Nova
análise detecta ameaça do mercúrio em 951 comunidades da Amazônia
“Eu
levei a minha filhinha Bayolet para fazer uns exames quando ela tinha cinco
anos. Ela já tinha desmaiado duas vezes na escola e nós não sabíamos a razão”,
diz Gladys Ordoñez, moradora da comunidade indígena de Shintuya, na Amazônia
peruana. A poucos quilômetros de Shintuya, pelo rio Madeira, está a Terra
Indígena (TI) Karipuna, em Rondônia, no Brasil. Ali, Adriano Karipuna, líder da
comunidade, relata um drama parecido: “[As crianças] nascem com problemas, com
doenças do coração. Há jovens e adolescentes que já têm dificuldade para
respirar.” A história se repete na Amazônia boliviana. “Nós estamos cansados de
pedir assistência médica”, diz Limberth Miquere, que é corregidor (líder da
comunidade indígena) de Buena Vista.
Essas
vozes vêm de homens e mulheres que vivem às margens dos rios amazônicos Madeira
(Brasil), Beni (Bolívia) e Madre de Dios (Peru), em testemunhos inevitavelmente
atravessados por uma palavra: mercúrio. “Eu não sei se o meu marido está doente
ou se eu estou. Quem pode nos explicar isso?”, pergunta Iris Yante, mãe de três
filhos na Amazônia peruana.
O
mercúrio é um metal pesado usado no garimpo ilegal de ouro, uma atividade
ilícita, violenta, altamente lucrativa e em plena expansão. Na bacia do Madre
de Dios, durante 27 anos (1997 a 2024), o garimpo destruiu mais de 95 mil
hectares de floresta, uma área quase equivalente a toda a zona urbana de Lima,
capital do Peru, segundo a plataforma de análise por satélite MapBiomas. A
situação se repete nas bacias dos rios Beni e Madeira, onde as áreas devastadas
superam 9 mil e 28 mil hectares, respectivamente. E a atividade avança a cada
dia, impulsionada pela alta do preço da onça de ouro (equivalente a 31 gramas),
que ultrapassou 5 mil dólares em janeiro de 2026. À medida que o ouro se
valoriza no mercado internacional, aumentam a violência e o impacto mortal do
mercúrio na Amazônia. Usado para separar o ouro dos sedimentos, o metal é
despejado nos rios e contamina de forma irreversível a água, os peixes
consumidos pelas comunidades indígenas e os locais onde elas se banham. Os
efeitos sobre a saúde são devastadores e vão desde perda de memória e dores de
cabeça até danos ao sistema nervoso central. Os testemunhos de Gladys, Iris,
Adriano e Limberth, coletados pela Mongabay Latam em comunidades próximas aos
três rios amazônicos, revelam a impotência de pessoas que convivem com doenças
que não conseguem explicar.
Para
quantificar o problema e preencher essa lacuna de informação, a Mongabay Latam
revisou 39 estudos científicos publicados entre 1997 e 2024, que incluem
medições dos teores de mercúrio em pessoas que vivem ao longo de 2.763
quilômetros dos rios Madeira, Beni e Madre de Dios, além de análises em peixes
consumidos nessas áreas. O trabalho exigiu processar diferentes metodologias e
padronizar medições para estabelecer com clareza o impacto, além de obter uma
visão abrangente da situação. O resultado é um banco de dados com 7.725
amostras de mercúrio coletadas em pessoas e 5.939 amostras de tecidos de peixe
obtidas nessas publicações, que envolveram ao menos 130 cientistas. A análise,
feita com apoio e orientação do Centro de Inovação Científica Amazônica (Cincia),
vinculado à Universidade Wake Forest, nos Estados Unidos, traça o caminho da
contaminação nos três emblemáticos rios amazônicos, que são hidrologicamente
conectados e levam o mercúrio para as vidas de centenas de famílias. Os dados
analisados são claros: pelo menos 249 comunidades foram expostas ao mercúrio
nas últimas duas décadas. Dessas, 220, ou 88%, apresentam níveis do metal
pesado muito acima dos considerados seguros pela Organização Mundial da Saúde
(OMS).
