sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O pai, o filho e o fantasma do ciberpopulismo

O uso, pela campanha de Flávio Bolsonaro, da memória de Jair, convida a refletir sobre política, psicanálise e novas tecnologias. Por que determinadas versões da realidade se tornam psiquicamente necessárias e por que tanta gente entrega sua dúvida a quem promete eliminá-la?

<><> O pai que volta pela tela

Jair Bolsonaro não estava na convenção que oficializou a candidatura do filho. Mas falou. Recriado por inteligência artificial, apareceu no telão para pedir que seus seguidores recebessem “de braços abertos” aquele que havia escolhido para substituí-lo: “sangue do meu sangue, meu filho Flávio”. O pai ausente retornou como conteúdo sintético para apresentar o herdeiro à massa. No ambiente digital, a ausência deixou de ser obstáculo. Tornou-se matéria-prima.

Poucos dias depois, a campanha apresentou sua nova identidade visual. O sobrenome foi reduzido e, em algumas peças, desapareceu. Ficou apenas Flávio. Só que o “V” colocado no nome foi inspirado na letra manuscrita de Jair, retirada da carta em que ele escolheu o filho como candidato.

O sobrenome desaparece, mas a mão do pai permanece dentro do nome do filho!

Não vejo isso como detalhe de marketing. O pai foi retirado como palavra e reinscrito como traço. A campanha tenta fabricar um candidato autônomo, mas o constrói com a caligrafia daquele de quem pretende diferenciá-lo. O pai sai da superfície e retorna como fantasma. A pergunta, então, não é apenas se Flávio conseguirá herdar os votos de Jair Bolsonaro. A pergunta é anterior: o lugar psíquico de um líder pode ser transmitido pelo sobrenome? Uma candidatura pode ser herdada. Uma massa, não necessariamente.

<><> O que a massa procura em um líder?

É confortável explicar o fanatismo político dizendo que determinadas pessoas são ignorantes ou incapazes de pensar. Também é uma explicação pobre. Informação não desfaz sozinha uma ligação construída sobre identificação, idealização e investimento afetivo. Em Psicologia das massas e análise do Eu, Freud não descreveu a massa como pessoas que chegaram racionalmente à mesma conclusão. Ela se constitui por ligações libidinais. Seus integrantes colocam um mesmo objeto no lugar do ideal do Eu e, por esse investimento comum, identificam-se entre si. O líder concentra expectativas, oferece direção e promete proteção. Não precisa demonstrar que merece o lugar. Precisa ser reconhecido nele.

Quando isso acontece, o julgamento crítico recua. Não porque o sujeito tenha perdido toda a inteligência, mas porque questionar o líder ameaça sua identificação com o grupo. A crítica deixa de ser informação e passa a ser vivida como ataque. Defender o líder torna-se uma maneira de defender a própria identidade.

Freud ainda aproxima o líder da figura do pai primevo: aquele que parece não se submeter às mesmas interdições exigidas dos demais. Pode dizer o que ninguém deveria dizer e tratar a lei como incômodo destinado aos outros. Essa posição de exceção produz fascínio. O seguidor não ama o líder apesar de seus excessos. Muitas vezes, ama-o por causa deles.

O líder oferece uma licença. A grosseria vira autenticidade. A crueldade vira coragem. A incapacidade de reconhecer limites vira força. E toda prova de que aquela figura não corresponde ao ideal pode ser absorvida pela devoção. Não se culpa facilmente aquele que foi colocado acima da possibilidade de culpa. Esse funcionamento não nasceu com a internet. O que mudou foi a infraestrutura disponível para localizá-lo, alimentá-lo e mantê-lo excitado durante vinte e quatro horas por dia.

<><> A massa sem praça

A massa do século XXI não precisa ocupar uma praça. Ela cabe no bolso. A antiga reunião pública tinha hora para terminar. O feed não termina. Sempre há outra mensagem, ameaça, denúncia, inimigo e, evidentemente, outra promessa de salvação.

Néstor Braunstein propôs chamar de “neomassas” os agrupamentos que já não dependem da reunião física dos corpos. São formações produzidas a partir de perfis e metadados, reunidos e ordenados por mecanismos algorítmicos. Os sujeitos não precisam se conhecer nem saber que foram colocados no mesmo conjunto. Seus rastros digitais os transformam em alvos disponíveis para mensagens específicas.

Eu considero essa proposta decisiva. A massa não desapareceu quando deixou a praça. Seu corpo virou banco de dados. O modelo freudiano não se tornou inútil. Identificação, idealização, pertencimento e submissão continuam operando. A diferença é que uma arquitetura acompanha o sujeito individualmente enquanto o trata como parte de um agrupamento que ele não vê. A massa parece espontânea, mas foi recortada, classificada e abastecida.

O algoritmo não conhece o sujeito no sentido psicanalítico. Não escuta sua ambivalência nem compreende seu sofrimento. Reconhece regularidades: onde o usuário parou, o que compartilhou, o que o irritou e o fez retornar. Nas plataformas orientadas pelo engajamento, isso basta. Não é necessário compreender o desejo; basta aprender a cercá-lo.

