, o enquadramento interpretativo
negativista os subordina à tese do fracasso.
O problema mais sério aparece depois de 1980,
porque organiza-se a história em dois grandes movimentos. O primeiro em
1930-1980 com um desenvolvimentismo, embora dependente. Depois pós-1980, com
neoliberalismo, financeirização, desindustrialização e consequente regressão.
Essa periodização econômica possui
fundamento. Mas, quando aplicada à história brasileira como totalidade, produz
uma anomalia importante: o período classificado como regressivo coincide com a
maior transformação democrática e de cidadania da história republicana
brasileira, além do país entrar no grupo dos maiores emergentes em PIB PPC.
Entre os anos 1980 e o presente ocorreram,
entre outras mudanças: redemocratização; Constituição de 1988; universalização
dos direitos políticos; SUS; expansão da Previdência e assistência social;
municipalização de políticas públicas; ampliação da escolarização básica;
expansão do ensino superior; consolidação eleitoral; estabilização monetária;
redução da pobreza em determinados períodos; valorização real do salário
mínimo; transferência de renda em escala nacional; ações afirmativas; expansão
do acesso de negros e mulheres às universidades; formalização trabalhista em
certos ciclos; bancarização e inclusão financeira; e redução histórica recente
do desemprego.
Quando o autor dogmático reconhece uma parte
disso, em seguida deprecia. Sobre Lula e Dilma Rousseff, apesar de constatar,
explicitamente, ter havido “avanços sociais e produtivos expressivos” com
redução da pobreza, inclusão no consumo, expansão do ensino superior,
valorização do salário mínimo e transferências de renda, imediatamente,
qualifica esses resultados como limitados porque não teriam rompido com o
“modelo liberal periférico”.
Esse procedimento analítico se repete ao
longo da análise apriorística: avanço observado – ressalva estrutural –
permanência histórica – conclusão negativa. Não aparece com a mesma força o
movimento inverso: permanência negativa – transformação institucional –
aprendizado social – emergência de nova estrutura – possibilidade de mudança
cumulativa.
A análise da extinção da escravidão é um
teste desse método. É perfeitamente válido argumentar: a escravidão deixou
legados profundos de desigualdade racial, patrimonial e territorial. Enfatiza
corretamente essas persistências.
Mas não se pode transformar “persistência” em
identidade histórica. O Brasil de 1888 e o Brasil de 2026 não são apenas duas
configurações diferentes da mesma “estrutura escravista”. Entre eles ocorreu
uma transformação sistêmica extraordinária: trabalho escravo – trabalho livre –
assalariamento – legislação trabalhista – previdência social – sindicalização –
direitos sociais constitucionais – políticas distributivas e afirmativas.
Cada passagem é incompleta, contraditória e
reversível. Mas é uma transformação real.
Essa distinção é essencial: herança histórica
não significa invariância estrutural. Uma sociedade pode carregar dependências
de trajetória (path dependence) e, simultaneamente, produzir emergências
institucionais capazes de alterar sua trajetória.
Há, portanto, uma diferença entre
“subdesenvolvimento persistente” e “desenvolvimento sem superação completa do
subdesenvolvimento”. Esse é o ponto conceitual decisivo.
Não se deve adotar um padrão normativo
inapelável: para o desenvolvimento ser considerado historicamente emancipador,
deveria produzir algo próximo de autonomia nacional – industrialização completa
– redução estrutural da desigualdade – soberania tecnológica – democratização
substantiva. Como nenhuma etapa brasileira realizou simultaneamente todas essas
condições, cada experiência acaba classificada como fracasso parcial.
Mas há outra interpretação possível: o
desenvolvimento não é um estado final a ser alcançado, porque é um processo
histórico de transformação estrutural. Sob esse critério, é difícil negar ter o
Brasil protagonizado uma das maiores transformações socioeconômicas do século
XX.
