A Reforma Psiquiátrica precisa se olhar no
espelho
A reforma psiquiátrica brasileira não nasceu
isolada. Ela foi uma das expressões mais radicais da Reforma Sanitária, do
processo de redemocratização no contexto da luta contra a ditadura militar e da
construção do Sistema Único de Saúde, nas décadas de 1970 e 1980, quando são
formulados os princípios que dariam origem ao SUS: universalidade,
integralidade, equidade, descentralização e participação social. Seu horizonte
não era apenas reorganizar a assistência psiquiátrica, mas participar de uma
transformação mais ampla da saúde pública brasileira.
De outro lado, a reforma psiquiátrica
deslocou a saúde mental, do campo da medicina institucionalizada, para o campo
dos direitos humanos, da cidadania e da política pública, ao afirmar que a
loucura não autoriza exclusão, nem violência institucional.
Esse deslocamento foi, ao mesmo tempo,
clínico, ético, político e sanitário. Clínico, porque exigiu transformar a
forma de compreender e cuidar do sofrimento psíquico; ético, porque recusou a
naturalização histórica da segregação e da violência; político, porque
inscreveu a saúde mental no campo dos direitos de cidadania; sanitário, porque
vinculou a superação do manicômio à construção de uma rede pública,
territorial, universal e integrada ao SUS.
Por estar organicamente articulada à Reforma
Sanitária, a reforma psiquiátrica pôde contar com uma linguagem de direitos,
uma base institucional e uma agenda pública que não teria sido possível de
outro modo. Mas, por essa mesma razão, seus impasses atuais não podem ser
compreendidos separadamente dos impasses do SUS. O subfinanciamento crônico, a
precarização dos vínculos de trabalho, a fragmentação da rede, a fragilidade da
atenção básica, as desigualdades regionais e a dificuldade de sustentar políticas
públicas universais afetam diretamente a capacidade real do cuidado
psicossocial no território.
Defender a reforma psiquiátrica hoje,
portanto, exige mais do que reafirmar sua história. Exige recolocá-la no
interior da crise mais ampla do SUS e, ao mesmo tempo, recuperar aquilo que
constituiu sua força originária, a da articulação entre direito, política
pública e clínica viva.
<><> A clínica como condição viva
da atenção psicossocial
A reforma psiquiátrica brasileira nasceu da
exigência ética, política e clínica de transformar a relação do Estado, da
sociedade, das instituições e dos trabalhadores da saúde com a loucura e com as
pessoas em sofrimento psíquico severo e persistente.
Seu objetivo nunca foi apenas substituir
leitos hospitalares por serviços territoriais, reduzir internações ou trocar
uma arquitetura normativa por outra. Em sua formulação mais forte, a reforma
implicava deslocar o eixo do cuidado: da instituição para o sujeito, da
segregação para o vínculo, da custódia para a responsabilidade clínica, da
tutela para a ampliação de direitos e da autoridade vertical para a construção
compartilhada do cuidado.
Essa transformação exigiu novos dispositivos
como CAPS, serviços residenciais terapêuticos, leitos em hospitais gerais,
equipes multiprofissionais, dispositivos de crise, projetos terapêuticos
singulares e redes territoriais. Mas a reforma nunca se confundiu inteiramente
com esses dispositivos. Nenhum serviço isolado substitui o manicômio. O que
pode substituí-lo é uma rede complexa, composta por diferentes dispositivos,
funções clínicas, formas de hospitalidade e graus de intensidade de cuidado.
Por isso, o CAPS não deve ser compreendido
como equivalente territorial do manicômio, mas como serviço estratégico no
interior de uma rede mais ampla. E nenhum serviço, por sua simples designação
administrativa, garante uma prática reformista. Um CAPS pode sustentar uma
clínica territorial, intensiva e emancipadora; mas também pode reproduzir
burocracia, autoritarismo, fragmentação e abandono sob uma linguagem
reformista. Da mesma forma, uma enfermaria ou um leito em hospital geral, se
integrados à rede e orientados por uma racionalidade clínica não manicomial,
podem cumprir função legítima no cuidado.
