Todo sofrimento é individual? Recorde de
suicídios expõe dívida, precarização e falta de futuro na Argentina
É um
domingo qualquer na Argentina. Treze argentinos decidirão tirar a própria vida.
Essa é a média de suicídios durante todos os domingos do ano. O local, com
altíssima probabilidade, é um domicílio particular: a casa, a sala de estar, o
quarto de sempre. Dois em cada três suicídios na Argentina ocorrem ali, no
lugar que se supõe protegido. Em oito de cada dez casos, trata-se de um homem.
Tem entre 20 e 34 anos, a faixa etária mais castigada do país.
Ninguém
fora daquela casa sabe ainda. Será mais um número em uma tabela que o
Ministério da Segurança da Nação publica todos os anos, com meticulosidade
notarial. O número frio é de 5.209 pessoas que tiraram a própria vida durante o
ano de 2025 ou, dito de outra maneira, um suicídio a cada uma hora e quarenta
minutos.
Desde
2016, a taxa de suicídios na Argentina vem subindo, mas o último ano deu um
salto que nenhuma projeção anterior havia antecipado: aumentaram 22% em relação
a 2024. E, no entanto — esta é a cena que nenhuma tabela registra —, ninguém
vai falar sobre isso durante a sobremesa do domingo.
<><>A
cifra que não está em nenhuma capa
Comecemos
pelo dado que deveria encabeçar a agenda pública, mas não o faz. Em 2025,
segundo informações estatísticas publicadas pelo Sistema Nacional de Informação
Criminal (SNIC), morreram na Argentina 11.111 pessoas por causas violentas.
Dessas, 5.209 cometeram suicídio: 46,9% do total.
Continua
após o anúncio
Nenhuma
outra causa provoca mais mortes. Nem os homicídios dolosos (15%), nem os
sinistros viários (32,2%), nem os homicídios culposos por outras causas (5,7%),
considerados separadamente, chegam perto dessa cifra. Dito de outro modo, e sem
metáforas: hoje morre na Argentina mais gente pelas próprias mãos e vontade do
que em um acidente de trânsito ou pelas mãos de outra pessoa. Desde 2023, o
suicídio é a principal causa de morte violenta do país, um pódio que até 2019
era ocupado pelos acidentes de trânsito.
<><>Dez
anos, uma curva que não cede
A série
histórica não deixa espaço para ambiguidades. Em 2016, foram registrados 2.897
suicídios, com uma taxa de 7,3 a cada 100 mil habitantes. Desde então, a única
queda significativa de toda a série ocorreu em 2020, em plena pandemia e com o
país em confinamento: 3.262 casos. Depois, a curva não voltou a olhar para
trás.
O salto
de 2025 (22,6% mais vítimas, 22,0% mais na taxa em relação a 2024) é, de longe,
a variação interanual mais pronunciada de toda a década; o segundo salto mais
forte da série, o de 2018, havia sido de 18,1%. Cabe um parêntese metodológico,
porque o próprio relatório oficial o exige: boa parte desse aumento nacional é
explicada por uma melhoria no sistema de registro de dados da província de
Buenos Aires, que pela primeira vez cruzou seus registros policiais com a
Procuradoria-Geral e com as certidões de óbito.
Isso
fez com que Buenos Aires passasse de 1.267 para 1.977 casos (+55,4%) de um ano
para o outro, e o próprio Ministério da Segurança Nacional esclarece que esse
aumento pontual não deveria ser interpretado como uma mudança real e repentina
do fenômeno, mas como a correção de uma subnotificação histórica. Não é uma boa
notícia; é a confirmação de que o problema, durante anos, foi ainda maior do
que nossas próprias estatísticas conseguiam mostrar.
Em
Córdoba, por outro lado, o aumento foi muito mais modesto: de 366 para 371
casos, apenas 0,8%, com uma taxa em torno de 9,9 a cada 100 mil habitantes, que
se mantém relativamente estável.
