A utopia é uma promessa pela qual vale a pena
lutar
A perturbadora
impossibilidade de uma sociedade que corresponda aos nossos ideais pode ser
dolorosa quando confrontada com as sociedades reais que estão tão aquém deles.
É por isso que o sonho da utopia, ou do “lugar nenhum”, tem perturbado o sono
de muitos pensadores por tanto tempo que pode parecer um pesadelo. Diante da
hipocrisia de um mundo onde a crueldade muitas vezes parece ser o objetivo, que
direito temos de supor que as coisas poderiam ser melhores? Como podem pessoas
supostamente sábias e inteligentes sonhar com a utopia quando a sabedoria e a
inteligência apontam para a sua impossibilidade?
O novo
livro de David Albertson e Jason Blakely, Utopia for our century: A
manifesto of hope, apresenta uma análise histórica ponderada sobre as
almas ousadas que sonharam com um mundo melhor. Mas, mais do que uma narrativa
histórica, busca refletir sobre o valor político e ideológico do pensamento
utópico e contestar a ideia de que ele não passa de mera ilusão. Albertson e
Blakely encontram muitos motivos para admirar os autores utópicos,
considerando-os “sonhadores virtuosos, que viveram realidades tão sombrias e
assustadoras quanto as nossas, mas o fizeram com uma esperança inabalável”. Em
sua melhor forma, os utopistas enfatizaram a esperança sem garantias — uma
posição sábia que traça um caminho intermediário entre o otimismo cego e a
inércia resignada do falso “realismo”.
Seu
arquétipo é Thomas More, cuja obra Utopia, publicada no século
XVI, batizou o conceito. Para Albertson e Blakely, More nos oferece um
vislumbre da personalidade dos utopistas. Eles não são os otimistas ingênuos
das caricaturas habituais.
Longe
de ser um pensador especulativo e leviano, More é um dos poucos filósofos
importantes a ter tido uma carreira política genuinamente pública, e durante um
período singularmente desafiador. Ele serviu como Lorde Chanceler da Inglaterra
sob o reinado do amoral e cruel Henrique VIII. Este foi um período tumultuoso
para o país. Henrique rompeu com Roma e se declarou chefe da Igreja da
Inglaterra para anular o próprio casamento e se casar com outra mulher. Isso
gerou forte reação, que Henrique enfrentou com violenta repressão. Essa
repressão acabou por atingir More, um católico devoto, que foi julgado por se
recusar a reconhecer a supremacia religiosa de Henrique. More manteve-se firme
em suas convicções, o que levou à sua execução em 1535.
Albertson
e Blakely compreendem que a imersão trágica de More na realpolitik é
parte do que inspirou sua conversão ao utopismo. Sua irônica designação de
“utopia” como “lugar nenhum” não visa apenas demonstrar a natureza especulativa
de seu pensamento. More está chamando a atenção para o fato de que nenhum lugar
na Terra chega perto de incorporar a justiça, embora muitas elites governantes,
que detêm o poder de mudar as coisas, afirmem se importar profundamente com
ela. Em uma passagem memorável, More descreve um diálogo entre Raphael
Hythloday — o viajante que chega em Utopia — e um advogado não identificado. O
advogado afirma estar preocupado com a lei e a ordem e argumenta que a única
maneira de preservá-las é por meio de punições brutais.
Hythloday
observa que a Utopia é um lugar muito mais seguro, em grande parte porque é uma
sociedade muito menos desigual, onde a propriedade é amplamente compartilhada e
há poucos pobres. Além disso, suas punições para crimes como roubo são muito
mais brandas do que na Inglaterra, expressando ainda mais seus compromissos
humanistas. Com um humor mordaz, Hythloday observa que realistas como o
advogado aprisionam os pobres em uma situação muito difícil, “primeiro
transformando-os em ladrões e depois punindo-os por isso”. Em vez de
implementar reformas para alcançar a paz e a justiça que o advogado alega
desejar e em que acredita, ele persiste obstinadamente na ilusão de que “a
Inglaterra poderia resolver os problemas da pobreza encarcerando e executando
pessoas (infelizmente, o estratagema ainda funciona perfeitamente)”.
Nesse
sentido, o utopismo não é uma fantasia sobre mundos que jamais poderiam
existir, mas um espelho condenatório que reflete o quão pouco vivemos de acordo
com os princípios nos quais dizemos acreditar. Além disso, ao falharem em se
comprometer com a justiça em nome do “realismo”, as elites governantes são
responsáveis por produzir a própria
corrupção que alegam ser o maior obstáculo
para uma vida melhor. More queria expor como esse apego ideológico
ao status quo, com todas as suas falhas, era um dos
principais obstáculos para a melhoria da situação. “A Utopia de
More submete gradualmente seus contemporâneos europeus ao escrutínio do ‘e
se’ e ao seu poder revelador”, como afirmam Albertson e Blakely.
“Atitudes comuns de sua época em relação ao encarceramento, à propriedade
privada, à educação e à assistência médica são expostas uma a uma como
inviáveis, insustentáveis e,
de fato, irrealistas à luz das conquistas utópicas.”
No
entanto, em apenas alguns séculos, tudo isso mudou: “Quantas políticas
autoevidentes da Londres de More perduraram até o nosso século, seja a pena
capital para roubo ou o direito divino dos reis? A resposta é clara: elas
desapareceram.”
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Pós-modernidade; ou, a lógica cultural das utopias monstruosas
Contrariando
nossa reputação de idealismo, muitos dos pensadores de esquerda mais brilhantes
expressaram profundo ceticismo em relação ao utopismo. Isso, é claro, começou
com Karl Marx, que notoriamente repreendeu os socialistas com quem discordava,
depreciando-os como “utópicos”. Em seus momentos mais incisivos, Marx
ridicularizou o utopismo, comparando-o à escrita de livros de receitas para as
cozinhas do futuro. Tais projetos não passavam de uma especulação ahistórica
(embora o próprio Marx a praticasse com frequência). Seguindo seus passos,
muitos marxistas ortodoxos insistem que o socialismo deve ser “científico”, ou
não é socialismo de forma alguma.
Marxistas
mais ponderados adotam uma abordagem diferente. Em sua obra seminal “Arqueologias
do futuro”, o saudoso e genial Fredric Jameson observa como a ficção
científica utópica frequentemente serviu como um gênero construtivo para que
progressistas imaginassem futuros melhores, visando concretizá-los. O gênero,
naturalmente, teve início com o próprio More, a quem Jameson descreve como um
satirista progressista do poder, oferecendo um “comentário ponto a ponto sobre
os assuntos e a situação da Inglaterra”. A literatura utópica prosseguiu em
diversas formas, com autores que vão de Edward Bellamy a Ursula K. Le Guin
utilizando a ficção científica como meio tanto de criticar o status quo quanto
de formular hipóteses sobre como um futuro melhor poderia ser.
Contudo,
Jameson expressa cautela quanto ao poder transformador do gênero utópico e
sugere que ele pode ter se esgotado no pós-moderno século XXI. Ele observa
como, hoje, o gênero utópico praticamente desapareceu, dando lugar a
representações sombrias do futuro, onde é mais fácil imaginar o fim do mundo do
que o fim do capitalismo. Em um sinal revelador, mesmo obras que começam
apresentando utopias geralmente terminam revelando que elas não são tudo aquilo
que aparentam ser. O mundo aparentemente idílico e cor-de-rosa de Barbie (2023)
acaba se mostrando dilacerado por um medo existencial reprimido e animosidades
de gênero. As séries mais recentes do universo Star Trek,
como Picard e Discovery, pegam o futuro
cosmopolita e brilhante prometido pela Federação Unida de Planetas de Gene
Roddenberry e mostram que ele dependeu secretamente de manipulação dissimulada,
exploração dos marginalizados e muito mais.
“Comparado
ao capitalismo meritocrático, até mesmo o comunista mais otimista é um realista
lúcido.”
Contrariando
Jameson, Albertson e Blakely consideram o gênero utópico muito vivo, mas não
saudável. Este é um problema grave, visto que a necessidade de utopias
“construtivas” é urgente. Albertson e Blakely são muito críticos do populismo
de direita e dos estragos que ele causa, mas argumentam que grande parte disso
decorre das próprias aspirações utópicas da direita (frequentemente negadas).
Estas incluem o sonho nacionalista de uma etnia unificada, que Albertson e
Blakely descrevem como um “tipo peculiar de utopia fracassada”. Os
nacionalistas evocam um “espírito imaginado da nação que cria uma ilusão de
unidade cultural” — um espírito que pretende se basear na história real, mesmo
enquanto constantemente minimizam ou resistem militantemente a fatos históricos
que não se encaixam nos mitos patrióticos que desejam propagar. Albertson e
Blakely observam, com ironia, que os nacionalistas precisam constantemente
“sustentar a noção obviamente falsa de que o espírito nacional imaginário
permanece puro, livre de influências de culturas sobrepostas, constituintes ou
vizinhas, e que nunca muda com o tempo”.
Eles
também enxergam muitas das mesmas fantasias em ação na “esperança utópica mais
febril” da direita: que um dia possamos alcançar a “visão mais imaculada,
geométrica e sem atritos do ‘livre mercado’. Gerações inteiras de
estadunidenses viveram como se o mercado fosse a única utopia tolerável”.
Albertson e Blakely são extremamente críticos dessa visão, e com razão,
chamando-a de “utopia monstruosa” por exigir pouco das pessoas e dar menos
ainda em troca, enquanto o sistema monetário é tratado como uma “divindade
menor”.
Eu iria
ainda mais longe do que Albertson e Blakely e sugeriria que a concepção
meritocrática do capitalismo, de que cada um será recompensado de acordo com o
que merece, não é apenas uma visão utópica ruim — é a visão utópica mais
fantasiosa já concebida. Os filósofos antigos tiveram a sabedoria de aceitar
que somente a mão visível e onisciente de Deus poderia recompensar as pessoas
com base no que elas mereciam, e mesmo assim, apenas em um reino perfeito além
deste. Somente os conservadores estadunidenses
imaginaram um mundo tão fantástico que a mão invisível e inconsciente do
mercado recompensaria as pessoas com base no que elas mereciam, e nesta vida.
Comparado ao capitalismo meritocrático, até mesmo o comunista mais otimista é
um realista lúcido, já que apenas imaginou ser possível dar às pessoas o que
elas precisavam, mantendo em aberto a questão do que elas mereciam.
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A utopia é possível hoje em dia?
Em
contraste, Albertson e Blakely demonstram maior simpatia pelas utopias de
esquerda, mas acreditam que estas permanecem limitadas por certas restrições
fundamentais. Eles expressam certa simpatia pelo liberalismo, ao mesmo tempo
que destacam como o “liberalismo do pós-guerra estagnou” devido a uma regressão
para o “libertarianismo de direita, por vezes chamado de neoliberalismo”. Essa
regressão para o neoliberalismo “traiu os ideais originais da tradição
[liberal]” de alcançar liberdade, igualdade e solidariedade para todos.
Albertson e Blakely também criticam a tradição marxista por não reconhecer que
as verdadeiras revoluções nunca começam na esfera econômica. Em vez disso,
precisamos de uma transição de valores, visando padrões éticos mais elevados. Eles
não especificam o que isso implicaria em detalhes, mas suas referências
favoráveis a humanistas e cristãos
de esquerda como o próprio More, Martin Luther King Jr. e o falecido Alasdair MacIntyre fornecem muitas pistas.
O que
torna a posição de Albertson e Blakely interessante é a extensão em que
defendem uma visão utópica que seja simultaneamente liberal, anticapitalista e
profundamente espiritual. É evidente que essa é uma combinação difícil de
alcançar — embora se possa questionar a utilidade de uma visão utópica sem
ambição. Infelizmente, os autores não se esforçam muito para detalhar isso,
mesmo apresentando uma série de exemplos comoventes nas vidas de More e King.
Meus próprios instintos marxistas se manifestam aqui, levando-me a suspeitar
que atos individuais de benevolência simplesmente não serão suficientes. A
ausência de uma teoria clara do poder — algo que complemente as veementes
condenações da injustiça e a crítica às amarras ideológicas — representa uma
limitação real à visão apresentada.
Apesar
de tudo isso, Albertson e Blakely devem ser elogiados pela força e ousadia de
sua perspectiva, até mesmo por sua audácia. Sem dúvida, eles estão certos ao
afirmar que uma espécie de utopismo pode ser mais realista do que a adesão
irrefletida a um status quo que claramente não está
funcionando. Afinal, fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados
diferentes não é sinal de sabedoria. É insanidade.
Fonte: Por Matt McManus - Tradução Pedro
Silva, em Jacobin Brasil

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