Crise aprofundada no STF ameaça repetir
'estrago' da Lava Jato nas instituições e na eleição, diz professora da FGV
A crise aprofundada no Supremo Tribunal
Federal (STF),
em meio a uma campanha acirradíssima para decidir o
próximo presidente da República, pode transformar o Judiciário em um elemento
interferente nestas eleições, assim como aconteceu durante a Operação Lava Jato.
Esse
receio é de Eloísa Machado, professora de direito constitucional e coordenadora
do projeto de pesquisa Supremo em Pauta na FGV Direito SP.
"A
gente já viu o estrago que isso causou, não só para a própria investigação como
para a integridade das instituições democráticas. E, aparentemente, a gente tem
o risco de cair nisso novamente", avaliou Machado em entrevista à BBC News
Brasil.
A
professora, que comparou a atuação do ministro André Mendonça na relatoria do
caso do Banco Master com a condução do ex-juiz e senador Sérgio Moro (PL-PR) na Lava
Jato, diz que o timing político das últimas decisões no caso é
capaz de causar danos ao processo eleitoral.
"O
que me preocupa mais, sendo muito sincera, é menos as condutas que serão
apuradas individualmente de cada um [os ministros André Mendonça e Alexandre de
Moraes], mas mais a transformação de investigações em armas políticas."
Machado
também não poupa críticas à forma como os dois ministros têm conduzido os
processos relacionados ao caso dentro do STF.
"Tanto
André Mendonça quanto Alexandre de Moraes têm agido em busca de uma preservação
de sua imagem, de seus interesses mais subjetivos, pessoais. A gente não pode
permitir que a autodefesa individual acabe fragilizando a maneira como o
tribunal vai se posicionar em relação a essa crise", criticou.
Na
terça-feira (8/9), Mendonça escalou ainda mais a crise ao pedir o afastamento do diretor-geral da
Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial da
PF, Leandro Almada da Costa.
O
estopim da crise começou na semana passada, quando Mendonça, relator do
inquérito do Banco Master no STF, retirou o sigilo de um relatório da
Polícia Federal que reunia informações sobre as interações entre Vorcaro e um
número salvo com o nome do ministro Alexandre de Moraes.
Os diálogos mostram que o banqueiro
cobrava atenção especial aos pagamentos do contrato de R$ 131 milhões firmado
entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane
Barci de Moraes, mulher do ministro.
Moraes então reagiu e pediu ao
presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, que analisasse acusações contra o
colega da Corte por irregularidades na condução de inquéritos.
O
pedido era baseado em relatórios de inteligência da PF que, segundo ele,
indicariam que Mendonça teria cometido, "em tese", improbidade
administrativa, crimes de responsabilidade e abuso de autoridade, além de ter
comprometido a "imparcialidade judicial" e favorecido
"determinados grupos políticos" ao atuar como relator de casos
envolvendo o escândalo do INSS e o Banco Master.
Posteriormente, Fachin retirou a análise contra
Mendonça do caso do âmbito do inquérito das Fake News e solicitou
formalmente esclarecimentos a Moraes e Mendonça, além do procurador-geral da
República, Paulo Gonet, e de Andrei Rodrigues.
"A
a gente está num cenário em que ministros estão se acusando mutuamente de
conduta inapropriada em relação a essa investigação. Nenhum dos dois pode estar
tomando decisões em relação a esse caso", avalia Machado.
"E
foi o que o ministro Edson Fachin fez, dizendo ser preciso tomar medidas
institucionais. Isso foi solenemente ignorado por André Mendonça, que, de certa
maneira, quer continuar nessa toada de um desgaste individual. Me parece um
pouco uma toada de quanto pior, melhor. "
Para a
professora, a única saída do STF é institucional, passando por sessões no
plenário da Corte. Mas "Fachin tem que se apressar nessa resolução,
conversar com seus colegas e chegar a um termo em que isso pode ser
feito", avalia.
LEIA A ENTREVISTA:
·
Professora, o ministro Edson Fachin havia, inicialmente,
aberto um prazo de cinco dias para que Moraes, Mendonça, o procurador-geral da
República, Paulo Gonet, e Andrei Rodrigues apresentassem manifestações sobre
tudo que tem sido revelado. Mas, antes disso, veio mais um capítulo na terça,
com a nova decisão monocrática de Mendonça afastando o diretor da PF. O que é
que esse episódio sobre a dimensão dessa crise do STF? Está ainda mais difícil
resolvê-la?
