sábado, 12 de setembro de 2026

Nova análise detecta ameaça do mercúrio em 951 comunidades da Amazônia

“Eu levei a minha filhinha Bayolet para fazer uns exames quando ela tinha cinco anos. Ela já tinha desmaiado duas vezes na escola e nós não sabíamos a razão”, diz Gladys Ordoñez, moradora da comunidade indígena de Shintuya, na Amazônia peruana. A poucos quilômetros de Shintuya, pelo rio Madeira, está a Terra Indígena (TI) Karipuna, em Rondônia, no Brasil. Ali, Adriano Karipuna, líder da comunidade, relata um drama parecido: “[As crianças] nascem com problemas, com doenças do coração. Há jovens e adolescentes que já têm dificuldade para respirar.” A história se repete na Amazônia boliviana. “Nós estamos cansados de pedir assistência médica”, diz Limberth Miquere, que é corregidor (líder da comunidade indígena) de Buena Vista.

Essas vozes vêm de homens e mulheres que vivem às margens dos rios amazônicos Madeira (Brasil), Beni (Bolívia) e Madre de Dios (Peru), em testemunhos inevitavelmente atravessados por uma palavra: mercúrio. “Eu não sei se o meu marido está doente ou se eu estou. Quem pode nos explicar isso?”, pergunta Iris Yante, mãe de três filhos na Amazônia peruana.

O mercúrio é um metal pesado usado no garimpo ilegal de ouro, uma atividade ilícita, violenta, altamente lucrativa e em plena expansão. Na bacia do Madre de Dios, durante 27 anos (1997 a 2024), o garimpo destruiu mais de 95 mil hectares de floresta, uma área quase equivalente a toda a zona urbana de Lima, capital do Peru, segundo a plataforma de análise por satélite MapBiomas. A situação se repete nas bacias dos rios Beni e Madeira, onde as áreas devastadas superam 9 mil e 28 mil hectares, respectivamente. E a atividade avança a cada dia, impulsionada pela alta do preço da onça de ouro (equivalente a 31 gramas), que ultrapassou 5 mil dólares em janeiro de 2026. À medida que o ouro se valoriza no mercado internacional, aumentam a violência e o impacto mortal do mercúrio na Amazônia. Usado para separar o ouro dos sedimentos, o metal é despejado nos rios e contamina de forma irreversível a água, os peixes consumidos pelas comunidades indígenas e os locais onde elas se banham. Os efeitos sobre a saúde são devastadores e vão desde perda de memória e dores de cabeça até danos ao sistema nervoso central. Os testemunhos de Gladys, Iris, Adriano e Limberth, coletados pela Mongabay Latam em comunidades próximas aos três rios amazônicos, revelam a impotência de pessoas que convivem com doenças que não conseguem explicar.

