O arsenal nas mãos de Dino: como inquéritos
sobre emendas parlamentares atingem políticos e chegam a 'Dark Horse'
O ministro Flávio Dino entrou diretamente no
fogo cruzado entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça nesta
quarta-feira (9/9), ao reverter a decisão de Mendonça que afastava o diretor da
Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues.
Assim como seus dois colegas de Supremo
Tribunal Federal (STF), que ganharam protagonismo com grandes investigações
criminais como o Inquérito das Fake News e o caso Banco Master, Dino também se
tornou poderoso ao acumular a relatoria de investigações com alto impacto na
política.
No seu caso, o ministro é o relator de
inquéritos que investigam desvios em emendas parlamentares, ou seja, com o
potencial de atingir centenas de deputados federais e senadores.
As emendas são recursos federais que os
congressistas podem destinar para investimentos em suas bases eleitorais. Esses
valores dispararam, saltando de cerca de R$ 10 bilhões há dez anos para R$ 40
bilhões em 2026. E, com isso, aumentaram também os indícios de desvios.
Foi justamente pela relatoria desses casos
que Dino entrou na crise entre Mendonça e Morais.
A decisão de reintegrar Rodrigues ao comando
da PF foi tomada dentro de uma investigação sobre emendas que pode ter impacto
direto sobre o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da
República.
No pedido atendido por Dino, Rodrigues
argumentou que seu afastamento do comando da PF punha em risco o andamento
dessa investigação sobre as emendas.
Esse inquérito apura supostos desvios de
recursos destinados por parlamentares do PL para a produtora Go Up, responsável
pela execução do filme Dark Horse, uma homenagem ao ex-presidente Jair
Bolsonaro.
O financiamento da obra também é alvo de
outro inquérito, relatado por Mendonça, que apura o repasse de cerca de R$ 65
milhões pelo Banco Master para o filme, em contrato firmado após pedido de
Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso preventivamente suspeito de
fraudes bilionárias.
Já o inquérito relatado por Dino investiga
emendas de Mário Frias (SP), Bia Kicis (DF) e Marcos Pollon (MS), mas os três
negam qualquer ilegalidade.
No caso de Frias, ele destinou R$ 2 milhões
em emendas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade presidida por Karina
Ferreira da Gama, dona da Go Up, sendo R$ 1 milhão para letramento digital e R$
1 milhão para projeto esportivo. Em defesa apresentada ao STF, o parlamentar
disse que não há qualquer prova de que os valores tenham sido direcionados à Go
Up e usados no filme.
Já Kicis indicou R$ 150 mil para a produção
de episódios da série "Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se
rende" pela Go Up. Em maio, ela contestou a investigação em suas redes
sociais, argumentando que os valores não tinham sido sequer liberados ainda.
Pollon, por sua vez, tinha previsto R$ 1
milhão de suas emendas para a produção da mesma série, mas diz que os recursos
não foram liberados e acabaram sendo destinados para o Hospital do Câncer de
Barretos.
Além da investigação relatada por Dino, a
Polícia Civil de São Paulo apura possíveis ilegalidades em um contrato do
Instituto Conhecer Brasil com a prefeitura de São Paulo de R$ 108 milhões para
fornecer internet wi-fi em comunidades de baixa renda. As suspeitas são de que
valores também possam ter sido desviados para o filme Dark Horse ou outra
finalidade.
No dia 24 de agosto, Dino determinou que a
polícia paulista compartilhasse provas com a PF, dentro do inquérito que apura
a execução das emendas parlamentares.
Tanto a decisão de Mendonça, que afastou o
diretor da PF, como a de Dino, que o reconduziu ao cargo, foram criticadas por
juristas.
Para o criminalista Aury Lopes Jr., professor
da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, a guerra entre os
ministros do STF virou um "grande hospício jurídico". Na sua
avaliação, é o plenário do STF que poderia reverter o afastamento de Rodrigues
do comando da PF.
"A decisão do André [Mendonça] estava
errada? Sim, juridicamente censurável, mas não poderia ser o Dino e não dessa
forma", disse, em vídeo no seu Instagram.
"Não dá tempo de tentar entender uma
loucura e já vem outra crise, mais grave, mais louca ainda", reforçou.
Diante da guerra entre os ministros, o
presidente do STF, Edson Fachin, cancelou a sessão plenária desta quarta-feira
(9/9), para quando estava previsto o julgamento de outras ações, sem relação
com a atual crise.
Fachin está sob pressão para convocar uma
sessão plenária pública para que o STF delibere sobre as controversas decisões
de Mendonça, Moraes e, agora, Dino, mas tem se movimentado com cautela e
apresenta dificuldades para debelar a crise às vésperas das eleições de
outubro.
<><> Quem mais foi alvo dos
inquéritos de Dino?
