25 anos do 11 de Setembro: a agonia dos
parentes das vítimas que aguardam julgamento do 'cérebro' dos atentados
O
governo dos Estados Unidos qualifica
o 11 de Setembro como "o
mais grave ato criminoso ocorrido em solo americano na história moderna".
Mas um
quarto de século se passou e o julgamento do suposto cérebro dos atentados
ainda não foi iniciado. As famílias das vítimas receiam que o tempo para se
fazer justiça esteja se esgotando.
O irmão
de Tom Resta, John, e sua esposa Sylvia (que estava grávida de sete meses) são
algumas das quase 3 mil pessoas que perderam a vida no dia 11 de setembro de 2001.
Naquele
dia, sequestradores lançaram dois aviões contra o World Trade Center, em Nova
York, e outro contra o Pentágono, no Estado da Virgínia. Um quarto avião caiu
em campo aberto na Pensilvânia, após a resistência dos passageiros a bordo.
Poucos
dias antes do 11 de Setembro, o casal preparava o quarto do seu futuro bebê,
decorado com os personagens do programa infantil As Pistas de Blue (1996-2006).
Eles sonhavam em ter um bebê e adoravam os filhos dos seus amigos e familiares.
No dia
dos atentados, ambos trabalhavam como operadores financeiros no 92° andar da
Torre Norte do World Trade Center.
"Depois
de tanto tempo, ainda tenho um nó na garganta", declarou Resta, em
lágrimas, à BBC. Mesmo depois de 25 anos, ele afirmou que o 11 de Setembro
permanece na sua mente "de forma quase constante".
<><>
O medo de não viver para ver o julgamento
Resta
viajou quatro vezes para a base naval americana de Guantánamo, no sudeste de Cuba,
para presenciar as complexas audiências preliminares do julgamento de Khalid Sheikh Mohammed, o suposto cérebro
dos atentados, e dos demais acusados. Ele descreve o processo como "árduo
e tedioso".
Durante
a "guerra ao terrorismo" que se seguiu aos atentados do 11 de
Setembro, foi instalada uma prisão militar naquela base naval. Ali, Mohammed
(também conhecido pelas iniciais KSM) permanece detido há 20 anos, sem nunca
ter sido condenado.
Os
familiares das vítimas participam de um sorteio para assistir às audiências em
uma sala de alta segurança, separados dos acusados por um grosso vidro, ao lado
dos jornalistas.
O
processo que precede o julgamento se prolonga há tanto tempo que já foi
presidido por cinco juízes militares diferentes.
No mês
passado, à medida que se aproximava o 25° aniversário dos atentados, houve
muita atividade e um certo avanço. A data do julgamento de Mohammed foi marcada
para junho de 2028.
Mas
Resta conta que está preparado para novos atrasos. Considerando o tempo já
transcorrido, alguns dos seus familiares receiam não viver o suficiente para
presenciar a celebração do julgamento.
"Meu
pai irá completar 98 anos em novembro e não acredito que ele espere chegar a
ver o julgamento", lamenta ele.
"Tenho
muitos familiares (tios e tias) que gostariam de estar presentes. Mas,
particularmente, não acredito que meus pais esperem viver o suficiente."
"Tomara
que todos os acusados ainda estejam vivos na época do julgamento",
destacou ele. "Esta é uma grande preocupação."
Familiares
de outras vítimas do 11 de Setembro compartilham os mesmos temores de Resta
sobre possíveis novos atrasos no julgamento.
No
início deste ano, Stephan Gerhardt empreendeu sua sexta viagem a Guantánamo.
Ele
afirmou que, para ele, seria fundamental presenciar as condenações pela morte
do seu irmão mais novo, Ralph, mas também preferia não precisar pensar mais
neste assunto.
"Quero
me concentrar nas recordações", segundo ele. "Ainda conservo o carro
de Ralph. Tento restaurá-lo e deixá-lo impecável de novo..."
"Pouco
tempo atrás, visitei meus pais e encontramos algumas coisas dele guardadas. O
que sinto é algo como 'sim, são só coisas velhas, mas pertenceram ao meu irmão
mais novo'."
Gerhardt
destacou que sua "maior preocupação" era que Mohammed e seus supostos
cúmplices morressem sem serem condenados.
"Eles
estão envelhecendo", conta Gerhardt. "Não quero que eles morram sem
terem sido condenados, pois seria uma injustiça com todos os familiares."
"Capturamos
estas pessoas, mas nunca chegamos a julgá-las, nem condená-las pelo assassinato
em massa dos nossos entes queridos."
<><>
Como a tortura complicou o caso do 11 de Setembro
Mohammed
foi acusado de crimes como conspiração e assassinato. A ata de acusação
menciona 2.976 vítimas.