Para quantificar o problema e preencher essa lacuna de informação, a Mongabay Latam revisou 39 estudos científicos publicados entre 1997 e 2024, que incluem medições dos teores de mercúrio em pessoas que vivem ao longo de 2.763 quilômetros dos rios Madeira, Beni e Madre de Dios, além de análises em peixes consumidos nessas áreas. O trabalho exigiu processar diferentes metodologias e padronizar medições para estabelecer com clareza o impacto, além de obter uma visão abrangente da situação. O resultado é um banco de dados com 7.725 amostras de mercúrio coletadas em pessoas e 5.939 amostras de tecidos de peixe obtidas nessas publicações, que envolveram ao menos 130 cientistas. A análise, feita com apoio e orientação do Centro de Inovação Científica Amazônica (Cincia), vinculado à Universidade Wake Forest, nos Estados Unidos, traça o caminho da contaminação nos três emblemáticos rios amazônicos, que são hidrologicamente conectados e levam o mercúrio para as vidas de centenas de famílias. Os dados analisados são claros: pelo menos 249 comunidades foram expostas ao mercúrio nas últimas duas décadas. Dessas, 220, ou 88%, apresentam níveis do metal pesado muito acima dos considerados seguros pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Mas esse não é o pior cenário. O mercúrio se espalhou em cada um desses rios e contaminou não apenas as 249 comunidades onde foram coletadas amostras, mas também aquelas localizadas rio abaixo. A análise da Mongabay Latam identificou cerca de 702 comunidades em risco localizadas às margens desses três rios, a uma distância máxima de dois quilômetros, entre áreas de garimpo ilegal ativo e comunidades contaminadas. Ao todo, 951 comunidades estão sendo envenenadas por mercúrio ou vivem em situação de vulnerabilidade. Há anos, milhares de pessoas convivem com uma ameaça silenciosa, recebendo pouco ou nenhum apoio para se proteger de seus efeitos. “A contaminação por mercúrio é um genocídio silencioso contra os povos indígenas”, diz Eusebio Ríos Iviche, vice-presidente da Federação Nativa do Rio Madre de Dios (Fenamad), organização regional do Peru que representa os povos indígenas dessa bacia hidrográfica. A Mongabay Latam visitou 15 dos territórios mais afetados por altos níveis de mercúrio: sete no Peru, cinco na Bolívia e três no Brasil. As histórias incluem gestantes e bebês com teores extremamente elevados do metal, crianças em idade escolar com problemas de aprendizagem e moradores que dependem da pesca ou do garimpo para sobreviver enquanto, paradoxalmente, envenenam-se ao comer e trabalhar.“Todos nós somos afetados pelo mercúrio. E estamos assim porque comemos peixe. Mas, se nós deixássemos de pescar, poderíamos morrer de fome, não teríamos dinheiro para nada”, diz Dora Quispe, moradora de Puerto Motor, pequena comunidade indígena de 28 famílias no departamento de Beni, na Amazônia boliviana. “Os povos indígenas não têm nada a ver com a mineração, mas estamos sendo contaminados e vamos ser exterminados por esse metal”, acrescenta Ríos.

<><> As vítimas do mercúrio

Na Bolívia, um pescador ajoelhado em uma praia às margens do rio Beni espera que um peixe morda o anzol de sua vara rudimentar. O morador, membro do povo Ese Ejja, se chama Gilberto Vaca e repete a mesma rotina todos os dias, embora saiba que os peixes que captura estão contaminados por mercúrio. Ele diz que não tem alternativa: precisa levar comida para a família. Vaca vive na comunidade de Puerto Yumani, um dos territórios indígenas na região do Lago Titicaca, que se destacam no banco de dados pelos altos teores de mercúrio. A OMS considera 2 microgramas por grama (μg/g) de cabelo o limite a partir do qual podem surgir riscos à saúde. Em Yumani, os níveis são quase quatro vezes maiores, e a situação se repete e se agrava em várias comunidades analisadas.

No rio Madre de Dios, compartilhado entre Peru e Bolívia, por exemplo, há amostras de moradores que superam em mais de 20 vezes o teor considerado seguro (44 μg/g). No Beni, há casos que ultrapassam esse valor em dez vezes (32 μg/g). Mais abaixo, no rio Madeira, já em território brasileiro, a situação é extrema: moradores apresentaram níveis de mercúrio mais de 75 vezes acima do limite seguro (150 μg/g). “Esses teores de mercúrio são usados para calcular o risco. E esse risco também se refere ao potencial para se sentir um efeito negativo na saúde, como sintomas de perda de memória, dores de cabeça, efeitos no sistema nervoso central ou no sistema cardiovascular”, explica Claudia Vega, coordenadora do Programa de Mercúrio do Cincia, com experiência nesse tipo de avaliação em rios amazônicos. O receio é que o dano seja irreparável, afirma Mariano Castro, ex-vice-ministro do Meio Ambiente do Peru e diretor da iniciativa Amazônia Resiliente e Justa – Grade. “É um dano à vida, ao desenvolvimento e ao bem-estar, que é evitável. Mas que, em sua forma mais grave, também é irreversível. As causas estão aí: são antropogênicas. Pode haver mercúrio em estado natural, mas os níveis acima do recomendado pela OMS são de origem antropogênica”, adverte Castro, que representou o país na assinatura da Convenção de Minamata, um tratado internacional ao qual o Peru aderiu em outubro de 2013, há mais de 12 anos, para impedir que a contaminação por mercúrio se espalhe. O Brasil ratificou a convenção em 2017.

