sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Alemanha: por que a ultradireita venceu

A normalização da extrema-direita ganhou ímpeto há dez anos, quando Donald Trump venceu sua primeira eleição nos Estados Unidos. Embora a epidemia de extrema-direita já fosse global, naquela época era impensável que a Alemanha pudesse sequer imaginar um partido desta extração chegando ao poder. Esse tabu foi quebrado. Os resultados da eleição regional na Saxônia-Anhalt, neste domingo (7/9), levaram o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) à beira de liderar um governo — um partido que, há pouco mais de um ano, foi rotulado como uma força de extrema-direita pelo Escritório Federal para a Proteção da Lei Fundamental, ou seja, uma ameaça à ordem democrática e seus valores.

Liderado por Ulrich Siegmund, descrito pelo semanário Der Spiegel como “o homem mais perigoso da Alemanha”, o AfD recebeu 43,8% dos votos, dobrando o resultado de 2021 e ficando a apenas três cadeiras de formar governo. Por que o que era impossível há apenas uma década agora é uma realidade praticamente inevitável? Por que uma força considerada uma ameaça à estabilidade se apresenta como a solução, e por que essa narrativa é crível para quase metade da população da Saxônia-Anhalt? Por que uma tendência semelhante é observada em toda a Alemanha Oriental e por que, gradualmente, em nível federal, o partido parece estar consolidando sua posição como o mais votado?

1. A conquista do antigo eleitorado de esquerda:

Historicamente, o AfD apoiou-se em duas questões-chave para ganhar visibilidade e votos: imigração e criminalidade. Sempre que esses debates perdiam relevância na agenda pública, o partido de extrema-direita também perdia importância. Nas eleições recentes, principalmente no leste do país, o AfD começou a ocupar espaços antes dominados pela esquerda do espectro político. A justiça social, por exemplo, tornou-se central em seu discurso, reinterpretada sob uma ótica nativista: uma forte presença do Estado, mas apenas para alemães. Na Saxônia-Anhalt, 59% dos trabalhadores não qualificados, 57% dos eleitores com ensino fundamental e 65% daqueles que relataram dificuldades financeiras apoiaram o AfD no último domingo.

2. A Ferida do Leste

73% dos entrevistados pela Infratest dimap na Saxônia-Anhalt consideram-se cidadãos alemães de segunda classe. Essa noção corresponde a uma narrativa histórica que circulou de geração em geração nos antigos territórios da extinta República Democrática Alemã. A reunificação tornou-se o símbolo de uma promessa quebrada. Ela reflete a frustração, o ressentimento e a decepção de grande parte dos cidadãos da antiga Alemanha Oriental, que se sentem injustiçados até hoje. Essa narrativa foi reformulada pelo AfD como um grito de guerra. Eles a transformaram em uma identidade e, ao fazê-lo, incorporaram uma narrativa órfã e ignorada pelas demais forças políticas. O voto na extrema-direita transcende sua plataforma eleitoral.

3. O músculo mobilizador

Segundo dados das pesquisas eleitorais, cerca de 170 mil dos 570 mil eleitores do AfD não haviam participado da eleição anterior. Nenhum outro partido mobilizou tantas pessoas. A participação atingiu níveis recordes na região e em toda a Alemanha Oriental.

4. A campanha de Ulrich Siegmund

A AfD apresentou um candidato cuidadosamente construído como o típico alemão-oriental
comum
. Ulrich Siegmund participou ativamente em festivais locais durante todo o verão, explorando ao máximo a expertise da extrema-direita nas redes sociais e o impulso algorítmico que as principais plataformas proporcionavam às suas mensagens simplistas e provocativas. Mas o que funcionou melhor foi sua capacidade de transformar a cobertura midiática sobre si mesmo em arma de dois gumes. Quando
a revista Der Spiegel o estampou na capa e o chamou de “o homem mais perigoso da Alemanha”, Siegmund apelou para a narrativa de vitimização, ao mesmo tempo que aceitava o rótulo com orgulho e um toque de ironia. Sua mensagem reforçou o conceito central de todos os direitistas radicais contemporâneos: “Eles nos atacam porque estamos certos, porque defendemos o povo e porque a elite se sente ameaçada.”

