Quem são os “coaches” de Michelle Bolsonaro
Michelle Bolsonaro não compareceu aos atos de
7 de Setembro com a justificativa de que precisava cuidar do marido, Jair
Bolsonaro. Mas a ex-primeira dama não
ficou fora do clima de “guerra santa” que cercou o palanque do enteado Flávio
nas manifestações em São Paulo. No
Instagram, prestou uma homenagem ao ministro André Mendonça, do Supremo
Tribunal Federal (STF), o ícone do 7 de setembro na Paulista, a quem chamou de
“ungido” e “escolhido por Deus”. Também reproduziu uma mensagem em conjunto com
o bispo Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra, pedindo oração para que
“o Brasil experimente um verdadeiro despertamento espiritual”.
As mensagens têm um componente simbólico:
representam que ela e seus aliados – como o próprio Mendonça, de quem foi
fiadora em 2021 – estão no “lado do bem”, o “lado de Deus”, ao contrário de
seus adversários. Pastores e especialistas em religião ouvidos pela Agência
Pública dizem que a postura pode ter sido influenciada por pessoas de quem ela
se cercou: lideranças evangélicas que acreditam que os cristãos devem
participar – se não dominar – todas as esferas da sociedade, incluindo o
governo, para subordinar o Estado aos valores bíblicos – a chamada teologia do
domínio.
A imagem de Michelle migrou de uma
primeira-dama tímida e apagada para uma das lideranças políticas mais
influentes do país – mesmo disputando seu primeiro cargo eletivo só agora, aos
44 anos, ao Senado. E isso coincide com sua aproximação cada vez maior com
esses grupos, que consideram ser dever do cristão ocupar cargos de poder para
“libertar” os espaços da influência do diabo. Vale para política, educação,
família, religião, mídia, entretenimento e negócios – considerados os “sete
montes de influência”. Esse entendimento alcança várias das lideranças
evangélicas mais conhecidas do Brasil hoje. Boa parte delas é do círculo
pessoal de Michelle, consideradas por ela seus conselheiros espirituais, e que
moldaram a sua maneira de ver o mundo.
Três episódios ocorridos entre as eleições de
2018 e 2026 ajudam a ilustrar como ela passou a transitar entre esses dois
polos – religião e política – e cravar o seu espaço no pólo conservador com
apoio dos adeptos mais ferrenhos da teologia do domínio, e que podem ter peso
para a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Pouco antes das eleições de 2018, o pastor
José Wellington Bezerra, um dos principais líderes da Assembleia de Deus no
Brasil, visitou a casa de Bolsonaro, então postulante à Presidência. “De todos
os candidatos, o único que fala o idioma do evangélico é Bolsonaro”, ele disse,
na época. A frase costuma ser lembrada por incutir uma certa contradição:
apesar de receber apoio massivo do público evangélico, Bolsonaro se declara
católico. Ainda pouco conhecida do público, Michelle não apareceu nas fotos
divulgadas do dia.
Na campanha de 2022, a equipe de Bolsonaro
percebeu que ela poderia ser uma peça-chave para acessar mulheres evangélicas,
um dos públicos mais reticentes com o bolsonarismo. A partir de agosto daquele
ano, ela se tornou quase onipresente nos eventos da campanha. Em longas falas
parecidas com sermões de igreja, ela declarava que o marido era um “escolhido
de Deus” e que a sua reeleição tinha um “propósito de libertação” da nação.
Foi o ponto decisivo para a entrada de
Michelle na política, galgando espaço para o seu projeto mais ambicioso: o PL
Mulher, ala do partido que promove encontros entre mulheres conservadoras –
onde se discute política ao mesmo tempo em que se fala de religião, família,
cuidado e outros assuntos considerados femininos (não feministas). Sob a batuta
de Michelle, o PL Mulher se espalhou por todos os estados como uma versão
brasileira dos encontros de mulheres republicanas dos Estados Unidos.
Dois dias depois do primeiro turno, quando o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva já demonstrava vantagem sobre Bolsonaro, o
casal Bolsonaro retribuiu a visita de José Wellington na eleição anterior no
megatemplo que ele preside, em São Paulo. O pastor pediu abertamente votos para
o capitão. Mas, desta vez, Michelle estava no púlpito, e discursou enquanto o
marido chorava. A primeira-dama comparou a disputa eleitoral a uma batalha da
“luz contra as trevas” e cobrou a igreja a ter uma posição no segundo turno. “A
gente precisa se voltar ao Senhor. A igreja precisa se posicionar, a igreja
precisa aprender”, disse ela.
