Povos indígenas no Nordeste enfrentam
disputas territoriais, ataques armados e omissão do Estado
A violência contra os povos indígenas no
Nordeste assumiu, em 2025, diferentes formas, mas teve um eixo comum: a disputa
pela terra e a demora do Estado em reconhecer, proteger e garantir a posse dos
territórios tradicionalmente ocupados. Assassinatos, ameaças, invasões, ataques
contra comunidades e locais sagrados, conflitos com empreendimentos econômicos
e episódios de violência policial aparecem em diferentes estados da região.
O Relatório Violência Contra os Povos
Indígenas no Brasil – dados de 2025, do Conselho Indigenista Missionário
(Cimi), registrou 1.276 ocorrências de violência contra o patrimônio indígena
em todo o país. Foram 897 casos relacionados à omissão e à morosidade na
regularização das terras, 169 conflitos por direitos territoriais e 210
registros de invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e
danos diversos. Os conflitos territoriais atingiram 143 Terras Indígenas em 23
estados, e dois terços das áreas afetadas tinham pendências em sua
regularização ou ainda não contavam com providências do Estado para a
demarcação.
Esse quadro tem uma particularidade no
Nordeste: uma parcela significativa das disputas permanece vinculada a
territórios ainda não plenamente regularizados, o que deixa comunidades em
situação de insegurança jurídica e territorial. O levantamento do Cimi mostra
que, em escala nacional, 2025 terminou com aumento nos três grandes grupos de
violência acompanhados pela entidade: contra a pessoa, contra o patrimônio e
por omissão do poder público. No Nordeste, os episódios registrados ao longo do
ano mostram como essas três dimensões podem se sobrepor em uma mesma
comunidade.
Maranhão e Bahia concentram a maior parte dos
registros regionais, sendo que os dois estados têm 76 ocorrências cada e,
juntos, respondem por 152 dos 294 registros nordestinos, ou aproximadamente
51,7% do total regional. Por sua vez, a Bahia registrou 19 assassinatos de
indígenas. O relatório destaca o assassinato do Pataxó Vitor Braz, na Terra
Indígena Barra Velha do Monte Pascoal, em março de 2025, no contexto da luta
pela demarcação.
O relatório anual do Cimi é produzido a
partir de informações coletadas pelas equipes regionais da entidade, denúncias
de indígenas, boletins de ocorrência, notícias da imprensa e dados oficiais
obtidos junto a órgãos públicos
O Maranhão aparece entre os estados com maior
número de ocorrências do país. Dos 76 registros, 36 foram classificados como
violência contra o patrimônio, 25 como violência contra a pessoa e 15 como
violência por omissão do poder público. Entre os casos de violência contra a
pessoa, houve sete assassinatos, quatro ameaças de morte, quatro lesões
corporais, quatro casos de racismo e discriminação, duas ameaças diversas, duas
tentativas de assassinato, um abuso de poder e um homicídio culposo.
O Ceará aparece no relatório com 39
ocorrências, enquanto Pernambuco registra 31 ocorrências, mas tem um número
elevado de assassinatos: dez. Isso faz com que o estado fique atrás apenas da
Bahia, entre os nordestinos, nesse indicador. Alagoas registra 29 ocorrências.
O relatório relaciona 11 terras ou processos territoriais indígenas no estado,
em diferentes situações administrativas, desde áreas ainda a identificar até
território homologado com processo de revisão de limites.
O Piauí tem 20 ocorrências e um contexto de
baixa presença do Estado. Os procedimentos demarcatórios estão em fase inicial,
caso dos Akroá Gamela e Gueguê do Sangue, sendo que há territórios ainda sem
qualquer providência. Em outros casos, caso dos Tabajara, uma lei estadual
titulou territórios indígenas, cujas áreas estão sobrepostas por políticas de
reforma agrária. O relatório dedica uma análise específica à luta dos povos
indígenas do estado pelo reconhecimento étnico e territorial, em um contexto marcado
pela expansão da fronteira agrícola.
O relatório anual do Cimi é produzido a
partir de informações coletadas pelas equipes regionais da entidade, denúncias
de indígenas, boletins de ocorrência, notícias da imprensa e dados oficiais
obtidos junto a órgãos públicos, entre eles a Secretaria Especial de Saúde
Indígena (Sesai), o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), o Ministério
Público Federal e a Funai. A publicação acompanha sistematicamente as violações
desde 1996 e passou a ser editada anualmente a partir de 2003.
