sábado, 12 de setembro de 2026

Vacina contra covid protege contra doença ocular de causa desconhecida

A vacinação contra a covid-19 pode reduzir em 82% o risco de desenvolvimento de uma doença ocular rara, porém grave, a uveíte idiopática. Segundo um estudo publicado no American Journal of Ophthalmology, a proteção foi observada até três meses após a imunização. Os pesquisadores também encontraram uma associação semelhante entre pessoas vacinadas contra HPV, varicela e herpes-zóster.

A uveíte é uma inflamação que atinge a úvea, estrutura localizada na região intermediária do olho. A doença pode provocar dor, vermelhidão, sensibilidade à luz, visão embaçada e o aparecimento de pontos ou manchas no campo visual. Dependendo da região afetada e da intensidade do processo inflamatório, a condição compromete a visão.

No estudo, os pesquisadores avaliaram pessoas que haviam recebido vacinas contra covid-19, HPV, varicela e herpes-zóster entre 2006 e 2025 e as compararam a indivíduos não vacinados com características semelhantes. O objetivo era investigar a ocorrência de novos casos de uveíte idiopática — ou seja, aquela em que não é identificada uma causa específica.

<><> Herpes-zóster

Entre os vacinados contra a covid-19, o risco de desenvolver uveíte idiopática foi 82% menor três meses após a vacinação. A redução foi de 75% em seis meses e de 65% em um ano. O efeito, porém, não ficou restrito à vacina contra o coronavírus. Após 12 meses, a imunização contra varicela esteve associada a uma redução de 71% de casos, enquanto a substância recombinante contra herpes-zóster apresentou diminuição de 69% das ocorrências. Para a vacina contra HPV, o percentual foi de 56%.

Os autores acreditam que a explicação para o risco reduzido esteja relacionada à maneira como as vacinas interferem na resposta imunológica. No caso dos imunizantes contra varicela e herpes-zóster, existe ainda uma relação mais direta, já que o vírus varicela-zóster é conhecido pela associação com quadros de uveíte. No Para covid-19 e HPV, uma modulação mais ampla do sistema imunológico é um dos mecanismos mais prováveis.

<><> Cautela

A oftalmologista Vanessa Rocha, do CBV-Hospital de Olhos, ressalta que o resultado deve ser interpretado com cautela. Por se tratar de uma pesquisa retrospectiva e observacional, o trabalho identifica uma associação, mas não estabelece uma relação de causa e efeito, argumenta. “Os achados do estudo fornecem evidências preliminares de um possível benefício protetor da vacinação contra diversas doenças virais sobre a incidência de uveítes.”

Além disso, a oftalmologista lembra que existem relatos de recorrência da inflamação ocular depois da vacinação contra a covid-19 em pessoas que já tinham histórico da doença. Uma pesquisa publicada em 2024, por exemplo, encontrou aumento do risco de uveíte após a vacinação em pessoas com antecedente de uveíte, embora outros trabalhos tenham chegado a resultados diferentes. “Nesses casos, devemos considerar a atividade da doença, causa, imunossupressão e benefícios da vacina para aquele paciente”, diz.

Para a oftalmologista, apesar das limitações, a descoberta abre uma frente de investigação relevante. “O que o estudo mostrou foi que, para a população geral, existe uma possível associação protetora das vacinas contra a incidência de uveíte idiopática, questão ainda pouco investigada e potencialmente relevante para a saúde pública.”

•        Extensão de cílios pode favorecer ácaros e causar problemas nos olhos

O desejo por cílios mais longos e volumosos pode vir acompanhado de um problema que passa despercebido a olho nu: o ácaro Demodex folliculorum. Um estudo apresentado no 44º Congresso da Sociedade Europeia de Catarata e Cirurgia Refrativa (ESCRS), em Londres, encontrou o micro-organismo em praticamente todas as mulheres examinadas que faziam o procedimento regularmente.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Departamento de Oftalmologia da National Pirogov Memorial Medical University, na Ucrânia. "As extensões de cílios são um procedimento cosmético extremamente popular entre as mulheres jovens, pois proporcionam a aparência de cílios mais longos e volumosos sem a necessidade de rímel. Ao mesmo tempo, há evidências crescentes que sugerem que esse procedimento pode causar problemas na superfície ocular, incluindo irritação, sintomas de olho seco e disfunção das glândulas de Meibomius", disse, em nota, Tetiana Zhmud, do Departamento de Oftalmologia da Universidade Nacional de Medicina Pirogov, que apresentou o estudo.

Ao todo, 345 mulheres de 16 a 28 anos participaram da pesquisa. Quase um quarto já havia feito extensão de cílios e, entre as usuárias, 58% realizavam o procedimento a cada três ou quatro semanas. Depois da aplicação, 47,6% relataram algum tipo de desconforto, incluindo vermelhidão, lacrimejamento, coceira ou irritação.

<><> Proliferação

Embora a presença do Demodex não signifique, necessariamente, uma doença, a proliferação associada à inflamação ou alterações nas estruturas das pálpebras é problemática. No estudo, 72% das participantes tinham sinais compatíveis com irritações provocadas pelos ácaros, como coceira, vermelhidão, inchaço, cílios grudados e descamação na base dos fios.

Entre as mulheres que haviam realizado o procedimento pelo menos 10 vezes, 85% tinham sinais de disfunção das glândulas de Meibomius. "A extensão dos cílios e a cola podem favorecer a obstrução das glândulas, que ficam na borda das pálpebras e produzem a parte oleosa da lágrima, responsável por evitar que ela evapore rapidamente", esclarece o oftalmologista Marco Túlio Daier, especialista em plástica ocular do Visão Hospital de Olhos. "Quando essas glândulas ficam obstruídas ou não funcionam adequadamente, a qualidade da lágrima piora e o olho seco pode se agravar, aumentando sintomas como ardência, sensação de areia, vermelhidão e desconforto."

Os ácaros são micro-organismos que vivem nos folículos dos pelos, alimentando-se de células e secreções. Quando estão presentes em quantidade elevada e provocam inflamação, podem estar relacionados à chamada blefarite por Demodex. Um dos sinais característicos são os chamados collarettes — pequenas estruturas semelhantes a anéis ou cilindros que ficam aderidas à base dos cílios. Elas são formadas por resíduos, ovos, células da pele e material produzido por esses seres microscópicos.

<><> Higiene

A pesquisadora Tetiana Zhmud destaca que pode haver associação entre a proliferação de ácaros com a falta de higiene tanto da aplicação quanto da manutenção. "Acreditamos que as extensões e a maneira como são aplicadas e higienizadas possam alterar o ambiente próximo à raiz dos cílios, dificultando a limpeza da região e favorecendo o acúmulo de resíduos. É nessa área que o Demodex costuma ser encontrado", diz.

Segundo o oftalmologista Marco Túlio Daier, é possível reduzir riscos adotando algumas medidas, como a escolha do profissional, a utilização de produtos regularizados, a verificação da composição da cola e evitar fazer a extensão quando houver conjuntivite, blefarite ou outra inflamação ocular ativa. "Ao primeiro sinal de reação importante, retirar as extensões com um profissional e procurar avaliação oftalmológica", ensina.

O novo estudo se soma a um conjunto de investigações sobre os efeitos das extensões sobre a superfície dos olhos. Uma pesquisa com 416 pessoas publicada na revista Córnea comparou 208 usuárias de extensões com 208 mulheres que não utilizavam o procedimento. Entre as primeiras, houve mais relatos de lacrimejamento, perda dos cílios naturais e secreção ocular. Elas também tiveram maior frequência de alterações ciliar, instabilidade do filme lacrimal e alterações nas glândulas de Meibomius.

<><> Cola

Além da proliferação de micro-organismos, a cola usada para fixar os fios artificiais pode trazer problemas às usuárias. Há relatos na literatura científica de ceratoconjuntivite, blefarite, erosões da superfície ocular e outros problemas após a aplicação. O peso e a tração dos fios também podem contribuir para a perda dos cílios naturais.

Uma análise da Universidade de Minnesota publicada na revista Dermatitis avaliou 37 colas para extensões vendidas nos Estados Unidos e encontrou formaldeído em 75% das 20 amostras profissionais e em quatro das 17 destinadas ao consumidor. Essa é uma substância reconhecida como carcinogênica. Embora a quantidade usada no procedimento seja insuficiente para causar câncer, ela pode provocar dermatite de contato alérgica nas pálpebras.

 Quatro perguntas para Patrícia Moitinho - oftalmologista especialista em plástica ocular do HOB

•        A cola usada na extensão de cílios pode provocar alergias, inflamação ou lesões na superfície ocular?

Tenho recebido muitas pacientes no consultório com queixas após extensão de cílios. O procedimento é estético, mas as complicações são oftalmológicas. Problemas com a cola é a complicação mais comum. A maioria delas contém cianoacrilato, substância que irrita a superfície ocular durante e após a aplicação, podendo causar ceratoconjuntivite química, vermelhidão, lacrimejamento e sensação de areia. Com o tempo, a cola acumula resíduos na base dos cílios, obstrui as glândulas de Meibomius e gera inflamação crônica da borda palpebral, que chamamos de blefarite. Casos de abrasão de córnea por pinças e queimadura química também são descritos quando a cola escorre.

•        O uso frequente pode causar perda permanente dos cílios naturais ou danos aos folículos?

Pode causar, sim, até perda definitiva dos cílios, em casos de uso crônico e sem intervalo. Existem dois mecanismos que fazem isso acontecer: o tradicional e o inflamatório. No primeiro caso, o peso e a tração contínua da extensão sobre o cílio natural causam perda do pelo por tração. Já a inflamação crônica da borda (blefarite) e a obstrução das glândulas levam à foliculite, disfunção meibomiana e enfraquecimento do folículo. O intervalo sem a extensão é importante para recuperação dos fios.

•        Que sinais de alerta indicam que a pessoa deve procurar um oftalmologista imediatamente?

Qualquer anormalidade na região dos olhos precisa ser investigada, mas principalmente vermelhidão intensa que não melhora em 24h, dor ocular e sensação de corpo estranho nos olhos, inchaço palpebral, pálpebras grudadas ao acordar, secreção amarelada, coceira intensa, lacrimejamento constante, visão embaçada, sensibilidade excessiva à luz, perda dos cílios naturais em tufos ou falhas visíveis, cílios naturais que começam a crescer para dentro. É importante lembrar também que a remoção inadequada, muitas vezes feita em casa, causa perda maior de cílios por tração.

•        O que se sabe sobre formaldeído e substâncias tóxicas nos adesivos?

Para aumentar a durabilidade da cola, alguns adesivos liberam pequenas quantidades de formaldeído, mesmo quando o rótulo do produto diz "formaldehyde-free". O formaldeído é classificado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer como carcinógeno, mas a associação com câncer no contexto de extensão de cílios é considerada pequena pela pouca quantidade de uso do produto. O risco real e comprovado não é o câncer, é a toxicidade local, já que o formaldeído é um potente alérgeno e irritante, causador de dermatite de contato palpebral alérgica, que é crônica e recorrente. A Anvisa exige rotulagem, mas muitos produtos são importados sem fiscalização.

>>>  Palavra de especialista - Christiana Modenese, dermatologista da Clínica Derm

# Mais tempo, mais complicações

A extensão de cílios pode favorecer a proliferação de D. folliculorum à medida que dificulta a higiene da base dos cílios e das pálpebras. Esse ácaro vive ao redor do folículo piloso, na base dos cílios, e se a higiene da região for comprometida, o acúmulo de secreção pelas glândulas favorece o crescimento dos ácaros. De maneira ilustrativa, é como se o Demodex tivesse maior oferta de alimento e crescesse mais. Quanto maior o tempo de permanência da extensão dos cílios, maior o risco de complicações. No intervalo entre as extensões ocasionais, existe a possibilidade de cuidar melhor da área, higienizando e hidratando a região. Pessoas com pele sensível, dermatites ou tendência à blefarite (que é a inflamação das pálpebras) devem evitar esse tipo de procedimento. Os produtos usados para fixação dos fios pode agravar esses quadros. Mesmo aquelas pessoas que nunca tiveram dermatites nessa região podem desenvolver alergias com uso repetido da extensão dos cílios.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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