BANCO MASTER: O evangelho segundo Vorcaro
Há palavras que, de tanto atravessarem os
séculos, parecem adquirir uma imunidade particular ao desgaste. Evangelho é uma
delas. Do grego euangélion, a boa-nova, designa aquilo que chega para anunciar
uma verdade capaz de reorganizar a compreensão dos acontecimentos. No Brasil
contemporâneo, porém, a palavra talvez comporte uma ironia adicional: algumas
revelações não anunciam exatamente a salvação, mas ajudam a iluminar os
subterrâneos do poder. O caso do Banco Master redige, a cada novo capítulo, o
seu próprio evangelho – não de boas-novas como no livro cristão, mas de
notícias suficientemente explosivas para alterar a leitura do que até ontem
parecia apenas mais uma controvérsia do sistema financeiro. Essas denúncias
portariam o mesmo sentido de “bons anúncios”?
Daniel Vorcaro tornou-se, nesse enredo, o
personagem maior de maior destaque, o centro das narrativas, o elo que ligação
entre extremos, o ponto em comum entre opostos. Não era um “simples” banqueiro
que comandava uma instituição submetida a investigações que estava ali, mas o
personagem central que detinha a própria árvore do Jardim do Éden, da “ciência
do bem e do mal”, e oferecia a todos o fruto proibido. Assim como no enredo
bíblico, os envolvidos degustam, apreciam seu sabor, mas diferentemente da crônica
da Torá hebraica, eles não sentem remorso pela desobediência, como Adão e Eva,
mas retornam para nova rodada de apreciação do fruto. Esse hábito criou uma
rede colaborativa em que todos os envolvidos se tornavam cúmplices mutuamente,
uma teia de areia sob a égide de Vorcaro.
À medida que mensagens, documentos e relações
vêm a público, emerge também o retrato de um personagem que circulava com
desenvoltura por ambientes nos quais dinheiro e poder político se encontram. As
conexões reveladas atravessam fronteiras partidárias e alcançam diferentes
centros de decisão da República. O problema deixa, então, de caber
confortavelmente na contabilidade de um banco: passa a dizer respeito à própria
arquitetura das relações entre poder econômico e poder público.
Mais delicada é a entrada do Judiciário nessa
narrativa. Quando relações privadas, encontros, contratos ou comunicações
envolvendo personagens submetidos ao escrutínio estatal alcançam autoridades
responsáveis, direta ou indiretamente, por instituições encarregadas de
investigar e julgar, surge uma questão anterior até mesmo à responsabilidade
jurídica individual: a confiança pública. Uma República não se sustenta apenas
pela legalidade formal de seus atos, todavia pela certeza de que aqueles
incumbidos de aplicar as regras não habitam um universo de relações inacessível
às mesmas exigências impostas aos demais cidadãos. A máxima romana “dura Lex,
sed lex”, na prática, é impraticável aos comparsas e poderosos, que na maioria
das vezes nem são conhecidos pelos cidadãos (apenas após escândalos).
Talvez seja esse o verdadeiro “Evangelho
segundo Vorcaro”. Não uma escritura produzida pelo banqueiro, evidentemente,
mas uma espécie de narrativa involuntária do poder brasileiro, revelada por
suas relações mais obscuras. O que o antropólogo brasileiro Roberto DaMatta
teceu em seu Carnavais, Malandros e Heróis, sob o prisma desses três
personagens, observamos na prática política ao apresentar as figuras do
Político, do Juíz e do Banqueiro. Não que cada um represente condicionalmente
um dos três abordados por DaMatta, mas personificam conforme à necessidade
tanto o Malandro (o sem escrúpulos), quanto o Caxias (a ordem) ou o Renunciador
(o meio termo, o conciliador).
Cada mensagem exposta, cada encontro narrado
e investigado, cada nova conexão descoberta pela quebra do sigilo telefônico,
acrescenta um versículo a uma história ainda inconclusa – muito longe do
contrário. E aquilo que começou como (mais) um caso de corrupção envolvendo uma
parcela da grande cúpula governamental, ameaça converter-se em algo
politicamente muito maior: uma radiografia das zonas de contato entre riqueza,
influência e instituições no Brasil.