Já em 2026, com Bolsonaro em prisão
domiciliar, seu filho Flávio foi o escolhido pelo patriarca para disputar a
presidência. Com dificuldades para ter o mesmo apoio recebido pelo pai entre os
evangélicos, o filho 01 decidiu fazer um tour por várias denominações – e
começou justamente pela igreja do pastor José Wellington, que lhe ofereceu a
mesma simpatia. “Que o Senhor o leve para ser presidente da nossa nação” disse
na ocasião, enquanto ungia o senador.
Ele não contava, porém, que o estopim de uma
das maiores crises de sua pré-campanha viria do núcleo familiar daquele líder
religioso. Priscila Costa – deputada federal, sobrinha neta de José Wellington,
vice-presidente do PL Mulher e aliada de primeira hora de Michelle – foi
preterida por Flávio nas negociações do PL no Ceará.
O episódio foi a gota d’água para que
Michelle gravasse um vídeo com críticas diretas ao enteado, divulgado poucas
semanas depois do pedido de dinheiro de Flávio para o banqueiro Daniel Vorcaro,
do banco Master ter se tornado público. Tanto o áudio da conversa como o vídeo
de Michelle impactaram a imagem do candidato, que caiu 10 pontos percentuais
entre o eleitorado feminino e oito pontos entre os que se denominam
evangélicos, segundo pesquisa AtlasIntel/Bloomberg do final de junho.
Para remediar, Flávio gravou vídeos pedindo
desculpas à Michelle e até cogitou indicar Priscila para compor sua
vice-presidência – o que não foi concretizado. A ex-primeira-dama respondeu que
o perdoava, sem ter abaixado a cabeça. Para muitos, foi uma queda de braço
vencida por Michelle, que consolidou sua imagem de influência no campo
evangélico, especialmente entre os nomes mais fortes da teologia do domínio.
Uma pesquisa recente do Instituto de Estudos
da Religião (Iser) mostra que Michelle é frequentemente associada a valores
positivos por mulheres evangélicas – ela é considerada “exemplar”, “cristã
virtuosa”, “elegante” e “forte”. “Sua trajetória pessoal, sua forma de se
apresentar como mulher, mãe, esposa e cristã e gestos como ajoelhar-se em
eventos públicos aproximam sua atuação política de uma linguagem religiosa
reconhecível pelas entrevistadas. O testemunho funciona, assim, como uma
técnica política: transforma a experiência pessoal em exemplo e torna valores
como família e nação legíveis a partir de uma gramática cristã”, diz o
relatório.
<><> Teologia do domínio: de
Malafaia aos radicais
No Rio de Janeiro, Michelle frequentava a
Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Silas Malafaia – que celebrou o
casamento dela com Bolsonaro em 2015. Em 2016, após um dos vários
desentendimentos entre o pastor e seu marido, ela migrou para a Igreja Batista
Atitude, do pastor Josué Valandro Júnior. Ela era a intérprete de libras dos
cultos de domingo e a sua casa chegou a abrigar uma célula para crianças surdas
– exceto no período em que Bolsonaro se recuperava da facada. Com a mudança de
volta a Brasília por causa da posse presidencial, Michelle chegou a levar o
pastor a vários eventos oficiais no Palácio do Planalto.
Mas, com a distância geográfica, a
proximidade entre os dois diminuiu, e Michelle passou a frequentar outras
congregações, como a Comunidade das Nações, do pastor JB Carvalho, e a Sara
Nossa Terra, do bispo Robson Rodovalho, que já foi deputado federal. Entre as
melhores amigas de Michelle estão a senadora Damares Alves – as duas se
conhecem há mais de uma década, quando ainda eram assessoras parlamentares – e
a bispa Dirce Carvalho, esposa de JB. Dirce, inclusive, organiza conferências
de liderança para mulheres cristãs, sob o mote de “governar todas as áreas da
vida”. Os encontros, que já reuniram mais de 15 mil mulheres, também já tiveram
a presença de Michelle.
