sábado, 12 de setembro de 2026

Só uma Corte Especial de Julgamento acabará com os superpoderes do STF

O que se vê hoje no seio do Supremo Tribunal Federal é constrangedor. E não apenas para os que protagonizam os embates intestinos, forjando medidas inusitadas e juridicamente questionáveis para confrontar colegas da Corte, em guerras pessoais que acabam por desnudar comportamentos impróprios de ambas as partes. A contenda pública entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça envergonha toda a Nação, tanto pela forma como se dá quanto pelos fatos que a motivam. Uma passada de olhos em tudo que a imprensa revela sobre o caso em tela basta para que o cidadão se sinta ludibriado por aqueles que deveriam fazer cumprir a lei, mas que se locupletam do alto posto que ocupam.

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Vê-se no presidente do STF, ministro Edson Fachin, disposição, ainda que tímida, para pôr fim a tantas condutas indevidas dos nossos magistrados supremos. Há momentos em que a diplomacia togada merece ser revogada, em nome da higidez da Justiça. Em tempo: não se crê que um Código de Conduta seja suficiente para fazer o que a Lei Orgânica da Magistratura não faz, ou seja, impedir que juízes se tornem convivas frequentes de banqueiros corruptos, que escritórios de seus parentes recebam fortunas para prestar “consultoria” a réus do Tribunal, que frequentem rodas políticas com inacreditável desenvoltura, que sejam simultaneamente juízes e empresários que fecham negócios milionários com o Poder Público e com empresários de reputação duvidosa.

Não há alternativa republicana a essas aberrações a não ser uma profunda reforma no funcionamento do Judiciário, em especial do Supremo Tribunal Federal. É nesse sentido que encaminhamos ao Conselho Federal da OAB uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa a equilibrar de fato os Poderes da República. No momento em que o STF centraliza os holofotes e enfrenta um severo impasse institucional sobre o alcance de seus superpoderes, propomos uma mudança revolucionária: retirar dos ministros das cortes superiores o poder de investigar — que exercem na prática — e julgar, de forma originária, autoridades detentoras de foro por prerrogativa de função.

A medida atinge em cheio o cerne do atual conflito político-jurídico do país. Nos últimos anos, o STF se transformou no principal palco de disputas político-criminais, acumulando funções de investigação, instrução e julgamento. Essa hipertrofia expõe a Corte a desgastes desnecessários, enquanto seus defensores alegam a necessidade de respostas rápidas contra ameaças institucionais. É exatamente no ápice desse cabo de guerra que surge a nossa proposta, desenhada para esvaziar o monopólio penal do STF e do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

A espinha dorsal da proposta é a separação funcional absoluta das etapas do processo penal. Atualmente, um único ministro do STF pode capitanear um inquérito, autorizar buscas, validar provas e, posteriormente, liderar o julgamento do mérito. A PEC que propomos acaba com esse modelo. A fase de investigação e instrução ficaria a cargo de um juiz de garantias e de instrução, escolhido por meio de sorteio público, eletrônico e auditável a partir de uma lista pré-constituída de magistrados indicados pelo STF. Esse juiz cuidaria da legalidade das provas, mas estaria proibido de julgar o réu.

Promovida a denúncia pelo Ministério Público, o julgamento propriamente dito seria transferido para uma estrutura inédita: uma Corte Especial de Julgamento, composta por cinco membros temporários. A grande novidade está na formação desse colegiado, que funcionará como um “júri qualificado” de juristas e magistrados de carreira. O STF, o STJ e a OAB formariam uma lista de juízes e advogados maiores de 35 anos, de notório saber jurídico e ilibada reputação. Dessas listas, com a denúncia penal, seriam sorteados:

•        Dois magistrados sorteados da lista permanente do STF;

•        Dois magistrados sorteados da lista permanente do STJ;

•        Um advogado sorteado da lista permanente do Conselho Federal da OAB.

Para garantir a total isenção do veredito, os ministros em exercício no STF e no STJ ficariam expressamente proibidos de integrar essas Cortes Especiais. A regra blinda o processo contra escolhas casuísticas e pressões políticas diretas. Estão ressalvados desse novo modelo apenas os cargos de Presidente da República, governadores e prefeitos.

<><> Duplo grau de jurisdição e limite para ministros

Outro ponto que atacaria diretamente a atual jurisprudência do Supremo é a instituição do duplo grau de jurisdição amplo para o foro privilegiado. Atualmente, quem é julgado pelo plenário do STF não tem direito a recurso para outra instância. A PEC altera isso radicalmente: qualquer decisão condenatória ou absolutória da Corte Especial poderá ser alvo de Recurso Ordinário ao plenário do STF.

Diferente dos recursos atuais, esse novo mecanismo não exigirá critérios restritivos como a “repercussão geral”. O STF funcionará puramente como uma instância revisora de apelação, reexaminando fatos, depoimentos e a dosimetria de penas, devolvendo à Suprema Corte o seu papel original de tribunal constitucional. Além disso, o texto proíbe terminantemente decisões monocráticas terminativas sobre a responsabilidade penal de réus.

Além da alteração processual, a proposta traz um ingrediente político e de forte apelo público ao estabelecer um mandato fixo de 12 anos para os ministros do STF, proibida a recondução. A regra valerá para os novos indicados e visa forçar a renovação periódica da Corte, desvinculando a permanência no cargo exclusivamente da idade limite de aposentadoria compulsória.

A tramitação e o apoio da OAB à nossa proposta turbinam o debate sobre a necessidade de frear o ativismo judicial. Entendemos estar resgatando garantias fundamentais da ampla defesa, do juiz natural e da impessoalidade, retirando o caráter político que os julgamentos de autoridades ganharam nos últimos tempos.

