sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Mao Zedong e seu legado para a China e o mundo

A série de televisão Perguntando à vasta terra (Wèn cāngmáng问苍茫, 2023) começa com o jovem Mao Zedong nadando no rio Xiang, avolumado pelas chuvas fortes. Da margem, um pescador grita para o nadador solitário: “Seu louco, está querendo morrer? O rio está revolto depois da tempestade. Há barcos, por que você está nadando?” Mao responde entre risos: “Não importa a força das águas. Quando se conhece seu temperamento, é possível lidar com elas. É como na pesca: onde é fácil pescar, não há peixe. Onde é fácil nadar, não há alegria”.

Criada para comemorar os 130 anos do nascimento de Mao, a série procurou apresentar ao público jovem “não uma estátua de bronze, mas um jovem da idade deles tentando entender as coisas”. Em seu primeiro mês, alcançou a nota 8,8 no Douban, popular plataforma chinesa de avaliação e discussão de filmes, livros e produções culturais, enquanto as conversas on-line sobre a obra somaram 4,31 bilhões de visualizações e atraíram sobretudo jovens nascidos muito depois da morte de Mao.

Nesse mesmo período, as Obras escolhidas de Mao chegaram ao primeiro lugar entre os livros mais emprestados da biblioteca da Universidade Tsinghua, em 2019, e desde então voltaram repetidas vezes a essa posição, num movimento também observado em várias outras grandes universidades. Um fio liga, assim, a imagem do jovem Mao estudando a corrente enquanto nada no rio Xiang aos jovens chineses que hoje estudam o Pensamento Mao Zedong.

Meio século se passou desde a morte de Mao, em 9 de setembro de 1976, e a maioria desses leitores e espectadores nasceu décadas mais tarde, depois das reformas econômicas que transformaram a China na chamada fábrica do mundo; alguns vieram ao mundo até mesmo após a histórica entrada do país na Organização Mundial do Comércio, em 2001. Sem lembranças da sociedade em que Mao viveu, eles herdaram uma China cuja modernização contínua se apoia, em parte, nas bases políticas, industriais e sociais erguidas durante as primeiras décadas da construção socialista.

<><> Uma herança viva

Não se pode dizer propriamente que Mao tenha retornado ou sido redescoberto, pois ele jamais deixou de constituir um dos fundamentos políticos da República Popular. Após sua morte, o Partido Comunista da China (PCCh) precisou enfrentar uma questão cujas implicações iam muito além da avaliação de um único homem: como extrair as lições necessárias dos erros da Revolução Cultural e, ao mesmo tempo, preservar a revolução que unificara o país, derrotara a dominação imperialista e fundara a Nova China?

A resolução histórica de 1981 respondeu que os “méritos de Mao ocupam o primeiro lugar, e seus erros, o segundo”. Ao condenar a Revolução Cultural, o documento distinguiu os erros de Mao do Pensamento Mao Zedong, entendido como uma conquista teórica coletiva do Partido, e preservou a Revolução Chinesa como o terreno a partir do qual o país poderia corrigir seu rumo. Deng Xiaoping, sucessor de Mao e duas vezes expurgado durante aquele período, definiu com clareza esse parâmetro político numa entrevista concedida a Oriana Fallaci em 1980: “Não faremos com o presidente Mao o que Khrushchov fez com Stálin”.

O processo de reforma e abertura transformou a China numa escala que poucas sociedades experimentaram. Embora a ênfase política principal tenha se voltado para a modernização, o desenvolvimento das forças produtivas e o aprendizado com o Ocidente, enquanto Mao aparecia na vida pública sobretudo como fundador da Nova China, o período revolucionário havia deixado muito mais do que uma imagem fundadora. Deixara instituições, expectativas sociais e formas de trabalho político que continuaram a se mover no interior da sociedade construída sobre suas bases.

No início de sua presidência, em 2013, Xi Jinping formulou essa continuidade de maneira concisa, afirmando que o período anterior e o período posterior à reforma e abertura não podem ser usados para negar um ao outro. A resolução do Partido de 2021 reafirmou a avaliação de 1981 e atribuiu maior peso ao período de Mao como fundamento político e institucional de tudo o que veio depois. “A melhor maneira de recordar o camarada Mao Zedong”, disse Xi por ocasião dos 130 anos de seu nascimento, “é continuar levando adiante a causa que ele iniciou”. Essa orientação ganhou forma não apenas nas páginas dos documentos e discursos do Partido, mas também por todo o território do país, em salas de reunião e casas de aldeia restauradas, antigos campos de batalha e bases revolucionárias, clubes operários, cemitérios de mártires e nas rotas outrora percorridas pelo Exército Vermelho.

A China conta hoje com mais de 1.600 museus e memoriais revolucionários, que receberam mais de 2,8 bilhões de visitas entre 2018 e 2023. Crianças chegam em grupos escolares, membros do Partido participam de delegações organizadas e famílias os visitam durante os feriados nacionais. Ao mesmo tempo, o programa de educação sobre as Quatro Histórias incorporou à educação de toda a sociedade as histórias do Partido, da Nova China, da Reforma e Abertura e do desenvolvimento socialista; planos nacionais financiaram a preservação de locais revolucionários, e a produção cultural voltou repetidas vezes ao povo que fez a revolução e à história desse processo.

Esse imenso trabalho de memória é conscientemente organizado pelo Estado socialista, que incentiva o estudo da “história vermelha”, promove o “turismo vermelho” e busca construir a confiança nacional por meio da “cultura vermelha”. Sua força social, entretanto, nasce do encontro entre esse trabalho institucional e os milhões de chineses que ocupam esses espaços, assistem às obras e discutem essa história. As instituições estatais oferecem à cultura revolucionária recursos, presença pública e continuidade, enquanto séries de televisão e grandes produções cinematográficas recentes se afastam dos retratos monumentais dos dirigentes para acompanhar o processo de sua formação, mostrando como leram e debateram, se organizaram, sofreram derrotas e se transformaram na luta.

<><> Da memória ao método

As listas de empréstimos universitários e as vendas de livros mostram que, para além dos museus, das telas e dos memoriais, cresce também o interesse pelos próprios textos de Mao. Em fóruns on-line, jovens leitores costumam chamá-lo de Professor, alguém com quem ainda se pode aprender a identificar as contradições de uma situação, distinguir sua aparência superficial do movimento subjacente e situar a experiência individual no interior de forças sociais mais amplas.

A célebre afirmação de Mao em 1930, “Sem investigação (ou pesquisa), sem direito a falar” [Méiyǒu diàochá jiù méiyǒu fāyán quán没有调查,就没有发言权], presente em Oposição ao culto de livros, dirigia-se àqueles que tentavam comandar a realidade à distância, apoiados em fórmulas herdadas. Investigar significava entrar na vida social, conhecer sua textura e permitir que as condições concretas pusessem a teoria política à prova.

Em 2023, o Comitê Central do PCCh lançou uma campanha em todo o Partido para promover a investigação e a pesquisa no espírito dessa formulação de Mao, orientando os quadros para algumas das contradições mais urgentes da China, entre elas a autossuficiência tecnológica, os riscos financeiros, as desigualdades urbano-rurais, o emprego, a educação, a saúde e a moradia. O método de trabalho era direto. Em vez de avisos prévios, comunicados antecipados, relatórios preparados e recepções elaboradas, era preciso ir às bases e diretamente ao povo.

Esse método adquiriu sua maior escala recente durante a campanha para erradicar a pobreza extrema, concluída em 2020, às vésperas do centenário de fundação do PCCh. A investigação começou à porta das casas, nas comunidades rurais de todo o país, e, já na fase inicial, 800 mil quadros foram enviados a 128 mil aldeias. Era preciso entender não apenas quem vivia na pobreza, mas também as condições específicas que a produziam em cada família, fossem elas a doença ou a deficiência, a falta de terra, o isolamento geográfico, os custos escolares ou outras realidades concretas que as estatísticas nacionais não podiam revelar. Estudar a realidade era o começo de um processo cujo propósito sempre foi transformá-la.

Com a campanha de combate direcionado à pobreza, lançada em 2014, 255 mil equipes de trabalho nas aldeias e mais de 3 milhões de primeiros secretários e quadros foram enviados ao campo. Durante anos, viveram e trabalharam junto às famílias e comunidades rurais para traçar um caminho para fora da pobreza e, até o final de 2020, os 98,99 milhões de chineses que ainda viviam em situação de pobreza rural, segundo os critérios nacionais, haviam saído da pobreza extrema. Mais de 1.800 quadros morreram durante a campanha. Por trás desses números nacionais havia milhões de encontros, repetidos de família em família, de aldeia em aldeia e de um quadro a outro.

Para realizar essa tarefa, a campanha mobilizou capacidades acumuladas ao longo de décadas de construção socialista, entre elas a organização do Partido Comunista nas aldeias, o financiamento público e os bancos estatais, o planejamento, as instituições coletivas, a mobilização de diferentes setores da sociedade em torno de um objetivo comum e a autoridade necessária para concentrar recursos nacionais num objetivo social. Os instrumentos haviam mudado enormemente desde o período revolucionário, mas a exigência política permanecia reconhecível. Era necessário conhecer as condições do povo, ser como “peixe na água”, para então transformá-las. É esse o movimento da linha de massas, que parte “das massas”, retorna a elas e submete as ideias à prova da prática, um método retomado e fortalecido nos últimos anos por campanhas como essa.

<><> Entre o derrotismo e o triunfalismo

Investigar ou pesquisar exige que não se confunda a superfície dos acontecimentos com a direção em que a história se move, e é também essa exigência que, nos últimos anos, tem levado leitores de volta a Sobre a guerra prolongada em busca de instrumentos para compreender a conjuntura atual. Mao escreveu o texto em 1938, dez meses após o início da invasão em grande escala da China, então semicolonial e semifeudal, pelo Japão. Parte da Guerra Mundial Antifascista, o conflito custou a vida de 24 milhões de chineses. Diante de um Japão com vantagens decisivas em armamentos, capacidade industrial e organização militar, a derrota parecia a muitos a única conclusão sóbria.

Mao combateu duas posições aparentemente opostas. A teoria da inevitável “subjugação nacional” observava o avanço japonês e declarava inútil a resistência, enquanto a teoria da “vitória rápida” convertia a certeza de que a China precisava vencer na crença de que venceria em pouco tempo. Para uma, o inimigo era invencível; para a outra, estava prestes a desmoronar. Nenhuma delas perguntava como uma força mais fraca poderia preservar-se, acumular forças e transformar as condições por meio das quais um povo conquistaria sua libertação.

Entre a rendição e a fantasia encontrava-se o trabalho difícil da guerra prolongada, que exigia preservar forças, construir bases de apoio, organizar o povo e assumir o processo lento, paciente e custoso de transformar as condições nas quais a luta seria decidida. É por isso que um texto militar, escrito sob invasão e em condições históricas radicalmente diferentes, pode falar para além de seu campo de batalha e de seu contexto originais. Em 2025, a Qiushi, principal revista teórica do Partido, publicou “Como reler Sobre a guerra prolongada hoje”, ao mesmo tempo que a obra voltava a circular entre os textos emprestados e discutidos pelos jovens.

Em maio de 2026, os Institutos de Relações Internacionais Contemporâneas da China, influente centro de pesquisa de Pequim, publicaram um artigo que descrevia as relações entre China e Estados Unidos como entrando numa “nova etapa de equilíbrio estratégico”. Publicado às vésperas da cúpula Xi–Trump em Pequim, o texto recorre à linguagem de Sobre a guerra prolongada para caracterizar a conjuntura presente como um período de transição, no qual a velha ordem se dissolve sem que a nova tenha ainda se cristalizado, e alerta para a “selvagização” das relações internacionais à medida que uma potência hegemônica recorre cada vez mais à coerção, já sem poder se apoiar da mesma maneira no domínio econômico.

Para uma esquerda mundial que oscila com facilidade entre o derrotismo, convencida de que o imperialismo estadunidense é inabalável, e o triunfalismo, que proclama já ter chegado uma “multipolaridade” de caráter anti-imperialista, Mao oferece um método para atravessar uma longa transição. Em sua fase hiperimperialista, o imperialismo está em declínio, mas continua imensamente perigoso e procura compensar sua decadência econômica relativa por meio da coerção militar, política e financeira.