Saiu de uma sociedade predominantemente
rural, agrário-exportadora, analfabeta, recém-saída da escravidão e com Estado
social praticamente inexistente para uma sociedade altamente urbanizada,
diversificada produtivamente, com mercado interno de massa, complexo sistema
financeiro, infraestrutura nacional, universidades e sistema científico,
indústria aeronáutica, agricultura tecnologicamente avançada, matriz energética
diversificada, Estado de bem-estar incompleto e democracia eleitoral de massas.
Nada disso elimina desigualdade, dependência
tecnológica ou violência. Mas também a evolução não pode ser eliminada da
história do Brasil pelo fato de esses problemas permanecerem.
Uma abordagem da complexidade produziria uma
narrativa sem reducionismo binário. É a maior diferença metodológica entre essa
análise marxista dogmática e uma nova ciência econômica sistêmica, apresentada
no meu livro a ser publicado pela Edusp.
A análise dogmática parece organizado em
torno de algumas causalidades estruturais dominantes: colonialismo → dependência → capitalismo periférico → concentração → neoliberalismo → financeirização → regressão. Uma abordagem sistêmica
acrescentaria interações e retroalimentações: dependência ↔ industrialização ↔ urbanização ↔ educação ↔ democracia ↔ mercado interno ↔ tecnologia ↔ Estado ↔ inserção internacional ↔ conflitos distributivos.
O resultado deixaria então de ser ou
“sucesso” ou “fracasso”. Tornar-se-ia uma trajetória de desenvolvimento
desigual, combinado, contraditório e emergente.
Por exemplo, a urbanização produz
periferização e violência, mas também escolarização, mobilização política e
mercados de massa. A industrialização gera concentração e dependência
tecnológica, mas também cria trabalhadores qualificados, universidades, engenharia
nacional e capacidade estatal.
A financeirização amplia desigualdade
patrimonial, mas a expansão financeira também permite bancarização, crédito
habitacional, financiamento empresarial, previdência complementar e gestão
intertemporal de patrimônio. Esses fenômenos possuem efeitos ambivalentes, não
uma causalidade historicamente unidirecional.
Não se nega factualmente o desenvolvimento
brasileiro, porque ele é reconhecido, empiricamente, mas se tende a negá-lo,
conceitualmente, como processo histórico bem-sucedido. Isto porque avalia cada
transformação por sua incapacidade de romper definitivamente com dependência,
desigualdade e subordinação ao capitalismo mundial. Isso gera uma história das
permanências maior diante de uma história das transformações.
O viés metodológico é significativo: a
priori, se toda industrialização é “dependente”, toda modernização é
“conservadora”, toda inclusão é “limitada”, toda expansão social é “funcional à
acumulação”, toda inserção internacional é “subordinada” e se toda reforma
incapaz de eliminar as estruturas anteriores constitui fracasso, cria-se uma
interpretação não falsificável por evidências empíricas e, em consequência,
pouco científica. Qualquer resultado histórico acaba reconduzido à hipótese
apriorística.
Uma leitura histórico-sistêmica mais
equilibrada poderia substituir a narrativa “colônia → dependência → fracasso → barbárie” por algo mais complexo: colônia
escravista → independência
incompleta → abolição e trabalho
livre → urbanização e formação do mercado
interno →
industrialização → Estado
desenvolvimentista → sociedade
salarial → crise da dívida → redemocratização → Estado Social de 1988 → estabilização → inclusão social → desindustrialização simultânea à expansão dos serviços → financeirização e
digitalização → nova inserção multipolar
→ dilemas contemporâneos de
produtividade, desigualdade, sustentabilidade e soberania tecnológica.
Nessa perspectiva, o Brasil não seria nem uma
história de sucesso linear nem uma “catástrofe constituinte”. Seria um sistema
complexo em transformação, no qual avanços resultam em novos problemas,
problemas provocam respostas institucionais e essas respostas alteram as
condições para a etapa seguinte. Essa me parece uma interpretação histórica
mais capaz de explicar simultaneamente por quais razões o Brasil se desenvolveu
tanto, desde 1888, e porque, apesar disso, continua apresentando problemas e
fragilidades estruturais tão profundas.
Fonte: Por Fernando Nogueira da Costa, em A
Terra é Redonda
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