Ele é
acusado de idealizar o plano de treinamento de pilotos para lançar aviões
comerciais contra edifícios e apresentá-lo ao líder do grupo extremista
islâmico al-Qaeda, Osama bin Laden (1957-2011).
Anteriormente,
ele próprio afirmou ter planejado a "operação do 11 de Setembro, de A até
Z".
Mas,
dias depois da definição da data do julgamento para 2028, o juiz militar
desconsiderou as confissões feitas por Mohammed aos agentes do FBI na base de
Guantánamo, depois de ser transferido para lá de prisões secretas da CIA, onde
havia permanecido em detenção por anos.
Na sua
decisão, o juiz descreveu o tratamento dado a Mohammed pela CIA como
"extraordinário abuso físico e mental".
O juiz
determinou que as confissões não foram voluntárias e não poderiam ser
empregadas contra Mohammed durante o julgamento.
Especialistas
destacam que a tortura a que Mohammed e seus supostos cúmplices foram
submetidos foi a principal causa dos prolongados atrasos deste caso.
"Todos
os aspectos do caso foram litigados em torno da questão da tortura",
afirma a professora de direito internacional Kasey McCall-Smith, da
Universidade de Edimburgo, no Reino Unido.
Ela
destaca que os acusados foram submetidos a "anos de abusos", que
incluíram a técnica de afogamento simulado (waterboarding)
e posições de estresse.
John
Ryan, autor do livro America's Trial: Torture and the 9/11 Case on
Guantanamo Bay ("O julgamento dos Estados Unidos: tortura e o
caso do 11 de Setembro na baía de Guantánamo", em tradução livre), explica
que a decisão do mês passado fez com que a promotoria perdesse a prova
considerada mais sólida contra Mohammed. Mas não se sabe ao certo qual será o
impacto neste caso.
Os
promotores contam com outras provas, segundo Ryan. Elas incluem ligações
telefônicas interceptadas e gravações secretas, mas não há garantias de que
elas poderão ser apresentadas no julgamento.
"A
equipe legal de Mohammed e as equipes de defesa dos demais acusados
apresentarão moções para tentar excluir também algumas destas classes de
provas", explica ele.
Durante
o governo George W. Bush (2001-2009), os Estados Unidos admitiram ter utilizado
"técnicas de interrogatório aprimoradas" para obter informações dos
suspeitos e que esses métodos salvaram vidas, sem chegar a constituir tortura.
O
presidente Barack Obama (2009-2017) proibiu esta prática no segundo dia do seu
mandato.
Os
familiares das vítimas afirmam que a tortura a que os acusados foram submetidos
cria até hoje obstáculos ao seu direito de justiça.
"Se
não os tivéssemos torturado, as implicações legais teriam sido muito mais
simples", afirma Gerhardt. "Provavelmente, eles teriam sido
condenados à morte há muito tempo."
"Não
posso controlar o que o governo fez e precisamos conviver com as
consequências."
<><
Julgamento ou acordo de culpabilidade?
Gerhardt
e Resta viajaram para Guantánamo no início de 2025. Na época, Mohammed e dois
outros acusados deveriam se declarar culpados, como fruto de um controverso
acordo celebrado com promotores do governo americano. Com isso, eles evitariam
um julgamento que poderia terminar com a pena de morte.
A BBC
os acompanhou na base militar quando o processo de declaração de culpabilidade
foi suspenso de última hora.
O
governo americano argumentou que "privar o governo e o povo dos Estados
Unidos de um julgamento público sobre a culpabilidade dos acusados e a
possibilidade da pena capital" causaria danos "irreparáveis".
A
disputa legal sobre a validade do acordo continua. Alguns familiares das
vítimas consideravam que o acordo era o único caminho possível, enquanto outros
o criticaram por ser muito indulgente e sem transparência.
Resta
conta que apoiou o acordo para garantir que eles fossem condenados.
"Minha
filosofia é que estes sujeitos não são o tipo de pessoas que deveriam andar
livres pelas ruas", declarou ele. "Por mim, eles podem ficar
exatamente onde estão. Só quero que sejam condenados."
O pai
de Brett Eagleson, Bruce, morreu nos atentados. Ele expressou que preferia um
julgamento completo a um acordo de declaração de culpabilidade.
"A
questão não é tanto de opinar se estes prisioneiros devem viver ou morrer, mas
acredito no sistema judiciário e que o processo funciona", ele explica.
"Acredito
que um julgamento, a fase de apresentação de provas e a exposição pública do
caso são a forma de trazer a verdade à luz."
<><>
Capítulo que ainda não se encerrou
Brett
Eagleson descreveu a situação em Guantánamo como um "desastre". Ele
afirmou que havia decidido não assistir a nenhuma das audiências prévias ao
julgamento a serem realizadas naquele local.