O que define a natureza do cuidado não é o
lugar em si, mas o modo como nele se escuta, se interpreta, se decide e se
acompanha.
Essa distinção permite escapar de uma
oposição simplificada entre território e hospital, CAPS e enfermaria, reforma e
resistência asilar. Essa oposição teve função histórica importante, pois a
crítica ao hospital psiquiátrico tradicional era necessária e urgente. Mas,
transformada em moralização dos dispositivos, empobrece a análise. O hospital
não é, por essência, manicomial; o território não é, por essência, emancipador.
O manicômio não é apenas uma edificação, é uma lógica estruturante. Essa lógica
pode reaparecer em dispositivos formalmente territoriais sempre que a clínica é
substituída predominantemente por rotinas, protocolos, formas de controle,
tutelas disfarçadas de proteção ou mera gestão de fluxos.
Enquanto política pública, a reforma depende
de leis, normas, financiamento, pactuações e gestão. Mas enquanto prática viva,
depende de sujeitos, equipes e serviços capazes de transformar esse repertório
institucional em experiência concreta de cuidado. A norma pode prescrever; a
clínica precisa realizar.
<><> Quando as palavras
permanecem e as práticas se deslocam
A crise contemporânea da reforma começa
quando a gestão, a nomenclatura e a conformidade institucional passam a ocupar
o lugar da clínica como princípio ordenador do cuidado.
A gestão é indispensável a qualquer política
pública. Sem organização, financiamento, pactuação, regulação e normas, não há
rede. O problema surge quando indicadores, metas, fluxos, registros e
protocolos passam a substituir a construção singular do caso, e a decisão
clínica, que exige prudência, interpretação, vínculo e responsabilidade diante
do singular, é rebaixada à execução de diretrizes.
Nesse processo, conteúdos centrais da reforma
podem ser preservados enquanto sua prática se esvazia. Território pode deixar
de significar inserção viva em uma rede de vínculos e passar a justificar
desresponsabilização. Rede pode deixar de significar articulação clínica e
passar a significar fluxo administrativo. Projeto terapêutico singular pode
deixar de ser construção interpretativa compartilhada e tornar-se formulário.
Desinstitucionalização pode deixar de significar transformação da lógica
manicomial e reduzir-se à diminuição de leitos, internações ou tempo de
permanência.
Há, portanto, uma forma particularmente
perigosa de esvaziamento que surge quando as palavras continuam as mesmas, mas
passam a operar em outro regime. É isso que podemos chamar de captura semântica
da reforma. A reforma se preserva no vocabulário, enquanto se desloca em sua
prática. Essa falsificação é mais difícil de combater do que a oposição
frontal, porque se apresenta como continuidade.
Os documentos seguem falando em território,
rede, cuidado em liberdade e desinstitucionalização. Os serviços seguem usando
as designações legitimadas pela reforma. Mas a prática pode estar comprometida
por uma racionalidade na qual predomina a contenção de custos, a padronização
de processos, a produção de indicadores, a acomodação institucional e a
neutralização do conflito.
O risco, nesse caso, é a miniaturização
difusa da função hospitalar, onde não temos mais o grande manicômio
concentrado, mas pequenos hospitais psiquiátricos territorializados, menos
visíveis porque protegidos pela designação CAPS. O hospital psiquiátrico
tradicional era evidente em sua materialidade de grande edifício, segregado,
concentrador e socialmente identificável. Sua violência podia ser denunciada
porque se condensava em um lugar específico. Já a reprodução difusa de funções
hospitalares em pequenos dispositivos territoriais é mais difícil de perceber.
Ela não se apresenta como retorno do manicômio, mas como funcionamento
ordinário da rede. O manicômio deixa de ser monumental e passa a ser capilar.