Leticia Cesarino mostrou que o populismo digital não é apenas a internet utilizada por um político. Funciona como aparato midiático, mecanismo de mobilização e tática de construção de poder. A plataforma participa da produção da realidade em que o discurso será recebido como verdadeiro, urgente e necessário. É nesse ponto que surge o ciberpopulista. Não vou perder tempo com uma definição escolar. Interessa-me o que ele faz: encontra sujeitos assustados, ressentidos ou humilhados, transforma a complexidade social em uma história rudimentar, indica o culpado e oferece a si mesmo como saída. Seu talento não está em elaborar respostas. Está em impedir que a pergunta continue aberta.

O ciberpopulista compreendeu uma regra elementar das plataformas: desaparecer é morrer. Por isso fala o tempo inteiro. Uma crise substitui a outra antes que qualquer elaboração seja possível. A contradição não importa; importa conservar o circuito e a massa mobilizada. Não há um líder soberano controlando uma máquina passiva. Existe retroalimentação. O ciberpopulista usa a plataforma, mas obedece ao seu regime de visibilidade. A massa fornece reações e dados; a plataforma devolve o que tende a produzir mais excitação; o líder observa o retorno e radicaliza a mensagem. Todos alimentam o circuito, embora não ocupem a mesma posição de poder.

<><> A pós-verdade como proteção

A pós-verdade não é apenas a circulação de informações falsas. É um regime no qual a realidade factual perde autoridade diante da necessidade afetiva do grupo. A narrativa não precisa resistir à verificação. Precisa proteger uma crença, confirmar uma identidade ou manter vivo um inimigo. Por isso a checagem produz efeitos tão limitados nas massas fortemente identificadas. Quem apresenta o fato é situado fora do grupo: jornalista vendido, professor doutrinador, cientista interessado ou integrante do “sistema”. A função é impedir que a informação atravesse a barreira afetiva que protege o vínculo.

Foi isso que procurei desenvolver em Ilusão coletiva: psicanálise, massas digitais e ciberpopulismo. Os algoritmos não inventaram a regressão, a servidão, o ódio pelo diferente ou a necessidade de um pai idealizado. Ofereceram uma infraestrutura extremamente eficiente para explorar esses elementos e manter a massa disponível.

O sujeito acredita escolher livremente aquilo que aparece na tela. Quase nunca percebe que suas escolhas anteriores reorganizaram o campo das escolhas futuras. Quanto mais reage, mais ensina ao sistema como capturá-lo. A liberdade permanece como experiência subjetiva enquanto o horizonte se estreita. É uma servidão sofisticada porque não se apresenta como imposição. O sujeito participa, compartilha e produz conteúdo como expressão espontânea de si. Não é apenas manipulado de fora. É de “dentro” também.

<><> Afinal, o sobrenome basta?

Voltemos a Flávio. Ele precisa realizar duas operações incompatíveis: parecer suficientemente Bolsonaro para conservar a massa do pai e deixar de parecer Bolsonaro para alcançar quem rejeita essa herança. Precisa repetir e negar o pai ao mesmo tempo.

Jair reaparece por inteligência artificial para autorizar o sucessor. O sobrenome diminui, mas sua caligrafia é incorporada à marca. Flávio tenta surgir como indivíduo enquanto a campanha insiste em apresentá-lo como filho.

O caso Dark Horse expôs algo desse vínculo. Depois das revelações sobre o pedido de financiamento feito por Flávio a Daniel Vorcaro para um filme sobre Jair, houve desgaste eleitoral. Seria incorreto afirmar que os fatos não produziram efeito. Mas o núcleo identificado permaneceu coeso: em maio, 88% dos eleitores de Flávio defendiam sua permanência na disputa, e 73% continuavam confiando nele, segundo o Datafolha.

O dado interessa como demonstração psíquica. O escândalo pode atingir as bordas da candidatura sem dissolver seu centro afetivo. Para o seguidor devotado, a suspeita é reinterpretada ou devolvida como perseguição. A identificação preserva aquilo que a realidade ameaça desorganizar. O sobrenome oferece acesso a uma massa previamente constituída. Funciona como senha e promessa de continuidade, mas não garante que Flávio ocupará o mesmo lugar do pai. O líder não é propriedade de família transferida em cartório. Depende de investimento, crença e autorização permanentes.

Talvez por isso Jair precise continuar aparecendo. Se o filho bastasse, o pai poderia retirar-se. Mas volta como voz sintética, memória, letra e filme. Quanto mais a campanha tenta produzir Flávio, mais precisa reproduzir Jair. Antes, o retrato do líder permanecia na parede, a estátua na praça e o nome no partido. Agora ele pode continuar falando, remontado e convocado sempre que a massa precisar. O fantasma ganhou voz, imagem, banco de dados e uma máquina de distribuição que não dorme.

A psicanálise não pode tratar isso como curiosidade tecnológica. Os sujeitos que chegam aos consultórios vivem dentro dessas arquiteturas de medo, reconhecimento e pertencimento. Ignorar esse atravessamento é insistir em escutar um sujeito isolado da cultura, das plataformas e das novas formas de poder.

É preciso compreender por que determinadas versões da realidade se tornam psiquicamente necessárias e por que tanta gente entrega sua dúvida a quem promete eliminá-la. A máquina continuará fabricando ilusões e operando sobre o vínculo. O sobrenome talvez baste para registrar uma candidatura. Para herdar o lugar de um líder, é pouco. Esse lugar continua sendo produzido no “inconsciente das massas” e administrado por dispositivos que transformam desamparo em dado, ressentimento em engajamento e devoção em poder.

 

Fonte: Por Marcio Garrit, em Outras Palavras

 

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