Reflexões homeopáticas sobre a gravidade que
perpassa a República
Zé
Dirceu vem defendendo publicamente a necessidade de reformas nos três Poderes
da República e chega a falar em uma espécie de autorreforma institucional.
No
entanto, mudanças dessa dimensão dificilmente poderiam ser realizadas de forma
profunda sem a convocação de uma nova Assembleia Constituinte, caso contrário,
seria uma reforma das elites, sem participação da sociedade civil.
Só o
próximo Congresso Nacional poderia realizar um plebiscito para que o poder
popular emane sua vontade para a convocação de uma Constituinte. Contudo, não
há dúvida de que o país necessita discutir reformas estruturais em seu
ordenamento jurídico e político.
Mas a
conjuntura atual, marcada por uma polarização extremada e pelo fortalecimento
de forças antidemocráticas, não parece ser um ambiente acolhedor para a
construção de um novo Poder Constituinte.
O
Brasil precisa avançar estruturalmente, mas também precisa criar diques de
proteção à sanha da extrema-direita do bolsonarismo. Uma eventual reforma
institucional não pode ignorar essa realidade.
Antes
de abrir um processo constituinte, é necessário refletir sobre quais forças
políticas estarão em condições de conduzi-lo e quais garantias existirão para
que um novo ordenamento represente avanço democrático, e não retrocesso.
O
bolsonarismo não se limitou à disputa eleitoral ou à construção de uma corrente
política. Ao longo dos últimos anos, consolidou uma cultura de cizânia que
passou a contaminar as instituições brasileiras, estimulando conflitos
permanentes, desconfianças e antagonismos.
O
problema se torna ainda mais grave quando a disputa política deixa de ocorrer
apenas entre projetos de país e passa a produzir fissuras dentro das próprias
estruturas do Estado, colocando instituições umas contra as outras e
transformando divergências em crises.
Por
isso, é mister um esforço concentrado de verdadeiros bombeiros políticos,
capazes de diminuir as chamas antes que o incêndio institucional se alastre.
É
preciso reconstruir pontes, restabelecer canais de diálogo e impedir que a
cultura da confrontação permanente avance sobre setores ainda mais sensíveis do
Estado, especialmente as Forças Armadas.
Se a
lógica da cizânia continuar se aprofundando, o país poderá enfrentar uma crise
de consequências ainda mais graves e difíceis de controlar.
E a
instabilidade institucional é tudo o que o imperialista Trump quer para
justificar ingerência no Brasil.
Quem
trabalha para quem na República?
Mensagens
e áudios relacionados ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e ao
ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça têm atualizações sérias.
Em uma
mensagem revelada pela imprensa, o advogado Ciro Rocha Soares aparece ao lado
de Mendonça em uma alfaiataria e envia um áudio a Vorcaro: “Fala, Vorcarinho,
trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”.
Demonstrando que o terno tenha, quiçá, sido pago pelo banqueiro ou pelo
advogado, mas revelou uma busca para aproximar o banqueiro do ministro da
Suprema Corte.
Segundo
mensagens e áudios revelados pela imprensa, Ciro Rocha Soares e o deputado
Cezinha de Madureira participaram da articulação para aproximar Daniel Vorcaro
de André Mendonça.
O
ministro confirmou ter recebido o banqueiro uma única vez, em março de 2025, em
reunião realizada em São Paulo. A reunião ocorreu no Instituto Iter,
instituição fundada por Mendonça, e durou cerca de duas horas.
O
Supremo Tribunal Federal não é uma associação privada de homens poderosos. Seus
ministros exercem funções que atingem diretamente a vida política, econômica e
social do país. Por isso, as relações que mantêm com banqueiros, empresários,
advogados e intermediários precisam estar submetidas ao mais alto padrão de
transparência e prudência.
André
Mendonça tem sido um subversivo anárquico do Judiciário. De aparência colorida,
com seu terno associado à polêmica envolvendo Vorcaro, a peruquinha
cuidadosamente ajustada e uma voz mansa, quase infantil, constrói a imagem de
alguém aparentemente inofensivo.
Mas,
por trás da aparência dócil, estaria uma serpente capaz de paralisar e corroer
o funcionamento harmonioso do sistema republicano.
