O que acontece no cérebro quando
procrastinamos? Saiba como evitar a autossabotagem
O prazo
de entrega da tarefa está no seu calendário há semanas. Mas,
na noite anterior, o trabalho ainda não está concluído. Talvez você
tenha subestimado o tempo necessário,
pensado demais em como fazer tudo certo ou se preocupado com a recepção do
público.
Se esse
cenário lhe parece familiar, você pode estar vivenciando uma forma
de autossabotagem, um padrão “que impomos a nós mesmos, muitas vezes
inconscientemente, e que acaba sabotando nossas vidas, nossos planos ou
até nossos objetivos”, afirma Charlie Heriot-Maitland, psicóloga clínica e
autora do livro “Controlled Explosions in Mental Health” (em tradução
livre em português: “Explosões Controladas na Saúde Mental”), ainda inédito.
Em vez
de uma falta de motivação ou disciplina, a autossabotagem pode ter
origem na forma como o cérebro reage a ameaças percebidas.
Heriot-Maitland argumenta que ela pode “derivar de mecanismos evolutivos
de sobrevivência”. Traumas, medos e padrões
aprendidos podem reforçar ainda mais essa resposta.
O
resultado é um ciclo silencioso: comportamentos que parecem protetores no
momento — adiamento, evitação, autocrítica — podem impedir que
as pessoas alcancem os objetivos que mais lhes importam, muitas vezes sem
que elas se deem conta. “Muitos desses ciclos de medo simplesmente os
mantêm estagnados ou até mesmo os fazem regredir”, acrescenta
Heriot-Maitland.
Entender por
que a autossabotagem acontece, dizem os pesquisadores, é o primeiro passo para
interrompê-la. Veja aqui está o que os cientistas sabem sobre por que o
cérebro faz isso — e o que pode ajudar a mudar esse padrão.
<><> O que é autossabotagem?
A autossabotagem refere-se
a pensamentos e sentimentos que minam seus
objetivos de longo prazo, afirma Tim Pychyl, psicólogo que estuda a
procrastinação e autor do livro "Solving the Procrastination Puzzle"
(em tradução livre: “Desvendando o Enigma da Procrastinação”).
A maioria
das pessoas experimenta alguma forma de autossabotagem em algum
momento, dizem os pesquisadores, embora para algumas ela
permaneça ocasional, enquanto para outras se torna persistente e
prejudicial.
Ela
pode assumir muitas formas diferentes,
incluindo procrastinação, compulsão alimentar, gastos
excessivos, obsessão por jogos de azar ou vícios diversos,
afirma Pychyl. Além de comportamentos nocivos
como perfeccionismo, pessimismo, autocrítica ou automutilação são
outras maneiras de
autossabotagem, acrescenta Heriot-Maitland.
Quem se autossabota é frequentemente
percebido erroneamente como preguiçoso ou indisciplinado, diz Pychyl, mas
há uma diferença. Na procrastinação, por exemplo, você quer e
está disposto a concluir uma tarefa, mas fatores emocionais
ou psicológicos atrapalham. Já quando é um caso de preguiça, há uma
"falta de vontade de se esforçar", afirma ele.
<><> Por que nos autossabotamos?
A autossabotagem
provavelmente tem múltiplas causas, e mais pesquisas são necessárias
para compreendê-la completamente, afirma Philip
Jean-Richard-dit-Bressel, professor sênior de psicologia da Universidade de
Nova Gales do Sul, em Sydney, Austrália, que estuda a psicobiologia da
tomada de decisões e do comportamento.
Um
mecanismo fundamental é a resposta de luta ou fuga, ou resposta
ao estresse, explica Pychyl.
Essa resposta automática de sobrevivência é ativada na amígdala,
a parte do cérebro que regula as emoções e as memórias.
De
uma perspectiva evolutiva, a resposta foi
projetada para proteger o indivíduo de ameaças que representavam
risco de vida ou morte para os primeiros humanos.
Ameaças
modernas, como prazos ou críticas, ainda podem ativar essa resposta, mesmo
que não sejam fisicamente perigosas, acrescenta Pychyl.
