Mao Zedong e seu legado para a China e o
mundo
A série
de televisão Perguntando à vasta terra (Wèn cāngmáng –
问苍茫, 2023) começa com o jovem Mao Zedong
nadando no rio Xiang, avolumado pelas chuvas fortes. Da margem, um pescador
grita para o nadador solitário: “Seu louco, está querendo morrer? O rio está
revolto depois da tempestade. Há barcos, por que você está nadando?” Mao
responde entre risos: “Não importa a força das águas. Quando se conhece seu
temperamento, é possível lidar com elas. É como na pesca: onde é fácil pescar,
não há peixe. Onde é fácil nadar, não há alegria”.
Criada
para comemorar os 130 anos do nascimento de Mao, a série procurou
apresentar ao público jovem “não uma estátua de bronze, mas um jovem da idade
deles tentando entender as coisas”. Em seu primeiro mês, alcançou a nota 8,8
no Douban, popular plataforma chinesa de avaliação e discussão de
filmes, livros e produções culturais, enquanto as conversas on-line sobre a
obra somaram 4,31 bilhões de visualizações e atraíram sobretudo jovens nascidos
muito depois da morte de Mao.
Nesse
mesmo período, as Obras escolhidas de Mao chegaram ao primeiro
lugar entre os livros mais emprestados da biblioteca da Universidade Tsinghua,
em 2019, e desde então voltaram repetidas vezes
a essa posição, num movimento também
observado em várias outras grandes universidades. Um fio liga, assim, a imagem
do jovem Mao estudando a corrente enquanto nada no rio Xiang aos jovens
chineses que hoje estudam o Pensamento Mao Zedong.
Meio
século se passou desde a morte de Mao, em 9 de setembro de 1976, e a maioria
desses leitores e espectadores nasceu décadas mais tarde, depois das reformas
econômicas que transformaram a China na chamada fábrica do mundo; alguns vieram
ao mundo até mesmo após a histórica entrada do país na Organização Mundial do
Comércio, em 2001. Sem lembranças da sociedade em que Mao viveu, eles herdaram
uma China cuja modernização contínua se apoia, em parte, nas bases políticas,
industriais e sociais erguidas durante as primeiras décadas da construção
socialista.
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Uma herança viva
Não se
pode dizer propriamente que Mao tenha retornado ou sido redescoberto, pois ele
jamais deixou de constituir um dos fundamentos políticos da República Popular.
Após sua morte, o Partido Comunista da China (PCCh) precisou enfrentar uma
questão cujas implicações iam muito além da avaliação de um único homem: como
extrair as lições necessárias dos erros da Revolução Cultural e, ao mesmo
tempo, preservar a revolução que unificara o país, derrotara a dominação
imperialista e fundara a Nova China?
A
resolução histórica de 1981 respondeu que os “méritos de Mao ocupam o primeiro
lugar, e seus erros, o segundo”. Ao condenar a Revolução Cultural, o documento
distinguiu os erros de Mao do Pensamento Mao Zedong, entendido como uma
conquista teórica coletiva do Partido, e preservou a Revolução Chinesa como o
terreno a partir do qual o país poderia corrigir seu rumo. Deng Xiaoping,
sucessor de Mao e duas vezes expurgado durante aquele período, definiu com
clareza esse parâmetro político numa entrevista concedida a Oriana Fallaci em
1980: “Não faremos com o presidente Mao o que Khrushchov fez com Stálin”.
O
processo de reforma e abertura transformou a China numa escala que poucas
sociedades experimentaram. Embora a ênfase política principal tenha se voltado
para a modernização, o desenvolvimento das forças produtivas e o aprendizado
com o Ocidente, enquanto Mao aparecia na vida pública sobretudo como fundador
da Nova China, o período revolucionário havia deixado muito mais do que uma
imagem fundadora. Deixara instituições, expectativas sociais e formas de
trabalho político que continuaram a se mover no interior da sociedade
construída sobre suas bases.
No
início de sua presidência, em 2013, Xi Jinping formulou essa continuidade de
maneira concisa, afirmando que o período anterior e o período posterior à
reforma e abertura não podem ser usados para negar um ao outro. A resolução do
Partido de 2021 reafirmou a avaliação de 1981 e atribuiu maior peso ao período
de Mao como fundamento político e institucional de tudo o que veio depois. “A
melhor maneira de recordar o camarada Mao Zedong”, disse Xi por ocasião dos 130
anos de seu nascimento, “é continuar levando adiante a causa que ele iniciou”.
