China
debate reduzir a importância do inglês nas escolas
Há anos
que o inglês é tido como a principal língua internacional em todo o mundo.
Estima-se que um em cada cinco habitantes do planeta o idioma como língua
franca. Na China, porém, um professor universitário defende que o país pare de
dar "tanta importância" para um idioma ocidental.
O
matemático Tang Jiafeng quer que o inglês deixe de ter o mesmo peso que as
disciplinas de matemática e mandarim, nos exames dos sistemas educacionais
chineses. Segundo ele, nenhum outro país atribui ao inglês um valor tão alto
quanto a China.
"Nossas
crianças começam a estudar inglês antes mesmo de dominarem plenamente a própria
língua. Somos uma civilização com milhares de anos de história. O inglês é
apenas uma ferramenta. Basta saber utilizá-lo. A tradição de admirar e imitar
culturas ocidentais precisa acabar", argumenta.
Aprender
inglês é um desafio para estudantes chineses, já que o mandarim utiliza um
sistema de escrita baseado em caracteres, diferente do alfabeto empregado em
idiomas ocidentais.
Na
China, o inglês é disciplina obrigatória a partir do terceiro ano do ensino
fundamental. O desempenho dos estudantes na matéria tem peso significativo nas
principais provas do país, incluindo os exames para entrar no ensino médio e o
gaokao, o rigoroso "vestibular" chinês. Neste, a disciplina tem a
mesma pontuação máxima de matérias como mandarim e matemática.
Para
Tang, o modelo atual exige muitos recursos e bastante tempo. "Quanto
tempo, dinheiro e esforço de alunos, pais e escolas são dedicados a uma
disciplina que, para a maioria das pessoas, terá pouca relevância em sua futura
vida profissional?", questiona ele.
O
professor ganhou notoriedade nacional depois que os seus alunos apresentaram
resultados excelentes em competições de matemática. Vários alcançaram pontuação
máxima.
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"A IA já traduz tudo"
As
declarações de Tang rapidamente viralizaram nas redes sociais chinesas.
"Muitos se perguntam por que passar anos decorando inglês se ferramentas
de inteligência artificial conseguem traduzir textos e conversas em poucos
segundos", escreveu um usuário da plataforma Weibo.
Outros
defendem medidas menos radicais. Uma das propostas é reduzir o peso da
disciplina nos exames nacionais, sem eliminá-la completamente.
O
debate também envolve o grande mercado de aulas particulares. Muitas famílias
chinesas investem quantias exorbitantes em cursos preparatórios voltados
especificamente para os testes de inglês.
Além
disso, estudantes que desejam ingressar em programas de pós-graduação
normalmente precisam comprovar proficiência no inglês. Para Tang, essa
exigência pode acabar excluindo jovens talentos das áreas de ciência e
tecnologia que possuem grande potencial acadêmico, mas encontram dificuldades
com línguas estrangeiras.
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Ciência e competitividade global
Os
críticos da proposta argumentam que reduzir a importância do inglês pode
prejudicar a competitividade internacional da China.
Grande
parte da produção científica mundial, especialmente em áreas estratégicas como
inteligência artificial (IA), biotecnologia e engenharia, é publicada em
inglês. Sem domínio adequado do idioma, pesquisadores e profissionais chineses
teriam mais dificuldades para acompanhar avanços científicos e participar de
redes globais de conhecimento.
Entre
os defensores de manter a importância do inglês no sistema educacional está Hu
Xijin, ex-editor-chefe do jornal estatal Global Times. Para ele, o domínio de
idiomas estrangeiros é uma competência fundamental no século 21.
"Vivemos
em uma era de globalização. A abertura da China para o mundo não é apenas uma
política de Estado; ela amplia as oportunidades das pessoas e seus horizontes
profissionais e culturais", afirmou. Ele também critica a ideia de
transformar o debate em uma disputa entre tradição chinesa e influência
estrangeira.
Segundo
Hu, dá para valorizar a cultura nacional e, ao mesmo tempo, o aprendizado de
idiomas. Compreender outras línguas amplia as possibilidades de intercâmbio
econômico, científico e cultural, destaca.
Outro
argumento frequente é o da igualdade de oportunidades. Para os defensores da
disciplina, manter o inglês no currículo obrigatório garante que crianças de
regiões rurais e menos desenvolvidas também tenham acesso a uma ferramenta
importante para a mobilidade social e profissional.
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Universidades repensam formação
A
discussão ocorre em um momento de transformação nas universidades chinesas
especializadas em línguas estrangeiras.
Docentes
relatam que cursos tradicionais, como alemão, francês e outras graduações
voltadas exclusivamente para idiomas, vêm atraindo menos candidatos nos últimos
anos.
Como
resposta, instituições de ensino superior têm reformulado seus currículos. Na
Beijing Foreign Studies University, uma das mais prestigiadas da área, o modelo
que combina formação linguística com outras especializações, como direito,
tecnologia da informação e economia está ganhando força.
A
discussão sobre a influência estrangeira na educação está longe de ser novidade
na China. Já no final do século 19, durante o movimento de modernização da
dinastia Qing, intelectuais defendiam que o país deveria aprender com as
potências ocidentais para fortalecer seu próprio desenvolvimento.
Fonte:
DW Brasil

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