Segundo especialistas, a resposta dos três governos envolvidos nesta investigação —Bolívia, Brasil e Peru — tem sido insuficiente nas três bacias hidrográficas, já que as ações se concentram sobretudo em operações policiais, apreensão de mercúrio e destruição de dragas, que voltam a operar poucos dias depois. A saúde não tem sido

Há vítimas expostas a níveis extremamente altos desse metal há mais de 27 anos, embora não haja garimpo em suas comunidades. Como explica Óscar Campanini, diretor do Centro de Documentação e Informação da Bolívia (Cedib), “muitos povos indígenas não têm mineração em seus territórios, mas os impactos documentados em diferentes estudos se devem à atividade realizada a centenas de quilômetros de distância.” Antonio Vilca, corregidor da comunidade indígena de Carmen Soledad, na Bolívia, afirma que as águas do Beni levam mercúrio e outros resíduos de acampamentos de garimpo rio abaixo. “Nós encontramos recipientes de mercúrio da marca El Español. Também vemos água suja, como óleo de veículo. Nós somos praticamente o lixão dos garimpeiros; tudo acaba aqui”, diz Vilca. O mercúrio pode se deslocar por quilômetros, independentemente das fronteiras nacionais, sobretudo quando envolve bacias hidrográficas interligadas. A poluição gerada em um país, como Peru ou Bolívia, é levada pelas correntes até atingir outras áreas, como o Brasil, e pode ir ainda mais longe. Um relatório técnico do Cincia e da Fundação para a Conservação e o Desenvolvimento Sustentável (FCDS), publicado em junho de 2025, ilustra alguns desses riscos. Na comunidade de Maizal, na bacia do Madre de Dios, o estudo encontrou teores de mercúrio até 12 vezes acima dos limites recomendados em pessoas, com efeitos sobre memória, funções executivas e saúde renal e cardiovascular. Também foi constatado que o rio Madre de Dios e seus afluentes, principalmente o Inambari, em áreas como La Pampa, transportam até 12 toneladas de mercúrio por ano. “Nós sabemos que, em nossas comunidades, isso já está afetando gestantes, crianças em seu crescimento e desenvolvimento. O mercúrio já afeta as futuras gerações dos povos indígenas. É um dano que a humanidade está deixando para os povos indígenas”, diz Ríos.

<><> Veneno no prato

Por mais de 50 anos, o tucunaré e o pintado foram servidos na mesa de Raimundo Nonato dos Santos e sua esposa, Maria Rogelina Soares da Silva. Eles pescavam no Lago Puruzinho, uma das fontes de água mais próximas da comunidade ribeirinha de mesmo nome, no estado brasileiro do Amazonas. Essa foi a rotina da família até que uma série de estudos científicos revelou que os peixes, sua principal fonte de proteína, continham altos teores de mercúrio. “Mudou quase tudo, completamente”, diz Soares da Silva. “É como se a gente tivesse vivido em uma espécie de inocência, sem saber nada do que estava acontecendo”, acrescenta o marido, que participa há pelo menos 26 anos de estudos da Universidade Federal de Rondônia (Unir). A instituição informou, mais de uma vez, que as concentrações de mercúrio entre moradores da comunidade do Lago Puruzinho estão entre as mais altas da bacia do rio Madeira, superando em mais de 12 vezes o nível considerado seguro pela OMS.