No
entanto, a distribuição dentro da província está longe de ser equitativa,
segundo o relatório do Observatório de
Segurança e Convivência da Província de 2025. Enquanto no departamento de
Colón são registrados 5,5 suicídios a cada 100 mil habitantes, na Capital são 7
e, em San Justo, 8; em Calamuchita, a taxa sobe para 20,2; em San Javier, chega
a 21,4 e, em Tercero Arriba, alcança 26,6.
Em
outras províncias, as diferenças também são marcantes em relação à média
nacional. Entre Ríos, com 20,8 suicídios a cada 100 mil habitantes, apresenta
atualmente a maior taxa provincial do país. La Rioja, Catamarca e Santa Cruz
também estão muito acima da média nacional.
<><>
Uma comparação que incomoda
A
Organização Mundial da Saúde calcula que, a cada ano, cerca de 1 milhão de
pessoas a mais morrem por suicídio no mundo do que por malária, HIV/aids,
câncer de mama, guerras ou homicídios, todos juntos. E adverte algo que
raramente é dito em voz alta: para cada suicídio consumado, há mais de vinte
tentativas. Se essa proporção se mantivesse na Argentina, os 5.209 suicídios
registrados em 2025 seriam apenas a ponta visível de um iceberg de mais de 100
mil tentativas em um único ano. Não existe, rigorosamente, um sistema de saúde
pública capaz de dizer com precisão quantas foram. Essa também é uma forma de
invisibilização.
A taxa
mundial de suicídios é de 9,2 a cada 100 mil habitantes. Na Argentina, chega a
11,8. Ou seja, desde 2025, estamos acima da média mundial. Na Argentina, mais
pessoas cometem suicídio do que na média do mundo. E essa diferença não é um
dado menor: são vidas que se perdem e que, no entanto, ainda não ocupam o lugar
que deveriam na agenda pública.
<><>
O mandato de potência em um mundo de impotência
Se o
suicídio tem um rosto na Argentina, é um rosto masculino. Durante 2024, dos
4.249 suicídios registrados, 3.425 foram de homens (80,6%) e 807 foram de
mulheres (19,0%). A proporção se mantém estável desde 2017: quase oito em cada
dez pessoas que tiram a própria vida neste país são homens. De cada cinco
suicídios, quatro são de homens. Há uma hipótese que a estatística,
sozinha, não explica, mas que pode iluminar: o mandato de potência em um mundo
de impotência.
A
masculinidade hegemônica, como mandato, não oferece para a derrota outro
repertório que não seja a ira para fora — contra a parceira, contra o outro,
contra o inimigo imaginário da vez — ou a ira para dentro que, em sua forma
mais extrema e mais silenciosa, é o suicídio. O neoliberalismo acrescentou
camadas aos velhos mandatos: já não basta ser forte, é preciso ser
bem-sucedido, produtivo, empreendedor de si mesmo.
Quando
o projeto de vida não dá resultado, o homem contemporâneo não tem sindicato,
não tem comunidade, não tem sequer uma linguagem disponível para nomear o
fracasso como experiência compartilhada: só tem culpa. E a culpa, quando não
encontra uma saída coletiva, converte-se na forma mais silenciosa e mais letal
da dor: aquela que se resolve portas adentro, no domicílio particular onde
ocorrem dois em cada três suicídios do país.
<><>
Os que partem jovens
Há
outro dado que deveria reorganizar todas as políticas de juventude do país: em
2024, 38% dos suicídios concentraram-se na faixa etária de 20 a 34 anos. As
idades de maior frequência — de 20 a 24 e de 25 a 29 anos — são exatamente
aquelas em que se supõe que uma pessoa termina os estudos, ingressa no mercado
de trabalho, constrói um projeto de relacionamento, imagina um futuro e
participa de espaços coletivos, políticos ou criativos.
