Alemanha: por que a ultradireita venceu
A normalização da extrema-direita ganhou
ímpeto há dez anos, quando Donald Trump venceu sua primeira eleição nos Estados
Unidos. Embora a epidemia de extrema-direita já fosse global, naquela época era
impensável que a Alemanha pudesse sequer imaginar um partido desta extração
chegando ao poder. Esse tabu foi quebrado. Os resultados da eleição regional na
Saxônia-Anhalt, neste domingo (7/9), levaram o partido Alternativa para a
Alemanha (AfD) à beira de liderar um governo — um partido que, há pouco mais de
um ano, foi rotulado como uma força de extrema-direita pelo Escritório Federal
para a Proteção da Lei Fundamental, ou seja, uma ameaça à ordem democrática e
seus valores.
Liderado por Ulrich Siegmund, descrito pelo
semanário Der Spiegel como “o homem mais perigoso da
Alemanha”, o AfD recebeu 43,8% dos votos, dobrando o resultado de 2021 e
ficando a apenas três cadeiras de formar governo. Por que o que era impossível
há apenas uma década agora é uma realidade praticamente inevitável? Por que uma
força considerada uma ameaça à estabilidade se apresenta como a solução, e por
que essa narrativa é crível para quase metade da população da Saxônia-Anhalt?
Por que uma tendência semelhante é observada em toda a Alemanha Oriental e por
que, gradualmente, em nível federal, o partido parece estar consolidando sua
posição como o mais votado?
1. A conquista do antigo eleitorado de
esquerda:
Historicamente, o AfD apoiou-se em duas
questões-chave para ganhar visibilidade e votos: imigração e criminalidade.
Sempre que esses debates perdiam relevância na agenda pública, o partido de
extrema-direita também perdia importância. Nas eleições recentes,
principalmente no leste do país, o AfD começou a ocupar espaços antes dominados
pela esquerda do espectro político. A justiça social, por exemplo, tornou-se
central em seu discurso, reinterpretada sob uma ótica nativista: uma forte
presença do Estado, mas apenas para alemães. Na Saxônia-Anhalt, 59% dos
trabalhadores não qualificados, 57% dos eleitores com ensino fundamental e 65%
daqueles que relataram dificuldades financeiras apoiaram o AfD no último
domingo.
2. A Ferida do Leste
73% dos entrevistados pela Infratest
dimap na Saxônia-Anhalt consideram-se cidadãos alemães de segunda
classe. Essa noção corresponde a uma narrativa histórica que circulou de
geração em geração nos antigos territórios da extinta República Democrática
Alemã. A reunificação tornou-se o símbolo de uma promessa quebrada. Ela reflete
a frustração, o ressentimento e a decepção de grande parte dos cidadãos da
antiga Alemanha Oriental, que se sentem injustiçados até hoje. Essa narrativa
foi reformulada pelo AfD como um grito de guerra. Eles a transformaram em uma
identidade e, ao fazê-lo, incorporaram uma narrativa órfã e ignorada pelas
demais forças políticas. O voto na extrema-direita transcende sua plataforma
eleitoral.
3. O músculo mobilizador
Segundo dados das pesquisas eleitorais, cerca
de 170 mil dos 570 mil eleitores do AfD não haviam participado da eleição
anterior. Nenhum outro partido mobilizou tantas pessoas. A participação atingiu
níveis recordes na região e em toda a Alemanha Oriental.
4. A campanha de Ulrich Siegmund
A AfD
apresentou um candidato cuidadosamente construído como o típico alemão-oriental
comum .
Ulrich Siegmund participou ativamente em festivais locais durante todo o verão, explorando ao máximo a expertise da
extrema-direita nas redes sociais e o impulso algorítmico que as principais
plataformas proporcionavam às suas mensagens simplistas e provocativas. Mas o
que funcionou melhor foi sua capacidade de transformar a cobertura midiática
sobre si mesmo em arma de dois gumes. Quando
a revista Der Spiegel o estampou na capa e o chamou de “o homem
mais perigoso da Alemanha”, Siegmund apelou para a narrativa de vitimização, ao
mesmo tempo que aceitava o rótulo com orgulho e um toque de ironia. Sua
mensagem reforçou o conceito central de todos os direitistas radicais
contemporâneos: “Eles nos atacam porque estamos certos, porque defendemos o
povo e porque a elite se sente ameaçada.”
