Alerta vermelho
A escalada da crise política assumiu uma
forma explosiva, A decisão do ministro do STF André Mendonça é uma manobra
subversiva ao serviço de uma operação golpista. Trata-se de subversão
institucional porque é abuso de autoridade: um ministro do STF não tem
legitimidade para decidir quem deve dirigir a Polícia Federal. Essa é uma
atribuição exclusiva e insubstituível do ministro da Justiça nomeado pelo
presidente da República. Trata-se de uma operação de tipo golpista porque a
derrubada de Andrei Rodrigues, a pretexto de cumplicidade com Alexandre de
Moraes, é uma interferência no processo eleitoral favorecendo Flávio Bolsonaro
que está incendiando a extrema direita com uma campanha Fora Moraes/Fora Lula.
A decisão justa da AGU de pedir ao STF a
anulação da decapitação de Andrei Rodrigues da Polícia Federal não deve ser
aceita. Especula-se que Edson Fachin poderia retirar André Mendonça da
relatoria da investigação do Master e INSS, o que seria positivo. Mas não é
provável que o presidente do STF encontre uma solução dentro do STF para esta
crise política. Convocará o Plenário do Supremo? Não parece existir um remédio
jurídico amargo de contenção da escalada. Ou seja, a crise ainda vai piorar
antes de melhorar.
Estamos diante de uma ofensiva da extrema
direita bem sucedida, até agora, em toda a linha. Ela se expressou de três
formas: (i) a campanha anti-Xandão foi eletrizada por André Mendonça ao tornar
públicas mensagens de Daniel Vorcaro para Alexandre de Moraes, uma iniciativa
ilegal e sem precedentes de exposição de um ministro do STF, com o objetivo
político de tirar a acusação de corrupção das mãos de Flávio Bolsonaro e
atingir Lula. (ii) A manobra serviu para agitar a convocação da manifestação na
avenida Paulista de 7 de setembro, levantando a moral do núcleo duro
bolsonarista que reuniu quase trinta mil, menos que os quarenta mil de 2025
pela anistia quando estavam na defensiva, mas assim mesmo poderosa, porque
agora estão na ofensiva pelo impeachment de Xandão; (iii) as sucessivas
pesquisas vêm indicando uma elevação da desaprovação do governo Lula que parece
evoluir para além de 50%, além de um empate numérico no segundo turno.
A fração liberal da classe dominante, que se
expressa através do domínio dos grandes veículos da mídia comercial, os
principais jornais de São Paulo e Rio de Janeiro, além do peso nacional da Rede
Globo, tem se associado à ofensiva de André Mendonça contra Alexandre de Moraes
consciente de que favorece Flávio Bolsonaro. Seria, porém, precipitado concluir
que este alinhamento tático seria um apoio o neofacista.
A fração liberal responde a outro programa
econômico-social e outro projeto político. Defendem um freio recessivo com
cortes nos gastos públicos que garanta superávit primário e redução do peso da
dívida pública, consciente dos custos sociais destas medidas. Paradoxalmente,
sabe também que sem algum grau de crescimento o Brasil seria ingovernável.
Mas não tem acordo com a aposta bolsonarista
de subordinação com os EUA de Donald Trump. Tampouco tem acordo com o projeto
político da extrema-direita de conquistar a presidência, maioria absoluta no
Senado, impeachment de Moraes e nomeação de uma maioria de ministros no STF,
abrindo caminho para um endurecimento do regime, na forma de “poder total”. Ao
contrário de 2022, quando apoiou Simone Tebet no primeiro turno e, embora
contrariada, Lula no segundo turno, a fração liberal não está disposta, pelo menos
por enquanto, a uma definição, e tenta fustigar Lula para melhorar as condições
de disputa do que virá.
O mais provável é que seu giro pró-Mendonça
se explique por outros três objetivos: (a) desgastar o empoderamento de Xandão
pelo papel no julgamento da tentativa golpista, enterrando a investigação das
fake news; (b) desgastar Lula deixando incerto o desenlace de um segundo turno;
(c) chantagear Lula para ter condições de impor o ultimato de um ajuste fiscal
severo, com compromissos públicos claros de corte nos gastos públicos de pelo
menos 2% do PIB, antes das eleições.
A aposta em uma vitória de Lula em primeiro
turno, que prevaleceu no comando da campanha, já era um cálculo errado antes do
fortalecimento de Augusto Cury. Mas a relativa vantagem de Lula evaporou nos
últimos dez dias. A possibilidade de Lula perder a eleição é perigo e imediato.