São
também as idades em que a promessa neoliberal de mobilidade social por meio do
esforço individual colide com uma realidade muito diferente: múltiplos
empregos, salários insuficientes, trabalhos cada vez mais precários e aluguéis
que absorvem uma parcela crescente da renda.
A isso
se soma um fenômeno que merece muito mais atenção: o endividamento precoce.
Cada vez mais jovens recorrem a cartões de crédito, empréstimos pessoais e
créditos oferecidos por carteiras digitais, não para financiar um projeto
extraordinário, como a compra de uma casa, um terreno ou um automóvel, mas para
sustentar gastos cotidianos, pagar contas, chegar ao fim do mês ou cobrir
consumos básicos. A dívida deixa então de ser uma ferramenta excepcional e se
converte em uma condição permanente de entrada na vida adulta.
O
problema não é apenas econômico. Endividar-se em uma sociedade que celebra o
mérito individual produz uma tradução íntima de um fenômeno estrutural: aquilo
que é consequência de um mercado de trabalho incapaz de oferecer estabilidade,
de um custo de vida excludente e de um acesso desigual à moradia costuma ser
vivido como um fracasso pessoal.
E
quando o futuro começa com parcelas, juros e a sensação de estar sempre
correndo atrás de uma dívida que nunca termina de ser paga, também começa a se
desgastar a expectativa de um projeto de vida.
Outro
dado revelador é que 11,7% dos suicídios ocorrem por meio de armas de fogo, o
segundo método mais utilizado. O dado fala, entre outras coisas, de
acessibilidade: quanto mais disponível está um meio letal, maiores são as
possibilidades de que seja utilizado em uma crise.
Por
isso, a restrição do acesso a meios letais constitui uma das estratégias de
prevenção do suicídio com maior respaldo internacional e, particularmente no
caso das armas de fogo, uma intervenção que pode salvar vidas. No entanto, na
Argentina, as políticas de desarmamento voluntário foram abandonadas e as
condições para portar armas de fogo foram flexibilizadas sob uma exaltação
estúpida da liberdade.
A
estatística, para não se transformar em uma necrologia fria, precisa de uma
hipótese. A minha é que o que estamos vivendo não é apenas um aumento do
sofrimento humano. É a ruptura de uma dialética que, durante boa parte do
passado, permitiu que a dor se transformasse em direitos. Cada geração se
depara com seus próprios sofrimentos; a chave está em como os administra. Os
direitos humanos nunca foram uma concessão moral dos poderosos: foram
conquistas arrancadas a partir de dores que conseguiram ser tematizadas
socialmente e articuladas politicamente.
A
jornada de oito horas não nasceu da piedade patronal, mas de operários que
transformaram sua fadiga individual em reivindicação coletiva. O voto feminino
não nasceu de uma mudança de humor legislativo, mas de sofrimentos convertidos
em movimento organizado. Quando uma dor consegue ser decifrada como injustiça —
quando deixa de ser vivida como destino pessoal e passa a ser lida como
consequência de uma estrutura —, ativa-se o único mecanismo historicamente
comprovado para transformá-la: a ação coletiva.
O
filósofo sul-coreano Byung-Chul Han fala da sociedade algofóbica: uma sociedade
fóbica à dor que, em vez de processá-la coletivamente, desenvolve uma
engenharia da analgesia individual. O dogma é conhecido e brutal: se você não
se sente bem, é porque não se esforçou o suficiente. Quando todo o sofrimento é
interpretado como erro de cálculo pessoal ou falha de caráter, a dor deixa de
ser motor de transformação política e se converte em condenação ao silêncio. E
o silêncio, quando se acumula o suficiente, em alguns corpos, em algumas
histórias, termina na estatística do suicídio.
Há uma
camada a mais que complexifica o fenômeno: as redes sociais nos vendem
felicidade. E isso individualiza ainda mais a dor, porque o risco é acreditar
que estamos sozinhos no sofrimento enquanto o resto posa com um corpo
escultural e uma caipirinha em uma praia paradisíaca. É preciso beber dois
litros de água, fazer exercícios, ser um vencedor na vida profissional, sair
com amigos, visitar a família, dormir oito horas, comer de forma saudável.