<><> Bahia: assassinato em meio à
luta pela demarcação
Um dos casos mais graves registrados no
Nordeste em 2025 ocorreu no extremo sul da Bahia. Na noite de 10 de março,
Vitor Braz, indígena Pataxó, foi morto a tiros durante um ataque contra a
comunidade Terra à Vista, localizada na Terra Indígena Barra Velha do Monte
Pascoal, em Porto Seguro. Outro indígena ficou ferido.
O assassinato ocorreu na véspera de uma
audiência pública em Brasília convocada para discutir a demarcação das terras
dos povos Pataxó e Tupinambá. Cerca de 300 indígenas desses povos estavam na
capital federal para cobrar do Estado o avanço dos processos territoriais. A
audiência começou com um minuto de silêncio em memória de Vitor.
A TI Barra Velha do Monte Pascoal foi
identificada e delimitada pela Funai em 2008, com 52,7 mil hectares, mas a
demarcação permanece sem conclusão. Segundo o Cimi, a demora na regularização e
a insuficiência da área atualmente ocupada pelos Pataxó contribuíram para a
intensificação das retomadas e dos conflitos com fazendeiros.
No caso de Comexatibá, o relatório
circunstanciado de identificação e delimitação havia sido publicado pela Funai
em 2015, mas o processo permanecia sem avanço suficiente para a emissão da
portaria declaratória
O assassinato de Vitor não foi um episódio
isolado. O histórico recente da região inclui o assassinato de Gustavo Pataxó,
de 14 anos, em 2022, na TI Comexatibá, além das mortes de Nawir Brito de Jesus,
de 17 anos, e Samuel Cristiano do Amor Divino, de 25, ambos moradores de
retomadas Pataxó e mortos meses antes de Vitor. Segundo o Cimi, policiais
militares são investigados pelos dois últimos homicídios.
No dia seguinte à morte de Vitor, uma casa
foi incendiada na aldeia Monte Dourado, dentro da TI Comexatibá. Em março,
operações das polícias Militar e Civil também foram denunciadas pelas
comunidades Pataxó. A relatora especial da ONU sobre defensores de direitos
humanos, Mary Lawlor, pediu responsabilização pelos envolvidos no assassinato
de Vitor.
A violência acontece de maneira correlata à
demora na demarcação e sua intensidade pode ser medida por vários aspectos.
Barra Velha do Monte Pascoal, Comexatibá e as terras indígenas Tupinambá de
Olivença e Tupinambá de Belmonte aguardavam, em 2025, atos administrativos
necessários à continuidade de seus processos. No caso de Comexatibá, o
relatório circunstanciado de identificação e delimitação havia sido publicado
pela Funai em 2015, mas o processo permanecia sem avanço suficiente para a
emissão da portaria declaratória.
<><> Pernambuco: território,
empreendimentos e violência contra lugares sagrados
Em Pernambuco, a violência aparece de forma
especialmente associada à disputa territorial e à expansão de atividades
econômicas sobre áreas reivindicadas pelos povos indígenas. Na Terra Indígena
Kapinawá, no Sertão, comunidades enfrentaram em 2025 conflitos relacionados à
ocupação de áreas tradicionais, à implantação de empreendimentos eólicos e à
situação fundiária de terras reivindicadas para revisão da demarcação.
Em abril, o governo de Pernambuco pretendia
leiloar 126 hectares ocupados por cerca de 100 famílias indígenas em Buíque. A
área estava inserida em procedimento de revisão demarcatória e era considerada
pelos Kapinawá parte de seu território tradicional. O episódio evidenciou uma
contradição recorrente nos conflitos indígenas: enquanto o povo aguarda o
reconhecimento de áreas de ocupação tradicional, parcelas dessas mesmas terras
podem ser tratadas pelo poder público como imóveis disponíveis para exploração econômica.
