Tratar
ministros do STF como personagens de novela no caso Master aprofunda crise
institucional
Há
pouco, vi uma colega postar um trecho de uma cena clássica de Tropa de Elite,
na qual o capitão Nascimento discute com o personagem de Irandhir Santos,
gritando a plenos pulmões: “eu já falei para você não falar comigo!”. Na
legenda, o esclarecimento: Moraes e Mendonça. Outro meme lembra que, no antigo
Orkut, haveria hoje uma comunidade intitulada: “eu não recebi dinheiro do
Vorcaro”.
Pela
via do humor, acompanhamos as polêmicas que marcam a crise que se abateu sobre
o Supremo Tribunal Federal, o STF. O brasileiro toma partido por um lado ou por
outro (Moraes versus Mendonça, como num filme) em uma disputa que, a julgar
pelas manifestações deste 7 de setembro, já se instalou de vez na campanha
eleitoral de 2026.
Mas
fato é que está difícil atinar a lógica para entender os acontecimentos
recentes. E outra questão precisa ser incluída nesse contexto: não conseguimos
demonstrar nossas preferências pelo voto direto.
O
resultado é a equação perfeita de uma crise de legitimidade no STF. Ela já se
desenha há anos, mas ganhou uma proporção inédita nas últimas semanas.
Paradoxalmente,
a constatação de que não é possível usar o voto para intervir diretamente nessa
crise aparece justamente em uma campanha eleitoral em que temas como a
indicação de ministros para o Supremo e a formação de bancadas no Senado para
aprovar ou barrar pedidos de impeachment para membros do Tribunal ganham maior
destaque.
E para
deixar claro: não defendo o voto para magistrados. Longe disso. A anomalia está
justamente em darmos a esses personagens tratamento típico dos poderes
eletivos.
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Atuação baseada na lei, não no desejo da maioria
Ao
contrário do Executivo e do Legislativo, o Judiciário é um poder cuja natureza
é contramajoritária — o que significa que sua atuação deveria estar baseada na
lei, não no desejo da maioria. Por essa particularidade, o que se esperaria da
instituição seria um comportamento, no mínimo, equilibrado.]
A falta
de clareza nas regras jurídicas dentro do próprio STF, porém, tem distanciado a
cúpula do Judiciário desse ideal, e o questionamento sobre a conduta dos
ministros não têm destino certo. É essa a essência da crise, escondida pelas
emoções de cada capítulo desta novela.
Em meio
à gritaria, alguns poucos têm tentado achar uma saída que enfrente o cerne do
problema e preste contas à sociedade. Nesse sentido, a crise serviu para dar
fôlego à proposta do presidente do Supremo, Edson Fachin, de se criar um Código
de Ética para a Corte — projeto ainda
longe de ser concretizado.
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Emoções por capítulo
Se eu
tivesse começado esse artigo da forma tradicional, narrando os fatos que
levaram a esta última crise do Supremo, quando o leitor chegasse a esse ponto
do texto, provavelmente a contextualização já estaria velha. A velocidade do
enredo desafia a nossa capacidade narrativa.
Assumindo
o risco de ser atropelada pelo noticiário, vou tentar organizar a cronologia:
desde 1º de setembro, a pauta gira em torno da troca de mensagens entre Daniel
Vorcaro, principal investigado no escândalo do Banco Master, e Alexandre de
Moraes, ministro do STF.
As
mensagens incluíam um pedido de “orientação” de Vorcaro a Moares: “Acha que 2ª
[segunda-feira] tenho que estar fora?”. A pergunta havia sido feita em 15 de
novembro de 2025, dias antes da prisão do banqueiro.
Além de
Moraes, também aparecem em mensagens de Vorcaro o procurador-geral da
República, Paulo Gonet, e Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, a
PF. Ainda assim, no dia seguinte ao vazamento, o próprio Gonet apontou
nulidades no processo contra Moraes, que está sob a alçada de André Mendonça.
As nulidades se baseiam no descumprimento da exigência de autorização do
Plenário do STF para se investigar um ministro da Corte.
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
Na
sequência, Gonet pediu a extinção do relatório da PF, argumentando que, das 218
páginas do documento, 190 são dedicadas a mapear a relação do banqueiro com
Moraes. Um dia depois, o próprio Moraes levou a Fachin um pedido de
investigação contra André Mendonça por
abuso de autoridade.
O
roteirista dessa novela não nos poupa
reviravoltas. O episódio da última terça, dia 8 de setembro, girava em torno do
afastamento de Andrei Rodrigues da PF por ordem de Mendonça — determinação
anulada já no dia seguinte. Na quarta, dia 9, Fachin suspendeu não só a decisão
de Mendonça, mas também uma decisão de Flávio Dino que, horas antes, já havia
anulado o afastamento de Rodrigues da PF.
A
crônica política diária vai contando esse enredo em detalhes, dando a dimensão
do ineditismo jurídico que se agiganta em um movimento que, apesar da sequência
frenética dos últimos dias, já se forma
há tempos. Sempre existe uma última gota em um copo quase cheio. E a sensação é
de que sempre tem alguém prestes a gritar: “truco!”
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Puxadinho jurídico-institucional
Além do
questionamento sobre a lisura das decisões judiciais recentes, os
acontecimentos dos últimos dias colocam luz na disputa entre ministros do STF e
outros personagens do universo jurídico — como aconteceu na declaração de
nulidade pela PGR de uma investigação que mirava um membro da Corte sem prévia
autorização.
