sábado, 12 de setembro de 2026

Reflexões homeopáticas sobre a gravidade que perpassa a República

Zé Dirceu vem defendendo publicamente a necessidade de reformas nos três Poderes da República e chega a falar em uma espécie de autorreforma institucional.

No entanto, mudanças dessa dimensão dificilmente poderiam ser realizadas de forma profunda sem a convocação de uma nova Assembleia Constituinte, caso contrário, seria uma reforma das elites, sem participação da sociedade civil.

Só o próximo Congresso Nacional poderia realizar um plebiscito para que o poder popular emane sua vontade para a convocação de uma Constituinte. Contudo, não há dúvida de que o país necessita discutir reformas estruturais em seu ordenamento jurídico e político.

Mas a conjuntura atual, marcada por uma polarização extremada e pelo fortalecimento de forças antidemocráticas, não parece ser um ambiente acolhedor para a construção de um novo Poder Constituinte.

O Brasil precisa avançar estruturalmente, mas também precisa criar diques de proteção à sanha da extrema-direita do bolsonarismo. Uma eventual reforma institucional não pode ignorar essa realidade.

Antes de abrir um processo constituinte, é necessário refletir sobre quais forças políticas estarão em condições de conduzi-lo e quais garantias existirão para que um novo ordenamento represente avanço democrático, e não retrocesso.

O bolsonarismo não se limitou à disputa eleitoral ou à construção de uma corrente política. Ao longo dos últimos anos, consolidou uma cultura de cizânia que passou a contaminar as instituições brasileiras, estimulando conflitos permanentes, desconfianças e antagonismos.

O problema se torna ainda mais grave quando a disputa política deixa de ocorrer apenas entre projetos de país e passa a produzir fissuras dentro das próprias estruturas do Estado, colocando instituições umas contra as outras e transformando divergências em crises.

Por isso, é mister um esforço concentrado de verdadeiros bombeiros políticos, capazes de diminuir as chamas antes que o incêndio institucional se alastre.

É preciso reconstruir pontes, restabelecer canais de diálogo e impedir que a cultura da confrontação permanente avance sobre setores ainda mais sensíveis do Estado, especialmente as Forças Armadas.

Se a lógica da cizânia continuar se aprofundando, o país poderá enfrentar uma crise de consequências ainda mais graves e difíceis de controlar.

E a instabilidade institucional é tudo o que o imperialista Trump quer para justificar ingerência no Brasil.

Quem trabalha para quem na República?

Mensagens e áudios relacionados ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e ao ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça têm atualizações sérias.

Em uma mensagem revelada pela imprensa, o advogado Ciro Rocha Soares aparece ao lado de Mendonça em uma alfaiataria e envia um áudio a Vorcaro: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”. Demonstrando que o terno tenha, quiçá, sido pago pelo banqueiro ou pelo advogado, mas revelou uma busca para aproximar o banqueiro do ministro da Suprema Corte.

Segundo mensagens e áudios revelados pela imprensa, Ciro Rocha Soares e o deputado Cezinha de Madureira participaram da articulação para aproximar Daniel Vorcaro de André Mendonça.

O ministro confirmou ter recebido o banqueiro uma única vez, em março de 2025, em reunião realizada em São Paulo. A reunião ocorreu no Instituto Iter, instituição fundada por Mendonça, e durou cerca de duas horas.

O Supremo Tribunal Federal não é uma associação privada de homens poderosos. Seus ministros exercem funções que atingem diretamente a vida política, econômica e social do país. Por isso, as relações que mantêm com banqueiros, empresários, advogados e intermediários precisam estar submetidas ao mais alto padrão de transparência e prudência.

André Mendonça tem sido um subversivo anárquico do Judiciário. De aparência colorida, com seu terno associado à polêmica envolvendo Vorcaro, a peruquinha cuidadosamente ajustada e uma voz mansa, quase infantil, constrói a imagem de alguém aparentemente inofensivo.

Mas, por trás da aparência dócil, estaria uma serpente capaz de paralisar e corroer o funcionamento harmonioso do sistema republicano.