Eloísa
Machado -
Me parece que essa decisão do Mendonça, que não é qualquer decisão, é uma
decisão drástica, que afasta o chefe da Polícia Federal, ela vai na contramão
da maneira como o presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, estava tentando
endereçar (o problema) institucionalmente.
Então,
me parece ser uma decisão que, ao invés de fortalecer a busca de uma saída, de
uma resolução da crise, age para colocar mais lenha na fogueira. Ela atiça
ainda mais a crise e mostra que talvez parte dos ministros, e aí,
especificamente André Mendonça, rejeite uma decisão que seja remediada e
controlada pelo plenário, já que ele adotou essa decisão e pediu ali o
referendo da Segunda Turma mesmo.
Eu acho
que isso é ruim. É ruim porque, numa crise que já é sem precedentes, você tem
ministros que continuam expondo e colaborando para o acirramento dessa crise.
Me parece um ânimo muito mais para discórdia, para exposição e para o escândalo
do que de fato o interesse de apurar e investigar o que precisa ser apurado e
investigado.
·
Há muito tempo especialistas falam de algumas
fragilidades institucionais do STF, como a questão do grande poder individual
dos ministros, o uso frequente de decisões monocráticas, a ausência de
mecanismos internos mais eficazes para contenção. Na avaliação da senhora, essa
crise, da forma como ela se desenha hoje, era uma "bola cantada", ou
seja, ela estava se desenhando para ocorrer?
Machado - Na minha avaliação,
essa crise, lógico, está configurada por essa maneira como os ministros
decidem. Mas, na minha avaliação, ela é de outra natureza.
Eu acho
que aqui o problema não é excesso de monocráticas. O problema não é o poder que
o relator tem na condução de processos. Talvez a gente esteja diante aqui de
instrumentalização de investigações, o que é algo bastante preocupante em se
tratando do Supremo Tribunal Federal. Uma instrumentalização de investigações
com propósitos que não a única e exclusivamente do deslinde do caso.
Eu acho
que isso torna essa crise diferente de outras. A gente não está lidando com um
problema de desenho, de concentração ou de dispersão de poder, mas a gente está
lidando talvez com a instrumentalização da função para atingir outros
interesses. Lógico que isso é permitido e potencializado pelos problemas de
sempre do Supremo, mas me parece uma crise que se nutre de um problema de outra
ordem.
·
Essa instrumentalização que a senhora está mencionando
também entra em um contexto que está muito próximo da eleição? Isso é, o
componente político muito acirrado no país nesse momento acabou contaminando
essa crise?
Machado - O que a gente tem
visto é justamente a politização do que tem ocorrido em relação à investigação
do Master.
A gente
tem uma politização que me parece que é pela tradução de como as coisas são
vistas na sociedade. André Mendonça como alguém ligado ao bolsonarismo, e
Moraes como alguém que confrontou o bolsonarismo. Então, há um componente de
uma tradução desse embate entre os ministro que se dá pelo olhar da politização
mais macro num período eleitoral.
Mas a
gente também tem elementos muito concretos de politização.
Essa
decisão do ministro André Mendonça de hoje (de afastar o diretor-geral da PF)
foi dada por provocação do Partido Novo. Quer dizer, o que o Partido Novo tem a
ver com o deslinde de uma investigação, de um caso tão delicado como Master?
Que tipo de interesse pode ter o Novo nessas providências?
Então,
me parece que a gente tem não só a tradução desse conflito em termos políticos,
em razão da identidade que esses ministros ocuparam. A gente tem também essa
interferência política agora já concretamente nos processos, o que me parece
bastante preocupante.
·
A Advocacia Geral da União (AGU) contestou a decisão de
Mendonça, dizendo que ele violou a competência da Presidência da República, que
é a quem cabe indicar ou demitir o diretor-geral da Polícia Federal. Como é que
a senhora avalia juridicamente essa decisão de André Mendonça? (Após a
realização da entrevista, a AGU solicitou ao presidente do STF que suspendesse
a decisão de Mendonça)
Machado
- A
decisão me parece bem fora de um parâmetro do que estava sendo conduzido no
inquérito, tanto que ela se dá por provocação de um partido político.
Lógico
que tem a competência do presidente da República para indicar, mas a gente tem
o controle jurisdicional sobre esses atos do presidente e sobre qualquer
servidor público também.
Mas não
está claro, enfim, se o diretor da Polícia Federal é investigado, qual a razão
que teria para esse afastamento do cargo... O que se menciona ali, na decisão
do André Mendonça, me parece ser muito mais uma revanche a algo que Moraes
trouxe no processo do que, de fato, um envolvimento mais concreto ali de um
investigado que teve, inclusive, a oportunidade de se defender em relação a
quaisquer imputações.
Então,
me parece uma decisão bastante fora do do tom aí em relação ao curso da
investigação e também me parece desprovida das mesmas cautelas.
Se a
gente está em um cenário em que ministros estão se acusando mutuamente de
conduta inapropriada em relação a essa investigação, nenhum dos dois pode estar
tomando decisões em relação a esse caso.
E foi o
que o ministro Edson Fachin fez, que disse ser preciso tomar medidas
institucionais. Isso foi solenemente ignorado por André Mendonça, que, de certa
maneira, quer continuar nessa toada de um desgaste individual.
É muito
sem precedente, mas a gente já pode questionar a maneira como isso tem sido
feito, porque isso tem fragilizado a resposta institucional que o tribunal está
procurando construir para essa crise. Me parece um pouco uma toada de quanto
pior, melhor.
·
Ao mesmo tempo, o ministro Alexandre de Moraes tem sido
alvo de críticas nos últimos anos também pela condução do inquérito das fake
news, de ter tomado várias decisões monocráticas consideradas polêmicas. A
senhora acha que, em certa medida, a forma como Moraes também conduziu os seus
processos contribuiu para que André Mendonça puxasse essa corda também para o
outro lado?
Machado
- Eu
acho que o ministro Alexandre de Moraes precisa ser criticado pelas razões
certas. Ele não pode ser criticado quando ele acerta, tem que ser criticado
quando ele erra.
Na
minha avaliação, a atuação do ministro como relator das investigações e,
depois, das ações penais em relação à tentativa de golpe, a abolição violenta
do Estado Democrático de Direito, foram corretas. A gente sabe que, em razão
desse papel e também do papel que assumiu enquanto presidente do TSE durante as
eleições, ele se tornou um alvo preferencial por parte de políticos da
extrema-direita.
E,
agora, nesse momento, em que ele é criticado pelas razões certas, em que essas
conversas emergem, e que tudo isso precisa ser averiguado, me parece que há uma
intenção em tentar misturar tudo: 'Olha, tá vendo, ele fez isso e, portanto,
toda a investigação não valeu, portanto ele já estava agindo inadequadamente'.
Acho
que nosso papel é um pouco diferenciar as coisas, porque só interessa a esses
extremistas antidemocráticos que se tenha esse tipo de dúvida sobre a conduta
do ministro. Por sua vez, a maneira como ele conduziu tudo isso não lhe dá
nenhuma imunidade em relação à investigação sobre essas mensagens do inquérito
do Master.
·
A decisão de terça do ministro André Mendonça é
justamente uma medida contra a decisão de Moraes de pedir os relatórios da PF.
Como é que a senhora avalia esse pedido do Moraes para a PF fazer esses
relatórios que não têm assinatura, relatórios que eles mesmos dizem que são de
pouca credibilidade?
Machado - Sem dúvida, isso é
bastante inadequado. A partir das mensagens que foram divulgadas na outra
semana, o ministro Moraes tinha que ter aguardado a maneira que Fachin estava
encaminhando a questão e não devia também ter tomado nenhum tipo de decisão no
âmbito do inquérito das fake news.
Me
parece que essa premência de fazer um contraponto de um ministro contra o outro
tem agravado a crise. Acho que eles, tanto André Mendonça quanto Moraes, têm
agido em busca da preservação de sua imagem, de seus interesses mais
subjetivos, pessoais, ao passo que aos demais ministros compete agora uma
preservação institucional.
A gente
não pode permitir que a autodefesa individual acabe fragilizando a maneira como
o tribunal vai se posicionar em relação a essa crise. Então, também é bastante
criticável a maneira como Moraes endereçou essa questão semana passada. E
igualmente criticável a questão de Mendonça em retorno.
O que
me preocupa mais, sendo muito sincera, é menos as condutas que serão apuradas
individualmente de cada um, mas mais a transformação de investigações em armas
políticas.
Esse timing eleitoral
com que o inquérito do Master tem promovido essas decisões me parece muito
grave, porque daí a gente está saindo ali do espaço de apuração de condutas
individuais e transformando o próprio tribunal e as suas competências em algo
capaz de interferir no cenário eleitoral.
A gente
já viu o Judiciário fazer isso durante a Operação Lava Jato. A gente já viu o
estrago que isso causou, não só para a própria investigação como para a
integridade das instituições democráticas. E, aparentemente, a gente tem o
risco de cair nisso novamente
·
A senhora disse que algumas pessoas usam as críticas à
conduta de Moraes para tentar anular todo o processo da tentativa de golpe. No
caso agora, do Banco Master, essas novas críticas que surgem da atuação do
ministro André Mendonça podem ser usadas até por investigados para tentar
invalidar a própria investigação?
Machado
- O
caso da relatoria do ministro André Mendonça, na minha avaliação, se assemelha
mais com a maneira como (o ex-juiz) Sérgio Moro conduziu o processo (da Lava
Jato) do que com a relatoria dos casos do 8 de janeiro.
A gente
está diante de um cenário de maior politização ali e de um timing relacionado à
dinâmica eleitoral que é muito deletéria. E até agora, nenhum desses atos do
ministro relator André Mendonça têm se mostrado favoráveis à investigação. Nada
de novo foi revelado, nada de novo foi descoberto, nenhuma diligência relevante
foi feita a partir desses atos.
Então,
é possível sim, que, eventualmente, se for comprovado algum tipo de
direcionamento político, que isso contamine também a investigação, como a gente
já viu acontecer em outros casos, como na Operação Lava Jato.
·
O Mendonça levou a decisão dele para ser analisada na
Segunda Turma, que, apesar do Gilmar Mendes ter pedido vista, já formou maioria
para manter o afastamento do diretor da PF. Como é que a senhora avalia essa
votação? Ela mostra que o André Mendonça tem ganhado força dentro da corte ou é
precipitado tomar qualquer conclusão a respeito disso?
Machado - Eu acho que é
precipitado. A gente está olhando para a Segunda Turma, que tem uma composição
muito peculiar, com ministros que se alinharam, vamos dizer assim, de maneira
distinta e onde há um determinado posicionamento em relação ao 8 de janeiro.
Então, não chega a ser uma surpresa a posição da segunda turma.
O que a
gente tem, na verdade, era uma tentativa do ministro Edson Fachin de trazer
isso para o plenário do tribunal como um todo, não só pra evitar esse desgaste
a partir do uso de poderes individuais, mas evitar também esse tribunal
fraccionado de que uma turma decida algo quando o plenário já está pensando em
dar uma resposta para uma crise maior.
Então,
eu acho que essa posição da Segunda Turma agrava de certa maneira a crise,
porque você tem quase que uma contraposição entre a Segunda Turma e o que se
estava desenhando no plenário. E isso é muito ruim.
·
A senhora tem falado de "ponto de não retorno"
no STF. A senhora tem visto alguma saída, agora com esse novo fato? O STF tem
mecanismos para frear essa escalada dessa crise?
Machado
- Acho que não tem saída para a crise. A crise se instalou e a crise já gerou
um dano. Então, o que cabe ao tribunal fazer agora é conter danos e desenhar
alguma maneira de como superá-los e seguir com a sua missão institucional. Esse
é ponto de não retorno.
Na
minha avaliação, essa contenção de danos deve acontecer institucionalmente no
plenário e sob a batuta do presidente do Supremo. É ali que se vai desenhar a
contenção desses danos.
Uma
primeiro contenção de danos que precisa acontecer é parar com esse faroeste de
decisões cruzadas de um ministro contra o outro. É preciso que a
institucionalidade seja valorizada e que essas decisões sejam avaliadas todas
em plenário.
É
preciso que se avalie a transparência, eventualmente, dessas investigações
nesse momento, justamente para evitar qualquer uso seletivo de informações. É
nesse âmbito de um colegiado institucional que é possível não só conter os
danos, como encaminhar o que vai ser feito com essas acusações cruzadas e com
essas investigações.
É por
isso que a decisão de Mendonça nesta terça me parece tão fora do tom, porque
ela rejeita isso. Ela tenta direcionar esse debate para um outro lugar. Por
isso que me parece cada vez mais distante essa possibilidade de uma resposta
institucional, Fachin tem que se apressar nessa resolução, conversar com seus
colegas e chegar a um termo em que isso pode ser feito.
Fonte:
BBC News Brasil

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