A vida “messiânica” do banqueiro Daniel
Vorcaro conquista novos apóstolos, seus “milagres” ultrapassam a experiência
particular e anuncia novos adeptos (que possam retribuir favores, de
preferência) e sua liturgia particular. A particularidade desse fenômeno
dionisíaco é que ela não desce dos céus ou é anunciada por profetas: emerge de
celulares apreendidos, contratos, encontros e mensagens agora submetidos ao
escrutínio público. O relatório da Polícia Federal sobre o aparelho de Daniel
Vorcaro expôs uma rede de relações que alcança personagens do Judiciário, da
política e de instituições centrais da República. O banqueiro aparece em meio a
pedidos de ajuda, conversas reservadas e articulações envolvendo autoridades. É
nesse primeiro sentido que a alegoria do evangelho ganha força: Vorcaro parece
ser procurado não para multiplicar pães, mas possibilidades; não para realizar
curas, mas para encontrar soluções onde os caminhos institucionais
aparentemente se estreitam. O “milagre”, aqui, seria justamente a capacidade de
converter proximidade em acesso e acesso em influência.
Há, contudo, uma segunda característica
curiosa nesse evangelho profano: seu protagonista aparentemente necessitou de
pouco esforço para fazer seu nome circular. Vorcaro tornou-se uma espécie de
centro gravitacional de Brasília. Os Três Poderes são colocados contra a
parede: as relações com o banqueiro e autoridades incluíam encontros e
interlocuções que atravessavam diferentes interesses, desde a contratos
milionários que favoreceriam empresas privadas de parentes até patrocínios para
custear um certo filme. Não estamos diante de uma sociabilidade confinada à
esquerda ou à direita, ao governo ou à oposição. Talvez resida nesse imbróglio
uma das dimensões mais perturbadoras do caso: seus melhores propagandistas
parecem ter sido aqueles que reconheceram no banqueiro alguém cuja proximidade
valia a pena cultivar. Como discípulos involuntários, ajudaram a multiplicar o
nome do “mestre”, fazendo da influência uma mercadoria cujo valor aumentava à
medida que novos personagens importantes se aproximavam.
É quando chegamos aos vínculos com o
Judiciário que a parábola deixa de ser apenas espirituosa e passa a produzir
perguntas institucionais difíceis. Documentos divulgados pelo STF registram
conversas atribuídas a Vorcaro e Alexandre de Moraes, referências a encontros
entre ambos e contratos envolvendo o Banco Master e o escritório de Viviane
Barci de Moraes. Segundo a Polícia Federal, o primeiro contrato previa R$ 131,3
milhões brutos em três anos; outro negócio, de R$ 50 milhões, envolvia a
possibilidade de transferência de ativos, embora o escritório sustente que essa
segunda proposta não foi aceita nem assinada. As mensagens divulgadas também
registram pedidos de Vorcaro relacionados a Paulo Gonet e Andrei Rodrigues.
Nada disso autoriza, por si só, uma sentença antecipada sobre responsabilidades
individuais. Mas é suficiente para colocar no centro do debate algo maior: até
que ponto relações privadas entre agentes econômicos e autoridades podem se
aproximar antes que a aparência de independência das instituições comece a
desaparecer?
Todo evangelho possui também sua comunhão. No
universo de Vorcaro, ela parece assumir uma forma mundana: encontros, viagens,
aeronaves, eventos e ambientes exclusivos aparecem nos documentos e reportagens
que reconstituem sua rede de relações. Segundo relatório da PF, noticiado pela
Folha de São Paulo, entre os elementos investigados estão ofertas relacionadas
a jato e helicóptero, contratos de honorários e eventos de luxo. É precisamente
aí que a “ceia” adquire importância política. O luxo é menos interessante pelo
seu caráter extravagante do que por sua função social: compartilhar espaços
inacessíveis à maioria cria intimidade, pertencimento e reciprocidade. Não é
necessário imaginar uma conspiração formal em torno de uma mesa. Redes de
influência são frequentemente mais eficientes justamente quando ninguém precisa
pronunciar aquilo que todos aprenderam a compreender. A comunhão cria vínculos;
os vínculos produzem obrigações; e a memória dessas obrigações pode valer mais
do que qualquer contrato. Se Leonardo da Vinci, famoso mestre renascentista,
que reproduziu a famosa obra A Útima Ceia, fosse cooptado para registrar tal
cena à luz do caso Master, certamente deixaria espaço para outros “discípulos”
que nem foram expostos ainda. Certamente seria necessário mais que uma parede
do refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão, onde a obra
clássica está pintada.