<><> Trabalho, equipe e clínica
comum
A reforma também precisa interrogar o modo
como os diferentes saberes e práticas profissionais se articulam no interior da
atenção psicossocial. A equipe multiprofissional foi uma conquista decisiva,
pois rompeu com o monopólio médico que, na tradição manicomial, concentrava a
autoridade sobre o diagnóstico, a internação e a condução do tratamento, e
ampliou a compreensão do sofrimento para além de sua redução medicalizante. Mas
a simples presença de diferentes profissões não produz, por si só, interdisciplinaridade.
Esta só se realiza quando há integração efetiva entre os saberes, interação
contínua entre as práticas, atravessamento recíproco das perspectivas e um
horizonte ético e epistemológico comum que oriente a construção compartilhada
do caso.
Sem espaço clínico comum, a equipe se
fragmenta: o psiquiatra prescreve, o psicólogo atende, o assistente social
encaminha, o terapeuta ocupacional organiza atividades, a enfermagem sustenta o
cotidiano, mas ninguém constrói efetivamente o caso. Cada profissão realiza sua
parte, mas o cuidado não se integra. A interdisciplinaridade torna-se mera
justaposição organizada.
Ao mesmo tempo, a crítica necessária ao poder
médico não garantiu, por si só, a democratização do cuidado. O poder não
desaparece quando uma de suas formas históricas é denunciada. Ele tampouco
apenas se distribui horizontalmente, porque pode encontrar novas formas de
concentração, assumir linguagens mais aceitáveis e instalar-se em práticas
menos visíveis, muitas vezes apresentadas como técnicas, administrativas ou
simplesmente necessárias. Em certos momentos, a crítica ao monopólio médico
favoreceu uma hegemonia psicologizante, moralmente identificada com a escuta, o
sujeito e a própria reforma. Mais recentemente, observa-se o fortalecimento de
uma racionalidade gestionária, apoiada na regulação dos fluxos, na
administração cotidiana dos serviços, na ocupação de cargos estratégicos e na
gestão do risco institucional.
A questão não é substituir uma hegemonia
corporativa por outra. Não se trata de restaurar o monopólio médico, nem de
criticar a psicologia, a enfermagem ou a gestão como campos profissionais.
Todos são indispensáveis. A questão é recusar que qualquer profissão, função ou
linguagem ocupe silenciosamente o lugar de garantia ética da reforma.
Quando a clínica desaparece, seu lugar não
permanece vazio, pois tende a ser preenchido por formas substitutivas de
ordenação como a gestão dos fluxos, a autoridade corporativa, a rotina
institucional, o cálculo do risco e a necessidade administrativa.
<><> A falsa ética da escassez
Há ainda um problema político-institucional
mais profundo que é o estigma estrutural da saúde mental. A dificuldade de
implantar leitos psiquiátricos em hospitais gerais expressa não apenas
obstáculos técnicos, mas também a resistência do próprio hospital geral à
presença da loucura. A saúde mental permanece relegada a um lugar
desvalorizado, vista como campo incômodo, pouco prestigioso, pouco tecnológico
e pouco atraente do ponto de vista econômico e institucional.
Esse lugar desvalorizado favorece a
naturalização da escassez, como se a precariedade fosse parte da própria ética
reformista. Essa identificação é falsa e perigosa. A reforma psiquiátrica não
se realiza por meio de um voto de pobreza institucional. A precariedade não é
prova de compromisso antimanicomial, ao contrário, é uma das formas pelas quais
a reforma pode ser esvaziada.
Justamente porque se dirige a pessoas em
situações graves de sofrimento, vulnerabilidade e exclusão, a reforma exige
investimento robusto e recursos consistentes. Cuidar bem não é uma política de
baixo custo pois requer equipes qualificadas e estáveis, tempo clínico,
supervisão, formação permanente, retaguarda hospitalar, dispositivos
residenciais, articulação intersetorial e capacidade efetiva de resposta à
crise.
