quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 

Gilmar Mendes aponta risco de interferência eleitoral em decisão de Mendonça

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), apontou risco de interferência na disputa eleitoral de 2026 ao questionar a decisão de André Mendonça que afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Ao pedir vista do julgamento nesta terça-feira (8), Gilmar afirmou que a medida precisa ser examinada à luz de um precedente vinculante que considera inconstitucionais decisões judiciais capazes de desequilibrar a disputa entre partidos e candidatos.

Gilmar não afirma que Mendonça tenha agido para beneficiar um candidato específico. Mas coloca formalmente no julgamento a possibilidade de a decisão produzir interferência eleitoral e invoca o dever de neutralidade do Estado diante de partidos e candidatos.

“[A decisão] demanda uma análise da decisão ora submetida a referendo frente a precedente vinculante deste Supremo Tribunal Federal”, escreveu Gilmar.

O precedente citado é a ADPF 1.017. Segundo Gilmar, nesse julgamento o Plenário do STF estabeleceu, “em razão da paridade de armas e do dever de neutralidade do Estado em relação aos partidos políticos e candidatos”, a inconstitucionalidade de decisões judiciais “tendentes a promover o desequilíbrio da disputa político-eleitoral”.

A escolha desse precedente é o ponto politicamente mais sensível do pedido de vista. Na prática, Gilmar sustenta que, antes de confirmar a retirada do diretor-geral da PF em plena disputa eleitoral, o Supremo precisa examinar se a medida respeita os limites impostos ao Judiciário para não interferir no equilíbrio entre candidatos e partidos.

<><> Sinais de incompetência da Segunda Turma

O questionamento eleitoral é acompanhado de dúvidas sobre a própria validade do caminho escolhido para referendar a decisão.

Gilmar afirma expressamente haver “elementos que apontam para a incompetência da Segunda Turma” para julgar o afastamento de Andrei.

Um dos motivos está dentro da própria decisão de Mendonça. Segundo o pedido de vista, o relator registrou elementos sugerindo que o relatório de inteligência atribuído ao diretor-geral da PF teria sido produzido “por provocação de membro da Primeira Turma desta Corte”.

Gilmar então tira uma consequência direta dessa premissa:

“Tomada essa premissa nos termos em que formulada pelo Relator, a competência para exame dos atos imputados a integrante do Tribunal é do Plenário, e não da Segunda Turma.”

Ou seja: se a própria hipótese adotada por Mendonça envolve a atuação de outro ministro do STF, Gilmar considera que o assunto não deveria ser resolvido pela Segunda Turma.

O pedido de vista aponta ainda uma contradição na condução do processo. O próprio Mendonça havia registrado, em decisão de 1º de setembro, que o caso deveria ser analisado pelo Plenário.

Gilmar lembra que Mendonça determinara que “o exame da matéria haveria de ocorrer perante o Plenário, em sessão presencial e pública, em data a ser definida pela Presidência desta Corte”.

Além disso, a Presidência do STF já conduz um procedimento para que o Plenário examine “todas as questões envolvidas no caso”, inclusive o relatório de inteligência que serviu de fundamento para os afastamentos.

Nesse procedimento, foram solicitadas manifestações do próprio Andrei Rodrigues, do procurador-geral da República, Paulo Gonet, de Alexandre de Moraes e de outras autoridades. O prazo de cinco dias ainda estava em andamento quando Mendonça levou o afastamento para referendo da Segunda Turma.

<><> Pedido de partido também é questionado

Gilmar Mendes levanta uma segunda dúvida jurídica sobre a origem da decisão. O ministro afirma ser necessário aprofundar o exame dos motivos pelos quais “o afastamento cautelar foi determinado a partir de solicitação formulada por partido político”.

E acrescenta que isso ocorreu “em aparente contrariedade” ao artigo 282, parágrafo 2º, do Código de Processo Penal e ao artigo 230-B do Regimento Interno do STF.

Segundo Gilmar, são normas que traduzem uma “exigência própria do sistema acusatório”.

O ministro, portanto, não questiona apenas se havia razões materiais para afastar Andrei. Coloca em discussão se quem provocou a medida tinha legitimidade para fazê-lo, se a Segunda Turma poderia julgá-la e quais consequências eleitorais uma decisão judicial dessa dimensão pode produzir.

<><> Julgamento entrou na pauta menos de uma hora antes

O ministro também faz uma crítica direta à velocidade com que o afastamento foi levado para julgamento. Segundo ele, o processo “foi incluído em pauta no próprio dia do julgamento, menos de uma hora antes do início da sessão virtual designada para essa finalidade”.

