Como forçar uma célula do câncer a se
autodestruir? Cientistas investigam uma proteína-chave do corpo
Os cientistas podem ter encontrado um novo
alvo para ajudar a retardar a propagação do câncer: uma proteína capaz de ser
manipulada para fazer com que as células cancerosas se autodestruam.
Dois novos artigos publicados na revista
científica “Nature” mostram que os pesquisadores estão se concentrando na
proteína supressora da ferroptose 1 (FSP1), uma enzima que fornece uma das
defesas mais fortes do nosso corpo contra um tipo específico de morte celular
que destrói a célula de dentro para fora. Desarmar essa enzima torna as células
mais propensas a morrer — e, se desarmada em células cancerosas, isso pode
impedir que os tumores cresçam tão rapidamente.
As equipes de pesquisa, uma liderada pela
Universidade de Harvard e outra pela Universidade de Nova York, ambas nos
Estados Unidos, descobriram que, quando bloquearam a FSP1 nos gânglios
linfáticos e tumores pulmonares em camundongos vivos com câncer, esses tumores
cresceram a uma taxa significativamente mais lenta em comparação com os
controles.
Entender como desencadear esse processo de
autodestruição nas células cancerosas — conhecido como ferroptose — é um
caminho que os pesquisadores acreditam que pode eventualmente levar a novos
tratamentos contra o câncer.
“Se conseguirmos intervir numa fase inicial,
a esperança é que possamos potencialmente impedir que o câncer se espalhe para
além do [tumor inicial]”, afirma Jessalyn Ubellacker, professora assistente de
metabolismo molecular na Universidade de Harvard e autora principal do artigo
da Harvard. O tumor cancerígeno original em si é menos perigoso — e muito mais
simples de tratar — do que quando se espalha para outros órgãos vitais.
Adil Daud, diretor de pesquisa clínica sobre
melanoma da Universidade da Califórnia, na cidade de São Francisco, e não
participou de nenhum dos estudos, afirma que o estudo sobre os gânglios
linfáticos “constrói um bom argumento” sobre a inibição da FSP1 em contextos
específicos.
No entanto, os modelos em camundongos e os
tumores nestes mesmo camundongos diferem da forma como as pessoas reais
desenvolvem câncer. “O que ainda não sabemos sobre esse mecanismo é quão eficaz
ou válido ele é em seres humanos”, afirma Daud.
Com a chegada do Dia Mundial de Combate ao
Câncer, uma data impulsionada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) celebrada
anualmente em 4 de fevereiro, a National Geographic explica o que se sabe até
agora.
<><> Conheça a proteína FSP1 e
como ela funciona no corpo
Especialistas em câncer já haviam pesquisado
a morte celular bloqueando uma enzima diferente, como a glutationa peroxidase 4
(GPX4). Várias enzimas trabalham juntas para proteger a célula contra a
degradação, mas acreditava-se que a GPX4 era a “guardiã” da célula e sua linha
de defesa mais forte.
No entanto, o trabalho anterior de Ubellacker
descobriu que, quando se tratava do melanoma, um tipo agressivo de câncer de
pele nos gânglios linfáticos, desativar a GPX4 não era suficiente para matar o
melanoma.
Acontece que a enzima FSP1 desempenha um
papel mais importante na proteção das células. “O ambiente dos gânglios
linfáticos é muito acolhedor e hospitaleiro para as células do melanoma”,
afirma Ubellacker.
No novo estudo, Ubellacker e sua equipe
testaram o que aconteceria se bloqueassem a enzima FSP1, injetando inibidores
em tumores de camundongos por duas semanas. Em comparação com os camundongos
que receberam tratamento de controle, os tumores nas cobaias que receberam os
inibidores da FSP1 foram, em média, cerca de 35% menores em volume.
Os estudos da Harvard e da Universidade de
Nova York são um dos primeiros em que laboratórios utilizaram essas terapias e
as testaram em camundongos vivos com câncer, o que é “um grande salto à
frente”, diz Ubellacker.
“Os pesquisadores também descobriram que a
desativação da FSP1 funcionava em vários tipos de câncer de pulmão.”
<><> O que o estudo descobriu nos
testes sobre câncer de pulmão
Enquanto isso, pesquisadores do laboratório
Papagiannakopoulos (PapaG), da Universidade de Nova York, embarcaram em um
estudo semelhante, testando inibidores da FSP1 em modelos de camundongos
geneticamente modificados que tinham câncer de pulmão.
Assim como no estudo de Harvard, a equipe de
pesquisa descobriu que o bloqueio do FSP1 retardava o crescimento do tumor.
Após cerca de três semanas, o volume médio do tumor dos ratos do grupo de
controle era superior a 750 milímetros cúbicos, enquanto o volume médio do
tumor dos ratos que receberam o inibidor do FSP1 era inferior a 500 milímetros
cúbicos.
Além disso, os ratos com câncer de pulmão que
receberam o inibidor do FSP1 viveram alguns dias a mais do que os ratos do
grupo de controle. “É uma diferença modesta”, diz Daud. Isso sugere que “há
muitas outras vias em ação aqui, embora a FSP1 seja uma delas”.
Os pesquisadores também descobriram que a
desativação da FSP1 funcionava em vários tipos de câncer de pulmão. Daud ficou
impressionado com isso. As terapias atuais costumam ser direcionadas
especificamente a uma mutação do câncer de pulmão, mas os inibidores da FSP1
podem ser um tratamento mais geralmente aplicável.
Assim como a equipe de Harvard, a equipe
PapaG provou independentemente que a FSP1 é uma via importante para prevenir a
morte celular. Eles examinaram dados clínicos de pacientes humanos e
descobriram que a enzima era mais proeminente à medida que o câncer progredia.
Quanto mais enzima FSP1 um paciente tinha, pior era a sobrevida, talvez
sugerindo que a FSP1 realmente permitia que as células cancerosas
sobrevivessem.
“Fiquei muito animado ao saber que outro
grupo obteve resultados complementares em um modelo diferente”, diz Ubellacker
sobre os resultados do laboratório PapaG. Embora ainda seja cedo para tirar
conclusões, os artigos juntos apresentam evidências mais sólidas de que as
terapias de bloqueio enzimático podem funcionar.
<><> Os próximos passos da
proteína que pode fazer as células cancerosas se destruírem
Esta nova pesquisa é apenas o começo. “Para
que o próximo passo aconteça, precisamos entender quais tumores e contextos
seriam os melhores para tratar com essas pequenas moléculas [inibidoras]”, diz
Ubellacker. Outros tipos de tumores que podem se beneficiar ainda precisam ser
explorados.
Os inibidores de FSP1 também podem ser uma
opção muito mais segura do que inibir a GPX4, como os pesquisadores tentaram no
passado. As terapias existentes com GPX4 têm alta toxicidade, e a perda de GPX4
é tóxica para as células T — os glóbulos brancos do corpo que combatem
infecções e câncer — e pode, na verdade, prejudicar as tentativas do sistema
imunológico de combater o câncer, afirma o estudo sobre câncer de pulmão.
“Estou otimista e prevejo que isso se
traduzirá em benefícios terapêuticos reais”, diz Ubellacker.
Fonte: National Geographic Brasil

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