A situação dos Kapinawá também revela como a
indefinição territorial pode transformar conflitos administrativos e fundiários
em risco concreto de remoção
Outro episódio ocorreu no território
Pankararu Opará, em Jatobá. O terreiro utilizado pelo povo para práticas
religiosas foi alvo de invasões e depredações. Posseiros derrubaram árvores e
plantas consideradas sagradas e destruíram artefatos arqueológicos. A área
encontra-se em processo de demarcação. Para os Pankararu Opará, portanto, a
invasão representa simultaneamente uma ameaça territorial, ambiental, cultural
e religiosa.
Em 2025, uma mobilização de indígenas
Kapinawá e famílias agricultoras atingidas por empreendimentos eólicos ocupou a
sede da Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, no Recife. Segundo
levantamento da Comissão Pastoral da Terra citado pelo Cimi, um conflito
envolvendo áreas Kapinawá em Buíque, Ibimirim e Tupanatinga alcançava 375
famílias indígenas.
<><> Alagoas: ameaças chegam às
escolas indígenas
Em Alagoas, a escalada de violência contra o
povo Xukuru Kariri atingiu, em novembro de 2025, um dos espaços mais sensíveis
de uma comunidade: uma escola. A escola indígena Pajé Miguel Celestino, na
aldeia Fazenda Canto, em Palmeira dos Índios, amanheceu com marcas de tiros no
portão e nas paredes depois de um ataque ocorrido durante a noite. O atentado
foi denunciado pelo Cimi Regional Nordeste como parte de uma escalada de
agressões, ameaças e incitação ao ódio contra o povo.
O episódio ocorreu enquanto os Xukuru Kariri
aguardam a homologação de sua Terra Indígena. Segundo o Cimi, as comunidades
vinham denunciando ameaças e agressões e cobrando medidas de proteção do
governo federal. A ausência de uma conclusão do processo territorial aparece,
mais uma vez, associada a uma situação de insegurança que ultrapassa a disputa
por áreas de terra e alcança crianças, adolescentes, professores e espaços
comunitários.
<><> Maranhão: ameaça, expansão
econômica e violência policial
No Maranhão, a pressão sobre territórios
indígenas também esteve associada à expansão de atividades econômicas e à
precariedade da proteção estatal. Em janeiro de 2025, lideranças do povo
Memortumré Canela denunciaram a expansão da criação de gado dentro da Terra
Indígena Kanela-Memortumré, território demarcado e homologado desde 1982. Os
indígenas relataram ameaças de fazendeiros dos povoados próximos, alguns dos
quais circulavam armados.
O problema da demora na regularização também
atingiu povos cujos territórios ainda não foram reconhecidos pelo Estado. Em
março, representantes dos povos Akroá Gamella, Kariú Kariri, Tremembé de
Engenho e Tremembé de Raposa denunciaram a morosidade dos processos
demarcatórios e a falta de resposta efetiva da Funai no estado.
A situação maranhense evidencia que a
violência territorial não se limita à ação de invasores privados
Em outubro, outro episódio mostrou a dimensão
da violência institucional. Lideranças do povo Pyhcop Catiji Gavião, da Terra
Indígena Governador, em Amarante do Maranhão, denunciaram uma operação da
Polícia Civil que teria entrado no território sem apresentar mandado, com
policiais armados, e resultado na prisão de dois indígenas. O episódio foi
denunciado pelo Cimi como uma ação truculenta.
Este caso específico exemplifica ainda que a
violência contra os ovos indígenas também envolve agentes públicos quando
operações policiais são realizadas sem observância das garantias legais e das
especificidades dos territórios indígenas.
<><> Piauí: violência produzida
pela invisibilidade
No Piauí, o problema assume outra
característica. Povos como Gueguê do Sangue, Akroá Gamela, Kariri e
Tabajara-Ipy enfrentam uma combinação de reconhecimento étnico tardio, ausência
ou lentidão na regularização territorial e avanço da fronteira agrícola.
Em março de 2025, cerca de 30 indígenas
desses povos foram a Brasília para reivindicar a demarcação de seus
territórios, acesso a políticas públicas e proteção diante do avanço do
agronegócio. O Cimi destacou que a situação dos povos indígenas piauienses é
marcada pela expansão da fronteira agrícola e pela dificuldade de
reconhecimento de suas demandas territoriais.