Sabemos que, nos bastidores do STF, a proposta tende a ser vista como uma tentativa de enfraquecimento do tribunal. O argumento de opositores à inovação será o de que pulverizar o julgamento de grandes esquemas de corrupção ou crimes contra o Estado em “cortes temporárias” pode gerar impunidade ou lentidão no sistema de Justiça. Contudo, com o Judiciário sob forte escrutínio e o Congresso Nacional ensaiando medidas para limitar decisões monocráticas, a proposta a ser capitaneada pela advocacia foge do campo das iniciativas cujo teor se presta exclusivamente a contemplar interesses corporativos, direcionando seu foco a um Judiciário cuja força resida na sua autoridade moral e legal, não nas suas relações políticas e pessoais.

•        Operação Dízima Periódica. Por Washington Araújo

A quinta-feira chegou chegando. Antes de o país terminar o café, a Polícia Federal ampliou o perímetro do Banco Master e levou a crise para dentro das instituições encarregadas de impedir exatamente esse tipo de desastre. Gabriel Galípolo, Roberto Campos Neto, André Esteves e Ailton de Aquino foram intimados como testemunhas. A investigação quer saber como o Banco Central fiscalizou o Master enquanto dois de seus servidores são investigados por possível favorecimento a Daniel Vorcaro. A pergunta agora atravessa o Estado: quem sabia, quem agiu, quem facilitou e quem deixou correr?

Aos 10 ou 11 anos aprendemos que dízima periódica é aquele decimal em que determinados algarismos continuam se repetindo depois da vírgula. Era uma extravagância divertida da matemática: 0,3333…, e o três seguia mesmo depois de encerrada a aula. O Master deu ao conceito uma versão brasileira. Repetem-se cifras, comissões, favores, contratos, intermediários e suspeitas. Vorcaro foi preso, o banco foi liquidado, mas a sequência prosseguiu. Mudaram os algarismos; permaneceu a repetição.

Dízimo costuma ser 10%. Alguns pastores transformaram essa porcentagem em jatinhos e fortuna. No Master, a matemática ficou ainda mais sofisticada: dízima periódica, comissões recorrentes e uma devoção quase religiosa ao dinheiro dos outros.

<><> Fiscalização capturada

O chamado “jogo duplo” dentro do Banco Central é um dos capítulos mais graves porque alcança quem estava justamente encarregado de vigiar o banco. Bellini Santana e Paulo Sérgio de Souza mantinham contato com Vorcaro durante a fiscalização do Master. A PF investiga suspeitas de repasse de informações privilegiadas, inclusive movimentações sob análise e nomes de investigadores. Os dois foram afastados.

A investigação procura também saber se informação privilegiada teve preço. Há registros relacionados a um projeto que teria remuneração mensal de R$ 500 mil a Bellini. Paulo Sérgio vendeu um sítio por quase R$ 5 milhões a pessoa apontada na investigação como possível laranja ligado a Vorcaro. A discussão já ultrapassa a hipótese de fiscalização frouxa. A pergunta ficou muito mais pesada: quem fiscalizava quem — e a serviço de quais interesses?

Daniel Vorcaro afirmou, em proposta de delação, que ACM Neto e Antônio Rueda atuavam para levar recursos de institutos de previdência ao Master mediante comissões de 10%. Segundo seu relato, as operações poderiam alcançar R$ 2 bilhões, criando uma obrigação de até R$ 200 milhões. Vorcaro não informou quanto teria sido efetivamente pago. ACM Neto e Rueda negam irregularidades. Mas uma cifra dessa dimensão exige rastreamento até o último centavo: origem, caminho, destinatário e eventual contrapartida.

<><> Dinheiro recorrente

A Polícia Federal apura suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes relacionados a licitações e contratos. Nesta manhã, a Operação Make Up abriu outro flanco sobre recursos públicos e o filme Dark Horse. Foram cumpridos 49 mandados contra 29 pessoas em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os alvos estão o deputado Mário Frias e Karina Gama. A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino.

Flávio Bolsonaro, é importante registrar, não aparece entre os alvos divulgados da operação desta manhã. Mas o financiamento de Dark Horse já integra outra frente de investigação relacionada aos recursos solicitados a Vorcaro para o filme. O roteiro político pode até tentar mudar de gênero; os investigadores continuam seguindo o dinheiro.

O escândalo ultrapassou há muito as portas do Master. Entrou no Banco Central, atravessou fundos, contratos públicos, gabinetes políticos e chegou ao Supremo Tribunal Federal. Cada documento novo reduz o espaço disponível para a explicação dos “casos isolados”. A esta altura, tanta coincidência começa a exigir uma engenharia própria para continuar sendo chamada de coincidência.

Alexandre de Moraes deveria falar às 11 horas. Cerca de meia hora depois de seu gabinete anunciar o pronunciamento, a fala foi cancelada e deverá ser remarcada. Vejo nesse cancelamento senso de oportunidade. Faz sentido. Uma operação da Polícia Federal iniciada ainda na madrugada, com dezenas de mandados e novos personagens entrando no caso Master, já tinha força suficiente para dominar o noticiário desta quinta-feira e avançar pela sexta. Moraes preferiu não disputar espaço com os fatos. As mensagens que teria trocado com Daniel Vorcaro continuam esperando explicação — mas podem esperar algumas horas sem perder gravidade.

Na matemática, a dízima periódica continua depois da vírgula porque nasceu para repetir. No Master, cada casa decimal traz mais dinheiro, mais influência, mais suspeitas e alguém convocado a explicar sua proximidade com Vorcaro. Moraes adiou a fala. Os fatos, porém, continuam avançando.

 

Fonte: Por Alexandre Ogusuku, em Brasil 247

 

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