Quando
isso acontece, as pessoas podem recorrer a comportamentos que reduzem o
desconforto ou proporcionam uma sensação de segurança momentânea,
como ignorar prazos, tomar decisões precipitadas ou ser autocríticas,
mesmo quando essas escolhas frequentemente acarretam consequências, afirma
Heriot-Maitland. Dessa forma, a autossabotagem se torna
um mecanismo de autoproteção.
Por
exemplo, se você não terminar sua apresentação, pode estar se protegendo
de medos subjacentes de fracasso ou julgamento: "Vou causar esse pequeno
prejuízo agora para evitar um prejuízo maior", diz Heriot-Maitland.
Esse
alívio pode parecer gratificante a curto prazo, acrescenta Pychyl,
"mas acaba se voltando contra nós".
Algumas
pessoas podem ser biologicamente mais propensas a esses padrões do
que outras. Um estudo de 2018 publicado na revista científica Psychological
Science encontrou uma ligação entre um maior volume da amígdala e
a "orientação para o estado", ou seja, uma tendência a hesitar e
adiar o início de ações, o que pode prejudicar o "comportamento
direcionado a objetivos".
Além
disso, sob estresse,
a atividade no córtex pré-frontal do cérebro — responsável
pelo planejamento e autocontrole — pode ser reduzida, dificultando a
supressão dos impulsos de evitação gerados pela amígdala.
A autossabotagem
também pode ser aprendida e se tornar um hábito. Por exemplo, crescer
em um ambiente de críticas severas pode ativar seu sistema de
alerta em qualquer situação em que você receba feedback, afirma Heriot-Maitland.
Pesquisas
sugerem que os procrastinadores, especificamente, costumam adotar
comportamentos de autopreservação. Um estudo mais antigo, publicado no Journal
of Research in Personality, descobriu que os procrastinadores
frequentemente criam obstáculos externos — como esperar até o
último minuto — e atribuem o baixo desempenho a esses obstáculos, o que
pode ajudar a preservar a autoestima.
As
experiências da infância também podem ser importantes. Algumas pesquisas
sugerem que pessoas com pais emocionalmente imaturos ou que
sofreram negligência emocional por parte dos pais podem ser mais
propensas à autossabotagem.
O medo
do fracasso é outro fator comum, afirma Hal Hershfield, professor de marketing
e tomada de decisões comportamentais na Universidade da Califórnia, Los Angeles
(Estados Unidos), e autor do livro "Your Future Self" (em
tradução livre, “Seu Eu do Futuro”). "Ironicamente, o medo de
fracassar me impede de fazer algo, e então acabo fracassando."
As
pessoas também tendem a supervalorizar o presente e desconsiderar o
futuro, o que leva à procrastinação, diz Hershfield. Muitas pessoas também
"simplesmente têm muita dificuldade em associar ações a
resultados", acrescenta Jean-Richard-dit-Bressel.
<><> Como parar de se
autossabotar?
A autossabotagem nem sempre está sob
"controle consciente, mas existe um padrão aprendido que você pode
desaprender", diz Heriot-Maitland.
Aqui estão algumas abordagens que os
pesquisadores dizem que podem ajudar a reduzir a autossabotagem:
>>>> Pratique mindfulness ou meditação
Tomar
consciência das suas reações internas — como o medo do fracasso ou
a vontade de procrastinar — é um primeiro passo importante, afirma
Pychyl. O objetivo não é eliminar esses sentimentos, mas reconhecer
que você não precisa agir de acordo com eles, o que muitas vezes é mais
fácil dizer do que fazer.
“As
pessoas nem sempre têm plena consciência de como seu comportamento
está sabotando a busca por seus objetivos”, diz Jean-Richard-dit-Bressel.
Uma
maneira de desenvolver essa percepção é analisar como você
normalmente lida com tarefas ou situações e o que essas reações tendem a
produzir, explica ele. Para isso, a prática de mindfullness ou meditação pode ser
interessante para ajudar nesse processo. Se isso for difícil, pergunte a
um amigo ou parente de confiança como eles veem sua autossabotagem.