Mas
esse não é o pior cenário. O mercúrio se espalhou em cada um desses rios e
contaminou não apenas as 249 comunidades onde foram coletadas amostras, mas
também aquelas localizadas rio abaixo. A análise da Mongabay Latam identificou
cerca de 702 comunidades em risco localizadas às margens desses três rios, a
uma distância máxima de dois quilômetros, entre áreas de garimpo ilegal ativo e
comunidades contaminadas. Ao todo, 951 comunidades estão sendo envenenadas por
mercúrio ou vivem em situação de vulnerabilidade. Há anos, milhares de pessoas
convivem com uma ameaça silenciosa, recebendo pouco ou nenhum apoio para se
proteger de seus efeitos. “A contaminação por mercúrio é um genocídio
silencioso contra os povos indígenas”, diz Eusebio Ríos Iviche, vice-presidente
da Federação Nativa do Rio Madre de Dios (Fenamad), organização regional do
Peru que representa os povos indígenas dessa bacia hidrográfica. A Mongabay
Latam visitou 15 dos territórios mais afetados por altos níveis de mercúrio:
sete no Peru, cinco na Bolívia e três no Brasil. As histórias incluem gestantes
e bebês com teores extremamente elevados do metal, crianças em idade escolar
com problemas de aprendizagem e moradores que dependem da pesca ou do garimpo
para sobreviver enquanto, paradoxalmente, envenenam-se ao comer e
trabalhar.“Todos nós somos afetados pelo mercúrio. E estamos assim porque
comemos peixe. Mas, se nós deixássemos de pescar, poderíamos morrer de fome,
não teríamos dinheiro para nada”, diz Dora Quispe, moradora de Puerto Motor,
pequena comunidade indígena de 28 famílias no departamento de Beni, na Amazônia
boliviana. “Os povos indígenas não têm nada a ver com a mineração, mas estamos
sendo contaminados e vamos ser exterminados por esse metal”, acrescenta Ríos.
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As vítimas do mercúrio
Na
Bolívia, um pescador ajoelhado em uma praia às margens do rio Beni espera que
um peixe morda o anzol de sua vara rudimentar. O morador, membro do povo Ese
Ejja, se chama Gilberto Vaca e repete a mesma rotina todos os dias, embora
saiba que os peixes que captura estão contaminados por mercúrio. Ele diz que
não tem alternativa: precisa levar comida para a família. Vaca vive na
comunidade de Puerto Yumani, um dos territórios indígenas na região do Lago
Titicaca, que se destacam no banco de dados pelos altos teores de mercúrio. A
OMS considera 2 microgramas por grama (μg/g) de cabelo o limite a partir do
qual podem surgir riscos à saúde. Em Yumani, os níveis são quase quatro vezes
maiores, e a situação se repete e se agrava em várias comunidades analisadas.
No rio
Madre de Dios, compartilhado entre Peru e Bolívia, por exemplo, há amostras de
moradores que superam em mais de 20 vezes o teor considerado seguro (44 μg/g).
No Beni, há casos que ultrapassam esse valor em dez vezes (32 μg/g). Mais
abaixo, no rio Madeira, já em território brasileiro, a situação é extrema:
moradores apresentaram níveis de mercúrio mais de 75 vezes acima do limite
seguro (150 μg/g). “Esses teores de mercúrio são usados para calcular o risco.
E esse risco também se refere ao potencial para se sentir um efeito negativo na
saúde, como sintomas de perda de memória, dores de cabeça, efeitos no sistema
nervoso central ou no sistema cardiovascular”, explica Claudia Vega,
coordenadora do Programa de Mercúrio do Cincia, com experiência nesse tipo de
avaliação em rios amazônicos. O receio é que o dano seja irreparável, afirma
Mariano Castro, ex-vice-ministro do Meio Ambiente do Peru e diretor da
iniciativa Amazônia Resiliente e Justa – Grade. “É um dano à vida, ao
desenvolvimento e ao bem-estar, que é evitável. Mas que, em sua forma mais
grave, também é irreversível. As causas estão aí: são antropogênicas. Pode
haver mercúrio em estado natural, mas os níveis acima do recomendado pela OMS
são de origem antropogênica”, adverte Castro, que representou o país na
assinatura da Convenção de Minamata, um tratado internacional ao qual o Peru
aderiu em outubro de 2013, há mais de 12 anos, para impedir que a contaminação
por mercúrio se espalhe. O Brasil ratificou a convenção em 2017.