A República brasileira parece atravessar um daqueles momentos em que as instituições continuam de pé, mas seus alicerces começam a ranger. André Mendonça é apresentado como uma espécie de cobra-coral da República: de terno impecável, voz mansa e comportamento aparentemente inofensivo, mas portadora de um veneno político capaz de paralisar o funcionamento harmonioso do sistema republicano.

Na Suprema Corte, o conflito entre Alexandre de Moraes e André Mendonça parece ter assumido proporções de protagonismo, enquanto outros ministros, como Flávio Dino e Cristiano Zanin, permanecem mais apagados no debate público.

O problema, contudo, aparece na transformação das divergências institucionais em disputas cada vez mais personalizadas.

Também chama atenção a crescente promiscuidade entre setores do Judiciário e grandes interesses econômicos. A proximidade entre autoridades públicas e banqueiros, especialmente quando surgem suspeitas ou questionamentos sobre benefícios, relações privadas e favores, representa um dos piores sinais para uma República.

Seria preciso questionar como determinados símbolos de status e poder — um terninho, por exemplo — podem se transformar em instrumentos de sedução e vaidade para os narcisos do Judiciário e da polícia institucional.

Mais grave ainda é a possibilidade de normalização dessas relações. Quando a sociedade passa a tratar suspeitas de corrupção e conflitos de interesse como algo corriqueiro, a degradação institucional deixa de causar escândalo e passa a ser incorporada à rotina política.

Esse ambiente de caos institucional é particularmente perigoso porque interessa às forças que apostam no enfraquecimento da República. Os bolsonaristas, seja por meio de André Mendonça, seja através da atuação política de Flávio Bolsonaro, alimentam uma estratégia de conflito permanente que fragiliza as instituições brasileiras.

Uma República dividida, com seus Poderes em permanente confronto e suas autoridades submetidas a disputas públicas, oferece um cenário favorável à exploração política externa. Um prato feito para figuras como Donald Trump e para aqueles que procuram transformar as fragilidades internas do Brasil em instrumentos de pressão e interferência.

Diante desse quadro, volta à discussão a necessidade de uma profunda reforma política e institucional. Dependendo da configuração do próximo Congresso Nacional, poderá ser viável — ou não — a convocação, via plebiscito, de uma Constituinte exclusiva, com competências delimitadas para tratar especificamente das reformas política e judiciária.

Uma iniciativa dessa natureza exigiria, entretanto, extrema cautela.

Uma Constituinte poderia representar uma oportunidade de fortalecimento da democracia e de aperfeiçoamento da República, mas, em uma conjuntura dominada pela extrema-direita e pela radicalização política, também poderia abrir espaço para retrocessos.

Contudo, do jeito que está, tende a piorar.

¨      A fabricação do eleitor: algoritmos, democracia, marketing e poder ideológico. Por Alexandre Machado Rosa

A democracia liberal, segundo seus ideólogos e defensores, fundamenta-se formalmente na representação política, no sufrágio universal e na livre circulação das ideias. Entretanto, a introdução das técnicas de publicidade nas campanhas eleitorais transformou e aprisionou profundamente o funcionamento desse modelo.

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Sob a lógica do mercado, a política passou a apresentar os candidatos como espécies de produtos ao eleitorado. O eleitor comum passou a ser tratado como um consumidor de imagens, de slogans e de narrativas emocionais. O fascismo utilizou-se muito da estética e da comunicação quando ascendeu na Europa.

Técnicas como a simplificação e a repetição, como o uso de mensagens curtas, repetidas à exaustão e focadas em inimigos comuns (os judeus no nazismo e os comunistas nos EUA), parecem ter resistido mesmo após a derrota do nazifascismo na Segunda Guerra Mundial.

O resgate do culto à personalidade, com candidatos retratados como líderes salvadores, fortes e incorruptíveis, permanece atual, como nos casos de Trump e Bolsonaro, para citar apenas dois personagens contemporâneos.
Mas foi, efetivamente, a partir da campanha presidencial de Dwight Eisenhower, em 1952, que as eleições se converteram em produto publicitário. Podemos afirmar que a metamorfose das campanhas políticas surgiu com o advento da TV, na década de 1950. Nos EUA, uma grande agência de publicidade, a BBDO (Batten, Barton, Durstine & Osborn), produziu pequenos anúncios televisivos nos quais o candidato respondia a perguntas cuidadosamente selecionadas. A complexidade dos problemas sociais começava a ser reduzida a mensagens de poucos segundos, esvaziando o debate público e transformando os temas de interesse social em assunto publicitário.

