quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 

Só metade dos adolescentes sabe interpretar texto no Brasil

Cerca de metade dos estudantes de 15 anos do Brasil (49%) reúnem as habilidades necessárias para a interpretação de texto, mostraram os resultados do mais recente Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa 2025), uma pesquisa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicada nesta terça-feira (08/09).

Segundo o estudo, estes são os alunos capazes de, no mínimo, "identificar a ideia principal em um texto de extensão moderada, localizar informações com base em critérios explícitos, embora às vezes complexos, e refletir sobre o propósito e a forma dos textos quando explicitamente solicitados a fazê-lo."

Já a média para os 38 países-membros da OCDE foi de 69%. Entretanto, a leitura foi, dentre as áreas de estudo examinadas pelo Pisa 2025, aquela que teve a maior queda global de desempenho entre os alunos desta idade nos últimos dez anos.

"Essa tendência é particularmente preocupante, pois as habilidades de leitura são a base da aprendizagem em todo o currículo e são essenciais para localizar, avaliar, interpretar e refletir sobre informações em um mundo cada vez mais digital," afirma o relatório.

Ao redor dos países da OCDE, 6% dos estudantes têm alta performance na leitura, isto é, conseguem "compreender textos longos, lidar com conceitos abstratos ou contraintuitivos e distinguir entre fatos e opiniões, com base em pistas implícitas relacionadas ao conteúdo ou à fonte da informação". No Brasil, o índice é de apenas 1%.

Considerado o indicador de desempenho educacional mais influente do mundo, o Pisa 2025 entrevistou mais de 760 mil alunos de 15 anos em 91 países, incluindo cerca de 30 mil adolescentes em 1 mil escolas no Brasil. Pela aplicação de um teste e de um questionário pessoal, o estudo avalia a capacidade dos estudantes de aplicar seus conhecimentos e habilidades em leitura, matemática e ciências a situações da vida real.

<><> Brasil patina na matemática

Houve também queda dramática no desempenho dos estudantes em matemática ao redor do mundo. No caso brasileiro, os resultados se mantiveram estáveis na última década, mas o país ainda patina em comparação às economias da OCDE.

É na matemática que está a maior lacuna de desempenho dos estudantes brasileiros. Só 28% dos alunos que participaram do estudo demonstraram proficiência, contra a média de 65% nos países da OCDE.

Na prática, isso significa que estes adolescentes "são capazes de interpretar e reconhecer, sem instruções diretas, como uma situação simples pode ser representada matematicamente (por exemplo, comparando as distâncias de duas rotas alternativas ou convertendo preços para uma moeda diferente)," explica a pesquisa.

Para a China, em contrapartida, o percentual de proficiência matemática foi de 96%, em linha com o desempenho do país nas outras áreas analisadas.

<><> O peso da desigualdade nas ciências

Ao redor do mundo, a situação socioeconômica dos alunos impacta os seus resultados nos estudos em todas as disciplinas. E, no Brasil, o efeito da desigualdade é ainda maior do que a média da OCDE.

Entre os 25% dos alunos no topo da pirâmide social, a nota média nas ciências naturais supera em 96 pontos a dos 25% dos estudantes na base da pirâmide, por exemplo. A média dessa diferença entre os países da OCDE ficou em 85 pontos.

Em geral, o PISA considera que 20 pontos na nota equivalem a um ano de aprendizado em qualquer uma das disciplinas examinadas.

O peso da desigualdade se aprofundou entre 2015 e 2025 no Brasil, enquanto diminuiu nos países ricos da OCDE. "Nesse período, o desempenho melhorou entre os alunos de classe alta, mas permaneceu estável entre os alunos de classe baixa," detalha a pesquisa sobre o caso brasileiro.

A estimativa do PISA 2025 é que, no ano passado, 21% dos alunos frequentassem escolas onde a educação era restringida pela falta de professores; 26% em instituições impactadas pela falta de materiais; e 28% em instalações precárias.

<><> IA vira realidade cotidiana

Pela primeira vez, o Pisa avaliou o uso de inteligência artificial (IA) entre os alunos pesquisados. Ao redor do mundo, os chatbots já se consolidam como ferramentas para os estudantes, "criando desafios e oportunidades para o seu aprendizado", segundo o relatório.

No Brasil, 48% dos adolescentes reportaram usar chatbots de IA para a aprendizagem pelo menos uma vez na semana, em comparação à média de 46% na OCDE. As principais tarefas executadas são pesquisas preliminares sobre um tema novo, resumos de leituras ou a elaboração de rascunhos para trabalhos escritos.

Apenas 11% dos alunos afirmaram nunca ou quase nunca usar chatbots de IA para qualquer uma das tarefas escolares analisadas no Pisa (a média da OCDE foi de 14%).

Dentro das escolas, porém, a restrição do uso de celulares mudou a rotina dos alunos significativamente nos últimos três anos. No ano passado, 81% dos pesquisados do Pisa 2025 estudavam em escolas onde os aparelhos eram proibidos, em comparação a 37% em 2022.

Segundo o estudo, a proibição dos celulares tende a reduzir a distração dos alunos com recursos digitais.

<><> Desafios de adaptação

Os números não explicam diretamente por que há um declínio global na performance dos estudantes. Os autores do estudo indicam que o fato de as escolas terem fechado durante a pandemia de covid-19 pode ter sido um fator para a piora das habilidades de leitura, por exemplo.

Mas não há uma relação direta entre o tempo de suspensão das aulas presenciais e a performance dos estudantes na leitura. Além disso, esta tendência de queda em vários países já vinha antes da pandemia, acrescenta o relatório.

Para os especialistas, o cenário "sugere problemas estruturais mais profundos nos sistemas educacionais, com desafios tanto no âmbito escolar quanto no nível do sistema". Esses desafios incluem o impacto das distrações digitais sobre os alunos e o crescente desinteresse pela leitura de livros.

"De modo geral, os dados sugerem deficiências na forma como os sistemas educacionais estão se adaptando às mudanças sociais, tecnológicas e econômicas", afirma o resumo do estudo. "Olhando para o futuro, o desafio para os formuladores de políticas não é simplesmente recuperar o terreno perdido, mas garantir que as escolas atendam às demandas do mundo, que mudam rapidamente."

Enquanto isso, os pais podem contribuir para o potencial das crianças, demonstrando apoio e curiosidade em relação aos estudos delas e ajudando-as a desenvolver atitudes positivas em relação à escola, afirma o relatório.

 

Fonte: DW Brasil

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