5. Normalização 2.0

A extrema-direita busca construir uma alternativa autoritária à democracia, eliminando-a juntamente com suas instituições. A vitória esmagadora do AfD na Saxônia-Anhalt viabiliza o processo de normalização da extrema-direita. Siegmund possui ligações comprovadas com setores extremistas e neonazistas. Em 2023, quando uma conferência foi organizada em Potsdam para discutir o plano diretor de deportações em massa (remigração), elaborado pelo Movimento Identitário de Martin Sellner, Siegmund estava presente.

6. O Centro Impossível

A descoberta mais surpreendente das pesquisas de boca de urna da Infratest dimap foi relacionada à autopercepção ideológica dos entrevistados. 87% dos eleitores do AfD acreditam que “embora haja políticos de extrema-direita no partido, o AfD se situa no centro do espectro político”. Essa conclusão, compartilhada por uma grande parcela dos 43,8% de seus eleitores (e por segmentos menores, embora não inexistentes, dos outros partidos), demonstra a solidez com que o projeto político de extrema-direita se normalizou.

7. O Verdadeiro Alvo:

A extrema-direita almeja mais alto. A vitória na Saxônia-Anhalt é apenas o primeiro passo de um plano para desestabilizar o governo do democrata-cristão Friedrich Merz. O objetivo é enfraquecê-lo para liberar a pressão interna que começará a considerar o rompimento do cordão sanitário histórico que ainda se mantém na Alemanha. A exceção é esquerda conservadora do BSW (Aliança Sarah Wagenknecht pela Justiça Social e Sensibilidade Econômica). Essa força política híbrida — que combina aspectos econômicos de esquerda, como a redistribuição de renda, com posições xenófobas e antiprogressistas muito semelhantes às da extrema-direita — pode ser a chave para inaugurar uma nova era na Alemanha. De qualquer forma, a ascensão da AfD ao poder na Saxônia-Anhalt não passará de um golpe simbólico, o primeiro passo rumo à desconstrução democrática do país. Os demais partidos precisam encontrar soluções estratégicas para esse desafio antes que seja tarde demais.

¨      Trump, Musk e Orbán celebram votação da AfD

A votação esmagadora obtida pela Alternativa da Alemanha (AfD) na Saxônia-Anhalt gerou, de um lado, comemorações de figuras que simpatizam com o partido de ultradireita em várias partes do mundo. De outro, expressões de preocupação por governos ou líderes políticos, que saíram em defesa de valores liberais e democráticos.

A vitória é simbólica por colocar a ultradireita no caminho para assumir um governo estadual pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial. O diretório da AfD no estado é considerado uma "organização extremista de direita" por autoridades de inteligência.

Além disso, o resultado é lido como expressão de descontentamento popular com a União Conservadora Cristã (CDU), a legenda do chanceler federal alemão, Friedrich Merz.

Não está definido se a AfD de fato conseguirá formar um governo na Saxônia-Anhalt. Por pouco, o partido não obteve a maioria dos assentos no Parlamento estadual. Entretanto, nunca obteve um percentual de votos tão alto numa eleição para o governo de um estado alemão.

<><> Trumpismo

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump não comentou, num primeiro momento, a vitória da AfD. Na noite da eleição, ele usou a própria rede social para compartilhar um gráfico dos resultados da eleição em alemão.

Mas, dois dias depois, a sua celebração foi enfática. "O partido populista na Alemanha acabou de ter uma noite realmente incrível. Eles finalmente se cansaram das regras e regulamentações de imigração absolutamente horríveis que têm prejudicado tanto a Alemanha. Eles estão em ascensão e não vão mais aceitar isso!"
Ele também utilizou a sigla "MGGA", no que parece ser uma adaptação do seu slogan "Make America Great Again" ("Tornar os EUA grandes de novo") para "Make Germany Great Again" ("Tornar a Alemanha grande de novo").