Mas assim como o “já ganhou” era errado, mais errado ainda seria agora o “já
perdemos”. Eleitoralmente, nada é previsível. Lembremos que esta campanha já
teve duas reviravoltas antes, e podemos retomar a ofensiva. O ano de 2015 terminou
com Lula em claro favoritismo. Mas ao longo dos primeiros quatro primeiros
meses do ano ocorreu uma consolidação da candidatura de Flávio Bolsonaro, o que
obrigou o governador de São Paulo a se reposicionar pela reeleição.
A vitória do bolsonarismo sobre Tarcísio de
Freitas não foi suficiente para garantir apoio formal dos partidos do Centrão,
mas permitiu a sua afirmação como o candidato mais forte da oposição ao governo
Lula. Só que a revelação, em 13 de maio, dos áudios de Flávio Bolsonaro com
Daniel Vorcaro produziu uma inflexão na conjuntura, e deslocou a correlação
política de forças a partir daquele momento, favoravelmente, para Lula. Nesse
contexto, Kassab se animou a lançar a candidatura de Ronaldo Caiado e o Missão Renan
Santos. Ambos tentaram explorar um espaço à direita com o bolsonarismo e
fracassaram. Entretanto, tudo mudou outra vez, e passamos à defensiva de novo.
Assistimos nos últimos cinco dias uma ofensiva, em toda a linha, da
ultradireita. Não é somente uma crise política, como tantas outras desde 2023,
quando Lula assumiu. Trata-se de uma crise do regime, porque a “arquitetura”
institucional está sendo desafiada pelos neofascistas. O bolsonarismo usa suas
posições tanto no Congresso quanto no STF, assim como a mobilização de sua
militância nas ruas e nas redes, para tentar manipular o processo eleitoral.
Há fatores mais estruturais e outros
conjunturais neste processo. Na raiz esteve presente, desde a disputa entre
anistia e sem anistia para os golpistas, por exemplo, uma correlação social de
forças defensiva, pelo apoio da massa da burguesia e dos setores sociais que
arrastam nas camadas médias, à extrema direita. Os conflitos entre Executivo e
Congresso, ou entre governo Lula e Centrão, já tinham dado origem a um
semipresidencialismo improvisado. Foi a forma que assumiu a “defesa da ordem”
até contra-reformas democráticas moderadas e limitadas. A aliança entre
Executivo e STF favoreceram a defesa da democracia. Mas a pressão reacionária é
tão grande que ameaça agora mudar, qualitativamente, a relação de forças no
STF. Não fosse o bastante e, pior ainda, é evidente a interferência dos EUA no
processo eleitoral través de Donald Trump, como no Peru e Colômbia. A eleição
pode ter um desenlace terrível. Ajustar a linha para vencer as eleições é,
portanto, imperioso. Não será suficiente a tática de defesa do legado. Levantar
bandeiras novas de expansão de direitos, assumir compromissos com os interesses
populares, e fazer promessas não é “demagogia”, deve ser uma estratégia de
mobilização.
Defender o fim imediato da jornada 6×1 e o
limite de 40 horas semanais, o passe livre nas grandes cidades, a regulação do
imposto sobre as grandes fortunas, a reforma agrária contra o latifúndio, a
proibição das bets, o fortalecimento de um Sistema Nacional de Cuidados, e
tantas outras causas justas será vital. Ao mesmo tempo, manter firmeza contra a
exigência de Anistia como sinalização de que Não Passarão. Aqueles que, no
campo da esquerda radical, apostaram nos últimos anos que o centro da tática
era apostar na “ultrapassagem pela esquerda” do governo Lula, em função de
limites e vacilações reais, mas subestimando o perigo da extrema-direita, estão
agora colocados também diante do desafio de lutar para impedir Flávio Bolsonaro
de vencer. Não podemos deixar que aconteça aqui o que se impôs, dramaticamente,
na recente eleição na Saxônia.
Fogo no parquinho. Por Maria Luiz Falcão
O título pode parecer irreverente diante da
gravidade dos acontecimentos. Mas poucas expressões descrevem tão bem o que se
passa neste momento em Brasília. O Supremo Tribunal Federal (STF), instituição
encarregada de arbitrar os conflitos da República, transformou-se ele próprio
no centro de um confronto aberto. Ministros trocam acusações, relatórios
policiais são contestados, investigações se confundem com disputas pessoais e o
diretor-geral da Polícia Federal é afastado por decisão de um único integrante da
Corte. Tudo isso acontece a menos de um mês da eleição presidencial de outubro.
