O pai, o filho e o fantasma do ciberpopulismo
O uso, pela campanha de Flávio Bolsonaro, da
memória de Jair, convida a refletir sobre política, psicanálise e novas
tecnologias. Por que determinadas versões da realidade se tornam psiquicamente
necessárias e por que tanta gente entrega sua dúvida a quem promete eliminá-la?
<><> O pai que volta pela tela
Jair Bolsonaro não estava na convenção que
oficializou a candidatura do filho. Mas falou. Recriado por inteligência
artificial, apareceu no telão para pedir que seus seguidores recebessem “de
braços abertos” aquele que havia escolhido para substituí-lo: “sangue do meu
sangue, meu filho Flávio”. O pai ausente retornou como conteúdo sintético para
apresentar o herdeiro à massa. No ambiente digital, a ausência deixou de ser
obstáculo. Tornou-se matéria-prima.
Poucos dias depois, a campanha apresentou sua
nova identidade visual. O sobrenome foi reduzido e, em algumas peças,
desapareceu. Ficou apenas Flávio. Só que o “V” colocado no nome foi inspirado
na letra manuscrita de Jair, retirada da carta em que ele escolheu o filho como
candidato.
O sobrenome desaparece, mas a mão do pai
permanece dentro do nome do filho!
Não vejo isso como detalhe de marketing. O
pai foi retirado como palavra e reinscrito como traço. A campanha tenta
fabricar um candidato autônomo, mas o constrói com a caligrafia daquele de quem
pretende diferenciá-lo. O pai sai da superfície e retorna como fantasma. A
pergunta, então, não é apenas se Flávio conseguirá herdar os votos de Jair
Bolsonaro. A pergunta é anterior: o lugar psíquico de um líder pode ser
transmitido pelo sobrenome? Uma candidatura pode ser herdada. Uma massa, não
necessariamente.
<><> O que a massa procura em um
líder?
É confortável explicar o fanatismo político
dizendo que determinadas pessoas são ignorantes ou incapazes de pensar. Também
é uma explicação pobre. Informação não desfaz sozinha uma ligação construída
sobre identificação, idealização e investimento afetivo. Em Psicologia das
massas e análise do Eu, Freud não descreveu a massa como pessoas que chegaram
racionalmente à mesma conclusão. Ela se constitui por ligações libidinais. Seus
integrantes colocam um mesmo objeto no lugar do ideal do Eu e, por esse investimento
comum, identificam-se entre si. O líder concentra expectativas, oferece direção
e promete proteção. Não precisa demonstrar que merece o lugar. Precisa ser
reconhecido nele.
Quando isso acontece, o julgamento crítico
recua. Não porque o sujeito tenha perdido toda a inteligência, mas porque
questionar o líder ameaça sua identificação com o grupo. A crítica deixa de ser
informação e passa a ser vivida como ataque. Defender o líder torna-se uma
maneira de defender a própria identidade.
Freud ainda aproxima o líder da figura do pai
primevo: aquele que parece não se submeter às mesmas interdições exigidas dos
demais. Pode dizer o que ninguém deveria dizer e tratar a lei como incômodo
destinado aos outros. Essa posição de exceção produz fascínio. O seguidor não
ama o líder apesar de seus excessos. Muitas vezes, ama-o por causa deles.
O líder oferece uma licença. A grosseria vira
autenticidade. A crueldade vira coragem. A incapacidade de reconhecer limites
vira força. E toda prova de que aquela figura não corresponde ao ideal pode ser
absorvida pela devoção. Não se culpa facilmente aquele que foi colocado acima
da possibilidade de culpa. Esse funcionamento não nasceu com a internet. O que
mudou foi a infraestrutura disponível para localizá-lo, alimentá-lo e mantê-lo
excitado durante vinte e quatro horas por dia.
<><> A massa sem praça
A massa do século XXI não precisa ocupar uma
praça. Ela cabe no bolso. A antiga reunião pública tinha hora para terminar. O
feed não termina. Sempre há outra mensagem, ameaça, denúncia, inimigo e,
evidentemente, outra promessa de salvação.
Néstor Braunstein propôs chamar de
“neomassas” os agrupamentos que já não dependem da reunião física dos corpos.
São formações produzidas a partir de perfis e metadados, reunidos e ordenados
por mecanismos algorítmicos. Os sujeitos não precisam se conhecer nem saber que
foram colocados no mesmo conjunto. Seus rastros digitais os transformam em
alvos disponíveis para mensagens específicas.
Eu considero essa proposta decisiva. A massa
não desapareceu quando deixou a praça. Seu corpo virou banco de dados. O modelo
freudiano não se tornou inútil. Identificação, idealização, pertencimento e
submissão continuam operando. A diferença é que uma arquitetura acompanha o
sujeito individualmente enquanto o trata como parte de um agrupamento que ele
não vê. A massa parece espontânea, mas foi recortada, classificada e
abastecida.
O algoritmo não conhece o sujeito no sentido
psicanalítico. Não escuta sua ambivalência nem compreende seu sofrimento.
Reconhece regularidades: onde o usuário parou, o que compartilhou, o que o
irritou e o fez retornar. Nas plataformas orientadas pelo engajamento, isso
basta. Não é necessário compreender o desejo; basta aprender a cercá-lo.