Desde então, o debate político foi progressivamente substituído por uma estética elaborada segundo os cânones do marketing. Projetos de sociedade cederam espaço aos soundbites, frases concebidas para provocar reações imediatas. Com as redes sociais, essa lógica foi levada ao extremo. Com o uso dos algoritmos, passou-se ao cruzamento de dados, possibilitando a individualização de mensagens conforme os medos, os preconceitos e as vulnerabilidades de cada parcela do eleitorado.

Expressões como “bandido bom é bandido morto” e mentiras grotescas como “kit gay” e “mamadeira de piroca” representam o estágio mais degradado desse processo. Não procuram explicar a realidade nem apresentar soluções. Sua função é bloquear a reflexão, produzir pânico moral, fabricar inimigos e afastar o debate das estruturas responsáveis pela desigualdade social. São técnicas criadas pelo nazifascismo e incorporadas ao marketing político.

Contudo, o problema não está apenas nas técnicas de marketing. No livro O poder da ideologia, István Mészáros (1930–2017) demonstra que nenhuma interpretação da sociedade nasce fora da história e dos conflitos sociais. A criação do mito da neutralidade absoluta procura ocultar que toda concepção de mundo está relacionada, direta ou indiretamente, à conservação ou à transformação da ordem existente. Segundo seus ideólogos, as agências de publicidade seriam apenas um modo de profissionalizar a comunicação desses princípios.

Vale lembrar que a ideologia não é uma mentira deliberada. É uma forma socialmente produzida de compreender o mundo. A ideologia dominante apresenta os interesses particulares das classes que controlam a economia como se fossem os interesses universais da sociedade. A concentração da riqueza aparece como resultado do mérito; a pobreza, como falta de esforço; a retirada de direitos, como modernização; a privatização, como eficiência; e a repressão, como segurança.

É nesse terreno que atua o marketing político. Candidatos com históricos de corrupção, autoritarismo e desmandos podem ser vendidos como defensores da moralidade ou salvadores da pátria, desde que não ameacem os interesses dos setores economicamente dominantes. Muda-se a embalagem, preserva-se o conteúdo.

A chamada indústria das pesquisas reforça esse esvaziamento. Muitos dirigentes deixaram de disputar a consciência social por meio de convicções e programas e passaram a dizer apenas aquilo que as sondagens indicam que o eleitor deseja ouvir. Essa “sondocracia” pode determinar slogans, gestos e temas de campanha, mas raramente permite questionar a propriedade privada, a concentração da riqueza ou o poder das grandes plataformas tecnológicas.

Para Mészáros, portanto, a questão decisiva é a emancipação humana. Se a ideologia dominante naturaliza a desigualdade e apresenta o capitalismo como o horizonte definitivo da humanidade, uma perspectiva emancipatória deve revelar que essas relações foram historicamente construídas e podem ser superadas.

A verdadeira emancipação não se limita à liberdade formal de escolher candidatos periodicamente. Exige condições materiais para que os indivíduos participem das decisões que determinam suas vidas: acesso ao conhecimento, segurança econômica, tempo livre e controle democrático sobre os meios de produção e comunicação.

A crise da democracia não decorre apenas da existência de notícias falsas, publicitários ou algoritmos. Ela nasce da contradição entre a igualdade formal dos cidadãos e a profunda desigualdade material da sociedade. Enquanto o poder econômico estiver concentrado, também estarão concentradas as condições para produzir informações, financiar campanhas e determinar os limites do debate público.

A disputa ideológica é, em última instância, uma disputa sobre o futuro. De um lado, uma ideologia que transforma a desigualdade em natureza e o capitalismo em destino. De outro, uma perspectiva emancipatória que afirma que a liberdade humana somente poderá existir plenamente quando os seres humanos deixarem de ser governados pelas forças econômicas que eles próprios criaram.

 

Fonte: Por Francisco Calmon, em Brasil 247

 

 

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