É por isso que o “Evangelho segundo Vorcaro”
talvez não seja, no fim das contas, uma história exclusivamente sobre Daniel
Vorcaro. Assim como nos Evangelhos Canônicos, escritos pelos evangelistas, cada
um deixa sua particularidade e ótica subjetiva sobre os fatos. O banqueiro pode
ser apenas um personagem central das narrativas, mas o verdadeiro objeto recai
sobre um ecossistema no qual dinheiro compra proximidade, proximidade produz
prestígio (e prestígio abre portas que deveriam permanecer submetidas às mesmas
regras para todos). Nesse evangelho às avessas, os discípulos não abandonam
seus bens para seguir o mestre; aproximam-se justamente porque há bens,
influência e possibilidades circulando ao redor dele. Os milagres são favores,
a evangelização é o networking do poder e a comunhão é a intimidade que
transforma relações institucionais em relações pessoais. Os “evangelistas” e
“apóstolos”, ou seja, aqueles que contarão suas versões sobre os fatos e suas
relações com o banqueiro, dirão mais sobre si mesmos do que sobre o “mestre”.
Sem contar a possibilidade que poderão surgir novos “evangelhos”, ainda
apócrifos.
Acredito que seja nessa eventual
possibilidade que o Evangelho segundo Vorcaro encontre seu capítulo, ou até
mesmo versículo, mais perturbador. Durante anos, a “boa-nova” circulou pela
boca de outrem: políticos, empresários, intermediários e personagens,
indivíduos que gozavam do poder e influência e alçavam seu nome aos gabinetes,
tribunais e salões. Vorcaro não precisou anunciar a própria importância: seus
discípulos fizeram isso por ele. Cada aproximação ampliava seu prestígio e
criava mais tentáculos; cada porta aberta legitimava a seguinte, ou
possibilitava a abertura da próxima. Cada autoridade adicionada à sua rede
tornava mais difícil distinguir onde terminavam as relações privadas e começava
o poder que delas podia ser extraído. Interesses públicos foram invertidos aos
interesses privados.
Uma eventual delação exporia a curiosa
construção e solidificação dessa lógica. Já não seriam os investigadores
reconstruindo fatos, narrativas e a organicidade anatômica dessas relações,
sejam através de mensagens, descobertas ou movimentações financeiras, mas o
próprio Vorcaro seria o homem situado no centro delas oferecendo sua própria
versão do mapa – nomes, circunstâncias, pedidos, interesses e, sobretudo,
aquilo que pudesse ser comprovado. Naturalmente, delação não é sentença, e
acusação não substitui prova. Mas há uma diferença política decisiva entre
suspeitar da existência de uma engrenagem e ouvir alguém que esteve dentro dela
explicar como as peças se encaixavam. Se Vorcaro possuir as provas que até
agora não apresentou, sua maior moeda talvez já não seja o dinheiro que
movimentou, mas aquilo que sabe sobre quem se aproximou dele.
Nesse momento, o Evangelho deixaria de ser
escrito pelos discípulos. Não seriam mais eles a propagar a boa-nova do
banqueiro capaz de abrir portas, aproximar interesses e realizar os pequenos
“milagres” do poder brasileiro. Seria o próprio Vorcaro a tomar a palavra. E,
se resolver contar tudo o que sabe – e puder provar o que conta –, talvez
descubramos que o escândalo do Banco Master nunca tenha sido apenas a história
de um banqueiro excessivamente próximo do poder, mas a história de um poder que
também decidiu ficar excessivamente próximo de um banqueiro. O Evangelho
segundo Vorcaro, então, deixaria de ser uma metáfora. Seria uma lista de
personagens. E o juízo final, desta vez, caberia às provas.