Gilmar Mendes afirma que isso “impediu o exame da integralidade dos autos e da decisão submetida a referendo”.

E classifica a situação como grave: “o que é grave em se tratando de uma medida cautelar que afasta das suas funções o dirigente máximo da Polícia Federal”.

Ao encerrar o pedido de vista, Gilmar sintetiza a dimensão do questionamento: “diante de elementos que apontam para a incompetência da Segunda Turma e do risco de decisões conflitantes sobre uma mesma matéria, pedi vista do processo para melhor exame dos autos”.

A interrupção do julgamento, portanto, abre uma discussão mais ampla do que a permanência de Andrei no cargo. O Supremo terá de enfrentar também se Mendonça levou o caso ao colegiado correto, se poderia determinar o afastamento a partir de provocação partidária e, sobretudo, se uma decisão judicial com esse alcance pode afetar o equilíbrio da disputa eleitoral de 2026.

        Federação PSOL-Rede articula pedido de impeachment de André Mendonça: ‘Novo Moro’

O presidente da federação PSOL-Rede, Juliano Medeiros, afirmou nesta terça-feira (8) que iniciou uma consulta a outros partidos de esquerda para discutir a apresentação de um pedido coletivo de impeachment do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

“Como presidente da federação PSOL-Rede estou iniciando uma consulta aos demais partidos da esquerda sobre um pedido coletivo de impeachment de André Mendonça”, escreveu Medeiros nas redes sociais.

Na sequência, o dirigente partidário fez duras críticas à atuação do ministro e o comparou ao ex-juiz Sergio Moro. Segundo Medeiros, Mendonça estaria ultrapassando os limites de suas atribuições e utilizando decisões judiciais com objetivos políticos.

“Mendonça é novo Sérgio Moro: passa de todos os limites das suas atribuições, faz política com decisões judiciais e blinda seus aliados. Tudo para interferir no resultado das eleições”, afirmou.

Medeiros também associou a atuação do ministro ao grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro e defendeu uma reação dos partidos de esquerda.

“É evidente que o aliado dos Bolsonaro vai fazer de tudo pra recolocar o seu grupo político no poder, custe o que custar. Precisamos impedi-lo”, declarou.

A manifestação ocorre em meio ao aumento da tensão envolvendo Mendonça, a Polícia Federal e outros integrantes do STF. Nesta terça, o ministro determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues do comando da PF, decisão que ampliou a crise institucional em torno da Corte.

A Advocacia-Geral da União (AGU) vai contestar a medida no STF, segundo apuração do ICL Notícias. O órgão argumentará que a decisão monocrática viola uma competência privativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Também nesta terça, porém, a Segunda Turma do STF formou maioria para manter o afastamento de Andrei. Luiz Fux e Nunes Marques acompanharam Mendonça, relator do caso, formando um placar de 3 a 0 pela manutenção da medida.

A maioria foi alcançada mesmo após Gilmar Mendes pedir vista e interromper o julgamento. A sessão virtual extraordinária começou às 10h e, cinco minutos depois, Gilmar solicitou mais tempo para analisar o processo. Fux e Nunes Marques, no entanto, anteciparam seus votos e acompanharam Mendonça.

        Número 2 da PF diz ter confiança em Andrei, e cúpula vê decisão política

O diretor-executivo da Polícia Federal, William Murad, número 2 da corporação, disse em discurso nesta terça-feira (8) que manifesta confiança no diretor-geral Andrei Rodrigues após o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça determinar que o chefe da corporação se afaste do cargo.

Após o afastamento, integrantes da cúpula da PF manifestaram, sob reserva, sentimento de indignação e revolta e entenderam a decisão do Supremo como política.

Andrei cancelou a participação em um evento da PF durante a manhã, pouco antes do horário previsto para discursar na abertura de um curso de formação profissional de agentes. Ele tomou conhecimento da decisão a caminho do local da cerimônia.

“Não nos deixaremos abalar com ataques, venham de onde vier, e afirmamos a nossa total confiança na direção-geral e no diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O momento exige serenidade, mas saberemos atravessar essa tempestade como tantas vezes o fizemos”, disse Murad no discurso. Ele saiu do evento sem falar com a imprensa.

À Folha, um superintendente da PF próximo a Andrei disse que “a avaliação é de espanto”, ao falar da decisão. Para ele, o ministro tenta influenciar no andamento de investigações, comportamento que não vê no diretor-geral.

Na Academia Nacional, em Brasília, 735 alunos aguardaram sentados cerca de 50 minutos até serem informados de que Murad substituiria Andrei no evento.