As investigações sobre emendas parlamentares
já atingiram diferentes parlamentares.
No início de agosto, por exemplo, determinou
à PF apurar emendas Pix, uma modalidade de liberação menos burocrática e alvo
de controvérsias, após possíveis irregularidades apontadas pelo Tribunal de
Contas da União (TCU).
A decisão atingiu desde o deputado Alfredo
Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, até o
presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o ex-líder do PT no
Senado Rogério Carvalho (SE), entre outros congressistas.
Cerca de um mês antes, em julho, outra
decisão do ministro atingiu o presidente do PL, Valdemar Costa Neto,
investigado por supostas irregularidades na indicação de emendas parlamentares.
Segundo a PF, ele teria influenciado a destinação de recursos públicos mesmo
sem exercer mandato no Congresso Nacional.
Com base nos indícios apresentados pela PF,
Flávio Dino determinou a suspensão das emendas parlamentares e o bloqueio de R$
119,2 milhões em bens do dirigente.
O valor bloqueado por Dino corresponde a
emendas parlamentares que teriam sido indicadas irregularmente por Valdemar. A
Procuradoria-Geral da República (PGR) se opôs ao bloqueio, uma divergência
registrada pelo próprio ministro em sua decisão.
Dino também determinou o bloqueio de R$ 6
milhões do ex-deputado federal Eduardo Cunha (Republicanos-MG), por suspeita de
desvio de emendas parlamentares. A decisão é de 6 de julho, mas tornou-se
pública no domingo (12/7). Cunha ainda não se pronunciou sobre o bloqueio.
A indicação de emendas é uma prerrogativa
exclusiva de deputados e senadores. Como Valdemar e Cunha não são mais
parlamentares, eles não poderiam decidir, direta ou indiretamente, o destino
desses recursos.
Em entrevista à CNN Brasil sobre a decisão de
Dino, Costa Neto disse que o líder do partido no Congresso atende às sugestões
da presidência do PL no direcionamento de emendas do partido e negou qualquer
ilegalidade.
"Nós temos o pleito de todos os
prefeitos, de muitos prefeitos do Brasil, eles vão falar com a presidência [do
PL]", disse.
"Então, nós sugerimos para a liderança
[do PL] e para as comissões [no Congresso], porque nós temos várias comissões
pelo tamanho da bancada. Por exemplo, a Comissão de Saúde [da Câmara] é nossa,
que tem verba própria também, então nós sugerimos que possa doar para esses
municípios, e é nisso que eu entro, isso é só política, não tem outra
coisa", continuou.
Cunha também negou irregularidades e disse
que não apresentou nem formalizou as emendas. Segundo sua defesa, os R$ 6
milhões foram destinados a municípios e não constituem valores recebidos por
ele.
• Dino
proíbe Mario Frias de deixar o país e determina retenção de passaporte
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal
Federal (STF), determinou a proibição de saída do país sem autorização judicial
prévia para todos os 29 alvos de mandados de busca e apreensão cumpridos pela
Polícia Federal no âmbito da Operação Meak Up, realizada na manhã desta
quinta-feira (10). Além da retenção de passaportes e da restrição de
deslocamento internacional, a decisão do magistrado proíbe expressamente que os
investigados estabeleçam qualquer tipo de comunicação entre si.
Entre os principais atingidos pelas medidas
cautelares está o deputado federal e ex-secretário especial da Cultura Mario
Frias (PL-SP). A ordem judicial também alcança ex-assessores vinculados ao seu
gabinete parlamentar e a empresária Karina Gama, responsável pela produção do
filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro (PL).
A ofensiva da Polícia Federal fundamenta-se
em apurações que contaram com a atuação da Controladoria-Geral da União (CGU).
O órgão de controle identificou indícios consistentes de irregularidades na
destinação e na aplicação de R$ 2 milhões oriundos de uma emenda parlamentar
concedida por Mario Frias. As investigações da PF buscam esclarecer a suspeita
de que uma parcela substancial do montante repassado não possui comprovação de
utilização mediante nota fiscal ou documentação idônea por parte da produtora encarregada
da obra cinematográfica. Foi esse indício de desvio de recursos públicos que
levou o ministro Flávio Dino a autorizar a expedição dos mandados de busca e
apreensão.
Ao todo, a força policial cumpre 49 mandados
de busca e apreensão contra alvos ligados ao esquema de financiamento do
longa-metragem. As ações ocorrem simultaneamente nos estados de São Paulo, Rio
de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal. De acordo com os investigadores, há
elementos que apontam para a atuação de uma organização criminosa estruturada
por agentes públicos e privados, voltada ao direcionamento irregular de
recursos públicos para empresas subcontratadas, sem a devida comprovação da
efetiva prestação dos serviços contratados.
O financiamento do filme “Dark Horse” é
objeto de apuração em duas frentes distintas no Supremo Tribunal Federal.