Palavra da Salvação.
• Banco
Master: a investigação silenciada. Por David Deccache
O caso Master nos coloca diante desse impasse
político. O bolsonarismo procura dar à indignação uma direção golpista, a
serviço de um imperialismo interessado em submeter o Brasil e se apropriar de
suas riquezas. Uma parte da esquerda, diante desse perigo histórico, assume a
defesa das instituições que alimentaram a revolta e passa a tratar o
descontentamento popular como uma ameaça a ser contida. Por esse caminho, ajuda
a entregar à extrema-direita a direção da revolta popular que deveria disputar.
É justamente nessa disputa pela direção da
revolta que André Mendonça cumpre seu papel. Sua encenação moralizadora convive
com uma condução seletiva do caso que favorece politicamente Flávio Bolsonaro e
protege o campo bolsonarista do desgaste de suas relações orgânicas com Vorcaro
e com os interesses mais corruptos e abjetos do sistema financeiro expostos no
escândalo. A manutenção do sigilo sobre a investigação do financiamento do
filme de Bolsonaro, questionada por parlamentares no STF, é um exemplo dessa
seletividade. O sentido político dessa atuação é canalizar a revolta popular
contra adversários selecionados e colocá-la a serviço de uma recomposição
autoritária do poder, preservando as estruturas que sustentam os próprios
esquemas que ele afirma combater.
A indignação que poderia alcançar outros
banqueiros e ameaçar seus mecanismos de blindagem passa, assim, a fortalecer um
projeto que amplia essa proteção e reprime a organização dos trabalhadores. A
atuação de Mendonça contribui para que essa revolta fortaleça uma saída
autoritária, capaz de destruir as condições democráticas necessárias para
enfrentar os próprios abusos que a alimentaram, abrindo caminho para
intensificar a exploração do povo, a subordinação do país ao imperialismo e o
saque das riquezas nacionais.
Enfrentar essa operação exige também
denunciar com dureza a promiscuidade que alimenta a revolta e cobrar que
Alexandre de Moraes responda por suas relações com Vorcaro expostas no caso. O
escândalo revela a podridão das relações entre dinheiro e poder, e a esquerda
precisa abandonar de vez a prática de relativizar suspeitas de corrupção e dar
cobertura política à promiscuidade entre banqueiros e autoridades para proteger
aliados de ocasião. Nenhuma conveniência tática justifica tamanho erro
estratégico.
É preciso lembrar ao povo que Moraes é um
homem de direita, com uma trajetória de defesa da ordem, repressão às lutas
populares e ataques aos direitos trabalhistas. Ainda assim, encontrou em parte
da esquerda uma disposição absurda de apagar sua história e justificar seus
atos por ter enfrentado a tentativa de golpe que culminou no 8 de Janeiro. O
cumprimento de sua obrigação mais elementar como ministro do Supremo lhe rendeu
um cheque em branco de quem deveria preservar a independência política e a capacidade
de crítica.
Reduzir a posição da esquerda à escolha entre
Moraes e Mendonça significa subordiná-la à disputa entre frações e forças das
classes dominantes, preservando as relações de propriedade e de poder que
produziram a crise e sustentam a dominação do capital sobre a vida social. A
revolta popular expressa, ainda que de forma difusa e contraditória, o repúdio
à promiscuidade e ao poder de uma minoria que submete o Estado e a vida da
maioria aos seus interesses.
Portanto, a esquerda precisa construir uma
política própria, capaz de reconhecer as razões mais do que legítimas da
revolta popular, enfrentar sua apropriação reacionária e organizar a luta
contra as relações de poder que o escândalo expôs. Isso exige independência
diante das frações dominantes em conflito e disposição para levar o combate à
corrupção até suas bases materiais.