Segundo
especialistas, a resposta dos três governos envolvidos nesta investigação
—Bolívia, Brasil e Peru — tem sido insuficiente nas três bacias hidrográficas,
já que as ações se concentram sobretudo em operações policiais, apreensão de
mercúrio e destruição de dragas, que voltam a operar poucos dias depois. A
saúde não tem sido
Há
vítimas expostas a níveis extremamente altos desse metal há mais de 27 anos,
embora não haja garimpo em suas comunidades. Como explica Óscar Campanini,
diretor do Centro de Documentação e Informação da Bolívia (Cedib), “muitos
povos indígenas não têm mineração em seus territórios, mas os impactos
documentados em diferentes estudos se devem à atividade realizada a centenas de
quilômetros de distância.” Antonio Vilca, corregidor da comunidade indígena de
Carmen Soledad, na Bolívia, afirma que as águas do Beni levam mercúrio e outros
resíduos de acampamentos de garimpo rio abaixo. “Nós encontramos recipientes de
mercúrio da marca El Español. Também vemos água suja, como óleo de veículo. Nós
somos praticamente o lixão dos garimpeiros; tudo acaba aqui”, diz Vilca. O
mercúrio pode se deslocar por quilômetros, independentemente das fronteiras
nacionais, sobretudo quando envolve bacias hidrográficas interligadas. A
poluição gerada em um país, como Peru ou Bolívia, é levada pelas correntes até
atingir outras áreas, como o Brasil, e pode ir ainda mais longe. Um relatório
técnico do Cincia e da Fundação para a Conservação e o Desenvolvimento
Sustentável (FCDS), publicado em junho de 2025, ilustra alguns desses riscos.
Na comunidade de Maizal, na bacia do Madre de Dios, o estudo encontrou teores
de mercúrio até 12 vezes acima dos limites recomendados em pessoas, com efeitos
sobre memória, funções executivas e saúde renal e cardiovascular. Também foi
constatado que o rio Madre de Dios e seus afluentes, principalmente o Inambari,
em áreas como La Pampa, transportam até 12 toneladas de mercúrio por ano. “Nós
sabemos que, em nossas comunidades, isso já está afetando gestantes, crianças
em seu crescimento e desenvolvimento. O mercúrio já afeta as futuras gerações
dos povos indígenas. É um dano que a humanidade está deixando para os povos
indígenas”, diz Ríos.
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Veneno no prato
Por
mais de 50 anos, o tucunaré e o pintado foram servidos na mesa de Raimundo
Nonato dos Santos e sua esposa, Maria Rogelina Soares da Silva. Eles pescavam
no Lago Puruzinho, uma das fontes de água mais próximas da comunidade
ribeirinha de mesmo nome, no estado brasileiro do Amazonas. Essa foi a rotina
da família até que uma série de estudos científicos revelou que os peixes, sua
principal fonte de proteína, continham altos teores de mercúrio. “Mudou quase
tudo, completamente”, diz Soares da Silva. “É como se a gente tivesse vivido em
uma espécie de inocência, sem saber nada do que estava acontecendo”, acrescenta
o marido, que participa há pelo menos 26 anos de estudos da Universidade
Federal de Rondônia (Unir). A instituição informou, mais de uma vez, que as
concentrações de mercúrio entre moradores da comunidade do Lago Puruzinho estão
entre as mais altas da bacia do rio Madeira, superando em mais de 12 vezes o
nível considerado seguro pela OMS.