>>>> Desenvolva a autocompaixão
Uma vez
que esses padrões estejam mais claros, diz Heriot-Maitland, o próximo
passo é responder com autocompaixão em vez de autocrítica.
Criar
uma distância entre seu comportamento passado e o que você espera para o
futuro também é importante, afirma Hershfield. Pesquisas sugerem
que o autoperdão, o reconhecimento de erros passados sem se apegar a eles,
pode ajudar algumas pessoas a evitar a repetição do
padrão.
Ele
acrescenta que, quando você se sentir tentado a procrastinar ou ser
excessivamente autocrítico, considere como se sentirá amanhã ou na
próxima semana por causa disso.
“Não
podemos controlar as coisas que tornam o futuro incerto, mas
podemos controlar as respostas que damos às ameaças agora”, diz Hershfield.
“Uma maneira de fazer isso é lidar com os comportamentos, lidar com os tipos de
situações que podem piorar as coisas para nós.”
>>>> Procure terapia, se necessário
Para
algumas pessoas, o apoio profissional é essencial. A terapia cognitivo-comportamental,
um tipo de psicoterapia que ajuda os indivíduos a identificar e
modificar padrões e comportamentos que interferem no seu bem-estar,
é frequentemente recomendada para pessoas que lutam contra a autossabotagem,
afirma Pychyl.
Abordar
medos subjacentes ou traumas passados costuma ser necessário,
acrescenta Heriot-Maitland. “Tentamos entender
quais são esses medos que estão impulsionando esses
padrões em você. Há
muito que podemos fazer a respeito, mas leva tempo e não existem soluções
rápidas.”
Com o
tempo, aprender a interromper padrões de autossabotagem pode
facilitar a busca por objetivos de longo prazo, diz Pychyl — não forçando
a mudança, mas compreendendo o que está motivando o comportamento em
primeiro lugar.
¨
Que tal fazer uma
caminhada após as refeições? Ela pode alterar a forma como o cérebro e o corpo
reagem à comida
Comer não apenas
repõe as energias do corpo — desencadeia uma sequência cuidadosamente
cronometrada de mudanças fisiológicas, que ocorrem principalmente nos
minutos que se seguem após uma refeição.
Durante
esse período, pesquisas sugerem que o movimento
pós-refeição pode fazer mais do que acalmar o estômago. Ele
pode remodelar a forma como o corpo processa os alimentos e
como o cérebro reage a eles.
Então, o
que acontece durante esse período pós-refeição e como uma breve caminhada pode
ajudar a moldar esse processo? Confira a seguir.
<><> O que seu corpo (e cérebro)
fazem depois de uma refeição
A digestão é um processo
ativo que envolve todo o corpo. Logo após comermos, nosso corpo entra
no modo "repouso e digestão" — um período em que o
intestino e o cérebro se comunicam intensamente, trocando diversos sinais
que influenciam a digestão, o humor e os níveis
de estresse.
Os
elementos presentes nos alimentos, como carboidratos, gorduras e proteínas são
decompostos em glicose, ácidos graxos e aminoácidos, que são
então liberados na corrente sanguínea.
Isso
cria uma janela sensível para o eixo intestino-cérebro — a via
bidirecional de nervos e sinais que liga a digestão ao estresse e ao
humor. É também o momento perfeito para se movimentar, afirma Loretta
DiPietro, cientista de exercícios e nutrição da Universidade George Washington,
nos Estados Unidos.
<><> O que o exercício após as
refeições faz pelo seu corpo e pelo seu cérebro
Ao se
movimentar — mesmo em uma caminhada tranquila —
seus músculos se contraem, o que ajuda a retirar o açúcar da corrente
sanguínea e levá-lo para as células. Esse processo ocorre
independentemente da insulina, o que é especialmente útil para
idosos, pessoas com resistência à insulina ou qualquer pessoa que
tenha feito uma refeição pesada à noite, quando a insulina tende a ser
menos eficiente.