Essa discussão recoloca a saúde mental no
centro dos impasses do SUS. Não há clínica do vínculo sem trabalhadores
vinculados. A precarização dos vínculos de trabalho, a multiplicação de
contratos temporários, a rotatividade das equipes e a baixa remuneração
comprometem diretamente a continuidade do cuidado. A atenção psicossocial
depende de presença, memória institucional, confiança, acompanhamento
longitudinal e responsabilidade compartilhada. Nada disso se sustenta quando o
trabalho é permanentemente precarizado.
Do mesmo modo, não há cuidado territorial sem
território real de políticas públicas. A reforma exige articulação com atenção
básica, assistência social, habitação, educação, cultura, trabalho, justiça,
políticas de drogas e políticas de redução de danos. A rede de saúde mental não
pode ser convocada a resolver sozinha aquilo que é produzido pela pobreza, pelo
racismo, pela violência urbana, pela precariedade habitacional, pelo
desemprego, pelo encarceramento, pela exclusão social e pela desproteção familiar.
Os determinantes sociais do sofrimento
psíquico não são apenas contexto. São causas reais e fatores de manutenção de
sofrimentos que nenhuma clínica, por mais qualificada, pode resolver
isoladamente. O cuidado em saúde mental para populações negras, indígenas,
LGBT+, em situação de rua, privadas de liberdade ou em extrema pobreza exige
dispositivos e articulações específicas. A equidade não é apenas princípio
geral do SUS; é condição concreta de uma reforma psicossocial que não se
converta em abandono territorializado.
Nesse cenário, a disputa em torno da política
de álcool e outras drogas torna-se decisiva. A expansão das comunidades
terapêuticas, com financiamento público e sem compromisso com a redução de
danos e o cuidado em liberdade, representa ameaça real à coerência do modelo
psicossocial. Sob novas roupagens, reaparecem lógicas de segregação,
abstinência compulsória, tutela moral e confinamento. Defender a reforma
significa defender também uma política de drogas baseada em evidências,
direitos humanos, liberdade e responsabilidade pública.
A atenção básica também precisa voltar ao
centro do debate. A ampliação do apoio matricial em saúde mental foi uma das
estratégias mais promissoras para democratizar o acesso ao cuidado
psicossocial, acolhendo sofrimentos de menor intensidade, próximos à vida das
pessoas e evitando que todo sofrimento fosse encaminhado automaticamente para
serviços especializados. O enfraquecimento das equipes multiprofissionais na
atenção básica e a desidratação do apoio matricial comprometem tanto o acesso
quanto a longitudinalidade do cuidado. Reconstruir essa integração é tarefa
prioritária.
<><> Avaliar para defender
Outro ponto decisivo é a ausência de uma
cultura avaliativa consistente. A reforma brasileira, em muitos contextos, não
desenvolveu mecanismos sólidos de autoavaliação, nem se deixou avaliar
externamente de forma suficiente. Avaliar passou muitas vezes a ser percebido
como gesto de desconfiança, ameaça de retrocesso ou concessão aos adversários
da reforma.
Mas nenhum processo clínico, institucional ou
histórico pode evoluir sem avaliação. A reforma não deveria temê-la; deveria
exigi-la. Avaliar não é trair a reforma, mas levá-la a sério. É reconhecer que
seus princípios são importantes demais para serem deixados à autodeclaração.
Essa avaliação precisa ocorrer em dois planos
inseparáveis. O primeiro é clínico. Todo projeto terapêutico singular (PTS)
deve ser provisório, situado, revisável e sensível às transformações do
sujeito, de sua família, de seu território, de sua crise e de sua relação com o
cuidado. Um PTS que não é reavaliado deixa de ser projeto e passa a ser
formulário. Deixa de ser terapêutico e passa a ser rotina. Deixa de ser
singular e passa a ser fórmula.