A
situação é a mesma na TI Karipuna, em Rondônia. A contaminação se soma à
escassez de peixes. “Há dez anos, em meia hora dava para pegar, sem exagero,
até 500 quilogramas de peixe. Mas hoje em dia, se a gente pegar quatro peixes
em seis horas, é muito. E os peixes já estão contaminados”, diz Adriano
Karipuna, líder indígena da comunidade. Rio acima, em Puerto Motor, na Amazônia
boliviana, a corregidora Edith Guzmán Marupa resume a situação em uma frase:
“Nós sabemos que temos mercúrio no corpo, mas não podemos fazer nada.” As 5.939
amostras de tecidos de peixes coletadas entre 1997 e 2024 e incluídas no banco
de dados desta investigação mostram que os três rios abrigam várias espécies
com altas concentrações de mercúrio: pelo menos 19 no Brasil, 15 na Bolívia e
duas no Peru. Os peixes são centrais nessa história porque são a base da
alimentação de comunidades indígenas e ribeirinhas. Há uma relação direta entre
os altos níveis de mercúrio encontrados nos moradores e o consumo de peixes que
acumulam o metal pesado nos tecidos, devido a um fenômeno conhecido como
bioacumulação.
Depois
de entrar nos rios, o mercúrio liberado pelo garimpo pode se transformar em
metilmercúrio, sua forma mais tóxica. O plâncton absorve o metal, que sobe pela
cadeia alimentar quando os peixes pequenos se alimentam de plâncton e depois
são comidos pelos maiores. Nesse percurso, o mercúrio vai se concentrando cada
vez mais, em um processo conhecido como biomagnificação. Por isso, peixes
predadores tendem a apresentar os mais altos níveis de mercúrio, oferecendo
maior risco às comunidades que dependem deles para se alimentar. Eduardo Bessa,
professor de biologia da Universidade de Brasília (UnB), explica que a parte
mais consumida do peixe é o músculo que, infelizmente, também é um dos tecidos
mais contaminados. “E nós não comemos apenas um peixe ao longo da vida; comemos
várias vezes”, diz. E ainda mais quando se trata de uma comunidade amazônica.
Pesquisas
feitas desde os anos 1990 já alertavam para altas concentrações de mercúrio em
peixes amazônicos e populações ribeirinhas. Quase 30 anos depois, a situação
pouco mudou. Como explica Vega, do Cincia, o garimpo “não parou; ao contrário,
acelerou, com expansão e contaminação em escala gigantesca.” Ela acrescenta:
“Não são necessariamente as comunidades mais próximas do garimpo que têm os
níveis mais altos de mercúrio, e sim aquelas mais isoladas e que dependem
principalmente da proteína do peixe.” As mais distantes, diz Vega, não têm
acesso a outra fonte de proteína.
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As comunidades deixadas para trás
“Nós
estamos cansados de pedir assistência médica, e precisamos nos deslocar até
muito longe para receber atendimento. Nós vamos a San Buenaventura, e eles não
sabem se a nossa dor é causada por comer peixe contaminado, mas é claro que é”,
diz Limberth Miquere, corregidor de Buena Vista, comunidade indígena Tacana
localizada às margens do rio Beni. Mario Chacón, responsável municipal de saúde
de San Buenaventura, disse à Mongabay Latam que as equipes locais não sabem
como enfrentar o problema. “Nós não conhecemos um tratamento para esses casos;
só podemos fornecer medicamentos de efeito geral, mas a alimentação [dos
indígenas] também é inadequada. Eles comem arroz, peixe e ovos; essa é a vida
deles”, diz. O médico reconhece que, quanto mais peixe os moradores continuarem
comendo, maiores serão os níveis de contaminação no corpo. “Nós comemos peixe
apenas de vez em quando; eles comem todos os dias. Isso os afeta.” O problema
se repete nas três bacias. Eusebio Ríos, da Fenamad, denuncia que “os órgãos de
Estado responsáveis pela saúde pública não têm orçamento para enfrentar a
contaminação por mercúrio e as comunidades não têm infraestrutura nem pessoal
técnico e médico especializado. Elas nem sequer têm medicamentos. Nós estamos
praticamente abandonados.”