Convém começar pela precisão: Andrei
Rodrigues não foi demitido pelo governo. Foi afastado preventivamente da
direção-geral da Polícia Federal por decisão do ministro André Mendonça, que
também determinou o afastamento do diretor de Inteligência Policial, Leandro
Almada. A diferença não é meramente vocabular. A nomeação e a exoneração do
diretor-geral da PF pertencem, em princípio, à esfera do Poder Executivo.
Quando um ministro do Supremo retira provisoriamente do cargo o chefe da
Polícia Federal, alcança diretamente uma autoridade nomeada pelo presidente da
República e interfere no comando de uma instituição vinculada ao Ministério da
Justiça. Uma decisão de tamanha gravidade exigiria fundamentação incontestável,
prudência extrema e, sobretudo, distância absoluta de qualquer conflito
pessoal. O problema é que André Mendonça não aparece nessa história como um
árbitro situado acima da disputa. Ele é um dos protagonistas do confronto.
A crise começa nas investigações sobre o
Banco Master, mas rapidamente ultrapassa os limites de um caso bancário. Passa
pelas relações de Daniel Vorcaro com autoridades da República, atinge Alexandre
de Moraes, envolve Paulo Gonet, alcança o presidente do Senado, Davi
Alcolumbre, coloca a Polícia Federal sob suspeita e desemboca numa luta interna
pelo controle das investigações. O que deveria ser tratado com máximo rigor
institucional transformou-se numa sucessão de iniciativas individuais,
documentos questionados, retirada de sigilos, acusações recíprocas e decisões
tomadas por autoridades pessoalmente envolvidas nos fatos. Não se trata mais
apenas do Banco Master. Trata-se de saber quem investiga quem, por qual
procedimento, sob o controle de qual instituição e com quais garantias de
imparcialidade e transparência.
<><> Quando os árbitros entram em
campo
As mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e
Alexandre de Moraes não podem ser simplesmente ignoradas. Elas suscitam dúvidas
graves sobre a natureza da relação entre um ministro do Supremo e o controlador
de uma instituição financeira que estava sob investigação. Precisam ser
examinadas, contextualizadas e submetidas aos procedimentos legais competentes.
Investigar não significa condenar antecipadamente. Tampouco significa proteger
autoridades em nome de uma suposta defesa das instituições. Instituições não são
protegidas escondendo-se fatos. São protegidas quando conseguem apurá-los sem
privilégios, perseguições ou manipulações. O problema começa quando o
investigador se confunde com o investigado, o julgador se converte em parte e
os instrumentos de Estado passam a funcionar como armas numa disputa interna.
André Mendonça acusa a inteligência da
Polícia Federal de produzir relatórios ilegais e de monitorá-lo indevidamente.
Alexandre de Moraes, por sua vez, pediu que Mendonça fosse investigado por
possíveis crimes de abuso de autoridade e outras irregularidades na condução
das investigações. Mendonça respondeu afastando o diretor-geral da PF e o
responsável pela inteligência da corporação. É difícil imaginar demonstração
mais clara do colapso das fronteiras institucionais. Um ministro acusa outro. O
segundo reage contra a instituição que produziu o documento utilizado pelo
primeiro. O chefe dessa instituição é retirado do cargo pelo ministro que se
considera vítima de seus agentes. Enquanto isso, o presidente do STF, Edson
Fachin, tenta enquadrar a disputa num procedimento colegiado, pedindo
esclarecimentos a Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei Rodrigues.
O Supremo, que deveria resolver conflitos,
precisa agora encontrar uma maneira de resolver um conflito dentro de si
próprio. A crise se agrava porque o afastamento de Andrei Rodrigues foi
determinado em resposta a uma petição apresentada pelo Partido Novo, legenda do
candidato presidencial Romeu Zema. O partido não pediu apenas o afastamento.
Chegou a requerer também a prisão do diretor-geral, medida que Mendonça não
acolheu. Ao comemorar a decisão, o Novo deixou evidente sua intenção de
converter o episódio em ativo eleitoral para uma candidatura que ainda luta
para ganhar espaço na disputa presidencial. Portanto, não estamos diante de um
acontecimento isolado da política. A política partidária já entrou no processo
pela porta da frente.
