sábado, 12 de setembro de 2026

Dormir mal afeta a tolerância ao estresse, mostra pesquisa

 A qualidade do sono parece ter um papel decisivo na forma como o cérebro reage a situações de estresse. É o que sugere um novo estudo publicado nesta segunda-feira (07/09) ontem, na revista JNeurosci, que investigou a relação entre a atividade cerebral durante o sono não REM (movimento rápido dos olhos) e a capacidade de lidar com experiências sociais estressantes. A pesquisa foi liderada pela Morehouse School of Medicine, nos Estados Unidos.

Segundo o estudo, o sono não REM representa a maior parte do período de descanso dos adultos e está associado a processos restauradores do organismo. Dentro dessa fase, o chamado sono de ondas lentas, ou profundo, é considerado especialmente importante para a recuperação cerebral. Embora já se soubesse que ele está ligado à resiliência diante do estresse, os mecanismos cerebrais responsáveis por essa relação ainda não eram totalmente compreendidos.

Para investigar o fenômeno, os pesquisadores utilizaram modelos animais e se concentraram na análise no córtex pré-límbico, uma região cerebral envolvida na contextualização das respostas emocionais. Durante o sono, foi observada uma redução da atividade dos neurônios nessa área, um processo característico do estado de repouso cerebral.

O resultado mais significativo foi a associação entre o grau de supressão da atividade no córtex pré-límbico durante o sono profundo e a capacidade dos animais de resistir aos efeitos comportamentais de experiências estressantes. Quanto mais pronunciado era o silenciamento dos neurônios durante o sono de ondas lentas, maior parecia ser a resiliência apresentada pelos camundongos.

Os pesquisadores também identificaram mudanças na atividade neural depois que os animais foram submetidos a situações de estresse. Houve uma reorganização da atividade no córtex pré-límbico, com uma redistribuição da velocidade de disparo dos neurônios. A alteração sugere que o cérebro não apenas responde ao estresse, mas também modifica sua dinâmica neural após a experiência.

Para Christopher Ehlen, primeiro autor do estudo, os resultados indicam que a qualidade do sono pode influenciar diretamente a capacidade do córtex pré-límbico de controlar respostas emocionais. Segundo o pesquisador, essa regulação estaria relacionada à taxa de disparo dos neurônios.

A hipótese levantada pela equipe é que animais mais suscetíveis aos efeitos do estresse tenham um sono menos profundo. Já nos considerados resilientes, o sono profundo poderia preservar uma resposta neural capaz de limitar ou regular os efeitos emocionais provocados pelo estresse.

<><> Redes neurais

O psiquiatra e professor de medicina do Ceub, Lucas Benevides, destaca que o sono é fundamental para a regulação emocional e para o bom funcionamento das funções cognitivas. “É durante esse período que o cérebro consolida memórias e aprendizados, além de manter a integridade das redes neurais. Um sono de boa qualidade também reduz os níveis de ansiedade. Por isso, quem dorme bem tende a ter mais flexibilidade mental e a lidar melhor com as emoções diante dos desafios do dia a dia.”

A psicóloga Cláudia Melo, do Rio de Janeiro, detalha que a falta de sono pode aumentar a irritabilidade, a impaciência e a reatividade emocional, além de prejudicar a atenção, a concentração e a tomada de decisão. “Existe algo muito importante: cansados, nós não apenas sentirmos mais dificuldade para resolver um problema. Podemos também perceber esse problema de uma maneira diferente, mais ameaçadora ou mais difícil de administrar.”

Segundo ela, na ansiedade essa questão fica muito evidente. “A pessoa está preocupada e não dorme. No dia seguinte, está cansada, mais sensível emocionalmente e com menos recursos para lidar com aquilo que já a preocupava. Chega a noite, a cabeça continua acelerada, e ela novamente não consegue dormir. É uma relação de mão dupla: a ansiedade pode tirar o sono, e a falta de sono pode alimentar a ansiedade. Quando esse ciclo se instala, precisamos olhar para os dois lados.”

O próximo passo da pesquisa será testar essa hipótese de maneira mais direta. Os cientistas pretendem avaliar se a privação de sono em camundongos que demonstram resiliência ao estresse provoca alterações na atividade neuronal do córtex pré-límbico e, consequentemente, modifica seu comportamento diante de novas experiências estressantes.