De
acordo com o portal de Transparência Econômica do Ministério da Economia do
Peru, para 2026, o Estado destinou ao Ministério da Saúde 477.455 soles (cerca
de 730 mil reais) e ao Instituto Nacional de Saúde 1.121.445 soles (cerca de
1,715 milhão de reais) para o rastreamento e tratamento de pacientes afetados
por metais pesados, apesar de o próprio Estado estimar que haja mais de 10
milhões de pessoas vítimas desse tipo de contaminação. Enquanto isso, os dados
analisados nesta investigação mostram níveis extremamente altos de mercúrio
entre pessoas que vivem às margens desses rios. Na Amazônia brasileira, a
comunidade ribeirinha de São Sebastião do Tapurú, às margens do rio Madeira,
apresenta os valores mais altos, com uma média de 62,76 miligrama por quilograma
(mg/kg) e um máximo de 150 mg/kg. Já na Bolívia, destaca-se a localidade de
Santa Rosita, com 19,20 mg/kg, e, no Peru, a comunidade indígena de Infierno,
com 5 mg/kg. Nos três casos, trata-se de uma exposição acima do limite seguro,
o que coloca em risco a saúde dos moradores que dependem do rio para se
alimentar.
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Rastreando a magnitude do problema
A
indiferença do Estado não se limita à falta de serviços de saúde para quem
enfrenta problemas associados à contaminação por mercúrio. Nenhum dos três
países investiga a magnitude dessa ameaça. Até agora, as medições científicas
cobriram apenas uma população muito pequena, mas essas amostras dão uma ideia
da realidade. Todas as comunidades analisadas estão localizadas nas margens dos
rios Madre de Dios, Beni e Madeira. A equipe jornalística levou vários meses
para localizar as comunidades afetadas, pois na maioria dos estudos apenas os
nomes eram mencionados, mas não as coordenadas geográficas. Reunimos as
informações geográficas oficiais e, assim, obtivemos um primeiro mapa que
mostrava o impacto comprovado do mercúrio. Este é um primeiro esforço para tentar
sistematizar o risco de exposição ao mercúrio por meio das informações contidas
em 39 estudos científicos que utilizam unidades de medida diferentes. Para
montar o banco de dados, foi necessário empregar fórmulas e modelos
estatísticos que nos permitissem padronizar todos os resultados das
publicações. Esse processo foi realizado em coordenação e com a orientação da
equipe científica do Cincia.
A
segunda etapa do processo consistia em identificar as populações em risco que
ainda não haviam sido avaliadas. Conforme explicaram os especialistas, a
contaminação por mercúrio flui pelos rios e se espalha para além dos pontos
ativos de mineração. Isso ficou comprovado por estudos científicos. Mas o que
acontecia com as comunidades que se encontravam ao longo desses rios, entre as
comunidades que já apresentavam contaminação? “Os rios Madre de Dios, Beni e
Madeira estão hidrologicamente interligados; portanto, o mercúrio liberado ou
mobilizado em uma parte do sistema pode contribuir para a contaminação a
jusante (…) Isso gera um risco transfronteiriço plausível que justifica uma
análise em escala de bacia hidrográfica”, explica Luis Fernández, professor pesquisador
de biologia da Universidade de Wake Forest e consultor deste projeto. O próximo
passo, então, foi localizar todas as comunidades situadas entre os focos de
mineração ilegal e as afetadas pelo metal pesado ao longo dos mais de 2.700
quilômetros. Para essa análise, foram listadas todas as comunidades situadas a
no máximo dois quilômetros da margem, que é a distância que separa as
comunidades contaminadas com mercúrio dos rios. “Uma zona-tampão ou uma
distância de dois quilômetros é razoável como critério exploratório de seleção
espacial porque é transparente e, em termos gerais, compatível com as
distâncias entre os rios e muitas das comunidades que constam na amostra”,
explica Fernández.
O
especialista, que também é cofundador da Cincia, acrescenta que a exposição ao
metal pesado “pode ocorrer mesmo além dos dois quilômetros, por meio da
atividade pesqueira, da mobilidade, da hidrologia sazonal e do deslocamento dos
peixes através das redes de comércio e de intercâmbio de alimentos .A análise
geográfica identifica comunidades localizadas em contextos em que a exposição é
plausível . Eu as descreveria como ‘em risco potencial’ ou ‘dentro de uma zona
de detecção de risco de mercúrio’”, explica Hernández. Ele também enfatiza a
importância de realizar uma análise envolvendo as três bacias. As listas de
todas as comunidades foram enviadas às autoridades de cada país para confirmar
se elas haviam sido avaliadas. No Peru, o Centro Nacional de Saúde Ocupacional
e Proteção do Ambiente para a Saúde (Censopas) confirmou que fez triagens em
cinco comunidades de Madre de Dios em 2024 e 2025 (Amaracayre, Tres Islas, Boca
Unión, Sarayacu e Unión Progreso), além de Puerto Carlos em 2025. As triagens
constataram que 32,4% das pessoas testadas superaram o valor de referência. No
entanto, o Censopas afirmou que não tem registros de acompanhamento médico dos
afetados nem uma lista de unidades de saúde autorizadas a tratá-los. No Brasil,
o Ministério da Saúde informou que, nos últimos 20 anos, foram registrados 30
casos de intoxicação por mercúrio no estado do Amazonas e 12 em Rondônia, sem
especificar as comunidades envolvidas. As autoridades bolivianas não haviam
respondido até o momento da publicação.