Essa orientação ganhou forma não apenas nas páginas dos documentos e discursos
do Partido, mas também por todo o território do país, em salas de reunião e
casas de aldeia restauradas, antigos campos de batalha e bases revolucionárias,
clubes operários, cemitérios de mártires e nas rotas outrora percorridas pelo
Exército Vermelho.
A China
conta hoje com mais de 1.600 museus e memoriais revolucionários, que receberam
mais de 2,8 bilhões de visitas entre 2018 e 2023. Crianças chegam em grupos
escolares, membros do Partido participam de delegações organizadas e famílias
os visitam durante os feriados nacionais. Ao mesmo tempo, o programa de
educação sobre as Quatro Histórias incorporou à educação de
toda a sociedade as histórias do Partido, da Nova China, da Reforma e Abertura
e do desenvolvimento socialista; planos nacionais financiaram a preservação de
locais revolucionários, e a produção cultural voltou repetidas vezes ao povo
que fez a revolução e à história desse processo.
Esse
imenso trabalho de memória é conscientemente organizado pelo Estado socialista,
que incentiva o estudo da “história vermelha”, promove o “turismo vermelho” e
busca construir a confiança nacional por meio da “cultura vermelha”. Sua força
social, entretanto, nasce do encontro entre esse trabalho institucional e os
milhões de chineses que ocupam esses espaços, assistem às obras e discutem essa
história. As instituições estatais oferecem à cultura revolucionária recursos,
presença pública e continuidade, enquanto séries de televisão e grandes
produções cinematográficas recentes se afastam dos retratos monumentais dos
dirigentes para acompanhar o processo de sua formação, mostrando como leram e
debateram, se organizaram, sofreram derrotas e se transformaram na luta.
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Da memória ao método
As
listas de empréstimos universitários e as vendas de livros mostram que, para
além dos museus, das telas e dos memoriais, cresce também o interesse pelos
próprios textos de Mao. Em fóruns on-line, jovens leitores costumam chamá-lo
de Professor, alguém com quem ainda se pode aprender a identificar
as contradições de uma situação, distinguir sua aparência superficial do
movimento subjacente e situar a experiência individual no interior de forças
sociais mais amplas.
A
célebre afirmação de Mao em 1930, “Sem investigação (ou pesquisa), sem direito
a falar” [Méiyǒu diàochá
jiù méiyǒu fāyán
quán – 没有调查,就没有发言权], presente em Oposição ao culto de
livros,
dirigia-se àqueles que tentavam comandar a realidade à distância, apoiados em
fórmulas herdadas. Investigar significava entrar na vida social, conhecer sua
textura e permitir que as condições concretas pusessem a teoria política à
prova.
Em
2023, o Comitê Central do PCCh lançou uma campanha em todo o Partido para
promover a investigação e a pesquisa no espírito dessa formulação de Mao,
orientando os quadros para algumas das contradições mais urgentes da China,
entre elas a autossuficiência tecnológica, os riscos financeiros, as
desigualdades urbano-rurais, o emprego, a educação, a saúde e a moradia. O
método de trabalho era direto. Em vez de avisos prévios, comunicados
antecipados, relatórios preparados e recepções elaboradas, era preciso ir às
bases e diretamente ao povo.
Esse
método adquiriu sua maior escala recente durante a campanha para erradicar a
pobreza extrema, concluída em 2020, às vésperas do centenário de fundação do
PCCh. A investigação começou à porta das casas, nas comunidades rurais de todo
o país, e, já na fase inicial, 800 mil quadros foram enviados a 128 mil
aldeias. Era preciso entender não apenas quem vivia na pobreza, mas também as
condições específicas que a produziam em cada família, fossem elas a doença ou
a deficiência, a falta de terra, o isolamento geográfico, os custos escolares
ou outras realidades concretas que as estatísticas nacionais não podiam
revelar. Estudar a realidade era o começo de um processo cujo propósito sempre
foi transformá-la.