Michelle e Bolsonaro também são próximos de
outros nomes mais radicais do movimento, como os pastores Renê Terra Nova e
Valnice Milhomens. Terra Nova, do Ministério Internacional da Restauração, é o
líder da filial brasileira da International Coalition of Apostolic Leaders
(Ical), fundada em 1999 nos Estados Unidos por John P. Kelly sob a presidência
de C. Peter Wagner, os nomes centrais que popularizaram a teologia do domínio
entre igrejas neopentecostais no mundo. Milhomens, da Igreja Nacional do Senhor
Jesus Cristo, recentemente gravou um vídeo dizendo que os evangélicos devem
“tomar o poder no Brasil”.
São esses os nomes dos principais
representantes do dominionismo no Brasil hoje, de acordo com os especialistas
ouvidos pela Pública. “A convivência da Michelle, onde ela frequenta, como a
Igreja Atitude da Barra da Tijuca, são igrejas que migraram para uma
radicalização do discurso que incorpora o desejo de assumir poder político. Não
sei se o pastor Valandro leu o material da teologia do domínio, mas é o que ele
defende”, diz Sérgio Dusilek, pastor batista e doutor em Ciência da Religião.
“Quando uma pessoa frequenta esses espaços, ela acaba fazendo parte e
incorporando aquele ideário, o que pra mim foi o caso da Michelle. As pessoas
com quem ela anda, como a Damares, são propagadoras da teologia.”
“O principal conselheiro de Michelle
costumava ser o Silas Malafaia, agora afastado da família Bolsonaro. O bispo
Robson Rodovalho tem assumido esse papel e já chegou a defender Michelle como
uma ‘grande líder’. Houve também encontros com a coach Obii Pax-Harry, ligada a
uma corrente teológica internacional associada à teologia do domínio e à Brazil
Apostolic Conference do apóstolo Renê Terra Nova, que difunde conceitos como
guerra espiritual, restauração apostólica e atuação ativa de cristãos na esfera
pública”, afirma a pesquisadora Pietra Cretella, mestranda da Universidade
Federal de Santa Catarina (UFSC) que pesquisa
a interface entre religião e política.
Nós procuramos todos os citados nesta
reportagem, mas, até a sua publicação, apenas Damares Alves e a pastora
nigeriana Obii Pax-Harry responderam. A senadora disse que “não defende
qualquer forma de domínio religioso sobre o Estado”, mas sim a “participação
democrática, proativa e consciente de todos os cidadãos na vida pública,
inclusive dos cristãos”. “Sua atuação no Senado parte da defesa da dignidade
humana e da construção de leis e políticas públicas que protejam direitos e
criem condições para que todas as pessoas possam exercê-los, independentemente
de sua religião. A senadora defende o Estado laico, compreendido como garantia
da liberdade religiosa e de consciência de todos, e não como exclusão das
pessoas de fé da esfera pública”, disse, em nota enviada pela assessoria de
imprensa.
Damares também afirmou que Michelle Bolsonaro
“conquistou, por sua própria atuação, um espaço relevante no movimento
conservador brasileiro, especialmente entre as mulheres” e “vê de forma
positiva o surgimento e a consolidação de lideranças femininas que defendam
publicamente seus valores e estimulem outras mulheres a participar da vida
política.”
A pastora nigeriana Obii Pax-Harry, uma das
principais vozes globais da Ical, a organização que reúne denominações
dominionistas, também respondeu à Publica. Ela tem vindo ao Brasil com
frequência em conferências neopentecostais e passou uma semana ao lado de
Michelle, pouco antes da ex-primeira dama publicar o vídeo contra Flávio
Bolsonaro. “Eu te amo tanto, minha querida irmã e amiga, melhor primeira-dama
do mundo inteiro!”, a pastora postou, em inglês, em uma seleção de fotos
abraçadas com Michelle e Dirce Carvalho.
Em entrevista à Pública, Obii afirma que tem
contato com o Brasil há 15 anos, quando vendeu os direitos de um livro a uma
editora brasileira. Desde então, passou a receber “pedidos de assistência de
Escolas de Profetas brasileiras que usavam meu livro para treinar seus alunos.”
A pastora fundou uma escola de “Governo e Política” em Abuja, capital da
Nigéria, e faz treinamentos de líderes cristãos para atuar em igrejas, negócios
e governos. No Brasil, Obii tem um “grupo informal” a quem dá mentoria, junto
com a pastora Débora Guillen, líder da Action Church, uma dissidência da Igreja
Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte.