A supremacia militar ainda sem rival dos Estados Unidos e sua disposição para empregá-la manifestam-se no genocídio em Gaza, na guerra por procuração na Ucrânia, no estrangulamento de Cuba e no sequestro e assassinato de dirigentes soberanos, da Venezuela ao Irã. Embora o centro de gravidade da economia mundial esteja se deslocando para o Sul e o Oriente, o Sul Global ainda não se constituiu como força política coerente, e o desfecho dependerá das capacidades políticas, econômicas e organizativas construídas durante esse intervalo.

Em Perguntando à vasta terra, o jovem Mao nada num rio avolumado pela tempestade porque, segundo ele, é possível e necessário compreender seu temperamento. Cinquenta anos após sua morte, talvez essa seja uma das razões pelas quais jovens chineses voltam a ele. Herdaram outra China e entraram em outra corrente, formada pela construção socialista, pelas reformas de mercado, por novas contradições sociais e por uma ordem mundial capitalista e imperialista em violenta transição. Mao não nos diz de antemão aonde essa corrente levará, mas oferece a convicção de que ela pode ser estudada e de que, por meio da organização e da luta, forças que parecem fracas podem adquirir a capacidade de mudar seu curso.

¨      Um dicionário para decifrar a China atual. Por Rogério Naques Faleiros

A nova ascensão chinesa, verificada após o Século de Humilhação, constitui um dos acontecimentos mais notáveis de nossa época. Poucos analistas, na fundação do Partido Comunista Chinês na década de 1920, ou no início do processo revolucionário que redundou na vitória de 1949, seriam capazes de prever a pujança deste processo e as transformações sociais dele derivadas.

De fato, a China retoma o seu lugar ao sol, numa quadra histórica marcada por guerras internacionais, conflitos internos, divisões territoriais e restrições de todas as ordens típicas do socialismo em um só país.

Por isso, é importante reconhecer e valorizar os diversos esforços que estão sendo feitos no último período para que possamos, cada vez mais, entender o complexo processo do socialismo chinês. Nesse sentido, vale destacar o livro recentemente lançado pela Editora Expressão Popular e pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Dicionário do socialismo com características chinesas.

A obra conta com o prefácio do intelectual indiano Vijay Prashad e com belas ilustrações elaboradas por Dani Ruggeri. Trata-se de uma coletânea de verbetes sobre temas essenciais para a compreensão da realidade chinesa do passado e do presente, para os quais foram convocados importantes intelectuais, pesquisadores e militantes com vivência e imersão na realidade chinesa e elevado grau de aproximação com o tema.

<><> Lutar contra o eurocentrismo

Como feito grandioso, o tema tem atraído a atenção de pesquisadores de diferentes filiações teóricas e distintos projetos sociais. Adam Smith, Keynes, Schumpeter, Weber, Minsky, muito analistas já desfilaram tais arsenais teóricos em Pequim buscando desatar o nó górdio interpretativo de tal disjuntiva, o que, se por um lado, engrandece a perspectiva de análise da experiência chinesa, por outro, coloca o problema indicado por Prashad em seu prefácio à obra: “sistemas elaborados de classificação que dizem mais sobre quem olha do que sobre a própria China”.

Em certo sentido, o ponto por ele colocado converge com Samir Amin (1931-2018) e sua crítica ao eurocentrismo — no início do célebre livro de mesmo nome, em que afirma que isso se trata, à priori, de uma imposição cultural que:

(…) supõe a existência de invariantes culturais que dão forma a trajetos históricos dos diferentes povos, irredutíveis entre si. Trata-se, então, de uma visão antiuniversalista dado que não se interessa [e não se propõe] a descobrir eventuais leis gerais da evolução humana, mas se apresenta como ‘universal’ no sentido de que propõe a todos a imitação do modelo ocidental como única solução aos desafios de nosso tempo.

Aqui jaz um dos problemas de tais análises. Embora polêmico, não seria necessário possuir algum domínio do riscado socialista para compreender o dito socialismo com características chinesas?

É como se, de uma hora para outra (voilà!), uma das maiores, senão a maior revolução do Século XX, se desdobrasse num problema de alocação de fatores, ou de demanda agregada efetiva, ou numa questão de destruição criadora, ou mesmo num tema de regulação dos mercados de capitais e suas posições Ponzy ou Especulative.