<><> A Polícia Federal no centro
da disputa
A Polícia Federal não é propriedade do
governo Lula, assim como não pode ser propriedade de nenhum ministro do
Supremo. Tampouco deve funcionar como partido político, polícia de governo ou
estrutura informal de inteligência de autoridades. Mas também não é aceitável
que a direção da PF seja afastada com base apenas em suspeitas de “proximidade”
com o presidente da República. Andrei Rodrigues foi nomeado por Lula. É natural
que mantenha relações institucionais com o chefe do Executivo. A questão
relevante não é se existe proximidade, mas se houve algum ato concreto de
interferência política, obstrução de investigação ou desvio funcional. Até
agora, o relatório que menciona essa proximidade afirma não ter identificado
fato concreto que comprove uma atuação irregular do diretor-geral. Se surgirem
provas, devem ser investigadas. Mas relações institucionais, impressões
subjetivas e disputas de confiança não podem substituir evidências.
A medida de André Mendonça produz ainda um
problema constitucional. O afastamento cautelar de um diretor-geral nomeado
pelo presidente da República interfere na organização interna do Poder
Executivo. Mesmo que o Judiciário possa afastar autoridades quando existam
indícios suficientes da prática de crimes, uma providência dessa natureza não
pode parecer resultado de um confronto entre o julgador e a autoridade
atingida. A decisão foi submetida à Segunda Turma. Mendonça, Nunes Marques e
Luiz Fux votaram por mantê-la, formando maioria, mas Gilmar Mendes pediu vista
e suspendeu o julgamento. Em meio à crise Sessão da Segunda Turma é cancelada.
A Advocacia-Geral da União prepara uma reação, sustentando que houve invasão
das competências do Executivo. A tensão, portanto, está longe de encerrada.
A crise também atingiu o funcionamento
interno da Polícia Federal. Onze diretores colocaram seus cargos à disposição
em solidariedade a Andrei Rodrigues e em defesa da instituição. Não se trata
apenas da permanência de uma pessoa no comando. Está em questão a capacidade
operacional da principal polícia investigativa do país justamente durante o
período eleitoral. O precedente é perigoso. Se um ministro do Supremo pode
afastar o diretor-geral da PF no âmbito de um processo no qual ele próprio se
considera vítima, que grau de autonomia restará à instituição para investigar
autoridades poderosas? E quem controlará eventuais abusos cometidos pela
própria polícia?
Essas duas perguntas precisam ser respondidas
simultaneamente. Defender a autonomia da Polícia Federal não significa
conceder-lhe poderes ilimitados. Questionar relatórios irregulares não autoriza
a intervenção pessoal e unilateral sobre o comando da corporação. O país não
precisa escolher entre uma polícia sem controle e um Judiciário sem limites.
<><> A direita encontra sua
narrativa
A crise caiu como uma dádiva no colo da
oposição. Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos
rapidamente elogiaram o afastamento de Andrei Rodrigues. Cada um procura
extrair do episódio algum benefício eleitoral. Flávio Bolsonaro tenta transformar
a crise numa prova imaginária de que existiria um aparelho “lulista” dentro da
Polícia Federal, operando em associação com Alexandre de Moraes. A narrativa é
conveniente porque permite ao bolsonarismo atacar simultaneamente Lula, a PF e
o ministro que conduziu processos contra Jair Bolsonaro e seus aliados. É
também uma forma de reescrever a história recente.
Foi Jair Bolsonaro quem tentou interferir
diretamente na Polícia Federal. Em 2020, a exoneração do diretor-geral Maurício
Valeixo provocou a saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça. Bolsonaro
tentou posteriormente nomear Alexandre Ramagem, pessoa próxima de sua família,
para comandar a corporação. A indicação foi suspensa pelo STF. O objetivo
declarado pelo então presidente era obter maior acesso às informações e ao
funcionamento da polícia. Agora, o bolsonarismo posa como defensor da
independência policial.
Romeu Zema e o Partido Novo procuram ocupar
outro espaço. Ao provocar a decisão de Mendonça, o partido tenta apresentar seu
candidato como representante de uma direita supostamente exterior tanto ao
bolsonarismo quanto ao governo Lula. O discurso contra os “intocáveis” do STF
funciona como instrumento de mobilização de um eleitorado conservador que ainda
não foi inteiramente capturado pela candidatura de Flávio Bolsonaro. O
resultado é a completa eleitoralização da crise.
A menos de um mês do primeiro turno, uma
decisão judicial que afasta o diretor-geral da Polícia Federal não pode ser
analisada como se ocorresse num laboratório institucional. Ela altera o
ambiente político, alimenta campanhas, fornece munição à extrema direita e
lança suspeitas sobre a lisura das instituições encarregadas de investigar
crimes eleitorais, corrupção e ataques à democracia. Isso não significa que
decisões legítimas devam ser suspensas porque haverá eleições. Significa que,
neste momento, fundamentação, colegialidade, transparência e respeito ao devido
processo tornam-se ainda mais indispensáveis.