"Minha
sensação geral é de traição por parte do governo americano e de extrema
frustração", declarou ele. "Eles arruinaram completamente todas as
fases deste julgamento."
Eagleson
destacou que, 25 anos depois dos atentados, o 11 de Setembro continuava muito
presente na sua vida. Mas, para o público em geral, o evento estava se
transformando em "um acontecimento histórico".
"Acho
que as pessoas simplesmente consideram que capturamos Bin Laden, já saímos do
Iraque e que a guerra do Afeganistão terminou", explica ele. "Eles
consideram que este capítulo já acabou."
Quando
finalmente começar o julgamento frente ao tribunal militar de Guantánamo,
calcula-se que ele dure cerca de um ano.
A
professora Kasey McCall-Smith explica que o objetivo das audiências anteriores
ao julgamento é determinar "quais provas serão admitidas e quais,
não".
"Se
isso for definido antecipadamente, o julgamento pode se desenvolver com mais
agilidade", segundo ela.
Enquanto
os familiares das vítimas se preparavam para mais um aniversário da morte dos
seus entes queridos, Stephan Gerhardt expressou seu desejo de que o julgamento
chegue ao seu término, para que ele não precise mais pensar em Guantánamo, nem
viajar para lá.
"Não
quero voltar para este lugar", afirma ele. "Quero viver minha vida e
desfrutar dos meus hobbies e das recordações de Ralph."
¨
Por que homem acusado de ser mentor do 11 de Setembro
quer confessar autoria, mas EUA tentam evitar?
O
acusado de ser o mentor dos ataques terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos não vai se
declarar mais culpado nesta sexta-feira (10/1), depois que o governo americano
se mobilizou para impedir que os acordos judiciais firmados no ano passado
fossem levados adiante.
Khalid
Sheikh Mohammed, muitas vezes chamado de KSM, deveria se declarar culpado das
acusações em um tribunal de guerra na base naval da Baía de Guantánamo, no
sudeste de Cuba, onde está preso em
uma prisão militar há quase duas décadas.
Mohammed
é o detento mais conhecido de Guantánamo — e um dos
últimos mantidos na base.
Mas, na
noite de quinta-feira (9/1), um tribunal federal de apelações suspendeu as
audiências programadas, no intuito de analisar os pedidos do governo para
abandonar os acordos judiciais que incluiriam a confissão de Mohammed e de dois
corréus.
O
governo argumentou que esses acordos causariam danos "irreparáveis" a
si e ao público.
Um
painel de três juízes disse que o atraso "não deve ser interpretado, de
forma alguma, como uma decisão sobre o mérito", mas tinha como objetivo
dar ao tribunal tempo para receber um relatório completo e ouvir os argumentos
"de forma expressa".
Com o
atraso, o assunto vai ficar a cargo do novo governo Trump.
<><>
O que estava marcado para acontecer nesta semana?
Em uma
audiência na manhã desta sexta-feira, Mohammed iria se declarar culpado por seu
papel nos ataques de 11 de setembro de 2001, quando sequestradores tomaram
aviões de passageiros e os lançaram contra o World Trade Center, em Nova York,
e o Pentágono, nos arredores de Washington.
Outro
avião caiu em um campo na Pensilvânia depois que os passageiros reagiram.
Mohammed
foi acusado de crimes como conspiração e assassinato, com 2.976 vítimas
listadas na folha de acusação.
Ele já
disse anteriormente que planejou a "operação de 11 de setembro de A a
Z" — concebendo a ideia de treinar pilotos para pilotar aviões comerciais
contra edifícios e levando esses planos para Osama bin Laden, então líder do
grupo militante islâmico al-Qaeda, em meados da década
de 1990.
A
audiência desta sexta-feira estava marcada para acontecer em uma sala de
audiências onde os familiares dos mortos e a imprensa estariam sentados em uma
galeria de observação atrás de um vidro espesso.
<><>
Por que tudo isso está acontecendo 23 anos depois do 11 de setembro?
As
audiências pré-julgamento, realizadas em um tribunal militar na base naval, se
arrastam há mais de uma década — complicadas por questões sobre se a tortura
que Mohammed e outros réus sofreram enquanto estavam sob custódia dos EUA
compromete as evidências.
Após
sua prisão no Paquistão em 2003, Mohammed passou três anos em prisões secretas
da CIA (a agência de inteligência americana) conhecidas como black
sites.
Lá, ele
foi submetido 183 vezes a waterboarding (simulação de
afogamento), entre outras chamadas "técnicas avançadas de
interrogatório", que incluíam privação de sono e nudez forçada.