O segundo plano é institucional. É preciso
avaliar que rede foi efetivamente construída, que funções ela cumpre, que
lacunas preserva, que sofrimentos produz, que populações abandona, que formas
de cuidado sustenta e que modalidades de reinstitucionalização reproduz sob
novos nomes. É preciso avaliar a implantação de leitos em hospitais gerais, a
suficiência e qualidade dos serviços residenciais terapêuticos, o uso real dos
acolhimentos noturnos, a frequência da porta giratória, a continuidade do
cuidado, a participação de usuários e familiares, a formação das equipes, a
presença ou ausência de psiquiatras, a articulação com a atenção básica, a
assistência social, as emergências e os hospitais gerais.
Há muita produção normativa, militante e
comemorativa, mas pouca avaliação longitudinal, comparativa e independente
sobre o funcionamento concreto da rede. Sabe-se pouco, de modo sistemático,
sobre o que acontece com os usuários ao longo do tempo; sobre a efetividade dos
projetos terapêuticos; sobre a qualidade do cuidado nos diferentes
dispositivos; sobre os efeitos da insuficiência de retaguarda; sobre as formas
de circulação institucional; sobre a experiência das famílias; sobre a
sobrecarga das equipes; sobre os desfechos clínicos, sociais e existenciais
produzidos pela rede.
Uma reforma que não se avalia corre o risco
de transformar suas certezas em dogmas. E dogmas, no campo da saúde mental, são
sempre perigosos. Avaliar é proteger a reforma de sua redução a palavra de
ordem, de sua captura administrativa, de sua instrumentalização corporativa e
de sua fossilização ideológica. Uma reforma viva precisa de indicadores, mas
não pode ser reduzida a eles; precisa de avaliação externa, mas não pode ser
governada apenas por métricas; precisa de pesquisa, mas não pode perder sua dimensão
clínica; precisa de crítica, mas não pode confundir crítica com ataque.
Avaliar é criar condições para que a reforma
continue sendo prática transformadora, e não apenas memória de si mesma.
<><> Memória não é mitologia
A reforma brasileira também se isolou
progressivamente do debate internacional. A experiência italiana, que foi uma
referência simbólica fundamental, permaneceu muitas vezes como mito de origem,
mas deixou de funcionar como interlocutora viva. Falou-se muito da Itália como
inspiração e legitimação histórica, mas pouco se acompanhou do que aconteceu
depois. De suas dificuldades, variações regionais, insuficiências de leitos
aguda, expansão de estruturas residenciais, problemas de qualidade, tensões
entre setor público e privado, sobrecarga das famílias e esforços de avaliação.
Grande parte do que se produziu sobre a
história da reforma tem tom celebratório, militante e pouco analítico. A
reforma costuma ser narrada como epopeia moral, em que se tem de um lado,
manicômio, violência e atraso; de outro, liberdade, território, direitos e
cidadania. Essa narrativa teve força política e cumpriu papel importante na
construção de uma memória coletiva da luta antimanicomial. Mas, quando se
transforma em matriz historiográfica dominante, impede a compreensão dos
conflitos internos, das disputas profissionais, das inflexões regionais, das
zonas de silêncio e dos efeitos não pretendidos.
A reforma precisa de memória, mas não de
mitologia. A memória preserva a experiência, honra as lutas, reconhece a
violência combatida e transmite às novas gerações o sentido político da
transformação. A mitologia, ao contrário, fixa personagens, lugares e palavras
de ordem em uma narrativa imune à contradição. Uma reforma viva precisa poder
contar sua história de outro modo. Não como marcha linear do manicômio à
liberdade, mas como processo contraditório, situado, regionalmente desigual,
atravessado por disputas institucionais, interesses profissionais,
insuficiências materiais, impasses clínicos e efeitos imprevistos.
Por isso, a defesa da reforma não pode ser
apenas comemorativa. O 18 de maio é uma data fundamental da luta
antimanicomial, mas corre o risco de se converter em ritual cívico da própria
reforma e como momento de reafirmação identitária e repetição de palavras de
ordem, sem interrogação efetiva sobre seus impasses atuais.