Leticia Cesarino mostrou que o populismo
digital não é apenas a internet utilizada por um político. Funciona como
aparato midiático, mecanismo de mobilização e tática de construção de poder. A
plataforma participa da produção da realidade em que o discurso será recebido
como verdadeiro, urgente e necessário. É nesse ponto que surge o
ciberpopulista. Não vou perder tempo com uma definição escolar. Interessa-me o
que ele faz: encontra sujeitos assustados, ressentidos ou humilhados,
transforma a complexidade social em uma história rudimentar, indica o culpado e
oferece a si mesmo como saída. Seu talento não está em elaborar respostas. Está
em impedir que a pergunta continue aberta.
O ciberpopulista compreendeu uma regra
elementar das plataformas: desaparecer é morrer. Por isso fala o tempo inteiro.
Uma crise substitui a outra antes que qualquer elaboração seja possível. A
contradição não importa; importa conservar o circuito e a massa mobilizada. Não
há um líder soberano controlando uma máquina passiva. Existe retroalimentação.
O ciberpopulista usa a plataforma, mas obedece ao seu regime de visibilidade. A
massa fornece reações e dados; a plataforma devolve o que tende a produzir mais
excitação; o líder observa o retorno e radicaliza a mensagem. Todos alimentam o
circuito, embora não ocupem a mesma posição de poder.
<><> A pós-verdade como proteção
A pós-verdade não é apenas a circulação de
informações falsas. É um regime no qual a realidade factual perde autoridade
diante da necessidade afetiva do grupo. A narrativa não precisa resistir à
verificação. Precisa proteger uma crença, confirmar uma identidade ou manter
vivo um inimigo. Por isso a checagem produz efeitos tão limitados nas massas
fortemente identificadas. Quem apresenta o fato é situado fora do grupo:
jornalista vendido, professor doutrinador, cientista interessado ou integrante
do “sistema”. A função é impedir que a informação atravesse a barreira afetiva
que protege o vínculo.
Foi isso que procurei desenvolver em Ilusão
coletiva: psicanálise, massas digitais e ciberpopulismo. Os algoritmos não
inventaram a regressão, a servidão, o ódio pelo diferente ou a necessidade de
um pai idealizado. Ofereceram uma infraestrutura extremamente eficiente para
explorar esses elementos e manter a massa disponível.
O sujeito acredita escolher livremente aquilo
que aparece na tela. Quase nunca percebe que suas escolhas anteriores
reorganizaram o campo das escolhas futuras. Quanto mais reage, mais ensina ao
sistema como capturá-lo. A liberdade permanece como experiência subjetiva
enquanto o horizonte se estreita. É uma servidão sofisticada porque não se
apresenta como imposição. O sujeito participa, compartilha e produz conteúdo
como expressão espontânea de si. Não é apenas manipulado de fora. É de “dentro”
também.
<><> Afinal, o sobrenome basta?
Voltemos a Flávio. Ele precisa realizar duas
operações incompatíveis: parecer suficientemente Bolsonaro para conservar a
massa do pai e deixar de parecer Bolsonaro para alcançar quem rejeita essa
herança. Precisa repetir e negar o pai ao mesmo tempo.
Jair reaparece por inteligência artificial
para autorizar o sucessor. O sobrenome diminui, mas sua caligrafia é
incorporada à marca. Flávio tenta surgir como indivíduo enquanto a campanha
insiste em apresentá-lo como filho.
O caso Dark Horse expôs algo desse vínculo.
Depois das revelações sobre o pedido de financiamento feito por Flávio a Daniel
Vorcaro para um filme sobre Jair, houve desgaste eleitoral. Seria incorreto
afirmar que os fatos não produziram efeito. Mas o núcleo identificado
permaneceu coeso: em maio, 88% dos eleitores de Flávio defendiam sua
permanência na disputa, e 73% continuavam confiando nele, segundo o Datafolha.
O dado interessa como demonstração psíquica.
O escândalo pode atingir as bordas da candidatura sem dissolver seu centro
afetivo. Para o seguidor devotado, a suspeita é reinterpretada ou devolvida
como perseguição. A identificação preserva aquilo que a realidade ameaça
desorganizar. O sobrenome oferece acesso a uma massa previamente constituída.
Funciona como senha e promessa de continuidade, mas não garante que Flávio
ocupará o mesmo lugar do pai. O líder não é propriedade de família transferida
em cartório. Depende de investimento, crença e autorização permanentes.
Talvez por isso Jair precise continuar
aparecendo. Se o filho bastasse, o pai poderia retirar-se. Mas volta como voz
sintética, memória, letra e filme. Quanto mais a campanha tenta produzir
Flávio, mais precisa reproduzir Jair. Antes, o retrato do líder permanecia na
parede, a estátua na praça e o nome no partido. Agora ele pode continuar
falando, remontado e convocado sempre que a massa precisar. O fantasma ganhou
voz, imagem, banco de dados e uma máquina de distribuição que não dorme.
A psicanálise não pode tratar isso como
curiosidade tecnológica. Os sujeitos que chegam aos consultórios vivem dentro
dessas arquiteturas de medo, reconhecimento e pertencimento. Ignorar esse
atravessamento é insistir em escutar um sujeito isolado da cultura, das
plataformas e das novas formas de poder.
É preciso compreender por que determinadas
versões da realidade se tornam psiquicamente necessárias e por que tanta gente
entrega sua dúvida a quem promete eliminá-la. A máquina continuará fabricando
ilusões e operando sobre o vínculo. O sobrenome talvez baste para registrar uma
candidatura. Para herdar o lugar de um líder, é pouco. Esse lugar continua
sendo produzido no “inconsciente das massas” e administrado por dispositivos
que transformam desamparo em dado, ressentimento em engajamento e devoção em
poder.
Fonte: Por Marcio Garrit, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário