O
Brasil precisa prender mais?
A
afirmação de que, no Brasil, “se prende muito e se prende mal” tem sido
reproduzida nos últimos anos por diferentes profissionais e estudiosos do
sistema de justiça criminal brasileiro. Por outro lado, a velha ideia de que o
Brasil prende pouco, e de que precisamos prender ainda mais, parece ganhar cada
vez mais espaço no debate político e eleitoral deste ano, tornando-se uma das
principais propostas de diferentes candidatos para os problemas de violência e
segurança.
As duas
percepções dividem opiniões e têm alimentado o debate público, principalmente
na internet, inclusive porque, dependendo dos dados considerados e da forma
como são interpretados, ambas aparentam encontrar certo respaldo.
Em
números absolutos, o Brasil está entre os países com as maiores populações
prisionais do mundo. Quando se considera o número de pessoas presas
proporcionalmente à população geral, o país cai algumas posições, mas ainda
permanece em colocação relevante no ranking internacional. Isso, somado à
superlotação do sistema prisional, confere respaldo à percepção de que
prendemos muito.
A ideia
de que prendemos mal, por sua vez, decorre de estudos e pesquisas que apontam a
atuação limitada e seletiva do sistema de justiça criminal, que tende a
alcançar com maior frequência fatos de menor complexidade, praticados de forma
grosseira ou de fácil constatação, e pessoas em posições sociais mais
vulneráveis, enquanto outros fatos e indivíduos, ainda que mais danosos ou
relevantes, são atingidos com menor frequência e intensidade. Soma-se a isso a
ocorrência de erros, descuidos e flexibilizações indevidas de procedimentos e
garantias que levam pessoas inocentes à prisão.
Por
outro lado, quando se observa a quantidade de crimes registrados e,
principalmente, quantos deles são estatisticamente considerados esclarecidos ou
resultam em prisão, os índices podem levar à conclusão de que, diante da
criminalidade aparente e da sensação de insegurança, o Brasil prende pouco, ou
menos do que deveria.
Assim,
não há como negar o número expressivo de pessoas atualmente privadas de
liberdade no país, os custos financeiros e humanos que isso representa e o
déficit de vagas no sistema prisional. Também não há como negar que o crime, a
violência e a insegurança permanecem, há anos, entre as maiores preocupações da
população.
Mas,
apesar da aparente popularidade que essa ideia tem alcançado nas mais diversas
campanhas eleitorais, será que prender mais é realmente a “solução” de que
precisamos?
A
questão criminal é muito mais complexa do que alguns discursos populistas fazem
parecer. Antes de tudo, precisamos ter em mente que o conceito de crime reúne
uma enorme variedade de condutas, completamente diferentes entre si e que,
muitas vezes, têm em comum apenas o fato de terem sido criminalizadas. Crimes
diferentes são praticados em contextos diferentes, por pessoas diferentes, com
motivações diferentes e sob a influência de fatores também diferentes.
Um
feminicídio praticado em um contexto de violência de gênero não pode ser
compreendido da mesma forma que um furto relacionado a um contexto de
vulnerabilidade socioeconômica. Nenhum deles, por sua vez, responde
necessariamente à mesma lógica dos crimes econômicos ou daqueles praticados no
âmbito das chamadas “organizações criminosas ultraviolentas”.
Se os
crimes são diferentes, os contextos são diferentes, as motivações são
diferentes e os fatores envolvidos são diferentes, por que esperamos que todos
eles tenham uma única solução?
A
prisão pode representar uma resposta à violação da lei penal e uma forma de
retribuição e responsabilização de quem pratica determinados crimes, enquanto
não encontramos algo melhor. Mas, apesar de ser a consequência comum que
atualmente elegemos para todas essas condutas tão distintas entre si, a prisão
não é a solução universal para os múltiplos fatores que levam à sua ocorrência.
Reconhecer
essa limitação não significa, necessariamente, defender o abandono completo da
prisão, mas parar de apostar nela como uma fórmula mágica para todos os grandes
problemas criminais do Brasil enquanto quase nada se faz além disso. Afinal, a
prisão atua essencialmente depois do fato: quando chegamos ao ponto de prender
alguém, o crime, em tese, já aconteceu e o eventual dano já foi causado.
Talvez
devêssemos começar a questionar quais os principais fatores relacionados à
ocorrência dos diferentes crimes que mais atingem e preocupam a população
brasileira e o que podemos fazer, em termos de políticas públicas, para tentar
diminuir sua incidência e evitar os danos que provocam, muito antes de precisar
prender.
Talvez
devêssemos questionar por que estamos precisando prender tanto e por que,
apesar do tamanho da nossa população prisional, seguimos achando que precisamos
prender ainda mais.
Em mais
um ano eleitoral, velhas “soluções” voltam a ser apresentadas como novas para
problemas que permanecem entre as maiores preocupações da população brasileira.
“Prender mais” é uma proposta de fácil compreensão e forte apelo eleitoral, mas
que, isoladamente, já mostrou ao longo dos anos que pouco contribui para evitar
que os diferentes crimes aconteçam. Vemos, como diria Cazuza, “um museu de
grandes novidades”.
Uma boa
política de segurança não deve ser medida apenas por quantas pessoas são
presas, mas, principalmente, por sua capacidade de diminuir e evitar aquilo que
torna essas prisões necessárias. Lembremos disso nessas e nas próximas
eleições.
Fonte:
Por Khalil Pacheco Ali Hachem , no Le Monde

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