<><> O STF e a crise de seus
próprios limites
Durante os anos de ascensão do bolsonarismo,
o Supremo exerceu papel decisivo na defesa da ordem democrática. Alexandre de
Moraes tornou-se figura central na reação às campanhas de desinformação, aos
ataques ao sistema eleitoral e à tentativa de golpe de Estado. Essa atuação foi
necessária e, em diversos momentos, essencial. Mas reconhecer esse papel não
significa conceder a Moraes — ou a qualquer outro ministro — uma espécie de
salvo-conduto permanente. A defesa da democracia não pode depender indefinidamente
do poder excepcional de um magistrado. Nem o combate ao autoritarismo autoriza
que o Supremo deixe de prestar contas, recuse limites ou substitua regras
institucionais por decisões personalizadas.
O inquérito das fake news foi aberto em 2019
sob condições extraordinárias. Sete anos depois, sua permanência tornou-se
parte do problema. Um instrumento criado para proteger o Tribunal passou a
concentrar poderes difíceis de conciliar com o sistema acusatório e com a
necessária separação entre vítima, investigador e julgador. A utilização desse
inquérito por Moraes para pedir investigação contra André Mendonça mostrou até
onde pode chegar a elasticidade do mecanismo. Fachin agiu corretamente ao
retirar a questão daquele inquérito e submetê-la a outro procedimento, com
manifestação da PGR e direito de resposta dos envolvidos.
A crise revela a necessidade de encerrar a
normalização do excepcional. O STF precisa de um código de conduta, regras
claras sobre impedimento e suspeição, transparência nas relações de ministros
com empresários e agentes políticos e procedimentos previamente definidos para
investigar seus próprios integrantes. Não pode depender de acordos informais,
jantares de conciliação ou da intervenção de antigos presidentes da República.
<><> Não se apaga fogo com
gasolina
Lula deve resistir à tentação de transformar
a defesa de Andrei Rodrigues numa disputa pessoal com André Mendonça. O governo
precisa recorrer pelos canais institucionais, contestar juridicamente a
interferência na competência do Executivo e defender a Polícia Federal sem
impedir a investigação de possíveis desvios. Também deve evitar qualquer
aparência de proteção a pessoas citadas nas apurações sobre o Banco Master ou
nas fraudes do INSS. Se houver suspeitas contra integrantes do governo, aliados
ou familiares do presidente, elas precisam ser investigadas com independência.
A melhor resposta à exploração eleitoral da direita não é esconder fatos, mas
assegurar procedimentos confiáveis. A oposição, por sua vez, age com
irresponsabilidade ao comemorar o caos institucional como oportunidade de
campanha. Um país no qual ministros do Supremo guerreiam entre si e a cúpula da
Polícia Federal é desorganizada às vésperas da eleição não representa vitória
para ninguém. Representa risco para a democracia.
O fogo no parquinho pode divertir os
incendiários durante alguns dias. Mas instituições queimadas não distinguem
governo de oposição. A crise atual demonstra que o Brasil precisa superar duas
ilusões. A primeira é a de que a defesa da democracia permite poderes
ilimitados aos que afirmam protegê-la. A segunda é a de que destruir a
credibilidade do STF e da Polícia Federal produzirá uma democracia melhor. Não
produzirá.
O país precisa de um Supremo forte, mas
submetido a regras. De uma Polícia Federal autônoma, mas sujeita a controle. De
um Ministério Público independente, mas responsável por suas decisões. E de um
governo que respeite as investigações mesmo quando elas atingem pessoas
próximas. O que está em disputa não é apenas a permanência de Andrei Rodrigues
ou a reputação de Alexandre de Moraes e André Mendonça. É a capacidade do
Estado brasileiro de atravessar uma eleição presidencial sem que suas
principais instituições sejam convertidas em armas de combate político.
A pouco menos de um mês das urnas, o Supremo
não pode continuar funcionando como um parquinho em chamas. Seus ministros
precisam abandonar o acerto de contas pessoal, submeter-se à colegialidade e
permitir que acusações graves sejam apuradas por procedimentos legítimos.
Porque, quando os responsáveis por conter o incêndio começam a disputar entre
si o controle das mangueiras, o fogo deixa de ser metáfora. Torna-se ameaça à
República.
Fonte: Por Valerio Arcary, em A Terra é
Redonda/Brasil 247

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