5. Normalização 2.0
A extrema-direita busca construir uma
alternativa autoritária à democracia, eliminando-a juntamente com suas
instituições. A vitória esmagadora do AfD na Saxônia-Anhalt viabiliza o
processo de normalização da extrema-direita. Siegmund possui ligações comprovadas
com setores extremistas e neonazistas. Em 2023, quando uma conferência foi
organizada em Potsdam para discutir o plano diretor de deportações em massa
(remigração), elaborado pelo Movimento Identitário de Martin Sellner, Siegmund
estava presente.
6. O Centro Impossível
A descoberta mais surpreendente das pesquisas de
boca de urna da Infratest dimap foi relacionada à
autopercepção ideológica dos entrevistados. 87% dos eleitores do AfD acreditam
que “embora haja políticos de extrema-direita no partido, o AfD se situa no
centro do espectro político”. Essa conclusão, compartilhada por uma grande
parcela dos 43,8% de seus eleitores (e por segmentos menores, embora não
inexistentes, dos outros partidos), demonstra a solidez com que o projeto
político de extrema-direita se normalizou.
7. O Verdadeiro Alvo:
A extrema-direita almeja mais alto. A vitória
na Saxônia-Anhalt é apenas o primeiro passo de um plano para desestabilizar o
governo do democrata-cristão Friedrich Merz. O objetivo é enfraquecê-lo para
liberar a pressão interna que começará a considerar o rompimento do cordão
sanitário histórico que ainda se mantém na Alemanha. A exceção é esquerda
conservadora do BSW (Aliança Sarah Wagenknecht pela Justiça Social e
Sensibilidade Econômica). Essa força política híbrida — que combina aspectos
econômicos de esquerda, como a redistribuição de renda, com posições xenófobas
e antiprogressistas muito semelhantes às da extrema-direita — pode ser a chave
para inaugurar uma nova era na Alemanha. De qualquer forma, a ascensão da AfD
ao poder na Saxônia-Anhalt não passará de um golpe simbólico, o primeiro passo
rumo à desconstrução democrática do país. Os demais partidos precisam encontrar
soluções estratégicas para esse desafio antes que seja tarde demais.
¨
Trump, Musk e Orbán
celebram votação da AfD
A votação esmagadora obtida
pela Alternativa da Alemanha (AfD) na Saxônia-Anhalt gerou, de um
lado, comemorações de figuras que simpatizam com o partido de ultradireita
em várias partes do mundo. De outro, expressões de preocupação por governos ou
líderes políticos, que saíram em defesa de valores liberais e democráticos.
A
vitória é simbólica por colocar a
ultradireita no caminho para assumir um governo estadual pela primeira vez
desde a Segunda Guerra Mundial. O diretório da AfD
no estado é considerado uma "organização extremista de direita" por
autoridades de inteligência.
Além
disso, o resultado é lido como expressão de descontentamento popular com a
União Conservadora Cristã (CDU), a legenda do chanceler federal alemão, Friedrich Merz.
Não
está definido se a AfD de fato conseguirá formar um governo na
Saxônia-Anhalt. Por pouco, o partido não obteve a maioria dos assentos no
Parlamento estadual. Entretanto, nunca obteve um percentual de votos tão alto
numa eleição para o governo de um estado alemão.
<><> Trumpismo
Nos
Estados Unidos, o presidente Donald Trump não comentou, num primeiro momento, a
vitória da AfD. Na noite da eleição, ele usou a própria rede social para
compartilhar um gráfico dos resultados da eleição em alemão.
Mas,
dois dias depois, a sua celebração foi enfática. "O partido populista na
Alemanha acabou de ter uma noite realmente incrível. Eles finalmente se
cansaram das regras e
regulamentações de imigração absolutamente horríveis que têm prejudicado tanto
a Alemanha. Eles estão em ascensão e não vão mais aceitar isso!"
Ele também utilizou a sigla "MGGA", no que parece ser uma adaptação
do seu slogan "Make America Great Again" ("Tornar os EUA
grandes de novo") para "Make Germany Great Again"
("Tornar a Alemanha grande de novo").
