Entre
a romantização e o punitivismo: o que resta à loucura?
Mais
uma corrida eleitoral se inicia e, com ela, ganham força leituras reducionistas
que buscam desqualificar projetos de sociedade sob o pretexto da “loucura”.
Seja qual for a posição no espectro político-partidário, o predicado de louco é
retirado da cartola, sem qualquer embaraço, em uma tentativa de neutralizar
opositores.
Recentemente,
o candidato à presidência pelo Missão, Renan Santos, taxou a primeira-dama
Rosângela da Silva, a Janja, de “rainha louca e deslumbrada”. Na esfera
internacional, o presidente Donald Trump é conhecido por “diagnosticar”
adversários políticos – mesmo os ocasionais –, taxando-os de malucos, tais como
Vladimir Putin e Netanyahu. De forma talvez ainda mais caricata, o
presidenciável Augusto Cury, do Avante, atrai interesse do eleitorado
entusiasta da psiquiatria, sua formação de base, para o encaminhamento dos
problemas que assolam nossa democracia.
Em um
passado recentíssimo da história do nosso país, setores da esquerda solicitavam
“intervenção psiquiátrica” para os chamados bolsonaristas, um reflexo da
acirrada polarização social, mas também da naturalização da lógica manicomial.
A imagem da camisa de força parecia circular alheia à violência de tal proposta
de “contenção”. Rachel Gouveia Passos alertara, na ocasião, sobre O perigo da
psiquiatrização do bolsonarismo, movimento que esvazia o debate político e
acirra o estigma em relação às pessoas em grave sofrimento psíquico.
Aos
olhos da retórica manicomial, resta aos sujeitos considerados loucos a
destituição de sua cidadania, posto que estariam desprovidos de razão. A
pretensa solução? Camisa de força, internação psiquiátrica, CAPS. Aliás, vale
lembrar que os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são dispositivos de
assistência em Saúde Mental do Sistema Único de Saúde (SUS) a usuários
diagnosticados com transtornos mentais graves e/ou quadros em decorrência do
abuso de álcool e outras drogas. Trata-se da linha de frente da política de
substituição dos manicômios, propiciando um cuidado em liberdade potencialmente
capaz de preservar os vínculos com o território.
Curiosamente,
os CAPS passaram a ser citados, em redes sociais, como sucedâneos dos
“hospícios”, espécie de local em que sujeitos em adoecimento psíquico estariam
afastados do convívio social. Entendemos que a propagação do termo revela, a um
só tempo, o avanço da luta antimanicomial na difusão de dispositivos de cuidado
no imaginário social, mas também a persistência da lógica manicomial. De certo,
esse discurso – tanto à direita quanto à esquerda – indica que ainda não
alcançamos o almejado numa democracia: a inclusão radical das diferenças em
nossos projetos de sociedade.
Sabemos
que o modelo em saúde mental centrado no manicômio foi alterado pelo movimento
constituinte da Reforma Sanitária e da Reforma Psiquiátrica, garantindo o
direito universal à saúde e, ao mesmo tempo, as condições constitucionais para
o cuidado em liberdade dispensado aos ditos loucos. Mas se o louco segue
servindo como signo de desqualificação política entre adversários, o que dizer
de sua vida política, ou seja, de sua agência como sujeito da polis?
Com
efeito, o apelo manicomial dá sinais de sua força quando, mesmo por parte de
setores progressistas que advogam para si pautas em defesa dos direitos
humanos, exalta-se uma violenta equação no que se refere à loucura: posto que
associada à desrazão, deve ter como efeito imediato a privação de
liberdade.
Quando
a bandeira não é levantada apenas na expectativa de gerar risos com piadinhas
absolutamente sem graça, parece buscar uma reedição de O alienista, em que não
tivéssemos que encaminhar as coisas exatamente como são: a disputa de
diferentes projetos de sociedade. Ao contrário, considerando o atual cenário
polarizado, que tal encarcerar quase metade de um país para gozar da fantasia
de unidade fora dos muros asilares? O roteiro seria digno de um premiado
romance, não fosse a crueldade cotidiana a que estão submetidos, em função
também do estigma, os milhões de diagnosticados com transtornos mentais, seus
familiares e também militantes da luta antimanicomial.
Nesse
sentido, é digno de nota que os novos movimentos sociais tenham caminhado no
sentido da garantia de direitos, como exemplifica a equiparação da injúria
racial ao crime de racismo (Lei No 14.532/2023) e a tramitação do projeto para
que a misoginia também o seja, atualmente em curso. No que diz respeito aos
loucos, parece não haver qualquer constrangimento para desqualificá-los, mesmo
vindo de ávidos defensores da democracia.