É
preciso estar bem. E, se não estamos, parece que o problema somos nós: não
sabemos como baixar o cortisol, não fazemos exercícios suficientes, não comemos
de forma suficientemente saudável, não somos bem-sucedidos o suficiente.
Tudo
isso ocorre, além do mais, em um mundo atravessado por níveis maiores de
precarização da vida. E há algo que sabemos, ao menos a partir da experiência
latino-americana: o sofrimento não é resultado de um plano divino nem de uma
falha individual. Tem causas políticas. Parafraseando Foucault, o suicídio não
pode ser encontrado em estado selvagem; ele não existe senão em uma sociedade.
As
dores são produzidas e aprofundadas por governos que precarizam o trabalho,
deterioram os vínculos comunitários, enfraquecem as redes de proteção e tornam
cada vez mais difícil sustentar uma vida digna. O problema, então, não é apenas
qual terapia usaremos para ficar melhor, mas também que tipo de governos
escolhemos.
<><>
Repolitizar a dor
Não há
saída individual para um problema estrutural. Não há meditação que resolva a
precarização do trabalho, nem técnica de respiração que pague o aluguel, nem
frase motivacional em uma camiseta que substitua um sistema público de saúde
mental com orçamento real.
Repolitizar
a dor ―torná-la pública, nomear suas causas estruturais, exigir do Estado
políticas de prevenção com orçamento e continuidade, exigir da masculinidade um
repertório emocional que não seja apenas a raiva ou o silêncio― não é uma
tarefa terapêutica. É uma tarefa política.
A
potência dos direitos humanos não está apenas em aliviar o sofrimento. O
sofrimento é o motor dos direitos. O que os direitos humanos podem oferecer é a
questão da repolitização da dor: tornar visível que, por trás de cada
sofrimento individual, existem estruturas que podem ser transformadas
coletivamente. Porque, quando a dor deixa de ser vivida como um destino
individual e é reconhecida como uma experiência comum, pode abrir um caminho em
direção à emancipação.
¨
'Acabou a falsa paz':
presidente da Colômbia encerra diálogo com grupos armados
O
presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, anunciou nesta sexta-feira
(11) o fim dos processos de diálogo com o Exército de Libertação Nacional (ELN)
e outros grupos armados, considerando que não foram alcançados avanços em
matéria de paz, desarmamento ou submissão à Justiça.
"Acabou
a falsa paz. Em apenas um mês de governo, cumprimos nossa palavra: encerramos
todos os processos de diálogo e espaços sociojurídicos herdados do governo
anterior."
Segundo
as declarações de De la Espriella, mais de 7 bilhões de pesos
colombianos (cerca de R$ 11,8 milhões) foram destinados ao pagamento de
honorários de porta-vozes, representantes e negociadores. O valor não inclui os
recursos destinados a esquemas de segurança, diárias, zonas de localização e
outras despesas financiadas pelo Estado.
"Em
meu governo, os criminosos não terão status político, condescendência nem
impunidade. A mensagem é inequívoca: submissão à Justiça ou enfrentar toda a
força legítima da República", concluiu.
O
combate ao narcotráfico foi uma das principais promessas de campanha de
De la Espriella. Após tomar posse, em 7 de agosto, o presidente
deu um prazo aos grupos armados um prazo para iniciar processos de
submissão à Justiça e advertiu que aqueles que permanecerem em armas
enfrentarão operações das forças de segurança.
Ele
também anunciou o desmonte de mecanismos criados durante
o governo de Gustavo Petro para conduzir negociações e a reativação de mandados
de prisão que haviam sido suspensos em alguns processos.
Fonte: Diálogos do Sul Global/Sputnik Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário