sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Os comunistas brasileiros e a defesa nacional

Por motivos dos mais variados, que vão desde o trauma da derrota histórica da esquerda pós-golpe de 1964 até a completa adaptação às regras da democracia burguesa, a esquerda brasileira, e os comunistas em especial, esqueceram-se dos temas relacionados à defesa nacional e à questão militar. Quando mencionados, eles mantiveram-se completamente associados aos quartéis: algo a ser observado com desconfiança, criticado em momentos de crise, mas jamais incorporado aos programas ou disputado. Deixamos o debate sobre soberania, fronteiras, armamento e doutrina militar inteiramente nas mãos dos generais e, mais recentemente, da extrema direita, que soube ocupar esse vazio com um discurso falsamente nacionalista e patriota. Essa omissão, ainda que possa possuir explicações, não tem justificativa.

A direita brasileira, que hoje disputa de maneira ferrenha pela “honra” de ser a representante no Brasil dos interesses dos Estados Unidos, conseguiu, ainda assim, se apropriar-se do discurso patriótico e transformar temas como esse em bandeira exclusiva e naturalmente sua. Embora haja mais razões para tal, não é possível ignorar que isso é também resultado direto de décadas em que setores do nosso campo trataram o tema como incômodo, estruturalmente ligado à ditadura militar e à repressão de sua Doutrina de Segurança Nacional, preferindo evitá-lo no lugar de disputá-lo ou sequer questionar seu monopólio como algo de responsabilidade exclusiva das Forças Armadas. 

Mas não existe projeto socialista, popular e de desenvolvimento das forças produtivas que se sustente sob um Estado incapaz de proteger seu território, seus recursos, sua produção científica e sua autonomia política diante de potências estrangeiras, especialmente daquela cuja sombra nos pressiona para baixo: os Estados Unidos. A história do imperialismo, incluindo a história recente, com o ataque dos Estados Unidos à Venezuela em janeiro deste ano, nos lembra de forma dolorosa que soberania é a condição material para que qualquer outro projeto de país seja sequer possível. Um povo que não garante e controla as suas defesas não controla, no fim das contas, praticamente nada.

O que propomos é uma Defesa Nacional a serviço da soberania popular, não da injusta ordem de classe dominante. Isso significa recusar tanto o discurso vazio da mera luta por mais orçamento – o que, venhamos e convenhamos, jamais resolveu sozinho nenhuma grande fragilidade brasileira, e que serviu, num período muito recente, apenas para fortalecer o mesmo Partido Fardado que sustentou a candidatura de Bolsonaro e governou em seu lugar – quanto o discurso pacifista abstrato, que trata Defesa como tema menor frente à ciência, à saúde ou à educação, sem perceber que, separadas, nenhuma dessas áreas se sustenta a médio ou longo prazo.

Apropriar-se do debate sobre Defesa Nacional não significa, de forma alguma, aceitar a moldura que as próprias Forças Armadas e seus representantes construíram para o tema; antes o exato oposto. Disputar palmo a palmo cada um dos mecanismos institucionais que hoje blindam a Defesa do controle civil: a autonomia orçamentária dos comandos de Força, os lobbies parlamentares paralelos ao Ministério da Defesa, a subordinação das polícias militares estaduais à lógica de caserna federal, o monopólio doutrinário dos Estados-Maiores isolados, a ausência de qualquer cultura de defesa entre a população civil. Cada um desses mecanismos foi construído, ao longo de décadas, para manter o tema afastado dos olhos e ações do povo, e é exatamente aí que precisamos atuar.

Isso vale também para o tema mais delicado, e por isso talvez o mais urgente: a questão nuclear. O debate sobre a capacidade nuclear brasileira já está posto, não por nós, mas por setores da direita que, mais uma vez, tentam capturar sozinhos a bandeira da soberania. Se nos recusarmos a participar dessa discussão, o resultado será, mais uma vez, um projeto nuclear pensado nos moldes do pensamento militar tradicional: subordinado à lógica de dissuasão contra os vizinhos regionais, blindado do controle civil, e desconectado de qualquer projeto econômico de nacionalização tecnológica mais amplo. Cabe a nós mostrar que é possível e necessário defender capacidade nuclear própria como instrumento de soberania frente o imperialismo, sem repetir o mesmo fetichismo tecnológico que trata o armamento como solução mágica capaz de, sozinho, garantir o que quer que seja.

Foi o silêncio histórico da esquerda sobre o assunto que permitiu que, diante do recente episódio de agressão dos Estados Unidos sobre a Venezuela, a única resposta política disponível fosse a reivindicação generalesca de mais orçamento, sem qualquer questionamento sobre doutrina, dependência tecnológica ou subordinação real ao controle civil. Foi esse mesmo vazio que permitiu que a extrema direita, sem grandes resistências, pavimentasse o caminho para o  retorno das Forças Armadas ao protagonismo político de primeiro escalão, retorno cujo resultado foi nada menos que uma tentativa de golpe.

Isso precisa acabar. Uma esquerda que aspira revolucionar o Brasil e não apenas administrar os interesses de curto prazo entre uma eleição e outra precisa ter posição própria e ofensiva sobre Defesa Nacional, não como uma concessão retórica aos militares, nem como capitulação eleitoral ao nacionalismo de direita, mas como parte constitutiva de um projeto de soberania popular.

Já dissemos muitas vezes, mas a repetição é sempre útil: não existe divisão real entre a luta pela soberania nacional e a luta pela emancipação social e econômica do povo trabalhador brasileiro. Um país que não controla sua própria capacidade de se defender também não controla seus recursos naturais, sua política econômica, sua produção científica, etc. Cada submarino comprado sem transferência de tecnologia, cada avião de caça adquirido sem nacionalização de peças, cada sistema de defesa antiaérea terceirizado ao capital estrangeiro é também uma peça a menos de autonomia econômica e política nas mãos do povo brasileiro.

Por isso é hora de disputar essa bandeira com a mesma seriedade, a mesma radicalidade e a mesma clareza estratégica com que disputamos qualquer outro dos grandes temas, qualquer outra das grandes frentes da luta popular. Nesse sentido, o programa de nossa candidatura apresenta o que consideramos as condições básicas, o ponto de partida de uma grande discussão nacional que contemple e ultrapasse os especialistas no tema, já que, como muito foi dito na história, a guerra – e a defesa – é muito séria para ficar nas mãos dos generais.

 

Fonte: Por  Jones Manoel  e Euclides Vasconcelos, em Opera Mundi

 

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