Já Richard Grenell, antigo embaixador
americano na Alemanha durante o primeiro mandato do republicano, celebrou
abertamente o que chamou de "uma grande vitória e um novo dia" para o
país europeu. "O povo está pronto para mudanças não importa quais nomes
você dê a elas," ele escreveu numa rede social.
O trumpismo e a ultradireita alemã costumam
cortejar um ao outro. Logo após tomar posse em janeiro de 2025, o
vice-presidente J.D. Vance expressou apoio velado à plataforma da AfD durante a
Conferência de Segurança de Munique, o que gerou mal-estar com o governo em
Berlim.
<><> Governo francês
O ministro das finanças da França, Roland
Lescure, expressou preocupação com a vitória da AfD. "Recentemente, tive a
oportunidade de conversar com líderes empresariais alemães que estavam
extremamente preocupados," ele disse à rádio RTL. "Enfrentamos um grande desafio
diante de uma onda populista que se espalha pelo mundo hoje e à qual
devemos resistir."
Também o ministro para a União Europeia (UE)
se pronunciou, apontando a um "momento muito grave para a Europa".
"Nós precisamos ouvir com humildade a raiva, os medos e preocupações e
responder a estas inquietações adequadamente. Mas o nacionalismo e a xenofobia
nunca serão a resposta," disse Benjamin Haddad.
<><> Elon Musk
Um longevo apoiador da AfD, o magnata da
tecnologia foi um dos primeiros a comemorar o resultado. Em resposta a uma
publicação nas redes sociais de Alice Weidel, co-líder do partido de
ultradireita alemão, ele respondeu: "Muito bem!"
Em reação, o candidato da AfD a governador na
Saxônia-Anhalt, Ulrich Siegmund, agradeceu a Musk pelo apoio, afirmando que
aquela era uma "oportunidade para cooperação forte e construtiva".
"A Alemanha seria de novo um lugar que vale a pena visitar,"
afirma.
Antes das eleições federais do ano
passado, Musk descreveu o
partido como "a melhor esperança para o futuro da Alemanha.
<><> Donald Tusk
Na Polônia, vizinha da Alemanha ao Leste, o
primeiro-ministro liberal e pró-UE do país disse que "só idiotas ou
traidores podem alegrar-se com o triunfo da AfD."
<><> Viktor Orbán
Derrotado por ampla margem em eleições deste
ano, o ex-primeiro-ministro da Hungria disse que as eleições na Saxônia-Anhalt
eram uma "noite gigante para a Alemanha e para a Europa".
Um expoente da ultradireita no continente,
ele congratulou diretamente as lideranças da AfD e escreveu numa rede social:
"Apertem os cintos. É apenas o início!"
Já no poder, o sucessor de Orbán obteve uma
maioria suficiente para reverter as suas reformas, que abalaram os alicerces da
democracia húngara.
<><> Pedro Sánchez
O primeiro-ministro da Espanha disse que a
vitória da AfD deve servir de aviso sobre a ameaça da ultradireita, "que
está ganhando terreno na Europa e ao redor do mundo."
<><> André Ventura, do Chega
Em Portugal, o deputado e líder do partido
Chega, de ultradireita, disse: "A AfD teve hoje uma vitória histórica no
Estado da Saxónia-Anhalt. Ainda não sabemos se há ou não maioria absoluta, mas
também os alemães estão a abrir os olhos contra a imigração ilegal e
descontrolada, a corrupção e a captura da nossa liberdade e identidade.
Parabéns!"
<><>Governo italiano
Na Itália, onde governa a ultradireita, o
vice-primeiro-ministro, Matteo Salvini, chamou o resultado de um sintoma da
"democracia".
"Um sucesso estrondoso, que evidencia a
forte demanda por mudança, segurança e emprego. Na cara daqueles que, na
esquerda, alimentavam medos e cenários catastróficos. Medo? Terror? Perigo?
Não, isso se chama democracia. Outra Europa é possível," ele afirmou.
Em contrapartida, Antonio Tajani, ministro
das Relações Exteriores, falou em "notícias terríveis", chamando a
AfD de uma antítese "dos valores liberais e ocidentais."
<><> Santiago Abascal, do Vox
O político espanhol e presidente do partido
Vox, também de ultradireita, chamou o resultado de "espetacular" e
"uma grande esperança para a Alemanha e a Europa".
