sábado, 12 de setembro de 2026

Fernando Cerimedo e a intervenção da extrema-direita nas eleições da América Latina

A figura de Fernando Cerimedo, argentino que participou da tentativa de golpe articulada pelo bolsonarismo nas eleições brasileiras de 2022, ajuda a entender a trama da extrema-direita na América Latina para intervir nas eleições regionais e como essa articulação que envolve robôs e fake news — se relaciona com o processo eleitoral em curso no Brasil.

Cerimedo é o argentino que apareceu em uma live alegando falsamente que as nossas urnas eletrônicas eram passíveis de fraude, durante o processo eleitoral que elegou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o seu terceiro mandato. Ele foi um dos instrumentos utilizados pela família Bolsonaro e seu grupo político para tentar um golpe em 2022, processo que culminou nos atos de 8 de janeiro de 2023. Apesar das prisões de diversos envolvidos — como o ex-presidente Bolsonaro, generais e manifestantes —, o movimento golpista continua. O que observamos no processo eleitoral relaciona-se diretamente com essa ofensiva da extrema-direita aliada à Casa Branca na América Latina e no Caribe, com foco na América do Sul.

<><> A prisão na Bolívia e a denúncia de feminicídio

Embora a atuação de Cerimedo extrapole a América do Sul — estando envolvido no Hondurasgate, em tentativas de desestabilização da presidenta Claudia Sheinbaum no México e em conexões com Nayib Bukele em El Salvador —, ele acabou preso na Bolívia. Sua prisão ocorreu após sua ex-companheira, Cláudia, sofrer um atentado.

Ao ser socorrida na ambulância, ela o denunciou declarando que Cerimedo havia mandado matá-la. A polícia boliviana o deteve no aeroporto no momento em que ele tentava deixar o país. Na terça-feira (8) ele foi transferido para um presídio de segurança máxima na Bolívia, onde permanece preso. Cláudia sobreviveu aos três tiros e, ao relatar o ocorrido, revelou uma série de informações sobre o envolvimento de Cerimedo em diversas tramas da extrema-direita na região.

Ele também esteve envolvido na Colômbia com a eleição de Abelardo de la Espriella. Essa figura pouco abordada pela mídia comercial no Brasil fundou pelo menos duas empresas que ganharam notoriedade após sua prisão.

A primeira é a Numen, consultoria política voltada à formação em marketing digital — entendido aqui como disseminação de fake news e manipulação da opinião pública pelas redes. A segunda é o portal Derecho al Diario, jornal argentino que teve como sócio o espanhol Javier Negre e atuação no México. A presidenta Claudia Sheinbaum tem abordado o tema em suas conferências matinais na Cidade do México. Apesar de afirmarem que ele não está mais na direção do portal após ser preso, Cerimedo é o fundador do veículo, e sua trajetória acompanha o crescimento da nova direita na América Latina e no Caribe.

<><> Estratégias digitais e a ameaça à democracia

Ele esteve envolvido na eleição de Javier Milei na Argentina em 2023, na candidatura de Nasry Asfura em Honduras e, em 2022, na tentativa fracassada de golpe no Brasil. Todas essas ações apoiam-se em uma estrutura de trolls, robôs e “fazendas de bots” para a difusão massiva de conteúdos falsos e enganosos.

Trata-se de uma concepção de comunicação na qual a disputa eleitoral deixa de ser um debate de propostas e projetos para se tornar uma ocupação massiva do ambiente digital. O objetivo é capturar a atenção pública, mobilizar emoções, atacar adversários e engajar comunidades virtuais sempre contra um inimigo comum.

No Brasil, vimos isso em 2022 com a construção da narrativa de fraude nas urnas eletrônicas produzidas até 2020, baseando-se em números de série e teorias conspiratórias. Após atuar no Brasil, Cerimedo participou ativamente da construção da candidatura de Javier Milei na Argentina.

A campanha de Milei não se estruturou sobre partidos tradicionais, mas sobre uma comunidade digital que funcionava como um partido. Influenciadores substituíram os antigos cabos eleitorais, e canais do YouTube ocuparam o lugar dos jornais e programas partidários.

Memes substituíram panfletos, e os algoritmos passaram a organizar os públicos, tudo alimentado por circuitos fechados no WhatsApp e no Telegram. Portais alinhados transformavam narrativas de redes em supostas notícias, utilizando inclusive logotipos falsos de veículos tradicionais, como o jornal O Globo. Além de criar falsos fatos de rápida dispersão, a rede utiliza milhões de *bots* cada vez mais sofisticados com inteligência artificial para simular a participação de pessoas reais no debate eleitoral.