Isso
significa que o movimento oferece ao seu corpo uma segunda via
para controlar o açúcar no sangue. Ele pode ajudar
a atenuar os picos de açúcar acentuados após as refeições e
reduzir a carga de trabalho do pâncreas. Com o tempo, esse alívio pode
ajudar a proteger a saúde metabólica e reduzir os fatores de
risco para diabetes e doenças cardíacas.
“O exercício físico contorna as
deficiências na sinalização da insulina”, afirma Gerald Shulman, professor de
Medicina na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. “O exercício abre a
porta para a glicose entrar na célula — mesmo em pessoas com resistência à
insulina.”
Mas
esses benefícios metabólicos contam apenas parte da história. O
movimento durante esse estado de recuperação pós-refeição também
aumenta o fluxo sanguíneo para os órgãos digestivos e favorece a
interocepção, que é a percepção do cérebro sobre o que está
acontecendo dentro do corpo.
Estudos
recentes sugerem que o nervo vago — uma
importante via de comunicação entre o intestino e o cérebro — ajuda
a moldar como nos sentimos após comer. Um estudo descobriu que o
nervo vago desempenha um papel em tudo, desde a sensação
de saciedade até o gerenciamento das emoções.
Outro
estudo constatou que as bactérias intestinais podem influenciar esse
nervo, conectando o que comemos à forma como nossos corpos e mentes reagem.
Os cientistas
ainda estão mapeando essas conexões, mas as evidências sugerem
que caminhadas após as refeições favorecem sim a comunicação
entre cérebro e corpo de maneiras que vão muito além da digestão.
<><> Quando e como se movimentar
após uma refeição
O
momento não precisa ser exato. DiPietro afirma que se movimentar cerca de 30 minutos
após terminar a refeição pode ser o ideal, mas observa que os benefícios
começam assim que as pessoas começam a se mexer. Shulman concorda,
acrescentando que se movimentar a qualquer hora do dia pode melhorar
a sensibilidade à insulina.
A
atividade não precisa ser intensa ou prolongada. A pesquisa de DiPietro
sugere que 15 minutos de caminhada leve já atenuam os picos de
glicose pós-prandial.
Um
novo estudo de 2025 corroborou essa informação, constatando que
uma caminhada de 10 minutos imediatamente após uma refeição melhorou
o controle da glicemia tanto quanto uma caminhada de 30 minutos feita
posteriormente. Você nem precisa suar, comenta Shulman. O importante é
simplesmente se movimentar.
Outro
estudo de 2025 mostrou que interromper longos períodos
sentado com caminhadas leves de dois a cinco
minutos (mesmo caminhar dentro de casa ou subir escadas pode
ajudar) reduziu significativamente os picos de glicose e insulina
pós-prandial em adultos com obesidade.
E esses
benefícios vão além daqueles com resistência à insulina. Shulman observa
que, mesmo em adultos jovens e magros, o movimento após as
refeições melhora a forma como os músculos armazenam energia,
podendo contribuir para a saúde metabólica ao longo da vida.
A chave
para os benefícios está na consistência. Para observar efeitos duradouros,
o movimento após as refeições precisa ser repetido diariamente. De uma
perspectiva evolutiva, diz DiPietro, os humanos foram programados para se
movimentar após comer — um ritmo que favorecia o uso da energia em vez de seu
armazenamento. Caminhar após as refeições pode ser uma maneira
simples de reintroduzir essa expectativa na vida moderna.
<><> Caminhar: um hábito simples,
mas com impacto em todo o corpo
Uma caminhada após as
refeições não vai substituir medicamentos nem transformar radicalmente seu
metabolismo da noite para o dia. Mas é uma pequena mudança com um
potencial enorme — parte de um panorama maior sobre como
o movimento, alimentação e saúde estão
profundamente interligados.
Se uma
caminhada à noite parece inatingível, comece devagar. Coloque música e
lave a louça com vigor. Leve o cachorro para passear um pouco mais
longe. Marche no lugar. Como diz DiPietro, “Simplesmente se mexa”.
Fonte: National Geographic Brasil
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