Só metade dos adolescentes sabe interpretar
texto no Brasil
Cerca de metade dos estudantes de 15 anos do
Brasil (49%) reúnem as habilidades necessárias para a interpretação de texto,
mostraram os resultados do mais recente Programa Internacional de Avaliação de
Estudantes (Pisa 2025), uma pesquisa da Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicada nesta terça-feira (08/09).
Segundo o estudo, estes são os alunos capazes
de, no mínimo, "identificar a ideia principal em um texto de extensão
moderada, localizar informações com base em critérios explícitos, embora às
vezes complexos, e refletir sobre o propósito e a forma dos textos quando
explicitamente solicitados a fazê-lo."
Já a média para os 38 países-membros da OCDE
foi de 69%. Entretanto, a leitura foi, dentre as áreas de estudo examinadas
pelo Pisa 2025, aquela que teve a maior queda global de desempenho entre os
alunos desta idade nos últimos dez anos.
"Essa tendência é particularmente
preocupante, pois as habilidades de leitura são a base da aprendizagem em todo
o currículo e são essenciais para localizar, avaliar, interpretar e refletir
sobre informações em um mundo cada vez mais digital," afirma o relatório.
Ao redor dos países da OCDE, 6% dos
estudantes têm alta performance na leitura, isto é, conseguem "compreender
textos longos, lidar com conceitos abstratos ou contraintuitivos e distinguir
entre fatos e opiniões, com base em pistas implícitas relacionadas ao conteúdo
ou à fonte da informação". No Brasil, o índice é de apenas 1%.
Considerado o indicador de desempenho
educacional mais influente do mundo, o Pisa 2025 entrevistou mais de 760 mil
alunos de 15 anos em 91 países, incluindo cerca de 30 mil adolescentes em 1 mil
escolas no Brasil. Pela aplicação de um teste e de um questionário pessoal, o
estudo avalia a capacidade dos estudantes de aplicar seus conhecimentos e
habilidades em leitura, matemática e ciências a situações da vida real.
<><> Brasil patina na matemática
Houve também queda dramática no desempenho
dos estudantes em matemática ao redor do mundo. No caso brasileiro, os
resultados se mantiveram estáveis na última década, mas o país ainda patina em
comparação às economias da OCDE.
É na matemática que está a maior lacuna de
desempenho dos estudantes brasileiros. Só 28% dos alunos que participaram do
estudo demonstraram proficiência, contra a média de 65% nos países da OCDE.
Na prática, isso significa que estes
adolescentes "são capazes de interpretar e reconhecer, sem instruções
diretas, como uma situação simples pode ser representada matematicamente (por
exemplo, comparando as distâncias de duas rotas alternativas ou convertendo
preços para uma moeda diferente)," explica a pesquisa.
Para a China, em contrapartida, o percentual
de proficiência matemática foi de 96%, em linha com o desempenho do país nas
outras áreas analisadas.
<><> O peso da desigualdade nas
ciências
Ao redor do mundo, a situação socioeconômica
dos alunos impacta os seus resultados nos estudos em todas as disciplinas. E,
no Brasil, o efeito da desigualdade é ainda maior do que a média da OCDE.
Entre os 25% dos alunos no topo da pirâmide
social, a nota média nas ciências naturais supera em 96 pontos a dos 25% dos
estudantes na base da pirâmide, por exemplo. A média dessa diferença entre os
países da OCDE ficou em 85 pontos.
Em geral, o PISA considera que 20 pontos na
nota equivalem a um ano de aprendizado em qualquer uma das disciplinas
examinadas.
O peso da desigualdade se aprofundou entre
2015 e 2025 no Brasil, enquanto diminuiu nos países ricos da OCDE. "Nesse
período, o desempenho melhorou entre os alunos de classe alta, mas permaneceu
estável entre os alunos de classe baixa," detalha a pesquisa sobre o caso
brasileiro.
A estimativa do PISA 2025 é que, no ano
passado, 21% dos alunos frequentassem escolas onde a educação era restringida
pela falta de professores; 26% em instituições impactadas pela falta de
materiais; e 28% em instalações precárias.
<><> IA vira realidade cotidiana
Pela primeira vez, o Pisa avaliou o uso de
inteligência artificial (IA) entre os alunos pesquisados. Ao redor do mundo, os
chatbots já se consolidam como ferramentas para os estudantes, "criando
desafios e oportunidades para o seu aprendizado", segundo o relatório.
No Brasil, 48% dos adolescentes reportaram
usar chatbots de IA para a aprendizagem pelo menos uma vez na semana, em
comparação à média de 46% na OCDE. As principais tarefas executadas são
pesquisas preliminares sobre um tema novo, resumos de leituras ou a elaboração
de rascunhos para trabalhos escritos.
Apenas 11% dos alunos afirmaram nunca ou
quase nunca usar chatbots de IA para qualquer uma das tarefas escolares
analisadas no Pisa (a média da OCDE foi de 14%).
Dentro das escolas, porém, a restrição do uso
de celulares mudou a rotina dos alunos significativamente nos últimos três
anos. No ano passado, 81% dos pesquisados do Pisa 2025 estudavam em escolas
onde os aparelhos eram proibidos, em comparação a 37% em 2022.
Segundo o estudo, a proibição dos celulares
tende a reduzir a distração dos alunos com recursos digitais.
<><> Desafios de adaptação
Os números não explicam diretamente por que
há um declínio global na performance dos estudantes. Os autores do estudo
indicam que o fato de as escolas terem fechado durante a pandemia de covid-19
pode ter sido um fator para a piora das habilidades de leitura, por exemplo.
Mas não há uma relação direta entre o tempo
de suspensão das aulas presenciais e a performance dos estudantes na leitura.
Além disso, esta tendência de queda em vários países já vinha antes da
pandemia, acrescenta o relatório.
Para os especialistas, o cenário "sugere
problemas estruturais mais profundos nos sistemas educacionais, com desafios
tanto no âmbito escolar quanto no nível do sistema". Esses desafios
incluem o impacto das distrações digitais sobre os alunos e o crescente
desinteresse pela leitura de livros.
"De modo geral, os dados sugerem
deficiências na forma como os sistemas educacionais estão se adaptando às
mudanças sociais, tecnológicas e econômicas", afirma o resumo do estudo.
"Olhando para o futuro, o desafio para os formuladores de políticas não é
simplesmente recuperar o terreno perdido, mas garantir que as escolas atendam
às demandas do mundo, que mudam rapidamente."
Enquanto isso, os pais podem contribuir para
o potencial das crianças, demonstrando apoio e curiosidade em relação aos
estudos delas e ajudando-as a desenvolver atitudes positivas em relação à
escola, afirma o relatório.
Fonte: DW Brasil
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