Enquanto um dos inquéritos tem como relator o ministro André Mendonça, a
investigação que mira especificamente o suposto direcionamento e desvio das
emendas parlamentares está sob a relatoria do ministro Flávio Dino.
Os desdobramentos do caso vêm sendo
registrados desde o início do ano. Em março, o ministro Dino já havia ordenado
que o deputado Mario Frias prestasse esclarecimentos detalhados sobre a
destinação da emenda de R$ 2 milhões repassada ao Instituto Conhecer Brasil,
uma organização não governamental vinculada à produtora do filme. Na ocasião, o
ministro solicitou informações precisas para apurar possíveis irregularidades
na execução financeira dos valores.
Mario Frias, que figura como produtor
executivo do filme e comandou a Secretaria Especial da Cultura durante o
governo Bolsonaro, encaminhou manifestação ao STF no mês de maio. No documento,
o parlamentar negou categoricamente a prática de qualquer ilícito e sustentou
que as verbas repassadas tiveram destinação e finalidade social.
As suspeitas em torno do projeto também
envolveram a Polícia Civil do Estado de São Paulo, que realizou, em junho, uma
operação direcionada à empresa Go UP Entertainment, produtora responsável pelo
filme “Dark Horse”. A investigação estadual apurava indícios de fraudes e
desvio de verbas públicas. Por ordem do ministro Flávio Dino, as provas e dados
colhidos na ação da Polícia Civil paulista foram compartilhados com o STF para
instruir o inquérito federal.
A reportagem da CNN Brasil buscou
posicionamento da assessoria do deputado Mario Frias e tentou contato com a
empresária Karina Gama sobre a operação e as medidas cautelares aplicadas, mas
não obteve retorno até a publicação.
• Operação
contra Dark Horse autorizada por Dino eleva pressão sobre André Mendonça no STF
A deflagração da Operação Make Up pela
Polícia Federal, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
Flávio Dino, aumentou a pressão interna sobre o ministro André Mendonça no
âmbito da Corte, segundo Matheus Leitão, do Metrópoles.
O ministro Flávio Dino é o relator da
investigação que busca identificar se recursos públicos oriundos de emendas
parlamentares foram destinados ao financiamento do filme Dark Horse,
cinebiografia sobre Jair Bolsonaro (PL). Por outro lado, o ministro André
Mendonça comanda outra frente de apuração ligada ao caso: a que investiga os
recursos financeiros transferidos pelo empresário Daniel Vorcaro para financiar
a mesma produção cinematográfica. Embora se tratem de inquéritos distintos,
ambos apuram caminhos diferentes do dinheiro direcionado à mesma obra.
Na quarta-feira (9), Mendonça realizou um
movimento inicial ao homologar o acordo de delação premiada de Antonio Carlos
Freixo Junior, conhecido como Mineiro. Ligado a Vorcaro, Mineiro detalhou em
seus depoimentos diversas transferências de valores efetuadas para o fundo
norte-americano responsável pelo financiamento de Dark Horse. No entanto, ainda
há outras decisões pendentes sobre o caso Master à espera de deliberação por
parte do ministro. No Supremo, a avaliação de interlocutores é que a operação comandada
por Dino torna mais difícil justificar o prolongamento dessa demora.
A ação executada pela Polícia Federal nesta
quinta-feira (10) não foi articulada como uma resposta direta à crise dos
últimos dias. A investigação sob a relatoria de Dino já se desdobrava há meses.
Em março deste ano, o ministro determinou que o deputado federal Mário Frias
(PL-SP) prestasse esclarecimentos sobre o envio de uma emenda parlamentar no
valor de R$ 2 milhões destinada ao Instituto Conhecer Brasil, entidade ligada à
produtora do filme. Atualmente, as diligências da PF buscam responder à questão
central das apurações: se o dinheiro público também abasteceu a cinebiografia
de Bolsonaro.
A operação deflagrada pela corporação teve
entre os seus alvos o próprio deputado federal Mário Frias e a empresária
Karina da Gama, sócia da Go Up Entertainment, empresa que atua como produtora
do longa-metragem.
O desdobramento das investigações também
gerou reflexos diretos no cenário político. Segundo Milena Teixeira, do
Metrópoles, integrantes da campanha do presidente Lula (PT) pretendem focar a
atuação de André Mendonça para explorar politicamente a operação da Polícia
Federal. O argumento principal a ser trabalhado por articuladores do PT é
questionar a relação entre a postura do ministro e o ritmo de avanço das
investigações do caso conhecido como ‘BolsoMaster’, cujas apurações se
aproximam do senador e candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Diante
desse quadro, a equipe de campanha do governo prepara a elaboração de conteúdos
e materiais explicativos para veiculação nas redes sociais sobre o assunto.
Fonte: BBC News Brasil/Brasil 247

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