sábado, 12 de setembro de 2026

Adoçantes naturais vs artificiais: veja diferença de impacto no organismo

Trocar o açúcar pelo adoçante é uma escolha comum entre aqueles que buscam hábitos de vida mais saudáveis. Os adoçantes artificias e os naturais, no entanto, podem ter efeitos opostos no organismo.

É o que aponta um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Houston, nos Estados Unidos e publicado na revista científica Journal of Food Studies em fevereiro de 2026, que analisou e compilou dados de dez estudos científicos prévios para comparar os efeitos de adoçantes sintéticos e naturais.

Segundo a pesquisa, enquanto os compostos artificiais reduzem a diversidade de bactérias benéficas, causando alterações no metabolismo da glicose, as opções vegetais agem de forma neutra ou protetora no ecossistema intestinal.

A diferença no impacto biológico ocorre, principalmente, no microbioma, conjunto de micro-organismos que habitam o sistema digestivo e regulam desde a imunidade até a resposta metabólica.

<><> Adoçantes artificiais

Os adoçantes artificiais, como a sucralose, neotame e acessulfame-K, tendem a induzir disbiose, ou seja, o desequilíbrio na flora intestinal.

Os resultados analisados apontaram que a sucralose reduz em 34% a presença da bactéria Lactobacillus acidophilus em adultos saudáveis, e também pode triplicar os grupos pró-inflamatórios, como a Blautia coccoides.

Além disso, os efeitos são percebidos diretamente no controle do açúcar no sangue, associando o uso de sucralose ao aumento dos picos de glicose e de insulina após as refeições, diminuindo também a sensibilidade do corpo ao hormônio.

Já o neotame, por exemplo, altera a absorção de lipídeos e eleva os níveis de colesterol fecal, enquanto o acessulfame-K tem ligação com alterações nas redes microbianas e ganho de peso.

<><> Adoçantes naturais

Por outro lado, os adoçantes naturais não nutritivos, como a estévia, o eritritol e o xilitol, mantêm a riqueza microbiana do intestino sem inibir o crescimento de espécies protetoras (grupos específicos de bactérias da microbiota intestinal).

O estudo aponta que esses compostos estimulam a proliferação de bactérias benéficas dos gêneros Bifidobacterium e Akkermansia.

Além disso, o processo de fermentação de substâncias como o eritritol pode dobrar a produção de ácidos graxos de cadeia curta no intestino, que tem papel crucial na manutenção da barreira intestinal, fortalecendo a imunidade e ativando vias anti-inflamatórias no organismo.

As opções de origem vegetal também não provocam alterações na tolerância à glicose ou na resposta insulínica, e podem agir de forma neutra no metabolismo.

•        Dieta “sem açúcar”: versões fitness podem esconder excesso de calorias

Os alimentos “zero açúcar” têm tomado conta das prateleiras de supermercados. A promessa de um alimento saudável tem dominado o estímulo para o consumo de tais itens, como barrinhas, iogurtes, chocolates e até mesmo sorvetes que prometem a ausência do açúcar.

No entanto, é preciso se atentar também a outros ingredientes. Segundo a nutróloga e professora da pós-graduação em Nutrologia Esportiva da Afya Educação Médica São Paulo, Raphaela Zanella, quando o alimento não tem açúcar, não significa que ele permite o emagrecimento ou o equilíbrio nutricional.

Para ir além e compreender a composição, é preciso analisar todos os ingredientes e se atentar à quantidade de gordura e sódio, por exemplo.

“Quando ocorre a associação de “sem açúcar” com saudável, os alimentos sem açúcar se tornam uma farsa da indústria alimentícia”, explica a nutróloga.

Segundo ela, o alimento sem açúcar pode ter gorduras em excesso para compensar a falta do adoçante, aumentando a caloria deste alimento em comparação ao produto com açúcar da mesma marca.

Isso porque a indústria alimentícia precisa compensar e manter o sabor, textura e a palatabilidade do item.

Sendo assim, ela explica que é preciso ir além na análise da tabela nutricional.

“É importante verificar se o alimento contém nutrientes como vitaminas e minerais, fibras, se tem alta ou baixa densidade calórica. E também se é minimamente processado, ou ultraprocessado”, recomenda Raphaela Zanella.

Para evitar o consumo alto de sódio e gordura, é preciso buscar alimentos com uma menor quantidade de ingredientes.

“Quanto menos ingredientes e menos processos, mais saudável é o alimento. E quanto maior a lista de ingredientes, principalmente com nomes artificiais, menos saudável é esse item. Logo, oferece mais risco para sua saúde”, informa ela.

Além disso, Raphaela Zanella recomenda alguma dicas para escolher os alimentos:

•        Se você não reconhece a maioria dos ingredientes, é um alerta;

•        Se a lista de ingredientes é longa, provavelmente é ultraprocessado;

•        Não associe “fit”, zero, light com o fato do alimento ser saudável, é preciso analisar o todo;

•        Escolha produtos com mínimo de ingredientes ou minimamente processados e priorize alimentos in natura.