<><> Conexões internacionais e a operação no Chile e Bolívia

Cerimedo operou no Brasil, Argentina, Honduras, Colômbia e Bolívia em alinhamento com setores de Washington e Miami. Ele possui estruturas empresariais nos Estados Unidos e vínculos com operadores políticos como Damián Merlo Debernardi, consultor argentino-americano que aproximou Milei de setores político-midiáticos dos EUA e viabilizou sua entrevista com o apresentador televisivo conservador Tucker Carlson, que projetou o pouco conhecido líder da extrema-direita argentina.

A partir de Miami, esse centro operacional sustenta ações pela América Latina. No Chile, Cerimedo participou, via instituto, da campanha do “Rechazo”, que derrotou a proposta de nova Constituição oriunda dos protestos de 2019. Na época, circularam fake news absurdas — como a falsa alegação de que haveria aborto até os nove meses ou desapropriação de residências —, o que levou à forte rejeição do texto constitucional.

Na Bolívia, ele manteve laços estreitos com Rodrigo Paz. Há registros fotográficos dele no gabinete de Paz, inclusive durante a visita do Rei Felipe da Espanha. O próprio vice-presidente eleito da Bolívia, Edmond Lara, hoje rompido com Paz, denunciou em vídeo que Cerimedo frequentava mais reuniões de gabinete do que ele.

Houve também atuação na Colômbia na chamada Operação Júpiter, seguindo o mesmo modus operandi. Em vez de detalhar cada país, cabe refletir sobre esse método de construção de um ecossistema próprio de comunicação.

A estratégia utiliza canais de YouTube, influenciadores, podcasts e redes sociais para criar um circuito em que milhões consomem informações pautadas pela invenção de inimigos — a esquerda, o comunismo, os movimentos feministas, os migrantes, os sindicatos, a imprensa e instituições como o STF. Transforma-se a política em uma guerra cultural permanente baseada na indignação constante, sem aprofundamento ou debate de projetos.

Esse sistema opera a partir de centros nos Estados Unidos e se adapta rapidamente entre os países de língua espanhola. Além de Cerimedo, existem outros operadores semelhantes que exigem investigação. Sua prisão revelou quantias elevadas de dinheiro, buscas por documentos e apreensão de equipamentos para fazendas de bots. Toda essa rede continua sob apuração.

Esse tema é de alto interesse para nós que atravessamos períodos eleitorais. Enquanto na América Latina e na Europa o caso recebe ampla cobertura, no Brasil o assunto é pouco debatido, e a sociedade demonstra certo desinteresse em relação às operações de redes que podem estar nos afetando.

¨      Fernando Cerimedo e o atual modus operandi da extrema-direita na América Latina. Por Bruno Lima Rocha

A proposta deste breve artigo é expor de forma breve como o neofascismo funciona na América Latina. Não se trata de relato amplo e detalhado, com nomes sem fim, empresas de fachadas, laranjas, lavagem de dinheiro e etc. Sim, este é o procedimento padrão, de melar as eleições nos países latino-americanos, poluir o debate público de versões disfarçadas de opiniões criadas por fazendas de bots e, de maneira muito aproximada, financiar estas iniciativas com a economia do crime. É isso mesmo, não é ficção ou roteiro de filmes com conspiração política.

No Brasil, o epicentro da suspeita de golpe eleitoral, com o ministro André Mendonça sendo instrumento ativo na campanha de Flávio Bolsonaro e automaticamente, fortalecendo a aliança com o imperialismo capitaneado por Trump e Rubio. Já na Bolívia, repercute um padrão mais ampliado, cuja prisão do operador da CIA Fernando Cerimedo, é a parte mais visível de todo esquema.

Cerimedo foi peça central na eleição de Javier Milei em 2023 na Argentina. Atuou para espalhar a calúnia de fraude nas urnas eletrônicas no Brasil. Fez campanha contra a constituinte no Chile e também no segundo turno das eleições no país. Foi conselheiro de campanha de Rodrigo Paz na Bolívia, depois teve um espaço informal com alto nível decisório. O intento de feminicídio contra sua ex-companheira – a influenciadora de direita boliviana Nadia Beller – foi para queima de arquivo conforme o próprio afirmou para um cúmplice. Este é simplesmente o diretor da Polícia Nacional Boliviana na luta contra o narcotráfico.

Uma vez preso, Cerimedo traz consigo atividades conexas com voos irregulares no Departamento de Beni. “Coincidentemente” é o mesmo lugar de origem carreira política da ex-presidente golpista da Bolívia, Jeanine Áñez. Também deve ser por “coincidência” que o procedimento é o mesmo ocorrido no Equador, em Honduras e agora na Colômbia em casos de relação direto de narcotráfico e a ascensão de governantes de extrema-direita.

A Bolívia passou por duas situações semelhantes antes do golpe impulsionado por narcotraficantes em 2019. O golpe liderado pelo então coronel Hugo Banzer (1971) e posteriormente no golpe de 1980 – tendo a frente o general Luis García Meza e pelo coronel Luis Arce Gómez. Em ambas tomadas de poder o narcotráfico atuou diretamente, financiou as atividades ilegais, operou com redes da CIA e da DEA e foi parte ativa no modo de acumulação através do Poder Executivo e a corrosão do aparelho de Estado.

Quais as semelhanças entre estes procedimentos e o acionar de Fernando Cerimedo como um operador de Donald Trump e Marco Rubio? Todas. O “consultor argentino” é pivô de uma crise cujas evidências eram abundantes desde o lançamento do portal Derecha Diario. Qual a diferença agora? A revelação de um esquema, considerando que ele, Cerimedo, foi para Santa Cruz de la Sierra para operar “livremente”, garantindo o financiamento de todos os seus clientes nas redes sociais, como o mandatário argentino.

Se na economia do narcotráfico as redes da CIA operam como funcionais, na base cibernética o suporte vem da inteligência sionista. Como de costume, a espionagem israelense incide através da internet com o uso de mecanismos de disparos em massa, poluindo o debate público, aliando-se às plataformas e Big Techs, exercendo censura na prática política.

Cerimedo é uma peça, hoje importante, depois removível. Em geral, os cabeças da estrutura criminal tem pouca longevidade, e os aparelhos seguem funcionando. Estes vão sendo moldados de acordo com as frações de classe no poder dos países da América Latina e suas relações – se diretas ou indiretas – com Washington, o Comando Sul e o conjunto dos instrumentos do imperialismo para a dominação do Continente.

¨      Avanço da extrema direita na América Latina é influência direta da pressão e ingerências de Trump

Com a recente vitória do candidato de extrema direita na Colômbia, Abelardo de la Espriella, e de Keiko Fujimori no Peru, o mapa latino-americano voltou a ser pintado novamente de azul, ainda mais quando também consideramos os atuais governos na Bolívia, Equador, Honduras, Chile, Panamá, Paraguai, República Dominicana, Argentina e El Salvador: todos governados pela extrema direita.

O avanço da extrema direita pelo continente vem sendo articulado com especial atenção pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem promovendo ingerências em processos eleitorais e tomando medidas de pressão contra quem ainda ousa enfrentá-lo.

O cenário colocado impõe desafios para o campo progressista em toda a América Latina, mas oferece caminhos para a resistência desse campo da esquerda. Em participação no podcast Dilemas do Sul, Joana Salém, historiadora e professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), avalia que, no contexto da Colômbia, apesar da derrota de Iván Cepeda, a esquerda saiu fortalecida do processo, ainda mais considerando o histórico colombiano de sucessivos governos de direita nas últimas décadas.

“Havia algumas variações dentro do campo conservador, mais neoliberais, mais agressivas na política antidrogas, uma direita mais moderada, mas eram variações da direita, e a esquerda colombiana sempre teve muita dificuldade de emplacar eleitoralmente. O [atual presidente, Gustavo] Petro, por si só, já é um fato novo da conjuntura, que foi um presidente organizador e mobilizador da esquerda colombiana”, aponta.

A historiadora destacou alguns pontos importantes da gestão de Petro, citando a reforma no comando militar do país, ao retirar todos os militares ligados ao uribismo, a melhoria nas políticas sociais, como redução da idade de aposentadoria de mulheres, e a reforma trabalhista.

Salém destaca que, com a derrota, o projeto de país de esquerda acaba interrompido. Contudo, a campanha mostrou a capacidade de mobilização do campo progressista. “Essa campanha eleitoral foi bastante mobilizadora. A esquerda colombiana é muito diversa, com enraizamento popular, com movimentos organizados e que representaram uma confiança nas reformas feitas pelo Gustavo Petro”, pontua.

O historiador e pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Miguel Stedile, acrescenta à fala de Joana Salém que o período de Petro na presidência será encarado, daqui a algum tempo, como “um momento histórico”.

Segundo ele, para compreender o atual momento político colombiano, é preciso compreender que a história do país foi atravessada por muita violência, que acabou criando um narco-estado no período de Pablo Escobar, com mortes e o aumento considerável da violência urbana. Esse contexto levou o país a entrar nos anos 1990 com uma forte militarização dos Estados Unidos. “A simples vitória do Petro, mesmo se ele tivesse feito um governo moderado, que ele não fez, já seria completamente uma exceção nesse contexto da própria história colombiana”, defende.

Stedile atribui a derrota de Petro ao contexto latino-americano, que teve até invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelo governo Donald Trump. “Há dois anos atrás, o Petro não tinha um governo Donald Trump assediando a América Latina como a gente tem hoje. Não tinha uma doutrina Monroe e não tinha um 3 de janeiro em que os Estados Unidos disseram: ‘Isso aqui são protetorados dos Estados Unidos, a China não deve comercializar e nós vamos importar a nossa hegemonia e, se preciso, violar a soberania territorial de um país e sequestrar o presidente’. Tudo baseado numa acusação que depois eles abandonaram”, ressalta.

“É um aviso para as eleições brasileiras. Que ninguém imagine que teve uma química entre o Trump e o Lula. Não tem química, não vai ter química com ninguém que se oponha aos interesses dos Estados Unidos. A outra questão é o próprio contexto de avanço da extrema-direita, que é consequência e é retroalimentado por esse trumpismo. Eu diria que o mapa não está pintado de azul. É azul, vermelho e branco”, afirma, em referência as cores da bandeira estadunidense”, complementa Stedile.

¨      Marco Rubio sobre a luta contra o narcotráfico: “Existem territórios no México que são controlados por organizações criminosas”

O secretário de Estado de Donald Trump, Marco Rubio, juntou-se à pressão sobre o governo de Claudia Sheinbaum na quarta-feira na luta contra o narcotráfico. O funcionário americano afirmou que "os mexicanos fizeram mais do que nunca para combater esses grupos, mas ainda está longe de ser suficiente". Rubio reiterou uma ideia frequentemente repetida pelos apoiadores de Trump: "Não acho que seja segredo para ninguém. Existem territórios, vastos territórios no México, que não são governados pelo Estado; são controlados por organizações de narcotráfico".

Rubio está no Equador em visita à região e, falando à imprensa na embaixada em Quito, comparou os esforços dos dois países contra os cartéis de drogas. “O caso do México representa um desafio ainda maior, devido à extensão do país e ao poder dos cartéis”, afirmou. O porta-voz observou que o “principal problema do país, pesquisa após pesquisa ”, é a segurança e listou os candidatos políticos, juízes e jornalistas que “são assassinados rotineiramente” no México.

“Esses grupos são muito perigosos; precisam ser confrontados. E nossa esperança, nossa intenção, é fazê-lo em colaboração com o governo mexicano. Esse é o ideal, mas, eventualmente, essa ameaça terá que ser enfrentada, de uma forma ou de outra”, disse um dos mais poderosos funcionários da Casa Branca, reacendendo o espectro constante de uma intervenção militar dos EUA no país.

Exatamente um ano atrás, Rubio estava na Cidade do México para assinar um acordo entre os dois países para “desmantelar o crime organizado transnacional”. Dentro do Ministério das Relações Exteriores, em uma coletiva de imprensa lotada, o aliado de Trump declarou: “Nenhum governo está cooperando mais conosco do que o governo mexicano, o governo da presidente do México”.

Durante aquela visita, que foi a sua primeira e, por ora, a última ao país, o discurso de Rubio foi bem diferente. O secretário afirmou que "nunca antes na história houve esse nível de cooperação, com respeito à soberania, e que ela produz resultados concretos". Em outras palavras, ele próprio apresentou o mantra de Sheinbaum: cooperação sem submissão. Agora, após o escândalo envolvendo agentes da CIA em Chihuahua, a acusação contra Rubén Rocha Moya por narcotráfico em Sinaloa e a revogação de vistos de figuras do Morena, partido governista, Rubio já não menciona a soberania.

“Esses grupos representam uma enorme ameaça e estão bem na nossa fronteira. Agora existem drones; eles estão tentando usar drones para traficar drogas e pessoas através da fronteira”, disse o oficial na quarta-feira, refletindo a mais recente obsessão dos Estados Unidos com o uso de drones. Sobre a necessidade de o governo Sheinbaum fazer mais, Rubio acrescentou: “Eles sabem disso; nós já dissemos isso a eles. Esperamos trabalhar em cooperação com eles para fazer mais. Porque, no fim das contas, o verdadeiro problema são os cartéis no México.”

O secretário de Estado está em meio a uma visita de alto nível de três dias à Colômbia, Equador e Peru, três dos países sul-americanos ideologicamente mais próximos da administração Trump. Rubio indicou que sua prioridade é “fortalecer a presença [dos EUA] no Hemisfério Ocidental”: “Acredito que esta viagem e estas reuniões, mais do que qualquer outra coisa, contribuem para avançar ainda mais em direção a esse objetivo”. A agenda, que está seguindo conforme o planejado, está focada no combate ao narcotráfico, uma das prioridades da Casa Branca em seu relacionamento com a América Latina.

 

Fonte: Grabois.org/Jornal GGN/Brasil de Fato/El País

 

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