Comete-se o pecado quase que irremediável do eurocentrismo, que demarca a formação de muitos de nós, desaguando numa espécie de “orientalismo” (sua prima facie), no qual o Ocidente, com suas manias, explica o Oriente.

Esquece-se que termos como “buscar a verdade dos fatos”, “harmonia social”, “prosperidade comum” ou “desenvolvimento pacífico”, todos eles descritos em verbetes na obra em destaque, possuem significados muito particulares, tensionados entre a literatura socialista e os mais de quatro mil anos da história da China.

Existe um mundo além do Ocidente e isso demanda um dicionário

Pouco se tem trazido à baila, inclusive, dos escritos marxianos sobre os modos de produção fora da Europa, por óbvio desconhecidos por estes analistas. Nesses termos, o tema reclama um dicionário. Como nos ensina Prashad, períodos de grandes transformações costumam gerar seus próprios dicionários; o Iluminismo produziu enciclopédias, os movimentos revolucionários produziram léxicos de conceitos políticos e as lutas anticoloniais deram origem a novos vocabulários de liberdade e dignidade.

Por óbvio, tais esforços não eram neutros e faziam parte de uma cruzada para nomear o mundo de forma diferente, visando à sua transformação. Neste embate de conceitos, categorias e interpretações, o dicionário ora lançado não busca fixar significados, mas abri-los ante ofensiva burguesa que visa capturar o tema.

O dicionário é composto por mais de 120 verbetes, e é sintomático que o primeiro deles, escrito por Paulo Nakatani, verse sobre a Agricultura, recôndito e fundamental tema que singulariza a experiência chinesa.

Ao sumariar a história milenar da produção agrícola e destacar as mudanças auferidas após o período revolucionário, sobretudo a reforma agrária, a criação das cooperativas e comunas populares e o estabelecimento do Sistema de Responsabilidade Familiar, o verbete nos dá elementos para pensar uma realidade na qual preponderam os pequenos lotes de terra e na qual a propriedade privada é residual.

As grandes fazendas estatais ocupam apenas 4% da área semeada total e se voltam para processos de integração e verticalização que incluem os pequenos produtores. Como resultado destes arranjos, a China contribuiu com cerca de 20% da produção agrícola mundial (cereais, açúcar, vegetais, oleaginosas, frutas, raízes e tubérculos), detendo pouco mais de 10% da área cultivada do mundo, apresentando-se assim um dos nós interpretativos: os autores burgueses acima citados, em especial Keynes em suas pinimbas antissocialistas e antimarxistas, dificilmente seriam incapazes de prever tamanha produtividade num quadro marcado pela ausência da propriedade privada.

<><> Desvendar a China, para além do desconhecido e da insegurança

Em meio a uma vasta gama de temas instigantes, o verbete sobre a “prosperidade comum”, de autoria de Bernardo Salgado Rodrigues, destaca-se pela sua perenidade no processo revolucionário. Tendo surgido pela primeira vez em 1953, o conceito denota a centralidade histórica das preocupações voltadas à equidade social e econômica.

Trata-se de um desafio de longo prazo, cujos resultados recentes são notáveis: o índice de Gini no país apresentou queda substancial, passando de 43,7 para 35,7 entre 2010 e 2025. Sobre esse avanço, o verbete de autoria de Isis Maia sobre a erradicação da pobreza extrema tem muito a contribuir.

Todos aqueles que se debruçaram sobre a realidade chinesa, em distintos níveis e temas, depararam-se com o desconhecido e com certa insegurança. Tais sensações decorrem de uma profunda e incontornável lacuna que carregamos em nossa formação escolar e acadêmica, historicamente voltada para a Europa, negligenciando as histórias e complexidades do Oriente e da África.

A partir de agora, contudo, aqueles que se dedicarem à empreitada de compreender a China e o socialismo com características chinesas terão em mãos um excelente farol. Os verbetes, redigidos por conhecedores da contemporaneidade chinesa, apresentam uma coesão formidável. Trata-se de leitura obrigatória, a auxiliar especialistas, neófitos e curiosos a cruzar o rio, tal como os guerreiros que atravessaram o rio Dadu durante a Longa Marcha, pisando em pedras submersas para encontrar apoio seguro.

 

Fonte: Por Tings Chak, em Jacobin Brasil

 

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