Já Richard Grenell, antigo embaixador americano na Alemanha durante o primeiro mandato do republicano, celebrou abertamente o que chamou de "uma grande vitória e um novo dia" para o país europeu. "O povo está pronto para mudanças não importa quais nomes você dê a elas," ele escreveu numa rede social. 

O trumpismo e a ultradireita alemã costumam cortejar um ao outro. Logo após tomar posse em janeiro de 2025, o vice-presidente J.D. Vance expressou apoio velado à plataforma da AfD durante a Conferência de Segurança de Munique, o que gerou mal-estar com o governo em Berlim.

<><> Governo francês

O ministro das finanças da França, Roland Lescure, expressou preocupação com a vitória da AfD. "Recentemente, tive a oportunidade de conversar com líderes empresariais alemães que estavam extremamente preocupados," ele disse à rádio RTL. "Enfrentamos um grande desafio diante de uma onda populista que se espalha pelo mundo hoje e à qual devemos resistir."

Também o ministro para a União Europeia (UE) se pronunciou, apontando a um "momento muito grave para a Europa". "Nós precisamos ouvir com humildade a raiva, os medos e preocupações e responder a estas inquietações adequadamente. Mas o nacionalismo e a xenofobia nunca serão a resposta," disse Benjamin Haddad. 

<><> Elon Musk

Um longevo apoiador da AfD, o magnata da tecnologia foi um dos primeiros a comemorar o resultado. Em resposta a uma publicação nas redes sociais de Alice Weidel, co-líder do partido de ultradireita alemão, ele respondeu: "Muito bem!"

Em reação, o candidato da AfD a governador na Saxônia-Anhalt, Ulrich Siegmund, agradeceu a Musk pelo apoio, afirmando que aquela era uma "oportunidade para cooperação forte e construtiva". "A Alemanha seria de novo um lugar que vale a pena visitar," afirma. 

Antes das eleições federais do ano passado, Musk descreveu o partido como "a melhor esperança para o futuro da Alemanha. 

<><> Donald Tusk

Na Polônia, vizinha da Alemanha ao Leste, o primeiro-ministro liberal e pró-UE do país disse que "só idiotas ou traidores podem alegrar-se com o triunfo da AfD."

<><> Viktor Orbán

Derrotado por ampla margem em eleições deste ano, o ex-primeiro-ministro da Hungria disse que as eleições na Saxônia-Anhalt eram uma "noite gigante para a Alemanha e para a Europa".

Um expoente da ultradireita no continente, ele congratulou diretamente as lideranças da AfD e escreveu numa rede social: "Apertem os cintos. É apenas o início!"

Já no poder, o sucessor de Orbán obteve uma maioria suficiente para reverter as suas reformas, que abalaram os alicerces da democracia húngara. 

<><> Pedro Sánchez

O primeiro-ministro da Espanha disse que a vitória da AfD deve servir de aviso sobre a ameaça da ultradireita, "que está ganhando terreno na Europa e ao redor do mundo."

<><> André Ventura, do Chega

Em Portugal, o deputado e líder do partido Chega, de ultradireita, disse: "A AfD teve hoje uma vitória histórica no Estado da Saxónia-Anhalt. Ainda não sabemos se há ou não maioria absoluta, mas também os alemães estão a abrir os olhos contra a imigração ilegal e descontrolada, a corrupção e a captura da nossa liberdade e identidade. Parabéns!"

<><>Governo italiano

Na Itália, onde governa a ultradireita, o vice-primeiro-ministro, Matteo Salvini, chamou o resultado de um sintoma da "democracia".

"Um sucesso estrondoso, que evidencia a forte demanda por mudança, segurança e emprego. Na cara daqueles que, na esquerda, alimentavam medos e cenários catastróficos. Medo? Terror? Perigo? Não, isso se chama democracia. Outra Europa é possível," ele afirmou.

Em contrapartida, Antonio Tajani, ministro das Relações Exteriores, falou em "notícias terríveis", chamando a AfD de uma antítese "dos valores liberais e ocidentais."

<><> Santiago Abascal, do Vox

O político espanhol e presidente do partido Vox, também de ultradireita, chamou o resultado de "espetacular" e "uma grande esperança para a Alemanha e a Europa".