No meio
desse imbróglio, o espectador brasileiro vai tentando achar alguma lógica nas
informações sobre as nuances do processo penal e do direito constitucional, que
analistas e professores são chamados para comentar: o procurador-geral da
República poderia pedir a nulidade da investigação? Era necessária a
autorização prévia do Plenário do STF para investigar Moraes ou a investigação
estava focada em Vorcaro e, por isso, não precisaria desse expediente? No caso
da atuação de Mendonça, qual o limite entre um magistrado pedir diligências em
uma investigação e ele próprio passar a conduzi-la?
Mas,
além de se questionar quais os procedimentos jurídicos adequados para tratar o
caso, também caberia perguntar como é possível que pessoas tão intrinsecamente
envolvidas em uma questão decidam sobre o destino dessa mesma questão.
E
poderíamos ir além: será que o próprio Moraes também já não usou de expedientes
processuais semelhantes aos de Mendonça em outras ocasiões? Quando Toffoli saiu
da relatoria do caso Master depois de uma reunião a portas fechadas (que teve
seu áudio vazado), todos os protocolos jurídicos foram atendidos?
Perguntas
sobre o timing político-eleitoral dos relatórios, das investigações e dos
vazamentos também seriam pertinentes nesse momento. Vale lembrar que 2026 marca
os 10 anos do impeachment de Dilma Rousseff e do ápice da Lava Jato, operação
que talvez tenha inaugurado, em dimensão nacional, esses arranjos jurídicos,
digamos, inusuais.
A
figura de um juiz herói e/ou vilão também parece ter sido importada daqueles
tempos.
Após
esse resumo não tão breve assim, o que se apresenta é uma crise para a qual não
há saídas jurídicas que não pareçam um grande “puxadinho”. São soluções
imediatas, baseadas na prevalência do interesse do momento.
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Contexto político e o posicionamento dos juízes
Há um
modelo de análise do Judiciário na academia — o chamado modelo estratégico do
judicial behavior — que considera que juízes se posicionam nos processos de
acordo com o contexto político e histórico do momento, e não por ideologia,
faixa etária ou outras questões já
estabelecidas. Eu arriscaria dizer que, hoje, nem mesmo esse modelo dá conta de
explicar a situação atual.É que a Ciência Política clássica olha para as
decisões judiciais dentro de uma lógica racional, apartada do imenso interesse
midiático. Não sejamos ingênuos: a história, às vezes, demanda soluções
jurídicas e institucionais “criativas”, mas é pouco provável que elas já tenham
ocorrido com tanta profusão e sob o olhar de tantos espectadores.
Desde
1988, o Supremo foi aprendendo a lidar com a mídia, o que eu chamo de
“agendamento estratégico”, criando comitê de imprensa, TV Justiça, mas agora
esse movimento ganha outra dimensão.
Com o
questionamento sobre o comportamento dos ministros se avolumando, a questão
central não é “qual regra vale”, mas se as regras também chegam à cúpula. É
isso que explica as atenções midiáticas estarem sobre os ministros, uma atenção
imensa e cheia de descrédito.
Aqui
voltamos ao ponto-chave desta argumentação: acompanhamos tudo feito novela, mas
nenhum capítulo segue uma lógica jurídica e, independentemente das predileções
da audiência, não é possível afastar este ou aquele personagem pelo voto.
E assim
chegamos às eleições de 2026, na qual as insatisfações se transferem para as
urnas, agregando eleitores a um ou outro candidato enquanto, na extrema
direita, a pauta já extrapola os personagens para insuflar ataques à toda
instituição. O resultado é a crise de legitimidade sem precedentes que o STF
enfrenta.
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Uma audiência deveres atenta
Embora
o processo de midiatização seja geral, não é comum o nível de exposição do
sistema de Justiça brasileiro. O Supremo foi o pioneiro nesse movimento. Há
tempos o tribunal deixou de ser tratado como um bloco e hoje a atenção recai
sobre cada ministro, alvos de preferências e antipatias.
Cada um
parece ter uma agenda própria, e o Brasil acompanha suas pautas sabendo seus
nomes, rostos e bandeiras públicas. Só que esse é um comportamento típico do
sistema eletivo. O gostar e desgostar como critério de “escolha pública”
costuma corresponder ao “voto” nas democracias liberais clássicas — leia-se: no
Executivo e no Legislativo.
Ocorre
que, no Brasil, não escolhemos juízes pelo voto. Essa afirmação um tanto óbvia
precisa ser dita porque, se não é possível chancelar o comportamento de um
Poder pelas preferências populares, o que nos sobram são a liturgia e alguns
ritos jurídicos previsíveis como esteio.
Em
relação à cúpula do Judiciário brasileiro, parecemos ter pedido ambas as
saídas, o que leva tanto a uma crise de imagem como de legitimidade. Mesmo as
correntes teóricas que contestam a ideia de que o Judiciário seja um poder
“integralmente” contramajoritário não tinham diante de si um quadro como o
brasileiro — no qual, além do acompanhamento midiático por capítulos, temos uma
audiência tão atenta aos caminhos jurídicos e à aparente imunidade dos
ministros às regras. Criamos uma espécie curiosa de Justiça plebiscitária, algo
entre a ficção e um reality show.
Sem
poder de escolha por parte da sociedade e em meio a uma construção “espontânea”
de sentido jurídico, a crise do Supremo contamina as eleições e leva a um
questionamento sobre a legitimidade da Justiça que pode ir muito além do
próprio STF.
Fonte:
Por Grazielle Albuquerque, em The Intercept

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