sábado, 12 de setembro de 2026

China debate reduzir a importância do inglês nas escolas

Há anos que o inglês é tido como a principal língua internacional em todo o mundo. Estima-se que um em cada cinco habitantes do planeta o idioma como língua franca. Na China, porém, um professor universitário defende que o país pare de dar "tanta importância" para um idioma ocidental.

O matemático Tang Jiafeng quer que o inglês deixe de ter o mesmo peso que as disciplinas de matemática e mandarim, nos exames dos sistemas educacionais chineses. Segundo ele, nenhum outro país atribui ao inglês um valor tão alto quanto a China.

"Nossas crianças começam a estudar inglês antes mesmo de dominarem plenamente a própria língua. Somos uma civilização com milhares de anos de história. O inglês é apenas uma ferramenta. Basta saber utilizá-lo. A tradição de admirar e imitar culturas ocidentais precisa acabar", argumenta.

Aprender inglês é um desafio para estudantes chineses, já que o mandarim utiliza um sistema de escrita baseado em caracteres, diferente do alfabeto empregado em idiomas ocidentais.

Na China, o inglês é disciplina obrigatória a partir do terceiro ano do ensino fundamental. O desempenho dos estudantes na matéria tem peso significativo nas principais provas do país, incluindo os exames para entrar no ensino médio e o gaokao, o rigoroso "vestibular" chinês. Neste, a disciplina tem a mesma pontuação máxima de matérias como mandarim e matemática.

Para Tang, o modelo atual exige muitos recursos e bastante tempo. "Quanto tempo, dinheiro e esforço de alunos, pais e escolas são dedicados a uma disciplina que, para a maioria das pessoas, terá pouca relevância em sua futura vida profissional?", questiona ele.

O professor ganhou notoriedade nacional depois que os seus alunos apresentaram resultados excelentes em competições de matemática. Vários alcançaram pontuação máxima.

<><> "A IA já traduz tudo"

As declarações de Tang rapidamente viralizaram nas redes sociais chinesas. "Muitos se perguntam por que passar anos decorando inglês se ferramentas de inteligência artificial conseguem traduzir textos e conversas em poucos segundos", escreveu um usuário da plataforma Weibo.

Outros defendem medidas menos radicais. Uma das propostas é reduzir o peso da disciplina nos exames nacionais, sem eliminá-la completamente.

O debate também envolve o grande mercado de aulas particulares. Muitas famílias chinesas investem quantias exorbitantes em cursos preparatórios voltados especificamente para os testes de inglês.

Além disso, estudantes que desejam ingressar em programas de pós-graduação normalmente precisam comprovar proficiência no inglês. Para Tang, essa exigência pode acabar excluindo jovens talentos das áreas de ciência e tecnologia que possuem grande potencial acadêmico, mas encontram dificuldades com línguas estrangeiras.

<><> Ciência e competitividade global

Os críticos da proposta argumentam que reduzir a importância do inglês pode prejudicar a competitividade internacional da China.

Grande parte da produção científica mundial, especialmente em áreas estratégicas como inteligência artificial (IA), biotecnologia e engenharia, é publicada em inglês. Sem domínio adequado do idioma, pesquisadores e profissionais chineses teriam mais dificuldades para acompanhar avanços científicos e participar de redes globais de conhecimento.

Entre os defensores de manter a importância do inglês no sistema educacional está Hu Xijin, ex-editor-chefe do jornal estatal Global Times. Para ele, o domínio de idiomas estrangeiros é uma competência fundamental no século 21.

"Vivemos em uma era de globalização. A abertura da China para o mundo não é apenas uma política de Estado; ela amplia as oportunidades das pessoas e seus horizontes profissionais e culturais", afirmou. Ele também critica a ideia de transformar o debate em uma disputa entre tradição chinesa e influência estrangeira.

Segundo Hu, dá para valorizar a cultura nacional e, ao mesmo tempo, o aprendizado de idiomas. Compreender outras línguas amplia as possibilidades de intercâmbio econômico, científico e cultural, destaca.

Outro argumento frequente é o da igualdade de oportunidades. Para os defensores da disciplina, manter o inglês no currículo obrigatório garante que crianças de regiões rurais e menos desenvolvidas também tenham acesso a uma ferramenta importante para a mobilidade social e profissional.

<><> Universidades repensam formação

A discussão ocorre em um momento de transformação nas universidades chinesas especializadas em línguas estrangeiras.

Docentes relatam que cursos tradicionais, como alemão, francês e outras graduações voltadas exclusivamente para idiomas, vêm atraindo menos candidatos nos últimos anos.

Como resposta, instituições de ensino superior têm reformulado seus currículos. Na Beijing Foreign Studies University, uma das mais prestigiadas da área, o modelo que combina formação linguística com outras especializações, como direito, tecnologia da informação e economia está ganhando força.

A discussão sobre a influência estrangeira na educação está longe de ser novidade na China. Já no final do século 19, durante o movimento de modernização da dinastia Qing, intelectuais defendiam que o país deveria aprender com as potências ocidentais para fortalecer seu próprio desenvolvimento.

 

Fonte: DW Brasil

 

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