<><> Uma agenda mínima de
sobrevivência
Preservar a reforma exige reconstruir
condições materiais, clínicas e institucionais que sustentem o cuidado em
liberdade. A rede territorial não pode funcionar como solução de baixo custo
para populações pobres e vulneráveis. Uma agenda mínima de sobrevivência da
reforma deveria incluir a implantação efetiva de leitos em hospitais gerais
para crises agudas, com curta duração e integração à rede; a expansão
qualificada dos serviços residenciais terapêuticos; a proteção da
especificidade dos CAPS-III e do acolhimento noturno; a revalorização da
construção clínica do caso; a formação permanente das equipes; e a avaliação
regular dos projetos terapêuticos e da rede como um todo.
No horizonte do SUS, essa agenda se articula
a exigências mais amplas como a recomposição do financiamento federal em saúde
mental; a revisão das políticas de gestão do trabalho em saúde pública; o
fortalecimento da atenção básica como ordenadora do cuidado territorial; a
responsabilização e pactuação dos entes federados; a articulação entre RAPS,
assistência social, habitação e políticas intersetoriais; a defesa de uma
política de álcool e outras drogas fundada na redução de danos e nos direitos
humanos; e a resistência à expansão de modelos asilares privados ou religiosos
financiados com recursos públicos.
Essa agenda exige também restituir densidade
ao debate público. A crítica não deve ser sequestrada pela polarização entre
defesa abstrata da reforma e nostalgia hospitalocêntrica. A pergunta
fundamental é de outra ordem e busca avaliar que dispositivos, equipes, leitos,
moradias, práticas e responsabilidades são necessários para que o cuidado em
liberdade não se converta em abandono, tutela administrativa ou circulação
interminável entre níveis de atenção?
<><> Defender criticamente a
reforma
A reforma psiquiátrica brasileira produziu
conquistas inegáveis. Afirmou direitos, denunciou violências, criou serviços,
ampliou acesso, deslocou práticas e abriu espaços de cuidado antes
inexistentes. É também, e por isso mesmo, um processo aberto.
No contexto do SUS, a sobrevivência da
reforma psiquiátrica depende da capacidade de articular o particular e o
universal, onde o cuidado singular de cada pessoa em sofrimento e a política
pública capaz de garantir, a todos, condições reais de acesso, continuidade e
qualidade se encontrem. Isso exige fidelidade aos princípios fundadores da
Reforma Sanitária – universalidade, integralidade, equidade e participação
social – e coragem de avaliar, criticar e reinventar práticas e dispositivos
que se tornaram insuficientes.
Defender a reforma hoje exige protegê-la de
seus adversários externos, mas também de sua redução a uma retórica sem
prática, a uma instituição sem clínica e a uma gestão sem sujeito. Isso
significa recusar a idealização dos dispositivos, a repetição de palavras de
ordem, a desqualificação automática de tudo o que não se reconhece sob o signo
do CAPS e a polarização simplista entre “antimanicomiais” e
“hospitalocêntricos”.
A reforma psiquiátrica só existe onde a
clínica permanece viva. Não qualquer clínica, mas uma clínica profissionalmente
qualificada, capaz de articular direitos e responsabilidade, liberdade e
cuidado intensivo, território e retaguarda, equipe e construção de caso,
singularidade e política pública. Uma clínica sustentada por escuta, vínculo e
compromisso ético, mas também por formação rigorosa e competência técnica. Sem
essa clínica, os dispositivos permanecem, os textos permanecem, o vocabulário
permanece, mas a reforma se esvazia por dentro.
O desafio não é escolher entre defender a
reforma ou criticá-la. É compreender que, hoje, só será possível defendê-la
criticamente.
Talvez seja este o principal desafio, não
apenas proteger a reforma brasileira de ataques explícitos, mas permitir que
ela própria, e o SUS como um todo, tenham a coragem de se olhar no espelho,
para reconstruir, reavaliar e sustentar práticas reais de cuidado em liberdade.
Fonte: Por Fernando Ramos e José Gomes
Temporão, Outra Saúde

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