O que motivou o pedido de afastamento, segundo a decisão de Mendonça, foi a produção de um relatório interno da Polícia Federal usado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, para pedir uma investigação contra o próprio Mendonça por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução do caso do Banco Master e do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

O magistrado pediu preventivamente que o diretor de Inteligência da PF, Leandro Almada, deixe o cargo.

Fux convocou uma sessão virtual extraordinária da Segunda Turma do Supremo nesta terça para analisar a decisão de Mendonça contra Andrei Rodrigues. A turma é composta pelos ministros Luiz Fux (presidente), Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Nunes Marques, além do próprio André Mendonça.

A turma formou maioria para manter o afastamento de Rodrigues, mas Gilmar pediu vista (mais tempo para análise) e suspendeu a sessão.

<><> Diretores da PF põem cargos à disposição em apoio a Andrei Rodrigues e Leandro Almada

Onze diretores da Polícia Federal colocaram seus cargos à disposição nesta terça-feira (8), em reação ao afastamento do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, determinado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em manifestação conjunta, os integrantes da cúpula da PF declararam apoio a Rodrigues e ao diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada, também afastado da função.

“Para que fique absolutamente claro, repudiamos toda e qualquer tentativa de imputar a eles ou à Polícia Federal uma atuação não republicana. Tais acusações, desprovidas de fundamento, afrontam a história, a credibilidade e o compromisso institucional que sempre pautaram suas condutas. Neste ato, colocamos nossos cargos à disposição do Diretor-Geral substituto”, diz comunicado.

Os integrantes da cúpula também afirmaram que a atuação de Andrei Rodrigues à frente da PF foi marcada por uma “atuação técnica, isenta e responsável”. Para eles, as críticas do STF são influenciadas por interesses político-eleitorais.

Ao final do documento, os diretores declaram apoio a Andrei Rodrigues e Leandro Almada, justificando a ação como uma forma de garantir o “interesse público na manutenção de uma Polícia Federal capaz de promover justiça e assegurar o Estado Democrático de Direito”.

Leia a íntegra do comunicado:

Os Diretores da Polícia Federal vêm a público expressar seu total apoio ao Diretor-Geral, Delegado de Polícia Federal Dr. Andrei Rodrigues, e ao seu Diretor de Inteligência, Delegado de Polícia Federal Dr. Leandro Almada, diante dos injustificados ataques sofridos pela Polícia Federal na data de hoje.

Da mesma forma como a Instituição Polícia Federal tem, em sua história e feitos, a razão de sólida admiração dos brasileiros, o Dr. Andrei também conta com um percurso profissional dedicado à defesa da PF, com atuação técnica, isenta e responsável.

Narrativas marcadamente influenciadas por interesses político-eleitorais não têm o poder de apagar a história, a reputação e a trajetória profissional de quem quer que seja.

Assim, cumprindo nosso dever de defender a Instituição de ataques e tentativas de usurpação de funções, e assegurando o interesse público na manutenção de uma Polícia Federal capaz de promover justiça e assegurar o Estado Democrático de Direito, tornamos público nosso apoio aos diretores.

Para que fique absolutamente claro, repudiamos toda e qualquer tentativa de imputar a eles ou à Polícia Federal uma atuação não republicana. Tais acusações, desprovidas de fundamento, afrontam a história, a credibilidade e o compromisso institucional que sempre pautaram suas condutas. Neste ato, colocamos nossos cargos à disposição do Diretor-Geral substituto.

Assinaram o ato, os seguintes diretores:

        Dennis Cali, diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor/PF);

        Fabrício Schommer Kerber, diretor de Polícia Administrativa (DPA/PF);

        Otavio Margonari Russo, diretor de Combate a Crimes Cibernéticos (DCiber/PF);

        Felipe Tavares Seixas, diretor de Cooperação Internacional (DCI/PF);

        Helena de Rezende, diretora de Gestão de Pessoas (DGP/PF);

        Roberto Reis Monteiro Neto, diretor Técnico-Científico (Ditec/PF);

        André Luis Lima Carmo, diretor de Administração e Logística (Dlog/PF);

        Christiane Correa Machado, diretora de Ensino da Academia Nacional de Polícia (Diren-ANP/PF);

        Alexsander Castro de Oliveira, diretor de Proteção à Pessoa (DPP/PF);

        Ademir Dias Cardoso Júnior, diretor de Tecnologia da Informação e Inovação (DTI/PF);

        Humberto Freire de Barros, diretor da Amazônia e Meio Ambiente (Damaz/PF).

 

Fonte: ICL Notícia

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