¨
Alemanha vê
"interferência" em celebração de Trump pela AfD
O
governo da Alemanhasugeriu
nesta quarta-feira (09/09) que enxerga "interferência" externa na comemoração
do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela vitória do
partido Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições
estaduais da Saxônia-Anhalt.
Horas
depois da declaração do republicano, o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, adiou um
telefonema com Trump, em que os dois tratariam dos 25 anos do 11 de Setembro.
Não
está claro se há relação entre os dois fatos, uma vez que o governo não
explicou o motivo do adiamento. Tampouco se sabe se ou para quando a conversa
será remarcada.
O
porta-voz do governo federal, Stefan Kornelius, se limitou a dizer que, no
passado, Merz já teria indicado frequentemente, "de maneira
abstrata", que "interferências ou comentários sobre a situação
política interna alemã, especialmente em relação a eleições" estão
"fora de questão".
Em
julho, Merz já declarara que a Alemanha
não interfere em eleições americanas e, "inversamente, não quero que o
governo americano ou instituições ligadas a ele interfiram nas eleições
alemãs".
O
resultado na Saxônia-Anhalt poderá levar a ultradireita de volta ao poder na
Alemanha pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial.
Mas,
também, foi amplamente lido como um termômetro da insatisfação popular com
a União Democrata Cristã (CDU). O partido de Merz,
que até então era o primeiro partido no estado, acabou em segundo lugar, com
17,2% dos votos, contra os 43,8% obtidos pela AfD.
<><> Trump: "Tornar Alemanha
grande de novo"
Na
própria rede social, Trump disse na noite de terça-feira: "O partido
populista na Alemanha acabou de ter uma noite realmente incrível. Eles
finalmente se cansaram das regras e regulamentações de imigração absolutamente
horríveis que têm prejudicado tanto a Alemanha. Eles estão em ascensão e não
vão mais aceitar isso!"
Ele
também utilizou a sigla "MGGA", no que parece ser uma adaptação do
seu slogan "Make America Great Again" ("Tornar os EUA
grandes de novo") para "Make Germany Great Again"
("Tornar a Alemanha grande de novo").
Na
Saxônia-Anhalt, o diretório da AfD é considerado uma "organização extremista de direita" por
autoridades de inteligência.
Em
contrapartida, Merz se dissera, um dia antes da celebração de Trump, "profundamente chocado" com
a derrota avassaladora sofrida pela CDU. "Desde ontem, não apenas a
Saxônia-Anhalt mudou, mas toda a Alemanha", afirmou Merz, após reuniões
com lideranças do partido. "Esse resultado eleitoral terá consequências."
Ele admitiu que seus baixos índices de
popularidade nas pesquisas contribuíram para a derrota de seu partido:
"Sei que eu, pessoalmente, fui um tema constante nesta campanha
eleitoral".
<><> Tensão crescente
É incomum que chefes de Estado e de governo
de países democráticos comentem eleições regionais em outros países. No
entanto, o trumpismo e a ultradireita alemã costumam cortejar um ao
outro.
Logo após tomar posse em janeiro de 2025, o
vice-presidente J.D. Vance expressou apoio velado à plataforma da AfD durante a
Conferência de Segurança de Munique, o que gerou mal-estar com o governo em
Berlim.
O secretário parlamentar da bancada do
Partido Social-Democrata alemão (SPD), Dirk Wiese, demandou nesta semana uma
reação mais incisiva do governo às novas declarações de Trump.
"É preciso falar claramente. Essa
interferência não é aceitável. Creio que nós, como governo federal, de qualquer
forma não podemos aceitar isso", afirmou.
Para marcar o 25 anos do 11 de Setembro,
Merz declarou, por nota oficial lida pelo seu porta-voz, que a Alemanha
continua pronta "para, juntamente com os EUA, defender os valores que
nos definem e nos unem", sendo eles "a liberdade, a democracia e o
respeito".
Nas próximas semanas, a Alemanha terá
eleições estaduais em Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, onde novos
ganhos eleitorais são também esperados para a AfD.
Fonte: Por Franco Delle Donne, na Revista
Anfibia Tradução: Antonio Martins, em Outras Palavras/DW Brasil

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