No caso dos Guegue do Sangue, a luta
territorial está enredada a uma história mais longa de expropriação e violência
O povo Guegue do Sangue denuncia processos
históricos de expulsão e exploração ocorridos no sul do Piauí e, atualmente,
enfrenta disputas relacionadas às áreas reivindicadas como território
tradicional. Em outubro, o Cimi denunciou ainda uma tentativa de reintegração
de posse contra as retomadas Toco Preto e Vão Seco, ocupadas pelos Guegue do
Sangue e Akroá Gamela em Uruçuí. A disputa envolve uma região submetida à
expansão da fronteira agrícola.
<><> A violência também está na
ausência do Estado
Os casos do Nordeste ajudam a compreender por
que o Cimi trata a omissão do Poder Público como uma modalidade própria de
violência; em muitos casos, ela se prolonga durante anos enquanto processos de
demarcação permanecem paralisados, comunidades aguardam proteção e territórios
continuam submetidos a disputas.
Em todo o país, 897 das 1.443 terras e
reivindicações territoriais indígenas identificadas pelo Cimi em 2025 estavam
pendentes de alguma providência administrativa. Destas, 582 sequer haviam tido
seu processo demarcatório iniciado. Ao mesmo tempo, entre os 169 conflitos
territoriais registrados no ano, dois terços atingiram áreas que ainda
aguardavam regularização ou qualquer providência do Estado.
O reconhecimento formal de uma Terra Indígena
não encerra o conflito. As comunidades continuam reivindicando áreas excluídas
das demarcações ou enfrentando invasões, empreendimentos e disputas judiciais
Parte expressiva das comunidades da região
vive em territórios cuja história de ocupação foi marcada por expulsões,
fragmentação territorial e sobreposição de propriedades privadas. Em muitos
casos, o reconhecimento formal de uma Terra Indígena não encerra o conflito. As
comunidades continuam reivindicando áreas excluídas das demarcações ou
enfrentando invasões, empreendimentos e disputas judiciais.
É o que ocorre com os Pataxó no sul da Bahia,
com os Kapinawá e Pankararu Opará em Pernambuco, com os Xukuru Kariri em
Alagoas e com povos em processo de reconhecimento e demarcação no Piauí e no
Maranhão.
<><> Ofensiva no Congresso
Nacional
O relatório do Cimi situa a violência de 2025
em um ambiente nacional marcado pela disputa em torno dos direitos territoriais
indígenas, sobretudo a partir de iniciativas anti-indígenas no Congresso
Nacional. A Lei 14.701/2023, conhecida como Lei do Marco Temporal, fruto de uma
articulação da extrema direita bolsonarista e do ruralismo tradicional,
permaneceu em vigor durante o ano. No Supremo Tribunal Federal (STF), o
julgamento sobre a constitucionalidade da norma não foi concluído em 2025.
Paralelamente, o Congresso avançou com iniciativas relacionadas à tese do marco
temporal.
Para o Cimi, esse contexto contribuiu para
prolongar a insegurança territorial. A entidade sustenta que as violências
registradas no ano não podem ser dissociadas das dificuldades de efetivação dos
direitos territoriais previstos na Constituição. Em 2025, por exemplo, Vitor
Braz morreu enquanto Pataxó e Tupinambá cobravam em Brasília a regularização de
seus territórios.
• MPF
cobra R$ 1,7 bilhão e providências de mineradora por garimpo ilegal de
cassiterita na Terra Indígena Yanomami (RR)
O Ministério Público Federal (MPF) entrou com
uma ação civil pública para responsabilizar dez pessoas pela extração ilegal de
cassiterita e ouro na Terra Indígena Yanomami, em Roraima. A extração de
minérios ocorreu na região do Pupunha, na bacia do Rio Mucajaí (RR), entre
março de 2021 e dezembro de 2022. A ação atribui à causa o valor de R$ 1,7
bilhão e pede a recuperação das áreas degradadas, indenizações pelos danos
causados e medidas para controlar a origem da cassiterita comercializada. Entre
os réus estão a White Solder Metalurgia e Mineração, a Cooperativa de
Produtores de Estanho do Brasil (Coopertin), a Cataratas Poços Artesianos e a
Tarp Táxi Aéreo. Em pedido de urgência, o MPF requer a adoção de medidas para
assegurar o controle da origem do minério. O órgão quer também a implantação de
diligências no processo de fornecimento da cassiterita, a designação de
responsáveis pela conformidade, a contratação de auditoria independente e a
prestação periódica de informações à Justiça. O descumprimento das medidas
poderá resultar na suspensão das atividades.
