sábado, 12 de setembro de 2026

Exposição à luz à noite pode prejudicar estrutura e função do coração

 A exposição à luz durante a noite está ligada a alterações importantes e potencialmente prejudiciais na estrutura e função do coração. A conclusão é de um estudo liderado pela Universidade de Tulane, em Nova Orleans, nos Estados Unidos. Para o trabalho, os cientistas avaliaram mais de 11 mil pessoas. A pesquisa foi publicada nesta quarta-feira (09/09), na revista European Heart Journal.

"Estudos observacionais anteriores associaram a exposição à luz noturna a um risco maior de doenças cardiovasculares, mas pouco se sabe sobre as alterações estruturais e funcionais cardíacas relacionadas. Realizamos esta pesquisa para descobrir o que acontece com o coração ao longo do tempo quando as pessoas são expostas a muita luz durante a noite", afirmou o professor Lu Qi, líder da pesquisa.

O trabalho incluiu 11.071 pessoas que faziam parte do UK Biobank, um banco de dados do Reino Unido. Todos os participantes usaram um sensor de luz no pulso durante sete dias para medir os níveis de claridade durante a noite. Três anos depois, os voluntários fizeram uma ressonância magnética para examinar cuidadosamente as estruturas e funções do coração.

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Em seguida, os pesquisadores compararam pessoas expostas a níveis de luz superiores a três lux — unidade de medida do Sistema Internacional de Unidades para a iluminância — com pessoas sem acesso a praticamente nenhuma claridade durante a noite.

A equipe demonstrou que pessoas com alta exposição à luz noturna apresentavam espessamento da parede do ventrículo esquerdo, uma das câmaras do coração, reduzindo o espaço interno da câmara. Havia indícios de que a capacidade do músculo cardíaco de se contrair durante os batimentos estava reduzida. Este é um indicador precoce de disfunção cardíaca. Os pesquisadores também encontraram alterações nos ventrículos direitos e nos átrios esquerdos, outras duas câmaras do órgão.

<><> Remodulação cardíaca

O professor Qi afirmou que este é o primeiro estudo do gênero e demonstra que a exposição a níveis mais elevados de luz durante a noite está ligada à remodelação cardíaca. "É nesse processo que a estrutura e a função do coração se alteram, o que normalmente observamos em resposta ao estresse crônico ou a lesões cardíacas. É a forma que o nosso corpo encontra para se adaptar a esse estresse, mas, em última análise, isso enfraquece o coração e pode levar à insuficiência cardíaca."

"A poluição luminosa surgiu como um novo fator de risco para doenças cardiovasculares. Nossos resultados, juntamente com evidências de outros estudos, sugerem que a redução da exposição à luz noturna deve ser considerada como uma das estratégias potenciais para a prevenção de doenças cardíacas por médicos e formuladores de políticas públicas."

Segundo Gabriel Romão Borges Piau, cardiologista da clínica Cárddio, em Brasília, a luz à noite pode desregular o ritmo circadiano, o relógio biológico do corpo, que participa do controle da pressão arterial, frequência cardíaca e metabolismo cardíaco. "A luminosidade também reduz a produção de melatonina e impacta diretamente na qualidade e na duração do sono", explica.

"O estudo sugere, ainda, envolvimento de alteração autonômica — responsável por manter o equilíbrio do nosso corpo —, inflamação, alterações vasculares e metabólicas, que podem levar ao remodelamento e consequentemente à piora da função cardíaca", completou o especialista.

Em comentário adicional, o professor Thomas Münzel, do Centro Médico Universitário de Mainz, na Alemanha, e seus colegas afirmaram que é hora de os médicos, principalmente aqueles que tratam pacientes com insuficiência cardíaca ou fibrilação atrial, começarem a questionar o ambiente de sono. "Quão escuro está o quarto, se o paciente trabalha em turnos noturnos e quanto tempo usa telas após o pôr do sol. As recomendações são simples e baratas: cortinas blackout, iluminação de cabeceira com luz quente e cobertura dos pequenos LEDs de espera em aparelhos eletrônicos domésticos."

Segundo eles, do ponto de vista da saúde pública, as implicações são ainda maiores. "A poluição luminosa é um dos poucos riscos ambientais que as cidades podem controlar direta e economicamente. Luminárias protegidas, lâmpadas de espectro quente e postes de iluminação com regulagem de intensidade ou acionados por movimento já estão disponíveis, são energeticamente eficientes e ecologicamente corretos."

O cardiologista Thiago Germano diz que, além de estímulos não desejáveis na hora de dormir, outros problemas podem trazer riscos ao coração durante o descanso. "Por exemplo, a apneia do sono, uma condição clínica em que o sono é interrompido diversas vezes durante a noite por pausas respiratórias, cursando com estímulo simpático deletério ao sistema cardiovascular. Essa condição clínica deve ser diagnosticada e tratada adequadamente."

>>> Palavra de especialista - Carlos Nascimento, cardiologista do Hospital Brasília Águas Claras, da Rede Américas

# Resposta ao ambiente

"Hoje sabemos que dormir bem  não significa apenas repousar um certo número de horas. Importam também a qualidade, a regularidade e o horário do sono, além de doenças como a apneia. Dormir pouco, ter um sono muito fragmentado, trabalhar frequentemente à noite ou variar demais os horários de dormir e acordar pode prejudicar a saúde cardiovascular. Isso acontece porque o sono é um período de recuperação do organismo. Durante a noite, em condições normais, ocorre uma redução da frequência cardíaca e da pressão arterial. Quando esse descanso é interrompido repetidamente, pode haver maior ativação do sistema nervoso, aumento da pressão, inflamação, resistência à insulina e maior risco de obesidade. Tudo isso, ao longo do tempo, pode repercutir no coração. O que mais chama atenção nesse trabalho é que ele reforça uma ideia cada vez mais importante na cardiologia: o coração também responde ao ambiente. Durante muito tempo, quando falávamos em prevenção cardiovascular, pensávamos principalmente em pressão alta, colesterol, diabetes, tabagismo, alimentação e exercício. Tudo isso continua sendo fundamental. Mas hoje sabemos que sono, poluição, ruído, luz noturna e desorganização do ritmo circadiano também podem influenciar a saúde ao longo dos anos."

•        Passos ajudam a reduzir o risco de morte, mostra estudo

Diminuir o número de passos diários, mas acelerar o ritmo, ou aumentar a quantidade mantendo a marcha mais lenta pode reduzir significativamente o risco de morte prematura para pessoas com estilo de vida sedentário. É o que sugere uma pesquisa publicada no British Journal of Sports Medicine.

Segundo as evidências atuais, um maior número de passos diários é fundamental para prevenir mortes prematuras. Porém, segundo os autores, da Universidade Monash, na Austrália, ainda não está claro qual o papel da intensidade da caminhada ou como diferentes combinações de passos e ritmos podem influenciar esse risco.

Os pesquisadores analisaram dados de 103.684 participantes de meia-idade do Reino Unido que usaram um rastreador de atividades por sete dias consecutivos entre 2013 e 2015 para monitorar o número e a intensidade dos passos diários dados. A contagem foi dividida em quatro categorias: 0-5 mil; 5 mil-7,5 mil; 7,5 mil-10 mil; e mais de 10 mil. A cadência das passadas também foi medida.

<><> Óbitos

Em seguida, acompanharam até o fim de novembro de 2022 o número de pessoas que morreram por qualquer causa ou por doenças cardiovasculares. Durante um período médio de acompanhamento de cerca de oito anos, houve 1.697 óbitos por motivos diversos e 502 relacionados a problemas do coração ou acidente vascular cerebral.

 A análise mostrou que diferentes combinações de contagem e ritmo de passos foram associadas a um menor risco de morte. Por exemplo, a chance foi substancialmente menor entre aqueles que caminharam com mais intensidade (pelo menos 80 passos/minuto), mas em pouca quantidade (menos de 5 mil). A mortalidade também foi reduzida entre os que andaram mais (entre 5 mil e 7,5 mil), porém lentamente (60 passos/minuto), comparado aos sedentários.

Segundo os pesquisadores, uma intensidade maior da atividade física com um volume menor pode proporcionar benefícios à saúde comparáveis aos de práticas menos vigorosas, porém com maior duração. "Nossos resultados contribuem para a base de evidências de abordagens baseadas em passos, que visam tanto a contagem diária quanto a intensidade da atividade física, para reduzir o risco de mortalidade, e podem orientar intervenções baseadas em passos para adultos de meia-idade e idosos, particularmente indivíduos com dificuldades para aumentar a contagem diária de passos ou a intensidade da atividade física", escreveram os autores.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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