Para isso, um primeiro passo é romper os
limites do debate moralista em que a cobertura dos escândalos costuma nos
aprisionar. As mensagens, os encontros, os favores e as relações pessoais
precisam ser investigados, com a responsabilização de todos os envolvidos. Mas
cada revelação também deve servir para mostrar como a acumulação privada de
riqueza, especialmente no setor financeiro, se converte em poder sobre as
instituições e as mais altas autoridades do país. O confinamento dos escândalos
à moralidade e à conduta dos indivíduos cumpre uma função política: permite que
a sucessão de personagens e denúncias alimente indefinidamente o noticiário
enquanto protege de qualquer questionamento a estrutura que produz essa
promiscuidade. A grande imprensa participa das relações de propriedade e de
poder que esse debate precisa expor. Cabe à esquerda avançar sobre esse
terreno, revelar as entranhas do sistema e transformar a indignação contra seus
personagens em força organizada contra as bases de sua dominação.
O próprio tamanho do Master oferece um ponto
de partida. Vorcaro comandava um banco pequeno diante dos gigantes do setor. Se
um banqueiro dessa dimensão conseguiu estabelecer uma rede tão extensa de
acesso ao poder, de quais meios dispõem os grandes bancos para fazer prevalecer
seus interesses? A pergunta permite avançar da investigação de um esquema para
o exame de uma estrutura de dominação. É preciso investigar tanto os crimes
quanto os mecanismos legais pelos quais o dinheiro concentrado influencia a elaboração
das leis, a definição das políticas públicas e os limites do que se admite
discutir.
Quanto mais riqueza se concentra, maior a
capacidade de seus proprietários de interferir nas decisões do Estado. E quanto
mais conseguem orientar essas decisões, melhores as condições para ampliar sua
riqueza e reproduzir seu poder. A brutalidade da acumulação capitalista tem aí
uma de suas bases políticas: uma minoria dispõe de meios permanentes para
subordinar decisões que afetam milhões de pessoas aos interesses de seus
negócios.
Em uma economia financeirizada como a
brasileira, bancos, fundos e grandes detentores de patrimônio financeiro ocupam
uma posição central na dominação de classe pelo poder que exercem sobre o
crédito, o investimento e a apropriação da renda produzida pela sociedade. O
endividamento das famílias, a dependência financeira das empresas e a disputa
pelo orçamento público ampliam os meios pelos quais o capital rentista se
apropria dessa riqueza e impõe suas exigências.
Sua força política permite pressionar por
juros elevados e políticas de austeridade que deterioram os serviços públicos e
abrem novas oportunidades de mercantilização e financeirização dos direitos
sociais. Na educação, a insuficiência da oferta pública favorece PPPs e
conglomerados privados. Na previdência, reformas que ampliam a capitalização
transformam recursos destinados às aposentadorias em fonte de financiamento
para bancos e fundos, como ocorreu nas aplicações do Rioprevidência em papéis
do Master. O enfraquecimento da proteção pública e a reorganização de seu
financiamento alimentam negócios privados e ampliam o poder financeiro sobre a
vida dos trabalhadores.
O capital financeiro encontra oportunidades
de acumulação na própria destruição das garantias coletivas que deveriam
proteger a população. A captura das instituições integra esse processo:
influenciar leis, orientar políticas públicas e obter proteção junto às
autoridades permite abrir mercados, assegurar receitas e preservar negócios. A
promiscuidade exposta pelo caso Master precisa ser compreendida dentro dessa
relação entre acumulação de riqueza e exercício do poder.
Levar essa discussão ao povo abre perguntas
que deveriam estar no centro da atuação da esquerda. Por que uma atividade
capaz de exercer tamanho poder sobre a sociedade deve permanecer sob controle
privado? Por que deixar nas mãos de poucos banqueiros decisões sobre o crédito,
o investimento e o destino da riqueza social? A estatização do sistema
financeiro, acompanhada de controle democrático e participação dos
trabalhadores, precisa entrar nesse debate. O mesmo vale para a democratização
do Judiciário: quem fiscaliza os ministros, como se apuram seus conflitos de
interesse, quais limites devem existir para suas relações com o poder econômico
e como submeter suas prerrogativas ao controle da sociedade?
A esquerda precisa organizar essa revolta
para que os trabalhadores possam acertar contas com a ordem que os explora,
antes que seus inimigos façam dela a força de um novo golpe.
Fonte: Por Railson Barboza, no Le
Monde/Outras Palavras

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