“Conheci Michelle Bolsonaro como uma mulher
cristã em uma igreja e fui particularmente atraída pelo coração que ela tem por
seus irmãos na fé, independentemente do status social deles — algo que acho
raro, vindo do Reino Unido, EUA e Nigéria”, disse.
Mas ela frisa que Michelle não é uma de suas
mentoradas, como se cogitou à época da publicação do vídeo. “Não tenho nenhuma
relação de trabalho formal com Michelle ou com qualquer outra pessoa no Brasil
como mentora, conselheira ou instrutora. Agradeço seu interesse nisso, mas não
é o que acontece. Talvez você possa me recomendar para esse trabalho (risos)”,
disse.
<><> Gramática de dominação
Para Christina Vital, professora do Programa
de Pós-graduação em Sociologia e coordenadora do laboratório de estudos em
Política, Arte e Religião da Universidade Federal Fluminense (LePar), a
teologia do domínio não é “um conjunto de orientações que os indivíduos seguem
de maneira irrefletida e automática”, e nem “a única motivação para a atuação
de evangélicos na política”.
“A teologia do domínio não inaugura a noção
de evangelização, mas oferece uma gramática e estratégias de ocupação e
dominação de espaços públicos. Ela ocupa um lugar importante entre grupos
religiosos e econômicos que mobilizam o repertório para fazer valer interesses
institucionais – apresentados como interesses sociais e religiosos – e também
interesses de conglomerados econômicos”, afirma a pesquisadora, que estuda a
participação de mulheres na extrema direita brasileira.
Vital pondera, porém, que é importante
considerar outros aspectos para além da teologia do domínio para analisar
Michelle – como os seus interesses pessoais, econômicos, políticos e
partidários. “Fazer a leitura exclusivamente pelo viés religioso é, de certa
maneira, limpar essas outras dimensões, acentuando o valor espiritual das ações
e encobrindo motivações que poderiam ser vistas como mundanas pelos próprios
segmentos sociais reunidos em torno da fé”, afirma.
Ela acredita que Michelle “não é simplesmente
uma porta-voz de outras lideranças”, mas tem força política própria. “Ela
costuma dizer que Bolsonaro é ‘um leão em público e um gatinho em casa’. Vamos
acompanhar os próximos acontecimentos, mas ela vem se mostrando uma espécie de
‘leoa de direita’, tanto em casa quanto na política, para continuar nas
metáforas felinas.”
Pesquisadores ouvidos concordam, porém, que o
discurso de Michelle, sua arma mais importante como política, ganha densidade
ao se articular com a teologia do domínio, como explica Fábio Py, doutor em
Teologia que lidera o Grupo de Estudos Religião e Cidades da PUC de São Paulo.
Ela articula textos bíblicos com inserção política atual, e faz isso muito bem,
com tranquilidade. É natural para ela. Ela tem uma caminhada religiosa, coisa
que muitos outros bolsonaristas não têm. Fez formações, estudou, compreende bem
os elementos religiosos”, diz.
A pesquisadora Cretella, que estuda os
discursos político-religiosos de Michelle, diz que ela costuma repetir
elementos ligados à teologia do domínio, como falar em nome de Deus, da divisão
entre o bem e o mal, atribuir-se um caráter divino e se vitimizar, o que também
pode ser observado no vídeo contra o enteado. “Ela se colocou como vítima,
citou Deus e valores cristãos para reforçar sua autoridade moral, enquanto se
apresentava como ‘guardiã do bolsonarismo raiz’”, afirma a pesquisadora.
Os elementos da teologia de domínio, ficam
“escondidos” dentro das falas, explica Cretella. A narrativa de Michelle trata
em uma primeira camada de lealdade, doação, cuidado, perseguição e retorno do
líder. Mas, como mensagem subliminar, haveria um apelo à guerra espiritual, que
funciona como um “apito de cachorro” para o núcleo mais fervoroso.
Se antes Jair Bolsonaro era a “voz dos
evangélicos”, agora Michelle parece ter se tornado a favorita na política,
usando a força do marido a seu favor. “Eu não diria que ela herdou o papel
unificador de Bolsonaro, mas ela tem a pretensão de continuar a narrativa de
que ele é o salvador, acenando ao público evangélico como um todo”, diz
Cretella.
Fonte: Por Amanda Audi, da Agência Pública

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