STF: A quem Fachin favorece?
Quem lê manchete e não lê as entrelinhas pode
se lascar nessa história do Master. Nesse momento, é melhor não fazer festa
antes do encaixe dos fatos. Nessa madrugada, o Ministro Fachin não mandou o
Ministro André Mendonça, abrir tudo em relação ao Master. Na prática, ele pediu
que ele retirasse o sigilo do que considerasse possível divulgar sem prejudicar
a investigação. Pedir e mandar são coisas diferentes.
Traduzindo: Mendonça continua decidindo o que
aparece e o que fica escondido com os mesmos critérios que usou até agora. A
diferença é que tem a anuência oficial do fraco presidente do STF. Ele mantém a
relatoria, controla os autos e define o que seria “sensível” para a
investigação. No essencial, o poder dele sobre o Master não mudou, até
aumentou.
Por ora, com o Ministro Alexandre Moraes
aconteceu o contrário. Fachin tirou de suas mãos o inquérito das fake news, que
ele comandava havia anos e que concentrava enorme poder de articulação dentro
do Supremo.
Se Fachin quisesse realmente equilibrar o
jogo, teria tirado também o Master das mãos de Mendonça ou submetido o caso a
algum controle colegiado efetivo. Não fez isso.
Até agora, veio a público justamente o
material que produziu desgaste para Moraes e alimentou a ofensiva bolsonarista.
O restante continua sob sigilo, e quem decide o que continua escondido é o
próprio Mendonça.
Fachin aparentemente subiu no muro. Olhando
melhor, nem isso. Tirou poder de Moraes e deu a André Mendonça um privilégio
enorme: continuar no comando do Master e decidir o que o país pode ou não
conhecer.
Do ponto de vista eleitoral, não haveria pior
solução para a candidatura de Lula, pois o ativismo eleitoral bolsonarista
continua com plenos poderes sobre o caso Master.
Fachin foi apenas o conhecido Fachin.
A ver os próximos passos…• Vorcaro tinha grupo de WhatsApp para
pedir orientação a chefes de supervisão do Banco Central, diz PF
Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco
Master, mantinha um canal de aconselhamento com dois servidores que ocupavam
postos de comando na supervisão bancária do Banco Central, segundo uma
representação da Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Os documentos da investigação foram tornados
públicos na quinta-feira, 10/09, depois que o ministro André Mendonça, do
Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo de procedimentos relacionados
ao Banco Master na corte.
Os investigadores afirmam que Paulo Sérgio
Neves de Souza e Belline Santana defendiam interesses do Banco Master dentro da
autarquia e recebiam vantagens em contrapartida.
A atuação descrita incluía preparar o
banqueiro para reuniões, revisar documentos e articular respostas a
dificuldades enfrentadas pelo conglomerado.
A peça, assinada em 27 de fevereiro de 2026,
reúne interpretações da PF sobre mensagens extraídas do celular de Vorcaro e
documentos do próprio Banco Central.
Paulo Sérgio era chefe adjunto do
Departamento de Supervisão Bancária, o Desup, e Belline ocupava a chefia do
departamento.
A PF ressalta que a unidade estava vinculada
à Diretoria de Fiscalização e tinha atuação direta em processos de interesse de
Vorcaro.
Na avaliação dos investigadores, os
servidores se comportavam, em diversas ocasiões, como "empregados" do
banqueiro, embora devessem fiscalizar sua instituição.
<><> Grupo de WhatsApp
Essa proximidade aparece em um grupo de
WhatsApp chamado "Master", integrado por Vorcaro e pelos dois
servidores, segundo o documento da PF.
Segundo a PF, Belline criou o grupo em 2 de
outubro de 2025. "Boa tarde. Criei esse grupo, no intuito de facilitar
nossa interlocução", escreveu, conforme imagem de conversa reproduzida no
documento.
Logo depois, comentou a redação de um
documento e sugeriu mudanças para evitar "ruídos desnecessários",
segundo a PF.
Belline é descrito pelos investigadores como
prestador de aconselhamento especializado.
Em abril de 2024, teria marcado um encontro
com Vorcaro e Paulo Sérgio para discutir "visão prospectiva e
estratégica", deixando ao banqueiro a escolha entre a sede do BC e a do
Master.
A PF também registra uma reunião de Belline
com Vorcaro na residência do banqueiro em 14 de março de 2024 e afirma que o
servidor revisava documentos de interesse do banco, inclusive por iniciativa
própria.
Em 27 de outubro de 2025, Vorcaro
compartilhou no grupo um arquivo intitulado "Ofício Banco Master ao Desup
— atualização das ações" e escreveu: "Segue minuta para
avaliação".
Uma imagem mostra uma chamada de voz de
Belline na sequência e, mais tarde, uma nova versão do arquivo, acompanhada de
outro pedido do banqueiro: "Por favor, vejam se atende". O
destinatário do ofício era o departamento dirigido pelos próprios interlocutores.
Em uma troca de 25 de abril de 2025,
reproduzida na peça, Vorcaro pediu que Paulo olhasse uma minuta de resposta a
um termo de comparecimento.
O servidor propôs alterações em parágrafos
específicos, como trocar "captação de receitas" por "captação de
recursos", mencionar o controle ou gestão pelo BRB e corrigir uma data. Ao
final, escreveu: "Importante protocolar rapidamente".
O BRB, Banco de Brasília, é a instituição
controlada pelo governo do Distrito Federal que se tornou uma peça central na
busca de uma saída para as dificuldades que o Master enfrentava.
Em 28 de março de 2025, anunciou um acordo
para adquirir 58% do capital total do banco de Vorcaro, reunindo 49% das ações
ordinárias e todas as preferenciais.
A operação Compliance Zero apurou que o BRB
aportou cerca de R$ 12 bilhões no Master a título de aquisição de carteiras de
empréstimos consignados de origem "altamente duvidosa", conforme
aponta o relatório, que se mostraram "inexistentes ou inadimplentes."
Paulo Sérgio também recomendou cautela com
uma referência ao BRB: "entendo imprudente citar problema no canal
BRB", escreveu, acrescentando que a supervisão não tinha aquela percepção
e que restringiria a menção ao Master.
<><> Preparação para encontros
Segundo a investigação, o auxílio também
abrangia a preparação para encontros com a cúpula do Banco Central.
A representação afirma que Paulo Sérgio
enviava espontaneamente tópicos que Vorcaro deveria destacar em reunião com o
presidente da autarquia.
Antes de um encontro com o diretor de
fiscalização, Ailton Aquino, em fevereiro de 2024, teria advertido o banqueiro
de que poderia ser questionado sobre suas relações com a gestora de
investimentos Reag e com seu fundador, João Carlos Mansur.
No dia 15 de janeiro, a Reag, que agora se
chama CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, foi liquidada pelo
Banco Central em meio a investigações conduzidas pela Polícia Federal que
apuram as suspeitas de que a empresa teria cometido fraudes financeiras junto
com o Banco Master.
Segundo as investigações, a gestora é
suspeita de usar seus fundos para praticar fraudes financeiras em benefício do
grupo Master, como movimentar recursos de forma atípica, inflar resultados e
minimizar riscos com indícios de lavagem de dinheiro.
A PF também descreve outros tipos de auxílio.
Um exemplo apontado é o de que Paulo Sérgio teria buscado a revisão de uma
posição negativa de órgãos controladores relativa à aquisição do Willbank pelo
Master.
Já em 2025, de acordo com a representação,
parte importante das conversas passou a tratar da compra do Master pelo BRB e
da cessão de créditos ao Banco de Brasília, no contexto da crise de liquidez do
Master.
<><> Pagamento de R$ 500 mil e
contrato fictício
Para a PF, a relação com os servidores teria
uma contrapartida financeira dissimulada por empresas e contratos.
No caso de Belline, a representação descreve
uma proposta de trabalho articulada por Vorcaro e por seu cunhado Fabiano
Zettel, mas assinada por Leonardo Augusto Furtado Palhares, por meio de uma
empresa de consultoria.
A PF diz que um controle de "despesas
fixas mensais" compartilhado entre Zettel e Vorcaro incluía o pagamento de
R$ 500 mil semestrais para Belline. O servidor negou saber que o Master pudesse
ser responsável pelos pagamentos.
A proposta foi encaminhada ao e-mail pessoal
do servidor, segundo o documento.
O serviço formalmente proposto era um estudo
técnico, econômico e social sobre a inserção de jovens no mercado financeiro.
Os investigadores sustentam que a contratação
era fictícia e servia para remunerar Belline por sua atuação em favor do
Master.
A imagem da carta reproduzida na
representação da PF convida o servidor a integrar um grupo de desenvolvimento
do projeto e traz a assinatura de Palhares, em nome da consultoria.
As vantagens suspeitas não se resumiam ao
contrato, segundo a PF. A representação menciona ordens de Vorcaro para custear
almoço, jantar e guia para Belline em Paris.
No caso de Paulo Sérgio, um dos negócios
analisados pelas autoridades é a venda de um imóvel rural que pertencia a ele e
ao irmão.
Segundo a PF, Zettel enviou a Vorcaro, em 15
de janeiro de 2020, uma minuta de compra e venda por R$ 4,8 milhões. A
propriedade foi transferida em 6 de outubro de 2021 à Pipe Participações,
empresa cujo sócio era Zettel.
Os investigadores consideram suspeito que a
negociação fosse coordenada por Vorcaro, embora a compradora fosse a empresa de
seu cunhado.
Para a PF, a Pipe pode ter sido usada como
intermediária em uma transação relacionada ao vínculo entre Vorcaro e o
servidor.
Paulo Sérgio deu outra explicação ao Banco
Central. Disse que recebeu, em 2019, uma proposta de R$ 4,5 milhões pelo
terreno, onde o comprador pretendia fazer um loteamento, e que só soube do
parentesco com Vorcaro na escrituração, em 2021.
Uma viagem de Paulo Sérgio à região da
Disney, prevista para fevereiro de 2024, também entrou na apuração. A imagem de
conversa mostra o servidor enviando seu roteiro a Vorcaro, que o repassou a um
prestador de serviços com a instrução: "Preciso arrumar guia". Ao ser
perguntado sobre ingressos, Paulo Sérgio respondeu que já tinha todos. A PF
interpreta o auxílio como vantagem indevida.
Vorcaro elogiou a ajuda recebida de Paulo
Sérgio diante de Zettel: "tá sendo um anjo na vida".
Procuradas pela BBC News Brasil, as defesas
de Daniel Vorcaro, Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza não se
manifestaram sobre os elementos mais recentes trazidos pela representação da
PF. A BBC News Brasil também procurou o Banco Central, o BRB e a Reag para
comentar, mas ainda não obteve resposta.
Em nota à imprensa, divulgada em abril de
2026, a defesa de Belline Santana, representada pelo advogado Leonardo Palazzi,
afirmou que não houve favorecimento a nenhuma instituição financeira por parte
de seu cliente, ressaltando que se espera o resguardo do contraditório nas
instâncias competentes.
À época, a defesa afirmou que o exercício das
funções de Belline no Banco Central não se confunde com outras atividades
lícitas, "não havendo desvio de finalidade ou obtenção de vantagem
indevida".
Em agosto de 2026, a defesa de Paulo Sérgio
Neves de Souza, representada pelo advogado Odel Antun, também em nota à
imprensa disse, sobre outro aspecto do caso, que seu cliente esteve
"ativamente envolvido na identificação, apuração e formalização das duas
principais irregularidades apontadas no Banco Master".
Segundo a defesa, ele ajudou a preparar as
representações encaminhadas ao Ministério Público Federal que resultaram nas
duas primeiras fases da Operação Compliance Zero.
Fonte: Por Ricardo Queiroz Pinheiro, em
Outras Palavras/BBC News Brasil

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