A situação é a mesma na TI Karipuna, em Rondônia. A contaminação se soma à escassez de peixes. “Há dez anos, em meia hora dava para pegar, sem exagero, até 500 quilogramas de peixe. Mas hoje em dia, se a gente pegar quatro peixes em seis horas, é muito. E os peixes já estão contaminados”, diz Adriano Karipuna, líder indígena da comunidade. Rio acima, em Puerto Motor, na Amazônia boliviana, a corregidora Edith Guzmán Marupa resume a situação em uma frase: “Nós sabemos que temos mercúrio no corpo, mas não podemos fazer nada.” As 5.939 amostras de tecidos de peixes coletadas entre 1997 e 2024 e incluídas no banco de dados desta investigação mostram que os três rios abrigam várias espécies com altas concentrações de mercúrio: pelo menos 19 no Brasil, 15 na Bolívia e duas no Peru. Os peixes são centrais nessa história porque são a base da alimentação de comunidades indígenas e ribeirinhas. Há uma relação direta entre os altos níveis de mercúrio encontrados nos moradores e o consumo de peixes que acumulam o metal pesado nos tecidos, devido a um fenômeno conhecido como bioacumulação.

Depois de entrar nos rios, o mercúrio liberado pelo garimpo pode se transformar em metilmercúrio, sua forma mais tóxica. O plâncton absorve o metal, que sobe pela cadeia alimentar quando os peixes pequenos se alimentam de plâncton e depois são comidos pelos maiores. Nesse percurso, o mercúrio vai se concentrando cada vez mais, em um processo conhecido como biomagnificação. Por isso, peixes predadores tendem a apresentar os mais altos níveis de mercúrio, oferecendo maior risco às comunidades que dependem deles para se alimentar. Eduardo Bessa, professor de biologia da Universidade de Brasília (UnB), explica que a parte mais consumida do peixe é o músculo que, infelizmente, também é um dos tecidos mais contaminados. “E nós não comemos apenas um peixe ao longo da vida; comemos várias vezes”, diz. E ainda mais quando se trata de uma comunidade amazônica.

Pesquisas feitas desde os anos 1990 já alertavam para altas concentrações de mercúrio em peixes amazônicos e populações ribeirinhas. Quase 30 anos depois, a situação pouco mudou. Como explica Vega, do Cincia, o garimpo “não parou; ao contrário, acelerou, com expansão e contaminação em escala gigantesca.” Ela acrescenta: “Não são necessariamente as comunidades mais próximas do garimpo que têm os níveis mais altos de mercúrio, e sim aquelas mais isoladas e que dependem principalmente da proteína do peixe.” As mais distantes, diz Vega, não têm acesso a outra fonte de proteína.

<><> As comunidades deixadas para trás

“Nós estamos cansados de pedir assistência médica, e precisamos nos deslocar até muito longe para receber atendimento. Nós vamos a San Buenaventura, e eles não sabem se a nossa dor é causada por comer peixe contaminado, mas é claro que é”, diz Limberth Miquere, corregidor de Buena Vista, comunidade indígena Tacana localizada às margens do rio Beni. Mario Chacón, responsável municipal de saúde de San Buenaventura, disse à Mongabay Latam que as equipes locais não sabem como enfrentar o problema. “Nós não conhecemos um tratamento para esses casos; só podemos fornecer medicamentos de efeito geral, mas a alimentação [dos indígenas] também é inadequada. Eles comem arroz, peixe e ovos; essa é a vida deles”, diz. O médico reconhece que, quanto mais peixe os moradores continuarem comendo, maiores serão os níveis de contaminação no corpo. “Nós comemos peixe apenas de vez em quando; eles comem todos os dias. Isso os afeta.” O problema se repete nas três bacias. Eusebio Ríos, da Fenamad, denuncia que “os órgãos de Estado responsáveis pela saúde pública não têm orçamento para enfrentar a contaminação por mercúrio e as comunidades não têm infraestrutura nem pessoal técnico e médico especializado. Elas nem sequer têm medicamentos. Nós estamos praticamente abandonados.”