Karen
Greenberg, autora do livro The Least Worst Place: How Guantanamo Became
the World's Most Notorious Prison ("O lugar menos pior: Como
Guantánamo se Tornou a Prisão mais Notória do Mundo", em tradução literal), afirma
que o uso de tortura tornou "praticamente impossível levar esses casos a
julgamento de uma forma que honre o Estado de direito e a jurisprudência
americana".
"Aparentemente,
é impossível apresentar evidências nesses casos sem o uso de evidências
derivadas de tortura. Além disso, o fato de esses indivíduos terem sido
torturados acrescenta outro nível de complexidade aos processos", diz a
autora.
O caso
também se enquadra nas comissões militares, que operam sob regras diferentes do
sistema de justiça criminal tradicional dos EUA, e retardam o processo.
O
acordo judicial foi fechado no verão passado (no hemisfério norte), após cerca
de dois anos de negociações.
<><>
O que o acordo judicial prevê?
Os
detalhes completos dos acordos firmados com Mohammed e dois corréus não foram
divulgados.
Sabe-se
que um acordo faria com que ele não enfrentasse um julgamento com possibilidade
de pena de morte.
Em uma
audiência na quarta-feira (8/1), a equipe jurídica de Mohammed confirmou que
ele havia concordado em se declarar culpado de todas as acusações.
Mohammed
não se dirigiu pessoalmente ao tribunal, mas conversou com sua equipe enquanto
eles analisavam o acordo, fazendo pequenas correções e alterações no texto com
a promotoria e o juiz.
Se os
acordos forem mantidos e as confissões forem aceitas pelo tribunal, as próximas
etapas serão a designação de um júri militar para ouvir as evidências em
audiência para apresentação da sentença.
No
tribunal, na quarta-feira, isso foi descrito pelos advogados como uma forma de
julgamento público, em que sobreviventes e familiares dos mortos teriam a
oportunidade de dar depoimento.
Pelo
acordo, as famílias também poderiam fazer perguntas a Mohammed, que seria
obrigado a "responder às suas perguntas de forma completa e
verdadeira", segundo os advogados.
O ponto
central para que a promotoria concordasse com os acordos era a garantia
"de que poderíamos apresentar todas as evidências que julgássemos
necessárias para estabelecer um registro histórico do envolvimento do acusado
no que aconteceu em 11 de setembro", disse o promotor Clayton G. Trivett
Jr.
Mesmo
que as confissões sejam levadas adiante, levaria muitos meses até que esses
procedimentos comecem e que uma sentença seja finalmente proferida.
<><>
Por que o governo dos EUA está tentando impedir o acordo?
Dias
depois de o acordo ter sido fechado, o secretário de Defesa dos EUA, Lloyd
Austin, que havia nomeado o funcionário de alto escalão responsável pela
assinatura, tentou revogá-lo.
Em um
memorando, ele argumentou: "A responsabilidade por tal decisão deve recair
sobre mim, como autoridade superior".
Tanto
um juiz militar quanto um painel de apelação militar decidiram, no entanto, que
o acordo era válido — e que Austin havia intervindo tarde demais.
Em
outra tentativa de impedir o acordo, o governo pediu nesta semana a intervenção
de um tribunal federal de apelações.
Em
documento judicial, eles disseram que Mohammed e os outros dois homens foram
acusados de "perpetrar o ato criminoso mais chocante em solo americano na
história moderna", e que fazer cumprir os acordos "privaria o governo
e o povo americano de um julgamento público sobre a culpa dos réus e a
possibilidade de pena de morte, apesar do fato de o secretário de Defesa ter
revogado legalmente esses acordos".
Após o
anúncio do acordo, em meados do ano passado, o senador republicano Mitch
McConnell, na época líder de seu partido na Casa, divulgou uma declaração
descrevendo-o como "uma revoltante abdicação da responsabilidade do
governo de defender os Estados Unidos e fazer justiça".
<><>
Por que as audiências são em Guantánamo?
Mohammed
está preso em uma prisão militar na Baía de Guantánamo desde 2006.
A
prisão foi inaugurada há 23 anos, em 11 de janeiro de 2002, durante a chamada
"guerra contra o terror" que se seguiu aos ataques de 11 de setembro
de 2001.
Foi um
lugar destinado a manter suspeitos de terrorismo e "combatentes inimigos
ilegais".
A
maioria dos detidos nunca foi formalmente acusada, e a prisão militar enfrentou
críticas de grupos de defesa dos direitos humanos e da Organização das Nações
Unidas (ONU) sobre o tratamento dado aos detentos.
A
maioria dos presos já foi repatriada ou realocada em outros países.
Atualmente,
a prisão abriga 15 detentos — o menor número de sua história.
Com
exceção de seis, os demais foram acusados ou condenados por crimes de guerra.
Fonte: BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário