O que Flávio Bolsonaro ainda precisa
esclarecer sobre 'Dark Horse' — e por que o filme não sai antes das eleições
A delação de um operador financeiro e a
pressão da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pelo fim do
sigilo deste depoimento recolocaram Dark Horse no centro da disputa eleitoral.
O filme conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O movimento ocorre a menos de um mês do
primeiro turno, marcado para 4 de outubro, e no momento em que o senador Flávio
Bolsonaro (PL) se recupera nas pesquisas de intenção de voto. Segundo o
agregador da BBC News Brasil, Flávio aparece à frente de Lula em um eventual
segundo turno — ele teria 45% dos votos contra 44% do adversário.
Em paralelo, a Polícia Federal deflagrou
nesta quinta-feira (10/9) uma operação relacionada a Dark Horse. Os agentes
investigam suspeitas de irregularidades na destinação de emendas parlamentares
e têm como alvo o deputado estadual Mario Frias, roteirista e
produtor-executivo do filme.
Outro alvo é a empresária Karina Ferreira da
Gama, dona de um instituto ligado a projetos sociais que teria recebido emendas
de Frias e também pela GoUp Entertainment, produtora responsável pelo
longa-metragem.
Em maio, o site The Intercept Brasil revelou
que Flávio teria pedido a Vorcaro US$ 24 milhões, o equivalente a R$ 134
milhões, para financiar a produção do filme. O banqueiro, que está preso desde
novembro de 2025, é suspeito de fraudar R$ 12 bilhões do sistema financeiro.
Flávio negou qualquer irregularidade e disse
ao Jornal Nacional que o tema está "mais que esclarecido" e é um
"livro fechado, ressignificado e na prateleira".
Mas o caso voltou à tona após Antonio Carlos
Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, ter fechado um acordo de delação com a
Procuradoria-Geral da República (PGR), que foi homologado pelo ministro André
Mendonça, relator da investigação do Caso Master no Supremo Tribunal Federal
(STF).
Mineiro é dono da Entre Investimentos e
Participações e apontado como principal operador financeiro de Vorcaro.
Segundo a colunista Malu Gaspar, do jornal O
Globo, ele afirmou em sua delação ter feito, a pedido de Vorcaro, sete
pagamentos para o fundo Havengate, que tem sede nos Estados Unidos e ligação
com um advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Os repasses somaram US$ 12,3
milhões, o equivalente a cerca de R$ 69 milhões na cotação da época.
Os últimos repasses, contrariando o que
Flávio havia dito à GloboNews, teriam ocorrido em setembro e outubro, segundo
apurou a revista Piauí. Isto é, às vésperas da prisão de Vorcaro, em novembro
de 2025.
A apuração da revista coincide com o que o
The Intercept havia revelado a partir de áudios trocados entre os dois: as
cobranças pelos pagamentos seguiram até dias antes da prisão, quando as
suspeitas sobre o banqueiro e o Master já eram públicas.
A relação com Vorcaro é um ponto sensível
para os dois lados da disputa eleitoral no momento.
O banqueiro enviou mensagens a um contato
atribuído ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, conforme revelou a PF na
última semana. Para analistas ouvidos pela BBC News Brasil, a divulgação
consolida um cenário de pessimismo e prejudicam a “pauta positiva” do governo
Lula.
Veja abaixo, em cinco pontos, o que falta
Flávio esclarecer sobre Dark Horse e sua relação com Vorcaro.
>>> 1. Para que o dinheiro dado por
Vorcaro foi usado nos EUA?
Esta é a principal investigação da PF. Isso
porque o dinheiro de Vorcaro foi repassado pela Entre Investimentos e
Participações para o fundo de investimentos Havengate Development Fund LP, que
tem sede nos Estados Unidos.
O fundo tem ligação com um advogado que atua
para o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Eduardo está nos EUA desde fevereiro de
2025 e é considerado foragido da Justiça brasileira.
Segundo a Procuradoria-Geral da República e o
STF, Eduardo Bolsonaro teria atuado junto ao governo de Donald Trump para
pressionar o Brasil e ministros do Supremo, defendendo sanções contra eles, com
o objetivo de interferir no processo que levaria seu pai à prisão.
Eduardo é tido como foragido porque, mesmo
após ser condenado pelo STF no último mês de junho a 4 anos e 2 meses de
prisão, por coação no curso do processo, não se apresentou à Justiça. A
condenação está sujeita a recurso, e a pena não começou a ser cumprida.
A dúvida sobre para que o dinheiro foi usado
nos Estados Unidos ganhou força nos últimos dias porque a PGR fechou um acordo
de delação premiada com Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro.
Mineiro é dono da Entre Investimentos e
Participações e apontado como principal operador financeiro de Vorcaro.
O conteúdo integral da delação não veio a
público, mas o jornal O Globo apurou que o dono da Entre teria afirmado ter
feito sete repasses, inclusive em dinheiro vivo, transportado em malas, a
pedido de Vorcaro. Ele teria afirmado que não sabia qual seria a finalidade do
dinheiro nem se os valores seriam destinados a Dark Horse.
Em maio, o The Intercept revelou que Eduardo
assinou um contrato como produtor do filme, no qual teria responsabilidades
sobre a gestão financeira de Dark Horse. Foi então que a PF passou a investigar
a possibilidade de que o dinheiro de Vorcaro possa ter tido o objetivo de
financiar a permanência do ex-deputado nos EUA.
Eduardo gravou um vídeo admitindo ter
assinado o contrato e investido R$ 350 mil no filme, mas acrescentou que teria
recebido o dinheiro de volta após a obra ter obtido outros patrocinadores.
"Quem fala que Eduardo Bolsonaro recebeu
dinheiro de Vorcaro é mentiroso. Quem fala que Eduardo Bolsonaro recebeu
dinheiro desse fundo que foi criado nos EUA está mentindo", disse, em
vídeo publicado nas redes sociais.
>>>> 2. Quanto Vorcaro pagou à
produção do filme?
O The Intercept publicou que Flávio teria
pedido US$ 24 milhões, o equivalente a R$ 134 milhões, a Vorcaro. Na ocasião, o
site informou que o banqueiro havia repassado US$ 10,6 milhões.
A revista Piauí revelou, no entanto, que
houve ao menos mais dois repasses: um de US$ 1,66 milhão e outro de valor não
identificado, em setembro e outubro de 2025. Com isso, o montante pago teria
chegado a US$ 12,3 milhões.
Isso chamou atenção porque Flávio havia dito
à GloboNews que o último pagamento tinha sido feito em maio de 2025, quando os
repasses teriam continuado até as vésperas da prisão do banqueiro, em novembro.
Flávio não quis comentar o caso à BBC News
Brasil. Sua assessoria de imprensa disse que os responsáveis pelo filme são a
produtora GoUp Entertainment.
A BBC procurou a empresa para obter um
posicionamento, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem. À
Folha de S.Paulo, a GoUp confirmou o repasse de mais uma parcela, em setembro
de 2025, e negou que tenha havido outra em outubro.
Entre as contradições que se acumulam, não se
sabe, portanto, quanto de fato Vorcarou doou para a produção do filme.
>>>> 3. Até quando os pagamentos
de Vorcaro a Flávio foram feitos?
As primeiras dúvidas do Banco Central sobre
as carteiras de crédito do Master surgiram internamente em janeiro de 2025,
declarou o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, em fevereiro de 2026,
durante um evento da Associação Brasileira de Bancos (ABBC).
Mas antes de as suspeitas do Banco Central
terem se tornado públicas já havia indícios de problemas envolvendo o Master.
Em abril de 2025, a Folha de S.Paulo revelou
casos de servidores que eram cobrados por empréstimos consignados que afirmavam
nunca ter contratado. Os contratos faziam parte de carteiras de crédito que o
BRB havia comprado do Master.
Em 3 de setembro de 2025, o Banco Central
rejeitou a compra do Master pelo BRB. Quando a decisão foi noticiada, as
reportagens já traziam questionamentos sobre a situação financeira do banco e a
lisura de suas operações, principalmente em razão das dificuldades que o Master
tinha para captar recursos e do fato de ainda não ter divulgado o balanço de
2024.
Cinco dias depois, em 8 de setembro, Flávio
enviou a Vorcaro um áudio cobrando parcelas atrasadas de US$ 1,6 milhão para
financiar Dark Horse, segundo reportagem do The Intercept. A mensagem foi a
primeira cobrança direta do senador ao banqueiro.
Segundo a revista Piauí, oito dias após a
cobrança, Vorcaro transferiu US$ 1,6 milhão para o fundo americano que
administrava os recursos do filme. Em 22 de outubro, de acordo com o The
Intercept, Flávio voltaria a cobrá-lo.
O Banco Central só decretou a liquidação
extrajudicial do Master em 18 de novembro de 2025. Quando Flávio fez as
cobranças de setembro e outubro, portanto, o banco ainda não havia sido
liquidado, mas já enfrentava o escrutínio público.
A declaração de Flávio à GloboNews de que o
último pagamento havia ocorrido em maio de 2025 foi contrariada por um
relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que
registrou um repasse de US$ 1,6 milhão em setembro, conforme revelou a revista
Piauí na última semana.
A própria GoUp Entertainment, produtora do
filme, confirmou que o aporte de setembro foi recebido, embora tenha negado que
outro repasse tenha sido efetivado em outubro.
A relação entre Flávio e Vorcaro continuou
após a prisão do banqueiro.
Em maio de 2026, Flávio disse, em entrevista
coletiva após uma reunião com dirigentes e parlamentares do PL, que havia
visitado Vorcaro em sua casa, em São Paulo, no fim de 2025, quando o empresário
estava solto e usava tornozeleira eletrônica — ele voltaria à prisão em março
de 2026. Segundo o senador, ele foi ao encontro do banqueiro para "botar
um ponto final nessa história".
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa
Neto, afirmou, no entanto, que o senador foi até Vorcaro para "ver se
conseguia o restante do dinheiro" prometido pelo banqueiro para a produção
de Dark Horse.
>>>> 4. Como Vorcaro entrou no
financiamento — e por que a GoUp foi escolhida para produzir o filme?
Daniel Vorcaro entrou no financiamento de
Dark Horse em 2024, segundo Karina Ferreira da Gama, dona da GoUp Entertainment
e produtora da obra.
Em entrevista ao portal R7, ela afirmou que o
banqueiro passou a tratar do projeto diretamente com Flávio e Eduardo
Bolsonaro.
Karina disse ter considerado natural o
interesse do banqueiro, sob o argumento de que ele era conhecido por investir
no setor audiovisual. "Daniel era conhecido por patrocinar programas de
TV, Fórmula 1, já tinha patrocinado os filmes do Lula e do Temer, e achei
normal o interesse no filme", afirmou.
A declaração, no entanto, precisa ser vista
com cautela.
O produtor Elsinho Mouco confirmou à revista
Veja que o Fundo Moriah Asset, ligado à família Vorcaro, adquiriu, no fim de
2023, uma cota de R$ 1 milhão de 963 Dias — A História de um Presidente que
Recolocou o Brasil nos Trilhos, dirigido por Bruno Barreto e baseado na
trajetória de Michel Temer.
Mas o diretor Oliver Stone e os produtores do
documentário Lula, que mostra a trajetória do presidente, incluindo sua prisão
e retorno ao poder, negaram à Folha de S.Paulo ter recebido recursos de
Vorcaro, do Master ou de empresas e fundos ligados a ele.
As mensagens obtidas pelo The Intercept
também indicam que havia preocupação em manter o filme em sigilo. Em 1º de
agosto de 2025, depois que o Portal Leo Dias publicou uma nota revelando a
existência de Dark Horse, o banqueiro questionou o empresário Thiago Miranda,
sócio do portal de notícias e apontado como intermediador entre Flávio e
Vorcaro.
"Achei que divulgar que tá fazendo o
filme muito ruim, não acha?", questionou Vorcaro. Miranda respondeu que,
como já haviam começado "as gravações e testes", a notícia acabou
vazando. "Mas não vai aparecer nome de ninguém. Eles me garantiram
isso", disse. "Já mandei deletar."
A troca mostra que o banqueiro estava
preocupado com a divulgação de que o filme estava sendo produzido. Ela não
esclarece, porém, se o objetivo do sigilo era especificamente esconder o
envolvimento financeiro do banqueiro no filme.
Flávio não esclareceu nem por que o
empresário foi escolhido para financiar Dark Horse nem quais critérios levaram
à contratação da GoUp como produtora.