“O principal risco é o que estamos vivenciando nos dias atuais, com uma epidemia de obesidade, diabetes, inclusive nas crianças em caráter mundial”, explica.

Ela ainda aponta o paradoxo que estamos vivendo: “temos pessoas com mais peso corporal, porém mais desnutridas do ponto de vista nutricional”.

•        Dieta rica em açúcar pode piorar a asma já no curto prazo, diz estudo

O consumo de açúcar está associado a uma maior incidência de cáries, ao ganho de peso e, no longo prazo, pode contribuir para o surgimento de resistência à insulina ou diabetes. Para quem sofre de asma, o impacto pode ser ainda maior.

Um novo estudo com camundongos, publicado na revista Nutrients e divulgado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), mostrou que a ingestão de altas doses de açúcar piora severamente a inflamação pulmonar em curto prazo, agravando o risco de crises alérgicas.

No trabalho os camundongos receberam a quantidade regular de ração e, além disso, tiveram o consumo de leite condensado liberado. Em apenas duas semanas – período que em humanos equivaleria a aproximadamente dois anos – os efeitos negativos já começaram a surgir nos animais.

De acordo com os autores, este é o primeiro estudo com um modelo experimental de asma a mostrar a rapidez com que o açúcar pode agravar quadros inflamatórios.

“Quando uma criança consome muito açúcar, pensamos em consequências como cárie ou obesidade. Mas raramente consideramos que, em um período tão curto, uma alergia preexistente possa ser agravada. Os resultados, portanto, têm um impacto importante tanto na prática clínica quanto na formulação de políticas públicas”, comenta Caroline Marcantonio Ferreira, professora do Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC, que coordenou o estudo enquanto ainda trabalhava na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Na avaliação da cientista, o achado reforça a necessidade de iniciativas voltadas à redução do açúcar, especialmente entre populações vulneráveis, como crianças e pessoas com doenças respiratórias crônicas.

<><> Fator de risco

A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas que afeta aproximadamente 300 milhões de pessoas em todo o mundo e cuja prevalência tem aumentado nas últimas décadas. A doença é caracterizada por uma série de alterações no sistema respiratório decorrentes da resposta inflamatória.

Nos pulmões, ocorre o aumento da espessura dos brônquios – os tubos que conduzem o ar até o órgão. Além desse estreitamento, há um incremento na produção de muco, que se acumula e dificulta ainda mais a respiração.

De forma sistêmica, o organismo ativa uma resposta imunológica típica de casos de alergia, com liberação de moléculas pró-inflamatórias e produção de anticorpos específicos. Todo esse processo causa sintomas como dificuldade para respirar, chiado no peito e tosse persistente.

Com base nos achados do artigo, financiado pela Fapesp, os autores alertam que pessoas com asma devem controlar a ingestão de açúcar assim como controlam no ambiente a presença de mofo, poeira e poluição – outros fatores que sabidamente podem desencadear crises asmáticas.

“O açúcar não é apenas uma caloria vazia, é um agente inflamatório ativo, capaz de alterar o equilíbrio imunológico muito antes de qualquer ganho de peso visível. E é preciso lembrar que a adequação da dieta é uma estratégia barata, acessível e extremamente eficiente, que deve ser implementada com o tratamento medicamentoso de pacientes com asma”, afirma Mateus Casaro, coautor do estudo.

<><> Origem da inflamação

Por meio dos experimentos realizados com camundongos, os pesquisadores demonstraram que o açúcar causa uma inflamação sistêmica que começa na gordura armazenada no abdômen, envolvendo órgãos vitais como fígado, pâncreas e intestinos.

Esse tecido adiposo visceral passa a produzir substâncias inflamatórias (como o hormônio leptina e as citocinas), que viajam pelo corpo e intensificam a resposta alérgica nos pulmões. As análises também indicam que células de defesa em estado inflamatório podem migrar da gordura abdominal para os pulmões.

“Essa é a principal hipótese para explicar por que o açúcar piora a inflamação da asma. Observamos que o açúcar provoca inflamação no tecido adiposo mesmo em animais que não têm asma. Nos que consomem açúcar, mas não são alérgicos, o pulmão permanece normal, mas a gordura fica inflamada. Isso sugere que o processo começa na gordura e que substâncias liberadas ali acabam migrando para o pulmão, onde intensificam uma resposta alérgica já existente”, explica Ferreira.

Embora o estudo tenha sido realizado especificamente com um modelo experimental de asma, diz a pesquisadora, é bem provável que o alto consumo de açúcar também agrave inflamações preexistentes em outros órgãos. “Realizamos um estudo parecido sobre dermatite. Os resultados também mostraram uma exacerbação da inflamação na pele, em um curto período”, afirma.

Como ressaltam os especialistas, a dieta rica em açúcar sozinha não é capaz de causar asma, mas atua como um potente amplificador da inflamação. “Nenhum animal sem asma induzida apresentou a doença após consumir grandes quantidades de leite condensado. Já nos animais que possuíam a sensibilidade alérgica, o açúcar aumentou drasticamente o muco nas vias aéreas e o recrutamento de células inflamatórias”, completa Ferreira.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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