A
República brasileira parece atravessar um daqueles momentos em que as
instituições continuam de pé, mas seus alicerces começam a ranger. André
Mendonça é apresentado como uma espécie de cobra-coral da República: de terno
impecável, voz mansa e comportamento aparentemente inofensivo, mas portadora de
um veneno político capaz de paralisar o funcionamento harmonioso do sistema
republicano.
Na
Suprema Corte, o conflito entre Alexandre de Moraes e André Mendonça parece ter
assumido proporções de protagonismo, enquanto outros ministros, como Flávio
Dino e Cristiano Zanin, permanecem mais apagados no debate público.
O
problema, contudo, aparece na transformação das divergências institucionais em
disputas cada vez mais personalizadas.
Também
chama atenção a crescente promiscuidade entre setores do Judiciário e grandes
interesses econômicos. A proximidade entre autoridades públicas e banqueiros,
especialmente quando surgem suspeitas ou questionamentos sobre benefícios,
relações privadas e favores, representa um dos piores sinais para uma
República.
Seria
preciso questionar como determinados símbolos de status e poder — um terninho,
por exemplo — podem se transformar em instrumentos de sedução e vaidade para os
narcisos do Judiciário e da polícia institucional.
Mais
grave ainda é a possibilidade de normalização dessas relações. Quando a
sociedade passa a tratar suspeitas de corrupção e conflitos de interesse como
algo corriqueiro, a degradação institucional deixa de causar escândalo e passa
a ser incorporada à rotina política.
Esse
ambiente de caos institucional é particularmente perigoso porque interessa às
forças que apostam no enfraquecimento da República. Os bolsonaristas, seja por
meio de André Mendonça, seja através da atuação política de Flávio Bolsonaro,
alimentam uma estratégia de conflito permanente que fragiliza as instituições
brasileiras.
Uma
República dividida, com seus Poderes em permanente confronto e suas autoridades
submetidas a disputas públicas, oferece um cenário favorável à exploração
política externa. Um prato feito para figuras como Donald Trump e para aqueles
que procuram transformar as fragilidades internas do Brasil em instrumentos de
pressão e interferência.
Diante
desse quadro, volta à discussão a necessidade de uma profunda reforma política
e institucional. Dependendo da configuração do próximo Congresso Nacional,
poderá ser viável — ou não — a convocação, via plebiscito, de uma Constituinte
exclusiva, com competências delimitadas para tratar especificamente das
reformas política e judiciária.
Uma
iniciativa dessa natureza exigiria, entretanto, extrema cautela.
Uma
Constituinte poderia representar uma oportunidade de fortalecimento da
democracia e de aperfeiçoamento da República, mas, em uma conjuntura dominada
pela extrema-direita e pela radicalização política, também poderia abrir espaço
para retrocessos.
Contudo,
do jeito que está, tende a piorar.
¨ A fabricação do
eleitor: algoritmos, democracia, marketing e poder ideológico. Por Alexandre
Machado Rosa
A
democracia liberal, segundo seus ideólogos e defensores, fundamenta-se
formalmente na representação política, no sufrágio universal e na livre
circulação das ideias. Entretanto, a introdução das técnicas de publicidade nas
campanhas eleitorais transformou e aprisionou profundamente o funcionamento
desse modelo.
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Sob a
lógica do mercado, a política passou a apresentar os candidatos como espécies
de produtos ao eleitorado. O eleitor comum passou a ser tratado como um
consumidor de imagens, de slogans e de narrativas emocionais. O fascismo
utilizou-se muito da estética e da comunicação quando ascendeu na Europa.
Técnicas
como a simplificação e a repetição, como o uso de mensagens curtas, repetidas à
exaustão e focadas em inimigos comuns (os judeus no nazismo e os comunistas nos
EUA), parecem ter resistido mesmo após a derrota do nazifascismo na Segunda
Guerra Mundial.
O
resgate do culto à personalidade, com candidatos retratados como líderes
salvadores, fortes e incorruptíveis, permanece atual, como nos casos de Trump e
Bolsonaro, para citar apenas dois personagens contemporâneos.
Mas foi, efetivamente, a partir da campanha presidencial de Dwight Eisenhower,
em 1952, que as eleições se converteram em produto publicitário. Podemos
afirmar que a metamorfose das campanhas políticas surgiu com o advento da TV,
na década de 1950. Nos EUA, uma grande agência de publicidade, a BBDO (Batten,
Barton, Durstine & Osborn), produziu pequenos anúncios televisivos nos
quais o candidato respondia a perguntas cuidadosamente selecionadas. A
complexidade dos problemas sociais começava a ser reduzida a mensagens de
poucos segundos, esvaziando o debate público e transformando os temas de
interesse social em assunto publicitário.