¨      Alemanha vê "interferência" em celebração de Trump pela AfD

O governo da Alemanhasugeriu nesta quarta-feira (09/09) que enxerga "interferência" externa na comemoração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela vitória do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt.

Horas depois da declaração do republicano, o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, adiou um telefonema com Trump, em que os dois tratariam dos 25 anos do 11 de Setembro.

Não está claro se há relação entre os dois fatos, uma vez que o governo não explicou o motivo do adiamento. Tampouco se sabe se ou para quando a conversa será remarcada.

O porta-voz do governo federal, Stefan Kornelius, se limitou a dizer que, no passado, Merz já teria indicado frequentemente, "de maneira abstrata", que "interferências ou comentários sobre a situação política interna alemã, especialmente em relação a eleições" estão "fora de questão". 

Em julho, Merz já declarara que a Alemanha não interfere em eleições americanas e, "inversamente, não quero que o governo americano ou instituições ligadas a ele interfiram nas eleições alemãs". 

O resultado na Saxônia-Anhalt poderá levar a ultradireita de volta ao poder na Alemanha pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial

Mas, também, foi amplamente lido como um termômetro da insatisfação popular com a União Democrata Cristã (CDU). O partido de Merz, que até então era o primeiro partido no estado, acabou em segundo lugar, com 17,2% dos votos, contra os 43,8% obtidos pela AfD.

<><> Trump: "Tornar Alemanha grande de novo"

Na própria rede social, Trump disse na noite de terça-feira: "O partido populista na Alemanha acabou de ter uma noite realmente incrível. Eles finalmente se cansaram das regras e regulamentações de imigração absolutamente horríveis que têm prejudicado tanto a Alemanha. Eles estão em ascensão e não vão mais aceitar isso!"

Ele também utilizou a sigla "MGGA", no que parece ser uma adaptação do seu slogan "Make America Great Again" ("Tornar os EUA grandes de novo") para "Make Germany Great Again" ("Tornar a Alemanha grande de novo").

Na Saxônia-Anhalt, o diretório da AfD é considerado uma "organização extremista de direita" por autoridades de inteligência.   

Em contrapartida, Merz se dissera, um dia antes da celebração de Trump, "profundamente chocado" com a derrota avassaladora sofrida pela CDU. "Desde ontem, não apenas a Saxônia-Anhalt mudou, mas toda a Alemanha", afirmou Merz, após reuniões com lideranças do partido. "Esse resultado eleitoral terá consequências."

Ele admitiu que seus baixos índices de popularidade nas pesquisas contribuíram para a derrota de seu partido: "Sei que eu, pessoalmente, fui um tema constante nesta campanha eleitoral".

<><> Tensão crescente

É incomum que chefes de Estado e de governo de países democráticos comentem eleições regionais em outros países. No entanto, o trumpismo e a ultradireita alemã costumam cortejar um ao outro. 

Logo após tomar posse em janeiro de 2025, o vice-presidente J.D. Vance expressou apoio velado à plataforma da AfD durante a Conferência de Segurança de Munique, o que gerou mal-estar com o governo em Berlim.

O secretário parlamentar da bancada do Partido Social-Democrata alemão (SPD), Dirk Wiese, demandou nesta semana uma reação mais incisiva do governo às novas declarações de Trump. 

"É preciso falar claramente. Essa interferência não é aceitável. Creio que nós, como governo federal, de qualquer forma não podemos aceitar isso", afirmou.

Para marcar o 25 anos do 11 de Setembro, Merz declarou, por nota oficial lida pelo seu porta-voz, que a Alemanha continua pronta "para, juntamente com os EUA, defender os valores que nos definem e nos unem", sendo eles "a liberdade, a democracia e o respeito".

Nas próximas semanas, a Alemanha terá eleições estaduais em Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, onde novos ganhos eleitorais são também esperados para a AfD.

 

Fonte: Por Franco Delle Donne, na Revista Anfibia Tradução: Antonio Martins, em Outras Palavras/DW Brasil

 

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