De acordo com o portal de Transparência Econômica do Ministério da Economia do Peru, para 2026, o Estado destinou ao Ministério da Saúde 477.455 soles (cerca de 730 mil reais) e ao Instituto Nacional de Saúde 1.121.445 soles (cerca de 1,715 milhão de reais) para o rastreamento e tratamento de pacientes afetados por metais pesados, apesar de o próprio Estado estimar que haja mais de 10 milhões de pessoas vítimas desse tipo de contaminação. Enquanto isso, os dados analisados nesta investigação mostram níveis extremamente altos de mercúrio entre pessoas que vivem às margens desses rios. Na Amazônia brasileira, a comunidade ribeirinha de São Sebastião do Tapurú, às margens do rio Madeira, apresenta os valores mais altos, com uma média de 62,76 miligrama por quilograma (mg/kg) e um máximo de 150 mg/kg. Já na Bolívia, destaca-se a localidade de Santa Rosita, com 19,20 mg/kg, e, no Peru, a comunidade indígena de Infierno, com 5 mg/kg. Nos três casos, trata-se de uma exposição acima do limite seguro, o que coloca em risco a saúde dos moradores que dependem do rio para se alimentar.

<><> Rastreando a magnitude do problema

A indiferença do Estado não se limita à falta de serviços de saúde para quem enfrenta problemas associados à contaminação por mercúrio. Nenhum dos três países investiga a magnitude dessa ameaça. Até agora, as medições científicas cobriram apenas uma população muito pequena, mas essas amostras dão uma ideia da realidade. Todas as comunidades analisadas estão localizadas nas margens dos rios Madre de Dios, Beni e Madeira. A equipe jornalística levou vários meses para localizar as comunidades afetadas, pois na maioria dos estudos apenas os nomes eram mencionados, mas não as coordenadas geográficas. Reunimos as informações geográficas oficiais e, assim, obtivemos um primeiro mapa que mostrava o impacto comprovado do mercúrio. Este é um primeiro esforço para tentar sistematizar o risco de exposição ao mercúrio por meio das informações contidas em 39 estudos científicos que utilizam unidades de medida diferentes. Para montar o banco de dados, foi necessário empregar fórmulas e modelos estatísticos que nos permitissem padronizar todos os resultados das publicações. Esse processo foi realizado em coordenação e com a orientação da equipe científica do Cincia.

A segunda etapa do processo consistia em identificar as populações em risco que ainda não haviam sido avaliadas. Conforme explicaram os especialistas, a contaminação por mercúrio flui pelos rios e se espalha para além dos pontos ativos de mineração. Isso ficou comprovado por estudos científicos. Mas o que acontecia com as comunidades que se encontravam ao longo desses rios, entre as comunidades que já apresentavam contaminação? “Os rios Madre de Dios, Beni e Madeira estão hidrologicamente interligados; portanto, o mercúrio liberado ou mobilizado em uma parte do sistema pode contribuir para a contaminação a jusante (…) Isso gera um risco transfronteiriço plausível que justifica uma análise em escala de bacia hidrográfica”, explica Luis Fernández, professor pesquisador de biologia da Universidade de Wake Forest e consultor deste projeto. O próximo passo, então, foi localizar todas as comunidades situadas entre os focos de mineração ilegal e as afetadas pelo metal pesado ao longo dos mais de 2.700 quilômetros. Para essa análise, foram listadas todas as comunidades situadas a no máximo dois quilômetros da margem, que é a distância que separa as comunidades contaminadas com mercúrio dos rios. “Uma zona-tampão ou uma distância de dois quilômetros é razoável como critério exploratório de seleção espacial porque é transparente e, em termos gerais, compatível com as distâncias entre os rios e muitas das comunidades que constam na amostra”, explica Fernández.

O especialista, que também é cofundador da Cincia, acrescenta que a exposição ao metal pesado “pode ocorrer mesmo além dos dois quilômetros, por meio da atividade pesqueira, da mobilidade, da hidrologia sazonal e do deslocamento dos peixes através das redes de comércio e de intercâmbio de alimentos .A análise geográfica identifica comunidades localizadas em contextos em que a exposição é plausível . Eu as descreveria como ‘em risco potencial’ ou ‘dentro de uma zona de detecção de risco de mercúrio’”, explica Hernández. Ele também enfatiza a importância de realizar uma análise envolvendo as três bacias. As listas de todas as comunidades foram enviadas às autoridades de cada país para confirmar se elas haviam sido avaliadas. No Peru, o Centro Nacional de Saúde Ocupacional e Proteção do Ambiente para a Saúde (Censopas) confirmou que fez triagens em cinco comunidades de Madre de Dios em 2024 e 2025 (Amaracayre, Tres Islas, Boca Unión, Sarayacu e Unión Progreso), além de Puerto Carlos em 2025. As triagens constataram que 32,4% das pessoas testadas superaram o valor de referência. No entanto, o Censopas afirmou que não tem registros de acompanhamento médico dos afetados nem uma lista de unidades de saúde autorizadas a tratá-los. No Brasil, o Ministério da Saúde informou que, nos últimos 20 anos, foram registrados 30 casos de intoxicação por mercúrio no estado do Amazonas e 12 em Rondônia, sem especificar as comunidades envolvidas. As autoridades bolivianas não haviam respondido até o momento da publicação.