Desde
então, o debate político foi progressivamente substituído por uma estética
elaborada segundo os cânones do marketing. Projetos de sociedade cederam espaço
aos soundbites, frases concebidas para provocar reações imediatas. Com as redes
sociais, essa lógica foi levada ao extremo. Com o uso dos algoritmos, passou-se
ao cruzamento de dados, possibilitando a individualização de mensagens conforme
os medos, os preconceitos e as vulnerabilidades de cada parcela do eleitorado.
Expressões
como “bandido bom é bandido morto” e mentiras grotescas como “kit gay” e
“mamadeira de piroca” representam o estágio mais degradado desse processo. Não
procuram explicar a realidade nem apresentar soluções. Sua função é bloquear a
reflexão, produzir pânico moral, fabricar inimigos e afastar o debate das
estruturas responsáveis pela desigualdade social. São técnicas criadas pelo
nazifascismo e incorporadas ao marketing político.
Contudo,
o problema não está apenas nas técnicas de marketing. No livro O poder da
ideologia, István Mészáros (1930–2017) demonstra que nenhuma interpretação da
sociedade nasce fora da história e dos conflitos sociais. A criação do mito da
neutralidade absoluta procura ocultar que toda concepção de mundo está
relacionada, direta ou indiretamente, à conservação ou à transformação da ordem
existente. Segundo seus ideólogos, as agências de publicidade seriam apenas um
modo de profissionalizar a comunicação desses princípios.
Vale
lembrar que a ideologia não é uma mentira deliberada. É uma forma socialmente
produzida de compreender o mundo. A ideologia dominante apresenta os interesses
particulares das classes que controlam a economia como se fossem os interesses
universais da sociedade. A concentração da riqueza aparece como resultado do
mérito; a pobreza, como falta de esforço; a retirada de direitos, como
modernização; a privatização, como eficiência; e a repressão, como segurança.
É nesse
terreno que atua o marketing político. Candidatos com históricos de corrupção,
autoritarismo e desmandos podem ser vendidos como defensores da moralidade ou
salvadores da pátria, desde que não ameacem os interesses dos setores
economicamente dominantes. Muda-se a embalagem, preserva-se o conteúdo.
A
chamada indústria das pesquisas reforça esse esvaziamento. Muitos dirigentes
deixaram de disputar a consciência social por meio de convicções e programas e
passaram a dizer apenas aquilo que as sondagens indicam que o eleitor deseja
ouvir. Essa “sondocracia” pode determinar slogans, gestos e temas de campanha,
mas raramente permite questionar a propriedade privada, a concentração da
riqueza ou o poder das grandes plataformas tecnológicas.
Para
Mészáros, portanto, a questão decisiva é a emancipação humana. Se a ideologia
dominante naturaliza a desigualdade e apresenta o capitalismo como o horizonte
definitivo da humanidade, uma perspectiva emancipatória deve revelar que essas
relações foram historicamente construídas e podem ser superadas.
A
verdadeira emancipação não se limita à liberdade formal de escolher candidatos
periodicamente. Exige condições materiais para que os indivíduos participem das
decisões que determinam suas vidas: acesso ao conhecimento, segurança
econômica, tempo livre e controle democrático sobre os meios de produção e
comunicação.
A crise
da democracia não decorre apenas da existência de notícias falsas,
publicitários ou algoritmos. Ela nasce da contradição entre a igualdade formal
dos cidadãos e a profunda desigualdade material da sociedade. Enquanto o poder
econômico estiver concentrado, também estarão concentradas as condições para
produzir informações, financiar campanhas e determinar os limites do debate
público.
A
disputa ideológica é, em última instância, uma disputa sobre o futuro. De um
lado, uma ideologia que transforma a desigualdade em natureza e o capitalismo
em destino. De outro, uma perspectiva emancipatória que afirma que a liberdade
humana somente poderá existir plenamente quando os seres humanos deixarem de
ser governados pelas forças econômicas que eles próprios criaram.
Fonte:
Por Francisco Calmon, em Brasil 247

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