<><> Recuperação ambiental
– A ação também pede a condenação dos réus à
recuperação das áreas degradadas pela atividade garimpeira na região do
Pupunha. Para isso, o MPF requer a elaboração de um plano de recuperação
aprovado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (Ibama) e pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), além
da realização de consulta prévia ao povo Yanomami. Além da recuperação
ambiental, a ação pede o pagamento de indenizações pelos danos causados. O
pedido inclui, no mínimo, R$ 53,1 milhões pelo dano ao patrimônio mineral da
União, além de indenização de R$ 25 milhões pelo dano ambiental residual e R$
1,62 bilhão por danos morais coletivos. Entre as obrigações específicas
solicitadas está a implantação, pela White Solder, de um programa permanente e
documentado de diligência devida na cadeia de suprimento de cassiterita. Para a
Coopertin, o MPF também pede a implementação de um sistema permanente de
controle da origem do minério. Os pedidos ainda serão analisados pela Justiça
Federal. Os réus poderão apresentar defesa.
<><> Entenda o caso
– De acordo com a apuração da Polícia
Federal, no âmbito da Operação Forja de Hefesto, o esquema envolvia diferentes
etapas, desde a extração da cassiterita dentro da Terra Indígena Yanomami até a
sua transformação e comercialização.
A investigação aponta que escavadeiras abriam
frentes de lavra na região, enquanto aviões e uma pista clandestina eram
utilizados para transportar o minério. Em seguida, a cooperativa registrava o
material como produção de cooperados e emitia notas fiscais. A cassiterita era
então encaminhada à metalúrgica, onde era transformada em lingotes de estanho
certificados e, posteriormente, comercializada no Brasil e no exterior com
aparência de origem legal. A contabilidade apreendida durante a apuração registra,
apenas entre maio e agosto de 2021, a movimentação de 525 toneladas de
cassiterita e R$ 54,2 milhões. Em um período de cinco meses, a White Solder
teria transferido R$ 166,3 milhões à Coopertin. No entanto, a filial da
cooperativa em Boa Vista não possuía cooperados, empregados ou lavra em
funcionamento. Para o MPF, os indícios de irregularidades não se limitaram ao
período inicialmente investigado. Documentos apresentados pela própria White
Solder indicam que a Coopertin permaneceu como sua principal fornecedora de
cassiterita em 2022, 2023 e 2024, com o fornecimento de mais de 12,4 milhões de
quilos do minério, inclusive após a realização de busca e apreensão pela
Polícia Federal na sede da empresa. Ao ser cobrada a comprovar a origem da
cassiterita fornecida, a cooperativa declarou uma produção inferior ao volume
que a metalúrgica afirma ter adquirido. Além disso, não apresentou licenças ou
relatórios de lavra. A ação também aponta que o garimpo ilegal avançou em
direção ao Parque Nacional dos Campos Amazônicos. O minério seria escoado pela
chamada “Estrada do Estanho”, em direção à cidade onde estão localizadas a
fundição e a matriz da cooperativa.
<><> Danos ambientais
– O
MPF constatou que a atividade garimpeira deixou um rastro de destruição de
cerca de 1,5 quilômetro ao longo de um igarapé. A ação aponta ainda mais de 20
hectares degradados, cursos d’água assoreados e o uso de mercúrio na produção
de ouro. De acordo com a ação, os danos ocorreram durante o período mais grave
da crise humanitária enfrentada pelo povo Yanomami. Até o momento, nenhuma
medida de recuperação da área degradada foi adotada. Com a ação, o MPF busca responsabilizar
os envolvidos pelos danos causados, garantir a recuperação ambiental da região
e estabelecer medidas para impedir que a cadeia de comercialização de
cassiterita seja utilizada para dar aparência de legalidade ao minério extraído
ilegalmente. A iniciativa é do 2º Ofício da Amazônia Ocidental, especializado
no enfrentamento à mineração ilegal no Amazonas, no Acre, em Roraima e em
Rondônia.
Fonte: Cimi Regional Nordeste/ Procuradoria
da República em Roraima

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