<><> Um futuro em risco para as gerações indígenas

“A situação é extremamente grave”, diz Ríos. “As comunidades [da região de Madre de Dios] têm um alto grau de contaminação por mercúrio, e isso afetou principalmente gestantes e crianças. Seus sistemas nervosos, seus cérebros, seu crescimento, sua capacidade de aprender e estudar.” No Brasil, Adriano Karipuna, líder da Terra Indígena Karipuna, afirma que os problemas de saúde aumentaram em sua comunidade nos últimos anos, incluindo crianças que nascem com deficiências motoras. “Elas nascem com problemas, com doenças cardíacas, com cabeças enormes”, diz. “Dentro da nossa ancestralidade, essas coisas não aconteciam 50, 30 ou 20 anos atrás.” Desde 1997, os estudos científicos analisados para esta investigação documentaram que o mercúrio pode passar das mães para os filhos pela placenta, pelo cordão umbilical e pela amamentação. E os níveis não são baixos.

Em quatro estudos analisados, que somam 850 amostras coletadas de mães e gestantes nas três bacias amazônicas, o teor médio de mercúrio no cabelo superou em mais de dez vezes o limite da OMS (2 mg/kg), com picos de até 32,4 mg/kg.

Em Madre de Dios, por exemplo, amostras coletadas de 198 pares mãe-filho entre 2017 e 2018 mostraram a presença de mercúrio no cordão umbilical, e 29% das mães testadas superaram os níveis recomendados pela OMS. Na Bolívia, um estudo de 2023 coletou amostras de 119 mulheres em idade fértil de comunidades próximas às bacias dos rios Beni, Mamoré e Madre de Dios: nove em cada dez tinham concentrações acima dos limites seguros. A situação entre as crianças é ainda mais grave. Uma pesquisa realizada com crianças de 5 a 12 anos que vivem nas proximidades da Reserva Comunal Amarakaeri, em Madre de Dios, revelou que a exposição aguda ao metal pesado afetou o desenvolvimento cognitivo, motor e visual de várias delas. A análise, liderada por pesquisadores da Universidade de Duke, incluiu amostras de cabelo de 164 crianças no total, das quais 32,9% ultrapassaram o limite seguro de exposição ao mercúrio estabelecido pela OMS. “Acho que a constatação mais importante é que algumas comunidades têm uma exposição tão alta ao mercúrio que crianças e adultos apresentam déficits cognitivos importantes, o que pode gerar desvantagens de longo prazo e intergeracionais”, diz William Pan, professor da Universidade Duke, nos Estados Unidos, que liderou a pesquisa. “Muitas dessas comunidades com alta exposição não escolhem participar do garimpo e não se beneficiam de suas atividades. Essa é a pior forma de injustiça ambiental.” Os testemunhos confirmam que o problema afeta as três bacias hidrográficas. “Gestantes tiveram filhos com problemas de saúde”, diz Ignacio Julio Monasterio, corregidor de Eyiyoquibo, comunidade indígena Ese Ejja às margens do rio Beni. Outro fator agrava a situação: “A anemia e a desnutrição infantil afetam quase 50% da população infantil. E, se você soma a isso a contaminação por mercúrio, é uma situação crítica que afeta o bem-estar e o futuro”, diz Castro, ex-vice-ministro do Meio Ambiente do Peru.

 

Fonte: Mongabay

 

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