Com a
campanha de combate direcionado à pobreza, lançada em 2014, 255 mil equipes de
trabalho nas aldeias e mais de 3 milhões de primeiros secretários e quadros
foram enviados ao campo. Durante anos, viveram e trabalharam junto às famílias
e comunidades rurais para traçar um caminho para fora da pobreza e, até o final
de 2020, os 98,99 milhões de chineses que ainda viviam em situação de pobreza
rural, segundo os critérios nacionais, haviam saído da pobreza extrema. Mais de
1.800 quadros morreram durante a campanha. Por trás desses números nacionais
havia milhões de encontros, repetidos de família em família, de aldeia em
aldeia e de um quadro a outro.
Para
realizar essa tarefa, a campanha mobilizou capacidades acumuladas ao longo de
décadas de construção socialista, entre elas a organização do Partido Comunista
nas aldeias, o financiamento público e os bancos estatais, o planejamento, as
instituições coletivas, a mobilização de diferentes setores da sociedade em
torno de um objetivo comum e a autoridade necessária para concentrar recursos
nacionais num objetivo social. Os instrumentos haviam mudado enormemente desde
o período revolucionário, mas a exigência política permanecia reconhecível. Era
necessário conhecer as condições do povo, ser como “peixe na água”, para então
transformá-las. É esse o movimento da linha de massas, que parte “das massas”,
retorna a elas e submete as ideias à prova da prática, um método retomado e
fortalecido nos últimos anos por campanhas como essa.
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Entre o derrotismo e o triunfalismo
Investigar
ou pesquisar exige que não se confunda a superfície dos acontecimentos com a
direção em que a história se move, e é também essa exigência que, nos últimos
anos, tem levado leitores de volta a Sobre a guerra
prolongada em
busca de instrumentos para compreender a conjuntura atual. Mao escreveu o texto
em 1938, dez meses após o início da invasão em grande escala da China, então
semicolonial e semifeudal, pelo Japão. Parte da Guerra Mundial Antifascista, o
conflito custou a vida de 24
milhões de chineses. Diante de um Japão com vantagens decisivas em armamentos,
capacidade industrial e organização militar, a derrota parecia a muitos a única
conclusão sóbria.
Mao
combateu duas posições aparentemente opostas. A teoria da inevitável
“subjugação nacional” observava o avanço japonês e declarava inútil a
resistência, enquanto a teoria da “vitória rápida” convertia a certeza de que a
China precisava vencer na crença de que venceria em pouco tempo. Para uma, o
inimigo era invencível; para a outra, estava prestes a desmoronar. Nenhuma
delas perguntava como uma força mais fraca poderia preservar-se, acumular
forças e transformar as condições por meio das quais um povo conquistaria sua
libertação.
Entre a
rendição e a fantasia encontrava-se o trabalho difícil da guerra prolongada,
que exigia preservar forças, construir bases de apoio, organizar o povo e
assumir o processo lento, paciente e custoso de transformar as condições nas
quais a luta seria decidida. É por isso que um texto militar, escrito sob
invasão e em condições históricas radicalmente diferentes, pode falar para além
de seu campo de batalha e de seu contexto originais. Em 2025, a Qiushi,
principal revista teórica do Partido, publicou “Como reler Sobre
a guerra prolongada hoje”, ao mesmo tempo que a obra voltava a
circular entre os textos emprestados e discutidos pelos jovens.
Em maio
de 2026, os Institutos de Relações Internacionais Contemporâneas da China,
influente centro de pesquisa de Pequim, publicaram um artigo que descrevia
as relações entre China e Estados Unidos como entrando numa “nova etapa de
equilíbrio estratégico”. Publicado às vésperas da cúpula Xi–Trump em Pequim, o
texto recorre à linguagem de Sobre a guerra prolongada para
caracterizar a conjuntura presente como um período de transição, no qual a
velha ordem se dissolve sem que a nova tenha ainda se cristalizado, e alerta
para a “selvagização” das relações internacionais à medida que uma potência
hegemônica recorre cada vez mais à coerção, já sem poder se apoiar da mesma
maneira no domínio econômico.
Para
uma esquerda mundial que oscila com facilidade entre o derrotismo, convencida
de que o imperialismo estadunidense é inabalável, e o triunfalismo, que
proclama já ter chegado uma “multipolaridade” de caráter anti-imperialista, Mao
oferece um método para atravessar uma longa transição. Em sua fase hiperimperialista, o imperialismo está em declínio, mas
continua imensamente perigoso e procura compensar sua decadência econômica
relativa por meio da coerção militar, política e financeira.