Debates
atuais que interseccionam loucura com as questões de raça, gênero e classe
social ajudam a traduzir o desafio aqui posto. Emiliano de Camargo David chama
atenção para a assunção desses imbricamentos em expressões como “nega maluca” e
“samba do crioulo doido”1. De fato, é inegável que o peso da naturalização
política a desqualificar o louco recai de modo distinto sobre os diferentes
setores sociais: mulheres, negros e pobres são duplamente penalizados, seja por
carregarem o estigma de potencialmente loucos, seja pela sobrecarga com os
cuidados diante de uma sociedade que não se dispõe a acolher a loucura na vida
cotidiana.
Tais
marcadores sociais da diferença distinguem os destinos da loucura, onde impera
uma brutalidade habitual. Cabe lembrar do caso de Genivaldo de Jesus Santos,
asfixiado no porta-malas de uma viatura policial, lembrando uma câmara de gás
improvisada em plena luz do dia; ou mesmo de Thainara Vitória Francisco Santos,
de 18 anos, que também teve a morte por destino após defender seu irmão autista
de agressões policiais.
A
Reforma Psiquiátrica, mudança paradigmática que buscou garantir liberdade aos
ditos loucos, almejava uma transformação social mais profunda, onde a loucura
pudesse ganhar inscrição nos diferentes espaços da vida pública. Numa sociedade
da inimizade, como analisa Achile Mbembe2, com relações de produção cada vez
mais precarizadas e marcada pela ampliação de vidas tomadas como inúteis, a
inclusão dos ditos loucos tem sido cada vez mais pela via da medicalização,
processo que cria novas formas de exclusão social.
Talvez
um breve hiato na desqualificação em relação aos lugares sociais reservados aos
loucos se dê com o apelo causado por produções da loucura em espaços
consagrados de arte. Sabemos da envergadura das obras encampadas por artistas
tais como Lima Barreto, Stella do Patrocínio, Arthur Bispo do Rosário, Estamira
e Maura Lopes Cançado, cujo reconhecimento se oferece a ver em diferentes
segmentos da sociedade. No entanto, pode causar surpresa o fato de comentários
elogiosos a eles dirigidos coabitarem narrativas em que intervenções
psiquiátricas são evocadas em resposta ao fascismo.
Nesse
cenário, a genialidade dos loucos que são artistas – não raras vezes associados
ao fantástico e à superação – corre o risco de perder sua força como
interrogação às formas de sociabilidade ancoradas na lógica antimanicomial,
ficando aprisionada à romantização. Desse modo, talvez esses sujeitos
permaneçam confinados entre quatro paredes, mas agora as de um museu. Se
indicamos o punitivismo como uma das faces do tratamento dispensado à loucura,
aqui é a romantização que se revela como o outro lado dessa moeda.
Como
tal, as produções da loucura atraem olhares e aplausos, dada sua exímia
qualidade, mas o mesmo público que a aprecia pode acabar elidindo dois
importantes aspectos também em jogo. Em primeiro lugar, o fato de os sujeitos
em adoecimento psíquico cotidianamente enfrentarem um profundo sofrimento,
acirrada precarização e uma luta descomunal também contra os preconceitos a
eles dirigidos. Além disso, e também em resposta a esse estado de coisas, a
possibilidade de suas obras serem consideradas como disputa de espaço na pólis.
Dessa maneira, revelam não apenas a estética do extraordinário, mas o pleito
por uma sociedade que acolha efetivamente as diferenças para além dos limites
do museu.
Cabe,
portanto, reconhecer e nomear a violência semelhante à misoginia, ao racismo e
ao capacitismo embutida no uso da loucura para desqualificação de rivais
políticos. Urge levar a sério a especificidade da loucura e as demandas sociais
dessa diferença. Essa perspectiva aponta para um inevitável fortalecimento das
demandas das mulheres que, na maioria das vezes, cuidam daquilo que a sociedade
não suporta e insiste em manicomializar, especialmente quando se trata de
pobres e negras. Quem sabe assim, um dia, as expressões artísticas dos ditos
loucos conformem uma linguagem onde poética e pólis possam conjugar uma real
transformação social.
Fonte:
Por Fernanda Canavêz e Tadeu de Paula, no Le Monde

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