A empresa não tinha experiência conhecida em
produções cinematográficas de grande porte. Karina contratou profissionais
americanos que já atuavam no setor, mas ela própria mantinha empresas e
organizações sem qualquer relação conhecida com o setor audiovisual.
>>>> 5. Quando o filme será
lançado?
O filme não será lançado antes das eleições —
isto é, antes de ao menos o início de outubro, para quando está marcado o
primeiro turno —, contrariando a promessa do ator Jim Caviezel, que interpreta
o ex-presidente e havia dito que o longa-metragem chegaria aos cinemas em
setembro.
À BBC News Brasil, o diretor-geral da
distribuidora Europa Filmes, Wilson Feitosa, afirmou que o filme será exibido
primeiro nos cinemas, antes de ir para televisão ou para plataformas de
streaming, mas acrescentou que ainda não há uma data definida para o
lançamento.
"Somente depois das eleições, mas ainda
não tenho a data cravada", disse Feitosa, por email. "Acho que
contamina, e poderemos ter problemas de judicialização no Brasil, por pensarem
que seja propaganda política."
Feitosa, que soma mais de três décadas de
carreira, foi responsável pelo lançamento nas extintas mídias físicas (VHS e
DVD) de filmes como Central do Brasil, indicado ao Oscar, e Lula, O Filho do
Brasil, cinebiografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ele, porém, não quis informar à BBC uma
previsão do lançamento de Dark Horse. Já a assessoria de imprensa de Flávio
disse que assuntos ligados ao filme são de responsabilidade da produtora GoUp
Entertainment, que, por sua vez, não respondeu aos questionamentos da BBC,
enviados por email.
Também não se sabe nada sobre o lançamento do
longa-metragem nos Estados Unidos e em outros países, como integrantes da
família Bolsonaro haviam dito que aconteceria, ao justificar o investimento que
supera os de obras que já foram até indicadas ao Oscar, como Ainda Estou Aqui e
O Agente Secreto.
Dark Horse não consta das listas de
lançamentos previstos nos maiores sites da indústria cinematográfica americana,
como Box Office Mojo e IMDB.
Apesar de ter cenas gravadas no Brasil, Dark
Horse é considerado um filme estrangeiro. A maior parte do elenco, do diretor e
da equipe de produção do longa-metragem é americana.
Além disso, sua produtora, a Go Up
Entertainment, fica nos EUA. A sede da empresa funcionava até o início de junho
na casa de um de seus sócios, no subúrbio da cidade americana de Raleigh, na
Carolina do Norte. Dias após uma visita da reportagem da BBC News Brasil ao
endereço, a sede foi transferida para um prédio comercial, na mesma cidade.
Para um filme estrangeiro ser lançado no
Brasil, é preciso obter uma série de registros junto à Agência Nacional do
Cinema (Ancine).
O primeiro deles é o Registro de Obra
Estrangeira, conhecido pela sigla ROE, emitido em 7 de agosto.
O segundo é o Certificado de Registro de
Título (CRT), também exigido para obras brasileiras e cujo prazo de obtenção é
de até 30 dias.
Esse processo, porém, nem sequer foi iniciado
pela Europa Filmes, informou a Ancine à BBC na última sexta-feira (4/9). A
agência não respondeu aos novos questionamentos da reportagem feitos na
terça-feira (8/9).
A terceira etapa seria obter, junto ao
Ministério da Justiça, a classificação indicativa do longa-metragem, processo
que pode levar até outros 30 dias.
Em alguns casos raros, o segundo e o terceiro
passos podem ocorrer simultaneamente. Ainda assim, a um mês do primeiro turno
das eleições, é improvável que haja tempo hábil para o lançamento, mesmo que os
envolvidos voltem atrás na decisão de levar a obra aos cinemas apenas após o
pleito.
Há ainda outro porém. A produtora de Dark
Horse é alvo de um processo administrativo na Ancine por ter filmado cenas no
Brasil sem comunicar à agência, procedimento obrigatório no setor. Isso também
pode complicar o lançamento.
"Os resultados da apuração serão
divulgados publicamente após a conclusão do processo, garantida a ampla defesa
e o contraditório", afirmou a Ancine à BBC.
Fonte: BBC News Brasil

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