A
supremacia militar ainda sem rival dos Estados Unidos e sua disposição para
empregá-la manifestam-se no genocídio em Gaza, na guerra por procuração na
Ucrânia, no estrangulamento de Cuba e no sequestro e assassinato de dirigentes
soberanos, da Venezuela ao Irã. Embora o centro de gravidade da economia
mundial esteja se deslocando para o Sul e o Oriente, o Sul Global ainda não se
constituiu como força política coerente, e o desfecho dependerá das capacidades
políticas, econômicas e organizativas construídas durante esse intervalo.
Em Perguntando
à vasta terra, o jovem Mao nada num rio avolumado pela tempestade porque,
segundo ele, é possível e necessário compreender seu temperamento. Cinquenta
anos após sua morte, talvez essa seja uma das razões pelas quais jovens
chineses voltam a ele. Herdaram outra China e entraram em outra corrente,
formada pela construção socialista, pelas reformas de mercado, por novas
contradições sociais e por uma ordem mundial capitalista e imperialista em
violenta transição. Mao não nos diz de antemão aonde essa corrente levará, mas
oferece a convicção de que ela pode ser estudada e de que, por meio da
organização e da luta, forças que parecem fracas podem adquirir a capacidade de
mudar seu curso.
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Um dicionário para
decifrar a China atual. Por Rogério Naques Faleiros
A nova
ascensão chinesa, verificada após o Século de Humilhação, constitui
um dos acontecimentos mais notáveis de nossa época. Poucos analistas, na
fundação do Partido Comunista Chinês na década de 1920, ou no início do
processo revolucionário que redundou na vitória de 1949, seriam capazes de
prever a pujança deste processo e as transformações sociais dele derivadas.
De
fato, a China retoma o seu lugar ao sol, numa quadra histórica marcada por
guerras internacionais, conflitos internos, divisões territoriais e restrições
de todas as ordens típicas do socialismo em um só país.
Por
isso, é importante reconhecer e valorizar os diversos esforços que estão sendo
feitos no último período para que possamos, cada vez mais, entender o complexo
processo do socialismo chinês. Nesse sentido, vale destacar o livro
recentemente lançado pela Editora Expressão Popular e
pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Dicionário
do socialismo com características chinesas.
A obra
conta com o prefácio do intelectual indiano Vijay Prashad e com belas
ilustrações elaboradas por Dani Ruggeri. Trata-se de uma coletânea de verbetes
sobre temas essenciais para a compreensão da realidade chinesa do passado e do
presente, para os quais foram convocados importantes intelectuais,
pesquisadores e militantes com vivência e imersão na realidade chinesa e
elevado grau de aproximação com o tema.
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Lutar contra o eurocentrismo
Como
feito grandioso, o tema tem atraído a atenção de pesquisadores de diferentes
filiações teóricas e distintos projetos sociais. Adam Smith, Keynes,
Schumpeter, Weber, Minsky, muito analistas já desfilaram tais arsenais teóricos
em Pequim buscando desatar o nó górdio interpretativo de tal
disjuntiva, o que, se por um lado, engrandece a perspectiva de análise da
experiência chinesa, por outro, coloca o problema indicado por Prashad em seu
prefácio à obra: “sistemas elaborados de classificação que dizem mais sobre
quem olha do que sobre a própria China”.
Em
certo sentido, o ponto por ele colocado converge com Samir Amin (1931-2018) e
sua crítica ao eurocentrismo — no início do célebre livro de mesmo nome, em que afirma que
isso se trata, à priori, de uma imposição cultural que:
(…)
supõe a existência de invariantes culturais que dão forma a trajetos históricos
dos diferentes povos, irredutíveis entre si. Trata-se, então, de uma visão
antiuniversalista dado que não se interessa [e não se propõe] a descobrir
eventuais leis gerais da evolução humana, mas se apresenta como ‘universal’ no
sentido de que propõe a todos a imitação do modelo ocidental como única solução
aos desafios de nosso tempo.
Aqui
jaz um dos problemas de tais análises. Embora polêmico, não seria necessário
possuir algum domínio do riscado socialista para compreender o dito socialismo
com características chinesas?
É como
se, de uma hora para outra (voilà!), uma das maiores, senão a maior
revolução do Século XX, se desdobrasse num problema de alocação de fatores, ou
de demanda agregada efetiva, ou numa questão de destruição criadora, ou mesmo
num tema de regulação dos mercados de capitais e suas posições Ponzy ou Especulative.
Comete-se
o pecado quase que irremediável do eurocentrismo, que demarca a formação de
muitos de nós, desaguando numa espécie de “orientalismo” (sua prima
facie), no qual o Ocidente, com suas manias, explica o Oriente.
Esquece-se
que termos como “buscar a verdade dos fatos”, “harmonia social”, “prosperidade
comum” ou “desenvolvimento pacífico”, todos eles descritos em verbetes na obra
em destaque, possuem significados muito particulares, tensionados entre a
literatura socialista e os mais de quatro mil anos da história da China.
Existe
um mundo além do Ocidente e isso demanda um dicionário
Pouco
se tem trazido à baila, inclusive, dos escritos marxianos sobre os modos de
produção fora da Europa, por óbvio desconhecidos por estes analistas. Nesses
termos, o tema reclama um dicionário. Como nos ensina Prashad, períodos de
grandes transformações costumam gerar seus próprios dicionários; o Iluminismo
produziu enciclopédias, os movimentos revolucionários produziram léxicos de
conceitos políticos e as lutas anticoloniais deram origem a novos vocabulários
de liberdade e dignidade.
Por
óbvio, tais esforços não eram neutros e faziam parte de uma cruzada para nomear
o mundo de forma diferente, visando à sua transformação. Neste embate de
conceitos, categorias e interpretações, o dicionário ora lançado não busca
fixar significados, mas abri-los ante ofensiva burguesa que visa capturar o
tema.
O
dicionário é composto por mais de 120 verbetes, e é sintomático que o primeiro
deles, escrito por Paulo Nakatani, verse sobre a Agricultura, recôndito e
fundamental tema que singulariza a experiência chinesa.
Ao
sumariar a história milenar da produção agrícola e destacar as mudanças
auferidas após o período revolucionário, sobretudo a reforma agrária, a criação
das cooperativas e comunas populares e o estabelecimento do Sistema de
Responsabilidade Familiar, o verbete nos dá elementos para pensar uma
realidade na qual preponderam os pequenos lotes de terra e na qual a
propriedade privada é residual.
As
grandes fazendas estatais ocupam apenas 4% da área semeada total e se voltam
para processos de integração e verticalização que incluem os pequenos
produtores. Como resultado destes arranjos, a China contribuiu com cerca de 20%
da produção agrícola mundial (cereais, açúcar, vegetais, oleaginosas, frutas,
raízes e tubérculos), detendo pouco mais de 10% da área cultivada do mundo,
apresentando-se assim um dos nós interpretativos: os autores burgueses acima
citados, em especial Keynes em suas pinimbas antissocialistas e antimarxistas,
dificilmente seriam incapazes de prever tamanha produtividade num quadro
marcado pela ausência da propriedade privada.
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Desvendar a China, para além do desconhecido e da insegurança
Em meio
a uma vasta gama de temas instigantes, o verbete sobre a “prosperidade comum”,
de autoria de Bernardo Salgado Rodrigues, destaca-se pela sua perenidade no
processo revolucionário. Tendo surgido pela primeira vez em 1953, o conceito
denota a centralidade histórica das preocupações voltadas à equidade social e
econômica.
Trata-se
de um desafio de longo prazo, cujos resultados recentes são notáveis: o índice
de Gini no país apresentou queda substancial, passando de 43,7 para 35,7 entre
2010 e 2025. Sobre esse avanço, o verbete de autoria de Isis Maia sobre a
erradicação da pobreza extrema tem muito a contribuir.
Todos
aqueles que se debruçaram sobre a realidade chinesa, em distintos níveis e
temas, depararam-se com o desconhecido e com certa insegurança. Tais sensações
decorrem de uma profunda e incontornável lacuna que carregamos em nossa
formação escolar e acadêmica, historicamente voltada para a Europa,
negligenciando as histórias e complexidades do Oriente e da África.
A
partir de agora, contudo, aqueles que se dedicarem à empreitada de compreender
a China e o socialismo com características chinesas terão em
mãos um excelente farol. Os verbetes, redigidos por conhecedores da
contemporaneidade chinesa, apresentam uma coesão formidável. Trata-se de
leitura obrigatória, a auxiliar especialistas, neófitos e curiosos a cruzar o
rio, tal como os guerreiros que atravessaram o rio Dadu durante
a Longa Marcha,
pisando em pedras submersas para encontrar apoio seguro.
Fonte: Por Tings Chak, em Jacobin Brasil

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