Embora os resultados tenham sido obtidos em animais, os pesquisadores esperam que as descobertas possam contribuir para futuras investigações em humanos. A expectativa é identificar marcadores neurobiológicos capazes de indicar maior resiliência ou, ao contrário, maior suscetibilidade aos efeitos do estresse.

>>> Palavra de especialista - Izabelle Santos, psicóloga clínica e hospitalar do Hospital Anchieta

# Cuidar do descanso

"Considero importante lembrar que sono e saúde mental estão profundamente conectados. Muitas vezes, quando estamos emocionalmente sobrecarregados, o sono é um dos primeiros aspectos da rotina a ser afetado. Ao mesmo tempo, noites mal dormidas reduzem nossa capacidade de enfrentar justamente aquilo que está nos causando sofrimento. Por isso, cuidar do sono não deve ser visto como luxo ou perda de tempo, mas como uma forma de cuidado com a saúde. Também precisamos repensar a ideia de que dormir pouco é sinônimo de produtividade. Descansar é uma necessidade biológica e emocional, e não um sinal de fraqueza. Precisamos compreender que o corpo e a mente não funcionam de maneira separada. Quando estamos emocionalmente exaustos, nosso organismo sente. E quando estamos fisicamente exaustos, nossa capacidade de lidar com as emoções também pode ser afetada. Por isso, cuidar do sono é também cuidar da nossa capacidade de pensar, sentir, tomar decisões e enfrentar as adversidades. Quando as alterações do sono persistem ou começam a comprometer a rotina, o trabalho, os relacionamentos e a qualidade de vida, procurar ajuda profissional é uma atitude de cuidado, e não de fracasso."

<><> Pesquisadores tentam desvendar os segredos do envelhecimento saudável

Um novo estudo liderado por pesquisadores do King's College London demonstra que fatores genéticos e influências ambientais interagem de forma contínua ao longo da vida. A pesquisa, publicada na revista Science, é considerada o estudo molecular mais abrangente sobre envelhecimento até o momento.

A equipe observou como múltiplas variantes genéticas moldam o processo de envelhecimento. Pesquisadores identificaram diferentes padrões de mudança em participantes com um gene ligado ao envelhecimento cardíaco, o CXCL9. Também foi descoberto que os níveis do gene supressor de tumor TP53 diminuíram em certas pessoas com o passar do tempo, o que pode alterar o risco de câncer.

Essas alterações biológicas podem indicar tanto exposições ambientais distintas quanto uma predisposição genética a doenças. A identificação de indivíduos com maior risco abre caminho para futuras intervenções de saúde direcionadas e em estágios iniciais.

A pesquisa evidenciou ainda correlações entre exposições ambientais e a evolução dos perfis moleculares. Um exemplo é a variação nos níveis sanguíneos de PFAS, conhecidos como "químicos eternos". Isso mostra como medidas de saúde pública focadas em riscos ambientais podem gerar impactos em nível molecular.

<><> Rotas individuais de envelhecimento

O envelhecimento molecular é um processo que envolve o acúmulo de danos celulares e alterações químicas em moléculas como DNA e proteínas. Com o tempo, essa progressão leva a uma deterioração da função dos tecidos e a um risco elevado de doenças como câncer e distúrbios cardiometabólicos e neurodegenerativos.

O estudo mostra que, em vez de um roteiro único, as pessoas seguem trajetórias biológicas distintas. Dois indivíduos saudáveis da mesma idade podem envelhecer de maneiras muito diferentes em nível molecular, o que possibilita abordagens mais personalizadas para prever riscos e manter a saúde.

Para chegar a essa conclusão, a equipe mediu, ao longo de oito anos, os níveis de RNA no sangue, a atividade de cerca de 16.000 genes e centenas de metabólitos em 335 pessoas. Alguns participantes apresentaram alterações moleculares marcadamente diferentes e, por vezes, opostas.

Os resultados sugerem que o envelhecimento humano não é um processo uniforme, mas dinâmico e dependente do ambiente. Compreender as trajetórias individuais pode ajudar a distinguir o envelhecimento saudável dos estágios iniciais de doenças, permitindo intervenções mais precoces e contribuindo para o desenvolvimento da medicina de precisão.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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