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Um futuro em risco para as gerações indígenas
“A
situação é extremamente grave”, diz Ríos. “As comunidades [da região de Madre
de Dios] têm um alto grau de contaminação por mercúrio, e isso afetou
principalmente gestantes e crianças. Seus sistemas nervosos, seus cérebros, seu
crescimento, sua capacidade de aprender e estudar.” No Brasil, Adriano
Karipuna, líder da Terra Indígena Karipuna, afirma que os problemas de saúde
aumentaram em sua comunidade nos últimos anos, incluindo crianças que nascem
com deficiências motoras. “Elas nascem com problemas, com doenças cardíacas,
com cabeças enormes”, diz. “Dentro da nossa ancestralidade, essas coisas não
aconteciam 50, 30 ou 20 anos atrás.” Desde 1997, os estudos científicos
analisados para esta investigação documentaram que o mercúrio pode passar das
mães para os filhos pela placenta, pelo cordão umbilical e pela amamentação. E
os níveis não são baixos.
Em
quatro estudos analisados, que somam 850 amostras coletadas de mães e gestantes
nas três bacias amazônicas, o teor médio de mercúrio no cabelo superou em mais
de dez vezes o limite da OMS (2 mg/kg), com picos de até 32,4 mg/kg.
Em
Madre de Dios, por exemplo, amostras coletadas de 198 pares mãe-filho entre
2017 e 2018 mostraram a presença de mercúrio no cordão umbilical, e 29% das
mães testadas superaram os níveis recomendados pela OMS. Na Bolívia, um estudo
de 2023 coletou amostras de 119 mulheres em idade fértil de comunidades
próximas às bacias dos rios Beni, Mamoré e Madre de Dios: nove em cada dez
tinham concentrações acima dos limites seguros. A situação entre as crianças é
ainda mais grave. Uma pesquisa realizada com crianças de 5 a 12 anos que vivem
nas proximidades da Reserva Comunal Amarakaeri, em Madre de Dios, revelou que a
exposição aguda ao metal pesado afetou o desenvolvimento cognitivo, motor e
visual de várias delas. A análise, liderada por pesquisadores da Universidade
de Duke, incluiu amostras de cabelo de 164 crianças no total, das quais 32,9%
ultrapassaram o limite seguro de exposição ao mercúrio estabelecido pela OMS.
“Acho que a constatação mais importante é que algumas comunidades têm uma
exposição tão alta ao mercúrio que crianças e adultos apresentam déficits
cognitivos importantes, o que pode gerar desvantagens de longo prazo e
intergeracionais”, diz William Pan, professor da Universidade Duke, nos Estados
Unidos, que liderou a pesquisa. “Muitas dessas comunidades com alta exposição
não escolhem participar do garimpo e não se beneficiam de suas atividades. Essa
é a pior forma de injustiça ambiental.” Os testemunhos confirmam que o problema
afeta as três bacias hidrográficas. “Gestantes tiveram filhos com problemas de
saúde”, diz Ignacio Julio Monasterio, corregidor de Eyiyoquibo, comunidade
indígena Ese Ejja às margens do rio Beni. Outro fator agrava a situação: “A
anemia e a desnutrição infantil afetam quase 50% da população infantil. E, se
você soma a isso a contaminação por mercúrio, é uma situação crítica que afeta
o bem-estar e o futuro”, diz Castro, ex-vice-ministro do Meio Ambiente do Peru.
Fonte:
Mongabay

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